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“Xalôm”: Perspectivas Bíblicas do Bem-Viver

7“XALÔM”: PERSPECTIVAS BÍBLICAS DO BEM-VIVER

 (Estudo apresentado num grupo temático durante o 10º Encontro Nacional do “Movimento Fé e Política”, realizado em Campina Grande, de 22 a 24 de Abril deste ano de 2016)

  1. “A TERRA QUE MANA LEITE E MEL”

Quando lemos os cinco primeiros livros da Bíblia, chamados pelos judeus de Torah (Lei ou Instrução para a vida) ou Pentateuco, percebemos que, de vez em quando, volta uma expressão para caracterizar a Terra Prometida: “Terra que mana leite e mel” (Ex 3,8.17; 13, 5; 33, 3; Lv 20, 24; Nm 13, 27; 14, 8; 16, 13.14; Dt 6, 3; 11, 9.15; 26, 9; 27, 3; 31, 20; Js 5, 6; Jz 5, 25; Is 7, 15. 22; Jr 11, 5; 32, 22; Br 1, 20; Ez 20, 6. 15; Jl 4, 18; Jó 20,17; Eclo 46, 8). Pelos textos referidos, já é possível perceber que a expressão transborda além do Pentateuco, passa pelo profetismo e chega à corrente sapiencial. É  particularmente uma maneira de projetar  sobre a Terra Prometida os ideais nutridos no período do exílio em Babilônia (século VI a.C) e no período posterior. O quadro narrativo da antiga entrada, de grupos que vinham da opressão no Egito, funciona como moldura literária para falar aos exilados na volta de Babilônia.

Isto nos deve alertar para o seguinte: “Terra que mana leite e mel”, equivalente ao “xalôm”, tantas vezes anunciado pelo profetismo, é imagem de cunho eminentemente político. Não se trata simplesmente de projeção cultural do desejo espontâneo de felicidade, nem designa um ponto de partida já estabelecido, mas é o alvo de sofrida marcha de pessoas e do povo em vista de conquista futura.

  1. O CREDO HISTÓRICO

Isto é o que  vemos claramente em textos antigos que resumem o essencial da fé do povo bíblico, como o famoso texto do chamado “credo histórico”. Ao confessar a fé no Deus da libertação, narra-se brevemente a aventura vivida pelos antepassados na busca de paradeiro e o livramento da opressão no Egito (cf. Dt 26, 6-10; Js 24, 20-8; Dt 5, 6; 6, 10-12; Ex20, 3). Quando as novas gerações perguntam pelo sentido das instituições que organizam e regem a vida do povo, a resposta vai  no mesmo sentido: “Amanhã, quando teu filho te perguntar: “Que são estes testemunhos, e estatutos e normas que YHWH, nosso Deus, vos ordenou?”, dirás ao teu filho: ”Nós éramos escravos de faraó no Egito, mas YHWH nos fez sair do Egito com mão forte. Aos nossos olhos YHWH realizou sinais e prodígios grandes e terríveis contra o Egito, contra o faraó e toda a sua casa. Quanto a nós, fez-nos sair de lá para nos introduzir  e nos dar a terra que, sob juramento, havia prometido aos nossos pais. YHWH ordenou-nos, então, cumprir todos estes estatutos, temendo YHWH nosso Deus, para que tudo nos corra bem, todos os dias; para dar-nos a vida como hoje se vê. Esta será nossa justiça: cuidar de pôr em prática todos estes mandamentos diante de YHWH nosso Deus, conforme nos ordenou” (cf. Dt 6, 20-25).

  1. A FORMAÇÃO DO POVO BÍBLICO

Segundo pesquisas e análises recentes, nas mais antigas tradições presentes na Bíblia, encontramo-nos com testemunhos literários e arqueológicos que sinalizam para uma rebelião de camponeses e pastores da Terra de Canaã, com o intuito de se verem livres do jugo de tributos que lhes eram impostos pelos principados controladores do território. Sob o pretexto de garantir segurança para os poços d’água, para os rebanhos e as colheitas, segurança garantida pelo dispositivo militar das pequenas “cidades” fortificadas (mais cidadelas que cidades no sentido moderno), deviam entregar boa parte das colheitas e dos rebanhos para manutenção da corte; dispor-se ao trabalho forçado na construção de muros, fortalezas, templos e cisternas; estar sempre de prontidão para eventual convocação à guerra. Assim se caracterizava o “sistema tributário”. A diferença entre esse sistema e o feudalismo é que a terra e os rebanhos ficavam basicamente nas mãos dos trabalhadores, teoricamente livres, e a exploração se fazia mediante o tributo, enquanto no feudalismo os meios de produção pertenciam ao senhor. Quanto ao escravismo, a mão de obra pertencia ao proprietário, assim como os meios de produção.

Camponeses e pastores tiveram a possibilidade de concentrar-se nas montanhas, onde a invenção do ferro possibilitava desmatar com machados e a argamassa, por seu lado, tornava possível a impermeabilização de reservatórios de água da chuva. Aí não subiam os carros de guerra dos senhores das cidades-estado da planície e a rebelião se fazia possível. Foi oportunidade de derrubar o poder dos príncipes cananeus e, desse modo, possibilitar o surgimento de uma aliança tribal igualitária entre grupos de diferentes procedências. Mesmo com suas contradições internas, conseguiram sobreviver por cerca de duzentos anos. Estamos aí no período entre os séculos XIII a XI a.C. O famoso episódio da batalha, comandada por Baraque e animada pelo carisma da juíza e profetisa Débora, está documentado nos capítulos quarto e quinto do Livro de Juízes, sendo o estupendo poema do capítulo quinto um dos textos mais antigos da literatura hebraica.  Trata-se de um cântico de libertação de camponeses que derrotam carros de guerra dos príncipes das cidades-estado no Norte da região de Canaã.

A memória dessas lutas se acha na Bíblia, particularmente, em escritos como os livros de Josué e de Juízes. Sem dúvida, depois de séculos de tradição oral e de sucessivas redações por escrito, a versão que temos hoje já se acha fortemente marcada pela visão dos redatores finais, cuja perspectiva era a volta do exílio em Babilônia vários séculos depois.     A pesquisa exige “escavar” nas camadas do texto para tentar reencontrar seu estrato mais primitivo. Quando se chega mais perto daí, é possível perceber como o material mais remoto, com toda probabilidade, tem relação com antigos textos extraisraelíticos que se referem à Terra de Canaã, naquela época, em plena ebulição, com rebeliões e deslocamento de grupos designados como “hapirûs” o mesmo que hebreus. O que quer dizer que “hebreus”, na origem, não designava determinada nacionalidade, mas condição econômica e sociopolítica, gente deslocada, sem paradeiro, migrantes, revoltosos, bandoleiros, , “gente que vagava por aí”, tipo “bando de Lampião” (cangaceiros), servindo eventualmente de mercenários em lutas entre príncipes ou se congregando em revoltas contra príncipes, em busca de novo “status” de vida coletiva. A memória dos grupos de pastores, sem dúvida, se conserva em narrações do livro de Gênesis. É significativo o que se diz aí da figura de Abraão nos capítulos 12 a 14.

As narrações a respeito de grupos que vieram do Egito e se livraram da opressão do Faraó, o grande rei e sombra controladora da Terra de Canaã, também, em seu núcleo primitivo ()cf. Ex 15, 21; 14, 21) fazem parte de estratos antigos da tradição. Suas proezas, em torno da grande figura de Moisés, foram exaltadas, ampliadas e transformadas na grande epopeia da libertação dos “hebreus” (cf. Ex 14). Certamente porque falavam da vitória obtida na toca da serpente, a bem sucedida fuga dos trabalhos forçados a serviço do Grande Rei (cf. Ex 1-15). Quem sabe, também porque,  provavelmente, retratavam os vários “êxodos” e as “travessias” de diversos daqueles grupos ou clãs, alguns também fugitivos do Egito em levas diversas de servos lá chegados pela fome ou pelo flagelo de guerras.

Outros grupos menores que vêm do deserto (Madian, Cades e outros) e se incorporam ao povo das tribos, sem dúvida evitam sujeitar-se à dominação de principados que se tinham formado na região da Transjordânia aproximadamente por volta da mesma época.

De acordo com tradições que parecem ser as mais antigas da Bíblia, foi, assim, desses segmentos de populações marginalizadas que, em torno do século XIII a.C., no Médio Oriente, se formou o “povo de Israel”, o qual, a partir das montanhas da Terra de Canaã, se organizou num conjunto de tribos, recusando ser governados pelo sistema de Estado. Na verdade, as tribos eram uma nova articulação de clãs e grupos diversos de camponeses e pastores, de várias procedências, com unidade entre si baseada no compromisso de mútua defesa e no reconhecimento de um único Deus como “Aquele que tira da casa da servidão” (Dt 5, 6). Esses dois elementos – a mútua defesa e a adoração de um único Deus por todos os grupos – eram o fundamento da aliança entre as tribos e lhes conferia o sentimento de ser um só povo, apesar da grande diversidade de origens (cf. Js 24).

Esse é um fato histórico que tem chamado a atenção. Até hoje historiadores se perguntam por que aqueles grupos não assumiram o modelo vigente do “Estado tributário”, como o tinham feito as populações que se assentaram na Transjordânia. Como foi possível, naquela região dominada pelo modelo estatal, surgir um povo que, apesar de sua diversidade, recusava-se radicalmente a admitir o modelo de “Estado”? O sistema conseguiu sobreviver por mais ou menos duzentos anos, mas foi experiência tão marcante  que sua memória permaneceu como paradigma  em toda a história posterior, mesmo que se soubesse que já não havia condições objetivas de implantá-lo de novo. O profetismo, como portavoz do mundo camponês que sempre se posicionou criticamente frente à monarquia ou até a rejeitava em princípio, tem como ponto de partida esse paradigma (cf. Am 1-2; 5, 4-7; 6, 1-7.8-14; Os 13, 9-11; Mq 3, 9-11; Jr 22, 13-19) , e o mesmo se vê em Jesus e nos escritos do Novo Testamento.

Um texto bíblico muito famoso que manifesta esse paradigma de forma radical é a conhecida “fábula de Jotão” (cf. Jz 9, 7-21), que data do período seguinte, de transição entre o tribalismo e a monarquia. De maneira radical denuncia o Estado como mecanismo de alienação e dominação. É considerado um dos textos mais críticos e irônicos em relação ao poder na literatura mundial.

Em outras palavras, a formação do povo se deu mediante penoso processo de libertação, que está expresso emblematicamente no nome que o designa: “ISRA-EL”, Deus vence. De acordo com a cultura religiosa da época, atribui-se a Deus a vitória dos grupos “hebreus” e a consequente formação das tribos, as quais objetivavam viver uma aliança de iguais, sem dominação de príncipes que encarnavam o poder do Estado, e reconhecendo Deus como único Rei (transcendente) (cf. Jz 8, 22-23).

O relativo Bem-Viver se concretizava na autonomia produtiva e na solidariedade econômica, fora do regime de classes, sem propriedade privada, em relações de igualdade significativamente expressas pela imagem de poder “repousar à sombra da própria oliveira, da vinha e da figueira”. Como se tratava de economia de subsistência, com eventuais trocas prevalentemente intertribais, não havia comércio. O excedente de produção, uma vez reservada a quantidade para semeadura, se consumia nas festas nas aldeias  em torno de santuários locais e práticas familiares de religião (cf. Jz 17), pois, não havendo rei nem classe sacerdotal, não se tinha santuário central aonde levar ofertas e dízimos, na verdade, o imposto estatal sobre a colheita e o rebanho. O poder era partilhado, sendo os anciãos a autoridade nas decisões. Sem rei, não havia palácio, nem burocracia hierarquizada, mas sociedade  igualitária baseada na solidariedade mútua. A lei devia estar a serviço da vida, sua síntese foi sendo formulada em seguida nos Mandamentos (cf. Dt 5 e Ex 20).

A legitimação ideológica desse regime de igualdade e liberdade vinha da fé religiosa. O nome do povo se refere à vitória de “El”, o nome de Deus na Terra de Canaã: ISRA-EL, o Deus que “luta e vence” (cf. Gn 32, 29). Com bastante probabilidade, isso indica que a rebelião de “hapirûs” (“hebreus”) se iniciara antes da chegada dos grupos do Egito, pois, do contrário, o nome do povo já teria sido ISRA-YA (Ya é abreviatura do nome de YHWH). Com a chegada dos grupos do Egito, com Moisés e o clã de Madian (cf. Ex 18), YHWH terá vindo confirmar o movimento de rebelião contra o sistema tributário, pois com o novo nome de Deus vinham as histórias da libertação do Egito: “Eu sou YHWH, teu Deus, aquele que te fez sair da casa da servidão” (Dt 5, 6). Era crido como presente na experiência de libertação do povo, adorado como parente próximo, aquele que assume as dores dos seus, os defende e restaura a justiça através de Seus enviados, o “Deus dos Pais”, a saber, ligado por laços familiares aos clãs em aliança, antigas tradições vão sendo reinterpretadas (cf. Ex 6, 2-8; Js 24). Em torno desse eixo – YHWH – foram-se fazendo ao longo do tempo a articulação, a síntese e a “nacionalização” das antigas experiências dos diversos clãs dispersos, que peregrinam pela terra, chegando até ao Egito, conforme vemos no livro de Gênesis. Finalmente se chega ao esquema segundo o qual todo o povo descendia de uma única família, com um único pai, Abraão e uma única mãe, Sara, de acordo com o modelo de genealogia que legitimava, na verdade, laços sociais e antropológicos, bem mais que simplesmente biológicos. Se hoje o povo é um só, deve-se achar no passado a explicação de sua unidade. O raciocínio dos povos antigos era “tradicional”, não “evolutivo”, a explicação se acha no passado.

  1. ÊXODO 3, 7-15

Um texto bíblico particularmente  expressivo para formular essa legitimação é Ex 3, 7-15. Aí se relaciona intimamente a revelação do próprio Nome de Deus com a causa da libertação do povo. Isto vai levar a corrente profética a ver com muita clareza que só se conhece a Deus mediante a experiência de acontecimentos, relações e processos de libertação, como se pode ver nitidamente no livro do profeta Isaías (cf. Is 40-55), com oráculos pronunciados durante o período do exílio em Babilônia, no século VI a.C. A utopia do Bem-Viver se formulava aí com imagens de transformação do deserto em jardim, da sequidão em terra de mananciais, montanhas e vales (desigualdades) nivelados; gente cega terá olhos abertos, encarcerados ficarão livres; caminhos pedregosos se tornarão planos e as trevas se transmutarão em luz; a vida terá gosto de festa de casamento; haverá comida e víveres em abundância… a paz se consumará como fruto da justiça  e da igualdade. O novo projeto de reconstrução da sociedade, segundo a corrente que descendia do profeta Isaías, não se devia dar em torno do trono real, nem do templo do sacerdócio, mas da retomada das antigas raízes tribais, como articulação das “casas”, isto é, das famílias e o que restava das relações e estruturas tribais (comunitárias, comunais), ou seja, articulação baseada em laços de igualdade e solidariedade. Hoje falaríamos de “articulação da sociedade civil” e de “democracia participativa”, de defesa e fortalecimento de grupos e culturas locais, pensemos, por exemplo, nos povos aborígenes, afrodescendentes e em, camponeses assentados de volta à terra. Nesse projeto as mulheres aparecem em particular evidência, como se vê na literatura bíblica dessa época após o exílio (cf. Rute, Ester, Judite, a amante do Cântico dos Cânticos, ou textos menores, inseridos em livros, que exaltam a figura da mulher: a mulher líder exemplar em sua casa(cf. Pr 31); Suzana, a vitoriosa no livro de Daniel (cf. Dn 13); a mãe dos sete filhos mártires nos tempos dos Macabeus (cf. 2Mc 7); a Sabedoria descrita poeticamente em figura de mulher, nos escritos sapienciais.

  1. ANTROPOLOGIA BÍBLICA

A partir dessas experiências e das tradições que conservaram sua memória, a Bíblia elabora o que poderíamos chamar de uma “antropologia da liberdade”, como dimensão constitutiva da pessoa enquanto tal, e de nova convivência em sociedade.

Enquanto seres materiais, somos indivíduos ao lado de outras coisas, com fronteiras nítidas que nos separam, embora hoje saibamos que toda matéria é  feixe de energia em teia universal. A “solidez” aparente da matéria, na verdade, é só concentração de energia.

Enquanto pessoas, embora seres materiais, ultrapassamos as fronteiras de nossos limites e experimentamos a vocação de ser para além de nós, com a possibilidade de nos comunicar com outras pessoas de tal forma que, de certa maneira, passamos por dentro delas e permitimos que “inabitem” em nós, num processo de relações que nos enriquece e nos faz ser muito mais do que seríamos se nos agarrássemos a nós mesmos(as). A Psicologia mais elementar está aí para confirmar que a abertura às relações enriquece a personalidade, enquanto o fechamento é sempre empobrecedor.

  1. AS TRÊS DIMENSÕES DA PESSOA

Ser pessoa é experimentar o poder de avançar sobre o mundo e conhecê-lo, trazendo-o, de certa forma, para dentro de nós. Como dizia o filósofo grego Aristóteles, “a alma é de certo modo todas as coisas”. Na relação com o mundo, este entra em nós, por nossas faculdades emocionais e intelectivas, e, assim, avançamos sobre ele mais e mais profundamente e em extensão sempre mais universal. Conhecer é poder sobre o universo e sobre as pessoas.

Não nos contentamos, porém, com conhecer. Uma vez conhecidos, os objetos e as pessoas de nosso conhecimento se tornam desejáveis. Se, pelo conhecer, o mundo entra em nós, nasce o desejo de possuí-lo efetivamente conosco e fora de nós. Desejamos que seja em nós e que dilate nosso corpo às dimensões da totalidade. Não nos conformamos apenas com “saber” de tudo, desejamos tudo em nós ou conosco, desejamos, na verdade, tudo possuir, ou melhor, ser tudo.

Finalmente, o desejo nos move a agir para, de fato, tudo possuir. Queremos ter tudo conosco, tudo a fazer parte de nós. Mais ainda, queremos “ser” tudo. Não é de estranhar que o poder não se imponha limites: o poder de conhecer, o poder de desejar, o poder de possuir. Nós somos, mais do que temos poder. Somos radicalmente poder, isto é, feixe de potência, de possíveis, de possibilidades, de posse; nossa relação com a Natureza e com as pessoas é, necessariamente, experiência de potência, de poder.

  1. PODER E IMPOTÊNCIA

Ao lado da experiência de poder, temos, porém, a experiência de impotência, de “não poder”. Sentimos que não podemos conhecer tudo, não podemos desejar tudo e nem podemos tudo possuir. Além disso, todas as outras pessoas vivem o mesmo dinamismo, também elas se sentem centro do universo. Se os “centros” são múltiplos, todos se deparam com o limite de coexistir. Vivemos a dialética de poder e não poder. A proposta da Bíblia é que essa experiência contraditória nos abra à reciprocidade. Se o poder de cada qual de nós é limitado, o caminho é buscar a completude acolhendo as possibilidades e as experiências de outrem, não excluindo-as.  São as outras pessoas que nos completam e nos levam além dos limites. Na verdade, é esta nossa experiência quotidiana. A vida é imensa teia coletiva, as experiências alheias são postas a nossa disposição para alargar o horizonte. As experiências das pessoas e o imenso conjunto da realidade é que nos fazem conhecer mais, desejar mais e possuir mais. Como diz o poeta Ferreira Gullar, “o sentido da vida são as outras pessoas”.

Mas nosso sentimento de poder é, porém, tão profundo e radical, a saber, não apenas “temos poder”, mas “somos poder”, que resistimos com todas as forças a aceitar nosso outro lado de não poder. A proposta da Bíblia, no entanto, é que cheguemos a tal segurança e maturidade pessoal a ponto de aceitar nossa incompletude e limites, a dimensão de não poder; que reconheçamos o poder de outrem; que nos ponhamos frente a frente com o óbvio da realidade, que não somos “individualmente” o centro do mundo; e cheguemos a estabelecer relações de complementaridade e de mútuo serviço e recíproco enriquecimento, o que equivale a que nos comportemos como “pessoas”, que se constroem a partir de relações de poder e não poder. É esta antropologia que está subjacente ao projeto e, sobretudo, ao paradigma do tribalismo, quer dizer, da vida como construção coletiva, da comunidade. Assim, o eixo de conquista do Bem-Viver passa essencialmente pela experiência do PODER, ou seja, pela construção de nossas relações com as pessoas e com as coisas: de reciprocidade ou de apropriação (indébita).

A Bíblia reflete muito e profundamente sobre isto, quando debate o tema da idolatria, a ponto de ser um de seus temas centrais. Ao perceber em nós a dimensão de não poder, a insegurança e o medo da vida nos desviam por um mecanismo de “projeção” pelo qual imprimimos nossa “imagem” em nossas próprias obras e caímos na ilusão de nos “adorar” como se fôssemos deuses criadores de nós mesmos(as) e, por isso, de maneira ridícula, nos sacrificamos e chegamos a nos imolar a nossas próprias obras, simulacro de seus artífices. Na verdade, a projeção nos desvia para a  “mentira”, para o que é “vão”, isto é, vazio. É o vocabulário bíblico para designar os ídolos. Há textos clássicos no profetismo (cf. Is 40, 12-20; 41, 6-7. 21-29; 44, 9-21; 46; 57, 3-13; Jr 7; 13, 27; 16, 19-21; 32, 34-35; Os 2; 8, 4; Ex 32, 1-6; 5, 21-27; Mq 6, 6-9; At 7, 40-53), nos salmos (cf. Sl 135; 146), na corrente sapiencial (Sb 13-15) e na apocalíptica (cf. Dn 14; Ap 18). De fato, uma das questões centrais da Bíblia é “Deus ou os ídolos”, e os ídolos sempre estão relacionados com o poder opressor sobre as pessoas, cuja expressão suprema são a injustiça nas relações e na aplicação do Direito, e sobre as coisas, cuja expressão característica é a riqueza e a apropriação dos bens da vida; as forças militares que dominam gentes e territórios são forte símbolo para indicar o poder dos ídolos. Sim, porque, na medida em que a insegurança e o medo de viver nos dominam, brota a violência, cujo objetivo é excluir e eliminar as outras pessoas, sentidas como rivais e concorrentes. O antropólogo francês René Girard analisa magistralmente esse mecanismo, ao refletir sobre a “violência mimética” (de imitação), isto é, pretendemos ser como outrem, para isto temos de estar em seu lugar, consequentemente, temos de excluí-lo e matá-lo.

  1. COMO DEUS SE FAZ PRESENTE

A Bíblia parte da existência de Deus como óbvia. Não discute se existe ou se age na história do mundo. Simplesmente conta com isso. E por dois motivos básicos: é tributária a uma cultura religiosa na qual a existência de Deus e sua assistência são evidência “ingênua”, quer dizer, não se faz “crítica” à religião como tal, como se vê na Modernidade, só crítica radical à idolatria. De fato, a estrutura econômica, social e política e a cultura sempre se legitimam por deuses e deusas. Em segundo lugar, há uma razão mais profunda, subjacente continuamente aos textos: o ponto decisivo é a função que a divindade, ou mais propriamente  deuses e deusas exercem na vida humana.

Para o conjunto da Bíblia, o ponto central é que a presença e a influência concreta da divindade na vida se dão mediante um valor absoluto que confere legitimidade a todos os valores, às relações e às estruturas humanas. Neste sentido, não se reconhece ateísmo, pois há sempre um valor absoluto que, de fato, exerce a função de divindade, enquanto tudo pode exigir de vida e de morte, em seu nome se vive, se mata e se morre. Por isso, justamente, a “divindade”, mediante um valor absoluto qualquer, se situa sempre no ápice do sistema cultural para legitimar a maneira de viver da sociedade e das pessoas, e viver é o mesmo que agir, quer dizer, deuses e deusas legitimam nossas obras e assim, de maneira ilusória (ídolos são “mentira”, “coisa vã”, “ilusão”), preenchem nossa insegurança e nossos medos.

É para discutir essa experiência que se dá o debate em torno da idolatria em contraste com a experiência do Deus vivo: a relação com o poder sobre as pessoas e com o dinheiro (que é símbolo do poder sobre as coisas), é o que está no centro desse debate, justamente as duas dimensões antropológicas mediante as quais se adoram os ídolos ou o Deus vivo. Por isso, a solução desse conflito originário, a saber, que está na raiz da existência humana, passa pela mudança radical de nossa maneira de lidar com o poder sobre as pessoas e sobre as coisas: comunhão interpessoal e cuidado e partilha de bens.

  1. PERSPECTIVA DO NOVO TESAMNETO

No Primeiro Testamento, o grande paradigma em contraposição à opressão e à apropriação é o da ALIANÇA (TRIBAL), com o ideal da igualdade econômica e social. No Novo Testamento, de seu lado, essa mesma perspectiva se formula sob a imagem ideal da COMUNIDADE, enquanto corpo de membros complementares e partilha de bens (cf. 1Cor 12-14). Um sinal claro de continuidade é o símbolo do número DOZE, doze são as tribos, doze são os enviados (cf. Mc 3, 13-19; At 1), doze é a idade das mulheres), restauradas para gerar o povo (cf. Mc 5, 21-43), doze são as colunas da cidade celestial (cf. Ap 21, 12-14). O livro de Atos dos Apóstolos propõe insistentemente esse ideal (cf. At 2, 42-47; 4, 32-37; 5. 12-16; Dt 15, 7-11), assim como os evangelhos (cf. Mc 8, 22-10, 52) e os outros escritos apostólicos, com destaque para a Primeira Epístola de São João. Por sua vez, o Apocalipse insiste marcadamente em deixar claro que essa utopia da condição paradisíaca do Bem-Viver (cf. Ap 21-22)  nos joga em encarniçado conflito com o sistema do “império” e suas pretensões injustas e absolutistas. Mostra-se, assim, a radical oposição entre o “paraíso” como harmônico jardim de Deus  e o sistema de opressão patrocinador e agente de violência (cf. Ap 17-19).

A proposta de Jesus e das primeiras comunidades foi de ir conquistando espaços de liberdade e de Bem-Viver (modelo de “zonas liberadas”), mediante a constituição de comunidades  e de movimentos que fossem polos de irradiação da experiência do Reino de Deus (Jesus) ou da “koinonía” (comunhão interpessoal e de bens- Atos)) ou da  “ecclesía” ou da “nova criação” (São Paulo), ou da “vida eterna” (São João).

A assembleia dirigente das cidades grecorromanas estava baseada na androcracia-machismo, na plutocracia-riqueza e na aristocracia-elitismo. Em contraposição a esse sistema estabelecido, o Apóstolo Paulo propõe a “ecclesía de Deus”, expressão que na Bíblia grega (Bíblia dos Setenta) soa exatamente da mesma forma, como tradução da expressão hebraica “qahal YHWH”. Era na época antiga, desde o tribalismo, a maneira de designar a reunião do povo diante de Deus (cf. Ex 12, 3; 16, 1). Ao designar de “ecclesía” a comunidade cristã, Paulo a apresenta como, ao mesmo tempo sucessora da antiga assembleia de Israel  e “assembleia alternativa” à das cidades grecorromanas,  nova assembleia onde  prevalecem relações igualitárias: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Jesus Cristo” (Gl 3, 28; cf. Cl 3, 11; 1Cor 11, 11-12); poderíamos acrescentar “não há adultos nem crianças” (cf. Mc 9, 33-37; 10, 13-16; ). Dessa maneira, a “ecclesía” é instrumento privilegiado do processo revolucionário de novas relações. Não se trata de nova religião; corresponde, antes, a nova proposta de vida que do âmbito local deve irradiar e disseminar em dimensão internacional. Fala-se de nova “cidadania em Cristo” (cf. Ef 1-2), nova condição do ser humano que se deve manifestar em novos valores e relações neste mundo (cf. Gl 5). Só assim se compreendem a Carta aos Gálatas e os conselhos práticos que se dão na parte final das várias epístolas. De outro modo, não se pode compreender a profunda e radical análise que se faz do sistema social e cultural vigente, inclusive no nível internacional, como se vê na Primeira Carta aos Coríntios (cf. cap. 1 a 4) e na Carta aos Romanos (cf. cap. 1-4).

  1. A PALAVRA DA CRUZ versus SABEDORIA QUE É SÓ PALAVRA

Em 1Coríntios, contrapõe-se a ideologia legitimadora da opressão, designada como “sabedoria deste mundo” e a Palavra que é a Cruz de Cristo. Palavra que é um gesto, uma ação de Deus pela qual declara Sua solidariedade com os condenados (crucificados) pelo sistema econômico, social, político e cultural. E proclama-se a grande inversão: os “ignorantes” e “fracos”, na verdade, são os verdadeiros depositários da “sabedoria e da força de Deus”. A ideologia deste mundo (“sabedoria dos escribas deste século”) os aliena e convence de sua incapacidade. Urge “evangelizá-los”, urge que conheçam a Boa Nova, que fiquem sabendo que “a sabedoria e o poder de Deus” neles reside, e se organizem em “células” (comunidades) regeneradoras que irradiem e se articulem internacionalmente. É por isso que o Apóstolo São Paulo monta um plano estratégico de viagens internacionais para espalhar essas sementes e articulá-las num amplo projeto de convivência global. O que se experimenta nas pequenas comunidades locais diz respeito ao sonho de Deus para todas as nações (cf. Ef 2).

Se quiséssemos traduzir para hoje essa proposta, teríamos de falar em sociedade civil organizada, em poder do movimento popular, em democracia participativa, em articulação internacionalista das forças de luta pela transformação do sistema mundial, como imensa corrente em favor da justiça e da paz e da harmonia com o meio ambiente, em função de toda a humanidade e cuidado por todos(as)…  em confronto com o modelo do Estado de classe e as grandes corporações do capital.

Só que não se trata apenas de nova configuração das estruturas econômicas, sociais, políticas e culturais, antes, trata-se de tecer novas relações entre as pessoas, fundadas em novos valores de vida, não “idolátricos”. Do ponto de vista da espiritualidade, temos muito o que aprender da espiritualidade budista, com a atitude de compaixão por todos os seres do universo.

 Ou seja, trata-se de transformação profunda, radical, cujo fundamento  é a articulação de pessoas transformadas a partir da confluência entre novas relações e novos valores, ou seja, interpenetração dos três níveis  ou das três dimensões da existência humana em contínua interação: os valores pessoais profundos que brotam com a conversão e equivalem ao que chamamos de espiritualidade, a saber, o espírito, o “sopro” que impele nosso jeito de ser. O Apóstolo  Paulo e Che Guevara falaram disso quando se referiam ao “novo homem”, no sentido de novo ser humano. A segunda dimensão são as relações interpessoais de solidariedade que caracterizam a vida em comunidade e transborda muito além, dela. Finalmente a luta por estabelecer novas estruturas de Justiça, as quais, de fato, são sempre expressão, instrumento e condicionamento  de nossos valores e de nossas relações em sociedade.

  1. A GRANDE REVIRAVOLTA

O Apóstolo São Paulo sintetiza tudo isso esplendidamente em poucas frases de sua Carta aos Romanos:

                                      “Entreguem o corpo de vocês (relações quotidianas) em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, este é o culto como deve ser (“racional”, “lógico”, ou seja,  o culto de acordo com a perspectiva da fé). E não se deixem conformar (moldar) pelas estruturas do sistema deste mundo, mas transformem-se radicalmente, desde o profundo dos sentimentos e pensamentos (novos valores), a fim  de discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito” (Rm 12, 1-2).

Em poucas palavras, temos aí o caminho proposto pela perspectiva cristã de vida, o mesmo que dizer nosso caminho para o Bem-Viver, que inclui transformação radical da pessoa (conversão), novas relações quotidianas (o corpo entregue, doado no serviço recíproco) e novas estruturas de convivência (econômicas, sociais, políticas e culturais) em “outro mundo possível”.

Na Bíblia, tudo isto se diz com o termo “xalôm”, frequente nas várias correntes bíblicas. Pensemos particularmente nos famosos textos proféticos de Isaías, segundo os quais a grande expectativa é que as nações confluam para o “Monte do Senhor”, se confraternizem e transformem as armas de guerra em instrumentos de trabalho, de política militarista a uma nova economia para todos (cf. Is 2, 1-5; 56, 6-8; 58; 60, 11-14; Mq 4, 1-3). De maneira semelhante, anuncia-se o fim da guerra e a criança é o rei, finalmente “príncipe da paz” (ccf. Is 9, 1-6). De novo, a criança é a liderança suprema em favor dos pobres da terra e a harmonia universal se estabelece, na Natureza e na sociedade (cf. Is 11, 1-9). Prevê-se que o povo estará em paz quando for deixado no meio do país “um povo pobre e humilde que busque refúgio no Nome de YHWH” (Sf 3, 12). Para o profeta Zacarias, no pós exílio, o rei estará “montado sobre um jumento, um jumentinho “, enquanto os cavalos e as armas de guerra serão eliminados (cf. Zc 9, 9-10).

              Vê-se que “Xalôm” não significa simplesmente ausência de guerra e violência. Seria melhor traduzi-lo por “felicidade”, pois indica a suficiência de tudo o que é necessário para viver, pessoal e coletivamente, desde o alimento (economia)  até a liberdade de conviver em paz e na alegria de adorar o mistério transcendente da Vida (cultura). “Xalôm” é plenitude de vida, totalidade de bens (cf. Nm 6, 26; Dt 23, 6-7; Is 45, 5-8; 48, 20-22); segurança para o povo (cf. 2Rs 20, 19);  harmonia com a Natureza (cf. Am 9, 13-15; Os 2, 20; 4, 1-4; Is 11, 1-9; 35, 9-10; Ez 34, 25); é o reino messiânico (cf. Lc 1, 78; 2, 14); pode passar pela luta (cf. Jr 38, 4; Lc 16, 33; esta, porém, intimamente ligada à implantação da justiça e do bem estar (cf. Sl 72; 85; 122). É, finalmente, o que a Bíblia designa como Reino de Deus, expressão que Jesus retomou para definir seu ministério (cf., Mc 1, 14-15). Os escritos joânicos adotam a categoria “vida eterna”, isto é, uma vida com qualidade totalmente nova, capaz de transbordar das fronteiras da existência mortal, uma vida plena e para sempre: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em plenitude” (Jo 10, 10), vida cuja base é o amor fraterno: “Nós sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos” (1Jo 3, 14; cf. 4, 7-21). Para o Apóstolo São Paulo, a transformação é tão radical que nos tornamos “nova criatura”, nascemos de novo (cf. 2Cor 5, 17; Rm 5 e 6). Na Carta aos Efésios, chega-se à coragem teológica de sugerir que a redenção do mundo em Cristo se  manifesta pelo “xalôm”, a reconciliação entre os povos, redenção, sim, porque só será possível pelo amor, e o amor é Deus. Não se deve esquecer que o Apóstolo já tinha tido a coragem de afirmar que  a redenção que agora experimentamos é só “em esperança”, pois só se efetivará “mediante a redenção de nosso corpo” (Rm 8, 23-25), a saber, a redenção da materialidade da pessoa e do universo inteiro. E São Paulo percebe esse amplo projeto em ato quando contempla o que está se dando nas pequenas comunidades nascentes: partilha de bens, igualdade entre homens e mulheres, entre judeus e gentios, entre escravos e livres, adultos e crianças, todos e todas à mesma mesa como Corpo do Senhor.

Jesus, ao enviar seus discípulos, em missão universal (“setenta” é símbolo de universalidade), entrega-lhes o anúncio do “xalôm”: “Xalôm” seja nesta casa!”, e sublinha as duas grandes condições: a restauração das casas pela partilha, (hospitalidade, comensalidade) e a restauração das pessoas, desde a integridade dos corpos (saúde) até a desalienação (“expulsar os espíritos imundos”) (cf. Mt e Lc 10). “Xalôm” é a harmonia plena, a felicidade no interior das pessoas, no âmbito das relações interpessoais e com as coisas, e no âmbito das estruturas de convivência, pois Jesus percebe bem como o sistema está montado: “Guardai-vos dos escribas que gostam de circular de toga, de ser saudados nas praças públicas, de ocupar os primeiros lugares nas sinagogas e os lugares de honra nos banquetes (denúncia do sistema de privilégios de classe); mas devoram as casas das viúvas (exploração econômica dos mais pobres dos pobres) e simulam fazer longas preces (legitimação religiosa do sistema)”. E logo apresenta a pobre viúva como figura central para a mentalidade do Evangelho (cf. Mc 12, 38-44). Logo em seguida prediz a derrubada do sistema iníquo (cf. Mc 13).

Nas bem-aventuranças proclamadas por Jesus, é bom ter presente que não se trata apenas de uma felicitação: “felizes, bem-aventurados(as), parabéns” (cf. Mt 5, 1-12; Lc 6, 20-23), mas de um estímulo para caminhar. São felicitadas e parabenizadas as pessoas que seguem o caminho de Deus, como se vê em cada uma das bem-aventuranças em detalhe. São felizes, aprovadas, parabenizadas as pessoas que realizam o ideal celebrado no Salmo 1º. Aí se vê muito bem que a felicidade está intimamente ligada ao “caminho”. Na palavra usada para proclamar “felicidade”, “felizes”, “bem-aventurado(as)s” pode estar provavelmente contida a nuança de “vão adiante, avante”, palavra de estímulo e aprovação de um jeito de “caminhar” na vida. Se se lê o texto com atenção, no evangelho segundo Mateus, trata-se de aproximar-se da condição de pobres, aflitos(as), humilhados(as), aceitar ser perseguido(as) “por causa da justiça”; em outras palavras, trata-se de “optar pelos pobres”. No texto de Lucas, o conflito entre quem é “feliz” e quem é “maldito” se explicita ao contrapor-se “pobres” e “ricos”. Ou seja, Jesus proclama a felicidade de pobres em caminhada, estimula a prosseguir adiante e alerta para o conflito que se acirra quando pobres se tornam conscientes de seu caminho de “felicidade”.

O “xalôm” tem de estabelecer-se desde o nível local (na vida pessoal e na comunidade), até o internacional (relações entre os povos). Na Carta aos Romanos, estende-se a perspectiva da redenção a toda a universal Natureza (cf. Rm 8). Ressurreição é nova criação ou consumação da obra criadora de Deus. Essa utopia tem de tomar forma concreta no dinamismo do movimento de transformação do mundo ao longo da história, tem de dirigir, com crítica lucidez, nossas análises da realidade (cf. Is 43, 16-21), nossos projetos a partir daí (cf. Is 58) e, finalmente, nossa organização e ação para realizá-lo (cf. Mt 10 e Lc 10). Haveria proposta mais revolucionária, mais global  e mais radical? “Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21, 5).

Atenção, porém! A perspectiva bíblica não sugere essa utopia de maneira ingênua, romântica, idealista. Em toda a Bíblia há consciência clara do conflito constante com o sistema estabelecido, e é através da consciência do processo conflitivo na evolução da sociedade que se manifesta a perspectiva política: “Não se deixem moldar pelas estruturas do sistema deste mundo (sociedade)”.

Sem dúvida, as comunidades chegam até aonde lhes era possível, em seu contexto sociológico. Sua ênfase, efetivamente, foi no projeto de transformação profunda dos valores de vida e das relações.  O aspecto  político estrutural quase não aparece, a não ser como intuição fundada na memória antiga do Primeiro Testamento. Na verdade, tratava-se de pequenos grupos disseminados pelas cidades do grande império. Inclusive vários desses grupos tinham de enfrentar seus conflitos internos entre gente mais rica e gente mais pobre, entre tradicionalistas judeus e pessoas mais abertas a novo horizonte, entre judeus e gentios, entre homens e mulheres. É óbvio que não se sentiam capazes de enfrentar o sistema do império, ainda não eram um povo com identidade própria, nem percebiam com clareza a dimensão estrutural da sociedade, e nem tinham possibilidade de enfrentamento sociopolítico. Mesmo assim, porém, foram clarividentes para elaborar análises preciosas sobre as relações em sistemas de opressão e sobre o peso que tem sobre as pessoas e os povos a dimensão cultural da sociedade, no sentido da alienação. Vale a pena ler as análises da 1Corínctios e da Carta aos Romanos para perceber o que se diz a respeito de valores, relações e estruturas da sociedade, embora sob a roupagem da linguagem religiosa. Aliás, sempre é preciso ter presente que “religião”, mais que conteúdo, é linguagem sobre realidades que podem e devem ser ditas em outras linguagens, como a da Psicologia, da Sociologia, da Antropologia, etc. Além disso, intuíram claramente que aquilo que se buscava viver, na pequena e frágil experiência comunitária local,  tinha profundamente  tudo a ver com um “projeto” de Deus para o mundo inteiro (cf. Romanos, Efésios e Colossenses).

Jesus tinha vivido num contexto bem diferente. Era um camponês da Galileia, terra com forte tradição de resistência popular aos poderosos locais e aos dominadores estrangeiros, e com memórias antigas da época tribal antimonárquica. A cultura religiosa era a mesma de todo o seu povo. Ele mesmo se sentia profeta de todo o povo para provocar um movimento de renovação a partir de pobres e abandonados(as), movimento que devia começar pelo povo de Israel e chegar finalmente às nações (cf. Mt 8, 11-13; 25, 31-46), conforme a intuição já presente nos profetas (cf. Is 2, 1-5). YHWH carregava em Seu nome toda uma tradição de luta e de libertação. A corrente profética da qual se alimentava chegava à crítica radical do sistema. Era claro para Ele que YHWH impunha a Seu povo “estatutos, instituições e normas” (estruturas) com a finalidade de conservar a liberdade conquistada no Êxodo “da casa da servidão” (cf. Dt 5, 6; 6, 20-25; 17, 14-20; 1Sm 8). É exemplar o seguinte texto, já referido: “Guardai-vos dos escribas que gostam de circular de toga, de ser saudados nas praças públicas e de ocupar os primeiros lugares nas sinagogas e os lugares de honra nos banquetes (sistema de privilégios de classe); mas devoram as casas das viúvas (exploração econômica dos mais pobres) e simulam fazer longas preces (legitimação ideológica da religião)” (Mc 121, 38-40). Jesus percebe claramente a articulação das várias dimensões do sistema de opressão e tem clareza sobre a exploração econômica e ideológica do Templo (cf. Mc 11, 1-19) e anuncia a necessidade de destruição desse sistema (cf. Mc 13).

  1. CAMINHOS DE CONSTRUÇÃO DA SOCIEDADE DO BEM-VIVER

A Comunhão Anglicana, há anos tem elaborado uma síntese na qual aparecem claramente caminhos de reconstrução da sociedade do Bem-Viver:

  1. O anúncio da Boa Nova da liberdade (Evangelho, cf. Gl 5) deve despertar a convicção da DIGNIDADE da pessoa, filho ou filha de Deus, livre, não mais sujeita a qualquer tipo de opressão;
  2. A vida em COMUNIDADE passa a ser o ambiente para a comunhão fraterna e partilha da capacidade de liderança (talentos pessoais) e de bens; para o aprofundamento da Palavra que desmascara as ideologias legitimadoras do sistema de opressão; para a iniciação ao mistério de Cristo (sacramentalidade) que comunica nova coragem de lutar; e nos fortalece para o serviço recíproco;
  3. A relação com a sociedade se dá mediante o que podemos chamar de “mutirão do bem”, unir-nos, todas as pessoas, movimentos e forças sociais que buscamos nova sociedade:
  •  assumindo a SOLIDARIEDADE que se traduz em “serviços de amor” a quem necessita: pobres, pessoas excluídas, enfermas, com deficiência, marginalizadas, sem terra, sem teto, solitárias, idosas, , famintas, perseguidas, encarceradas, abandonadas, etc;
  •  enfrentando, lúcida e corajosamente, a uta pela JUSTIÇA, para transformar as estruturas injustas da sociedade, pois não basta prestar assistência às vítimas, urge estancar as fontes de opressão;
  • assumindo o CUIDADO com a preservação da Criação e a renovação dos recursos da terra, a partir da consciência de que somos do mesmo “húmus” (ser humano), somos terra e parte dela. Particularmente, neste campo do cuidado com a Natureza e o ambiente de vida, temos de tomar consciência profunda de nossa responsabilidade ética no quotidiano; de maneira antes desconhecida,  aumenta qualitativamente a responsabilidade das pessoas comuns, pois os poderosos não se importam com isso, os governos ou não o querem ou não o podem, por seu atrelamento aos “negócios” das grandes corporações multinacionais, resta ao povo comum, nós, assumir a responsabilidade pela vida. Antes éramos nós que dependíamos da Natureza, agora, com os avanços da ciência e da técnica, é a Natureza que depende sempre mais de nós, qualquer gesto nosso pode ir no sentido da preservação ou da destruição: alimentar-se, usar da água, da energia, do ar, empregar o dinheiro, decidir o que vamos consumir, dirigir o próprio automóvel, fazer uso dos espaços da cidade… em cada um desses atos somos responsáveis perante cada uma das outras pessoas e da coletividade, ou seja, são atos de responsabilidade ética que temos de assumir a cada momento;
  • pela compaixão universal com todos os seres do universo, lutar para que o diálogo, não a violência, seja o caminho de solução de conflitos, de modo que se estabeleça e se garanta a PAZ, desde as relações interpessoais até o âmbito internacional.

Ou seja, a pessoa, como “nova criatura”, e as comunidades são chamadas a servir a sociedade; a diaconia do amor fraterno deve transbordar para fora em diaconia de testemunho. O grande teólogo protestante Carlos Barth dizia que a Igreja é “conspiratio testium” (conspiração de testemunhas), pessoas e comunidades articuladas, expandindo-se em imenso mutirão do bem, aquilo que Dom Helder Camara gostava de chamar de “minorias abraâmicas” e o profeta Ezequiel já havia chamado de “imenso exército” (cf. Ez 37), gente que crê contra toda esperança e sabe que é possível “chamar à existência as coisas que ainda não existem” (Rm 4, 17). Ainda Dom Helder: “Felizes os que sonham; correrão o doce risco de um dia ver seus sonhos realizados”.

About Sebastião Armando (176 Articles)
<p>Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber<br /> to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema “Evangelização”, convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social (“Casa Ecumênica – Crer & Ser”) com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.</p>