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“Verdadeiramente o Senhor ressuscitou, aleluia!”

enderramento da cf 2016Sermão de Dom Sebastião Armando, por ocasião da celebração da Páscoa e do encerramento oficial da Campanha da Fraternidade Ecumênica (27 de Abril de 2016), na capela da Vila Murici, município de Caruaru, Pernambuco, com grupos representantes de cada uma das 12 (doze) comunidades da Área Pastoral do Alto do Moura e Circunvizinhança, presentes também a comunidade das Irmãs da Assunção,  e a dos frades franciscanos da área, representação da Igreja Anglicana e do “Projeto Crer & Ser”, da comunidade Haare Krishna e da “Associação Conhecer e Preservar”, ambas dedicadas a cuidar e promover a consciência do cuidado pela mata e pelas águas na Serra dos Cavalos

Irmãs e Irmãos,

Anunciar a Ressurreição é dar sinais de que o mundo pode ser transformado em jardim de Deus

O texto do Evangelho (cf. Jo 20, 1-18) nos trazia a narração a respeito do encontro de discípulos e discípulas com Jesus ressuscitado: Pedro, João, Maria Madalena… (cf. Jo 20, 1-18). Madalena está no centro dos acontecimentos. É ela que vai primeiro ao sepulcro “no primeiro dia da semana”, “de madrugada”. Sim, ainda estava escuro, mas o dia já para amanhecer, “o primeiro dia”, o dia que abre a semana da nova criação (cf. Gn 1). Os amigos e amigas de Jesus fazem justamente o que nós também teríamos feito: interessam-se por seu cadáver. E com toda razão, pois Jesus não tinha morrido de morte natural. Fora preso, julgado pelo governo e pelos chefes da religião e condenado à morte de cruz, o suplício reservado a escravos revoltosos, a bandidos e a rebeldes políticos. Havia o receio de que seus inimigos quisessem profanar seus restos ou roubá-los (cf. v2. 13. 15). Estavam alertas e vigiavam o sepulcro. Mas “ainda não tinham compreendido que Ele devia ressuscitar” (v9). Maria Madalena “continuava a chorar e a inclinar-se na direção do túmulo”. Buscavam o amigo morto.

Mas o túmulo ficava num jardim. Jesus se faz ver, mas Maria, fixada no túmulo vazio, só enxerga n’Ele o jardineiro. Na verdade, é o prenúncio da grande revelação, mas ela ainda nem o pressente. Ele é, de fato, o jardineiro, que já está presente desde a criação, o Homem, destinado a cuidar do jardim de Deus. Mas o paraíso se tinha degradado e o homem e a mulher expulsos e caídos sob o jugo da incompreensão, da vergonha, do sofrimento, da violência e da morte, como vemos no terceiro e quarto capítulos de Gênesis. O Apóstolo São Paulo vai dizer que agora, sim, temos um novo Adão, um novo Homem, recriado segundo a imagem de Deus (cf. Rm 5, 12-21; 1Cor 15-22). Por isso, o texto do evangelho insiste em chamar Maria de “mulher” (v13.15), como Adão no Gênesis (cf. Gn 2, 23-25) . É a nova Eva, a nova mulher no jardim de Deus. Mas ela precisa renascer (lembremo-nos do que São Paulo nos diz sobre nosso Batismo: cf. Rm 6), pois “ainda não percebe que é Jesus”, ali, diante dela (v14). De repente, dá- se o reconhecimento (cf. Gn 2, 23-25): “Maria” (v16), e ela: “Rabbuní” (meu Mestre), e lançou-se para abraçá-Lo, ainda não “percebia” e “não tinha compreendido” (v14.9). Como os demais, pensava ela que, superado o susto, se retomava, finalmente, a antiga amizade. Jesus, porém, a afasta e com paciência explica: “Eu estou subindo para junto do meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (v17), com isto estabelece um vínculo de comunhão muito íntimo com o grupo: o mesmo Pai e mesmo Deus. E agora se estabelece uma nova relação: “Vá encontrar os meus irmãos e diga…” (v17). A irmandade com Jesus se estabelece agora com nossa vocação para proclamar que Ele vive, anunciar: “Eu vi o Senhor”, eu percebi Jesus em vestes de Deus (v18).

Quando Maria Madalena pode dizer “Eu vi o Senhor” é que sua visão se alargou e se tornou mais profunda. Ela vê o que muito gente é incapaz de enxergar, pois vê além das aparências, para além dos véus de nossa condição terrena. Ela se torna realmente membro do povo de Deus, pois, como Moisés, o líder da libertação do povo, “caminha como se visse o invisível” (Hb 11, 27). Outra dimensão do mundo e da vida se lhe revela, já não procura Jesus entre os mortos (cf. Lc 24, 5). Se Deus é Pai de Jesus e nosso, Deus de Jesus e nosso; se Jesus se diz nosso irmão (v17), então é possível dizer como o Apóstolo São Paulo: “Somos um só corpo com Ele” (cf. 1Cor 12-14), se a cabeça do corpo já está nos céus, é sinal de que nós também “já estamos assentados nos céus”.

Muita gente, até na Igreja, pensa assim: estamos nesta terra de dor e sofrimento para um dia entrar no céu. Ora, o céu é Deus conosco. Há um salmo que canta: “Que me interessa a terra, que me interessa o céu, se estou contigo?” Quantas vezes as pessoas enamoradas não dizem: “Quando estou com você, sinto que já estou no céu”. O céu é estar com quem a gente ama. Se Deus está conosco, se Jesus está vivo entre nós, já estamos nos céus. São os céus que descem à terra e esta começa a ter um jeito novo de ser. Por isso, anunciar que Jesus está vivo não é apenas “dizer” a notícia, é dizer e mostrar com gestos e sinais que Ele realmente está vivo porque mudou nossa vida. Nosso lugar na terra está sendo invadido pelo jeito do céu. Os amigos e amigas de Jesus se transformaram, como nos diz São Pedro nos Atos dos Apóstolos (cf. At 2, 14-36; 3, 11-26; 10, 34-43). Tornaram-se homens e mulheres novos, fortes em palavras e ações (cf. At 2; 3, 1-10; 4, 1-22. 23-31. 32-37). Basta ver a extrema coragem de Estêvão de enfrentar os poderosos inimigos da religião e da política (cf. At 6 e 7). E a transformação da vida de São Paulo (cf. At 9, 1-30).

Se somos batizados(as), quer dizer, mergulhados(as) na morte e na ressurreição de Jesus, é para formar um só corpo com Ele. Se Ele é o novo Homem, nosso irmão, jardineiro do jardim de Deus, está clara qual é nossa missão neste mundo. Foi o que nos recordou durante todas estas semanas a Campanha da Fraternidade Ecumênica: se temos compromisso com Deus, Igrejas e religiões, temos de estar firmes na certeza de que é Ele o princípio da transformação de todas as coisas porque é o Criador de tudo, “o Amigo da vida”, como nos diz a Bíblia (cf. Sb 11, 26; Rm 8).

A Igreja nos guia na descoberta de nossa vocação

Como tornar isso verdade em nosso dia a dia nos tempos de hoje? A Igreja nos indica claramente a direção e essa direção devemos guardá-la no coração, saber “de cor”, “cor” quer dizer coração, devemos gravar em nossos corações:

  1. Ao aceitar Jesus como Salvador e guia de nosso caminho de vida (cf. Jo 14, 6), ficamos sabendo de nossa excelsa DIGNIDADE: somos filhos e filhas de Deus, somos pessoas livres, não devemos aceitar sujeição e desprezo, com esta certeza já começa o céu na terra, pois a terra começa a ficar mais parecida com o céu, sem opressão, nem injustiça;
  2. Mas essa transformação só é possível na vida de COMUNIDADE, onde a gente se torna irmão e irmã e se ajuda e vive em igualdade como família de Deus. Quem se aparta perde a dignidade, pois não reconhece a dignidade das outras pessoas; quem não reconhece já está aceitando não ser reconhecido;
  3. Mas Jesus não nos reúne apenas para sermos uma irmandade entre nós, Ele veio para que todas as pessoas saibam da sua dignidade e de que o caminho é a comunidade. Por isso, a comunidade tem de transbordar num grande “MUTIRÃO DO BEM”. Diz-nos o Apóstolo São Pedro que Deus não quer excluir ninguém, “não faz diferença entre as pessoas, em qualquer lugar e povo quem O ama e pratica a justiça é agradável a Seus olhos” (At 10, 34-35). Isto quer dizer que temos de nos unir com todas as pessoas e organizações que querem mudar este mundo. A Campanha da Fraternidade Ecumênica bateu fortemente nesta tecla: Igrejas, religiões, associações, organizações, “governo e povo”, todo o mundo agindo em conjunto no grande mutirão do bem para mudar tanto lixo em jardim;
  4. E como fazer? A Igreja, com a luz da Bíblia e de sua própria experiência, nos indica a direção: temos de nos juntar para ajudar quem necessita de ser socorrido por “serviços de amor”: pessoas mais pobres, até miseráveis e excluídas, enfermas, idosas, abandonadas, com deficiência, encarceradas, solitárias, migrantes sem terra e sem pátria, desesperadas… O primeiro passo do mutirão do bem é a SOLIDARIEDADE com quem necessita de auxílio;
  5. Mas não é o bastante. Só existem essas pessoas tão necessitadas porque falta justiça, pois é a JUSTIÇA que garante a igualdade e a dignidade das pessoas. Pensemos que 99% dos recursos da terra estão nas mãos de apenas 1% das pessoas! Por isso é preciso “lutar para transformar as estruturas injustas da sociedade”. E para isso a luta política é condição fundamental: organizar-nos, analisar nossa situação, saber o que é preciso fazer para melhorar nossa cidade; perceber quem está interessado em lutar por isso; lutar para tirar do poder quem só pensa no próprio bolso e se aproveita do povo e até rouba o dinheiro público. Precisamos eleger políticos que tenham a cara do povo e defendam os projetos que favorecem o povo, de saúde, alimentação, moradia, educação, segurança, políticas públicas de melhoria da condição da maioria da população. Devemos trabalhar na construção da democracia participativa e não podemos deixar de fiscalizar quem está no poder;
  6. É preciso ainda mais. A criação está sendo maltratada, a vida está ferida: a terra, as águas, o ar, as florestas, as águas servidas não são tratadas (saneamento básico), o lixo não é tratado, os alimentos estão cheios de veneno, as sementes e os animais são alterados para dar mais lucro a seus donos… a terra está enferma e nós cada vez mais doentes com ela. Já notaram o exagerado número de farmácias a nosso redor? ECO-LOGIA quer dizer respeitar a “lógica da casa”, as leis da Natureza e da vida. E a Natureza já dá sinais de revolta e pode nos destruir. Por isso, junto com a luta pela justiça tem de haver o CUIDADO com a criação de Deus;
  7. Finalmente, temos de ajudar as pessoas e os povos a resolver seus conflitos e brigas, não com a inimizade e a violência, a guerra e a morte, mas com o diálogo, para que, com sentimento de compaixão por todos os seres do universo, possamos estabelecer e garantir a PAZ.

Imensa tarefa, nossa tarefa é a mesma tarefa de Deus, fazer deste mundo um jardim, é recriação. Nossa força tem de ser a mesma força de Deus. Se Jesus “verdadeiramente ressuscitou”, e se nós O aceitamos como nosso guia no caminho, somos homens e mulheres novos, somos instrumentos de Deus para transformar este mundo em jardim de Deus, nossa “casa comum”. Se Jesus verdadeiramente ressuscitou, temos conosco a força do céu para lutar na terra. Se lutarmos em união, no grande mutirão do bem, seremos invencíveis, porque a Bíblia nos diz que em nós, aparentemente ignorantes e fracos, está a sabedoria e a força de Deus (cf. 1Cor 1, 17-31). Evangelizar é anunciar o Evangelho como Palavra de Deus que desmascara a mentira dos sistemas do mundo: pela cruz Deus revelou Sua solidariedade com quem se acha crucificado pelos poderes do mundo (1Cor 1, 17-25). Quando o povo sabe disso, se une e decide o que quer, não há poder que resista. Ah! Se chegarmos a ser um corpo só na Solidariedade, na luta pela Justiça, no Cuidado com a criação, na luta pela Paz! Aí, sim, é que seremos mesmo o Povo de Deus. E isto é possível. Porque Jesus ressuscitou, podemos ser “novas criaturas”. Que Deus nos encha de Sua sabedoria e de Sua força! Amém, Aleluia!

About Sebastião Armando (176 Articles)
<p>Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber<br /> to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema “Evangelização”, convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social (“Casa Ecumênica – Crer & Ser”) com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.</p>