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Uma Experiência Popular de Educação Teológica: O Centro de Estudos Bíblicos – Cebi

logo_cebi.fwassembleia CebiAs Raízes

              No século XX a Igreja cristã experimentou em seu seio o brotar de importantes movimentos de renovação. Até a metade do século, prevalentemente na Europa. A partir dos anos sessenta, começam a mostrar a própria face as Igrejas da África e da Ásia, e também de nossa querida Afroameríndia, particularmente desde o Concílio Vaticano II e a marcante Conferência Geral de Medellín, do episcopado católico romano continental.

             O século XIX havia sido de luta contra o Racionalismo, fruto do movimento iluminista que punha na luz da razão toda a esperança de felicidade humana. No Catolicismo Romano, privilegiara-se a apologética na Teologia e se havia chegado ao Concílio Vaticano Iº com a proclamação da infalibilidade do Papa e de seu poder universal sobre toda a Igreja, evidente compensação pela perda dos “Estados Pontifícios” e a humilhação do papado, derrotado politicamente. Na pessoa do Papa se concentrava, então, toda a iniciativa doutrinal e a defesa dos chamados “princípios católicos”. No Protestantismo se elaborara o que ficou conhecido como “ortodoxia protestante” e as Igrejas da Reforma, que proclamara a “liberdade do cristão” e recordara à Igreja o sacerdócio comum a todas as pessoas crentes, não escapavam do clericalismo e da rigidez doutrinal e organizacional.  Particularmente a Igreja Romana, desde o Concílio de Trento, no século XVI, se tinha posto normalmente na defensiva e em atitude conservadora, fechada no sonho de manter a cultura e as estruturas medievais, tanto frente ao Protestantismo, como a tudo o que significasse Modernidade.

              O século XX, com as duas guerras mundiais, a crise do Colonialismo e a crescente consciência da injustiça estrutural, denunciada sobretudo pelo Socialismo marxista, chegava, por seu lado, como um tempo de intenso “movimento”:

  1. Movimento Litúrgico; Movimento de Redescoberta da Patrística; Movimento Ecumênico; Movimento de Participação ativa do Laicato; Movimento Social; Movimento Missionário.

Todos esses movimentos promoveram de qualquer modo o acesso do povo católico-romano à Bíblia. Mas também houve um explícito Movimento de Renovação Bíblica, nos vários níveis, desde grandes e renomadas universidade ou faculdades (é famosa a Escola Bíblica de Jerusalém) até as paróquias. Não se pode esquecer o pioneirismo da França com Richard Simon, a chamar a atenção para o estudo crítico, subsidiado pelas ciências,  do texto sagrado. No Brasil, por exemplo, têm sido já tradicionais as Semanas Bíblicas, o Domingo da Bíblia (protestante) no período de Advento e o Mês da Bíblia (católico) em Setembro. No espaço protestante, foi o tempo da grande pesquisa bíblica, promovida especialmente pelas universidades alemães, que tem marcado a exegese bíblica até os dias de hoje.

  1. A chamada Ação Católica Especializada, sobretudo Operária e Universitária (daí surgiram figuras como Betinho, Frei Betto, Marina Bandeira, Leda Alves, grandes lideranças operárias, por exemplo, e durante a ditadura brasileira a “Ação Popular”…) punha a Igreja em relação direta com as bases da sociedade em seus diversos ambientes (camponês, operário, estudantil, universitário, independente), com o protagonismo evangelizador do laicato e a elaboração de um método indutivo de espiritualidade, de reflexão e de ação apostólica – VER, JULGAR e AGIR, que tem seu ponto de partida na realidade coletiva da sociedade, e ultrapassa o método simplesmente dedutivo e os “argumentos de autoridade” a que a Igreja estava há séculos habituada.
  1. Alguns movimentos manifestavam novo momento de ação política do povo cristão, sobretudo de sua elite mais consciente, e deram novos olhos para a vivência da fé e a reflexão teológica, o que aconteceu pela provocação daquilo que se convencionava chamar de “processo pré-revolucionário brasileiro”, nos anos 50 e 60: nesse processo, muitas lideranças cristãs participaram ativamente e ficou famoso o chamado processo de Educação de Base, assumido oficialmente pelo poder público mediante o Movimento de Educação de Base (MEB), e a criação do conhecido “Método Paulo Freire”; tivemos a famosa “Conferência do Nordeste”, realizada no Recife, evento marcante de chamamento do mundo evangélico a engajar-se na realidade social, cultural e política do país.
  1. Do ponto de vista mais amplo e mais universal, tivemos a consolidação do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) e sua aliança com movimentos de libertação, sobretudo na África, favorecidos com recursos financeiros e com pessoas para projetos de promoção social e educacional. Nesse período, Paulo Freire, exilado do país durante a ditadura militar, foi contratado pelo CMI para colaborar em processos de educação em países da África e promover a reflexão junto ao próprio Conselho.
  1. No campo propriamente da elaboração teológica, não se pode esquecer o Movimento de Missão Integral da Igreja, impulsionado pelos congressos de Lausanne e precedido pelo Movimento de Missões Mundiais que tinha levado à criação do próprio CMI. Houve também a célebre já citada Conferência Geral de Medellín em 1978. No mesmo fluxo de inspiração do Espírito, mediante a fermentação na realidade, tivemos a Teologia da Libertação, surgida do movimento pastoral e político da Corrente da Libertação, e cujo início se deu, quase simultaneamente, na área protestante e na católica. Um dos seus símbolos iniciais foi o Seminário Presbiteriano de Campinas, com o teólogo norte-americano Richard Shaul. Daí é que saiu Rubem Alves, com seu livro “Teologia da Esperança Humana”. Gustavo Gutierrez, do Peru, logo em seguida, lançava o livro “Teología de la Liberación”, fruto de sua própria práxis de capelão universitário conhecedor das periferias dos pobres, e dos encontros de diálogo com outros teólogos e bispos do Continente. Finalmente, não se pode esquecer que o fato marcante na Corrente da Libertação foi o surgimento das chamadas Comunidades Eclesiais de Base, o fértil chão do qual surgiam variadas iniciativas de encontro, diálogo e luta da Igreja dos Pobres com o mundo marcado pela opressão e a injustiça, fenômeno que dava suporte à Teologia da Libertação e influenciou a Igreja universal. É suficiente considerar que, mesmo debaixo de todas as reservas, até o papado se sentiu provocado a fazer afirmações surpreendentes para muita gente: João Paulo II chegou a dizer que Teologia da Libertação, não só era legítima, mas necessária à Igreja. E Bento XVI afirmou, de maneira ainda mais forte, que a “opção pelos pobres” é dimensão intrínseca da Cristologia, pois Jesus revelara Deus a partir dos pobres.

O Centro De Estudos Bíblicos – Cebi

É aí, por entre esses tantos veios d’água, que se fincam as raízes de uma experiência brasileira de educação teológica popular, que se chama Centro de Estudos Bíblicos- CEBI, entidade interdenominacional, presente em todos os estados do país, existente há mais de trinta anos.

Nasceu na época da ditadura civil-militar para animar a espiritualidade das muitas comunidades espalhadas pelo Brasil afora e das pastorais sociais, de forte conteúdo profético, muitas delas perigosamente ameaçadas pelo regime autoritário e repressor. Sobretudo pastores e lideranças leigas protestantes insistiam em que o trabalho bíblico que andava a fazer Frei Carlos Mesters pelo Brasil afora pudesse ser compartilhado, tivesse discípulos(as) e fosse potenciado. O instrumento para isso seria um centro de estudos bíblicos interdenominacional, ou seja, de caráter ecumênico, e dedicado à releitura da Bíblia, muito perto da vida sofrida do povo que crescia em consciência de participação política. A chave teológica, ou o pano de fundo, seriam as imagens bíblicas de Povo e de  Reino de Deus a serviço do qual tem de estar a Igreja; a vivência em comunidade seria o solo imediato da releitura da Bíblia; a visão seria perceber que a Palavra de Deus é atual, se experimenta na vida, cujo horizonte é a realidade concreta do povo, sobretudo dos mais pobres, em todas as dimensões desde relações interpessoais até estruturas sociais e políticas; não haveria como fugir da perspectiva da Profecia e do testemunho de Jesus: Deus se revela a partir de sua criação e de intervenções na história, com o compromisso, firmado em indestrutível aliança, de transformar a vida das pessoas e dos povos, de tal forma que se chegue a enxugar toda lágrima… que a ressurreição já se experimente na alegria de viver, com a submissão das potestades opressoras à soberania de Cristo.

Os processos de educação no CEBI se desenvolvem a modo de uma grande “universidade popular” em muitos níveis: círculo bíblico, em comunidades; escolas bíblicas para a formação de animadores e animadoras de base; encontros de formação; escolas bíblicas de obreiros e obreiras; cursos de aprofundamento variados; cursos de nível universitário (p.ex. Extensivo e Intensivo); especialização em nível de pós-graduação. Não se trata, porém, de uma pirâmide, mas esses níveis se intercomunicam: exegetas leem a Bíblia junto com pessoas do povo; “agentes de pastoral” participam de equipes de trabalho e de estudo com gente da base; poetas populares, homens e mulheres, sem formação acadêmica, chegam até a publicar livros e, assim, partilhar suas experiências de encontro com a Palavra de Deus na vida do povo…

Marcas da Leitura Popular e Comunitária da Bíblia

A Bíblia é percebida como instrumento fundamental de animação da espiritualidade popular. Na Corrente da Libertação, se deu a redescoberta da categoria bíblica DABAR, entendida não como “logos”, discurso, mas como PRAXIS, para compreender a vida cristã (para isso foi de grande ajuda o diálogo com o Marxismo, pois não devemos esquecer que Marx era judeu, neto de rabino, portanto com a Bíblia nas veias). Na reflexão teológica se dava um deslocamento de eixo: da Igreja ao Reino de Deus; da doutrina eclesiástica à PROFECIA como julgamento de Deus sobre os sistemas, quer eclesiásticos quer político-sociais; da ênfase na doutrina à experiência do Evangelho como Boa Nova capaz de transformar a vida e comunicar esperança. O povo comum se descobriu como sujeito da leitura bíblica e do conhecimento, que não podem ser privativos das elites eclesiásticas. Tivemos a grata surpresa de perceber que o “Método Paulo Freire” revela profunda coincidência com a pedagogia de Jesus na Caminhada com os discípulos de Emaús, o texto de Lucas 24 tornava-se paradigmático para compreender o método do CEBI..

O que é a Leitura Popular e Comunitária da Bíblia?

É reler a Bíblia na perspectiva da vida do povo, sobretudo da maioria mais pobre, esse grande e amplo horizonte hermenêutico (a VISÃO decorre da “opção pelos pobres”); é reler a Bíblia junto com o povo (gesto de COMUNHÃO); é reler a Bíblia dando atenção à leitura que o povo mesmo faz (gesto de ESCUTA).

Trata-se do “livre exame”, porém não mais entendido como simples direito individual (“libertas christiani”), mas comunitário, tendo como base o “sacerdócio comum do povo de Deus” e a convicção de que o Espírito guia a Igreja enquanto comunidade reunida em nome de Jesus, depositária do “sensus fidelium” que brota do “sensus fidei”, ou seja, o “consenso dos fiéis” tem sua raiz no “instinto da fé”. Trata-se de leitura em rede, a saber, o diálogo, às vezes até o conflito de interpretações, no seio de cada comunidade, e o diálogo mais amplo das comunidades entre si, incluindo a diversidade interdenominacional, sempre na perspectiva de crescer em unidade na diversidade, segundo a bela admoestação de Santo Agostinho: “No essencial, unidade; no secundário, liberdade; em tudo, caridade”

 Há como uma fusão de duas perspectivas: a católica, com a valorização da TRADIÇÂO compreendida, com ajuda da Antropologia e da Sociologia, como atenção à Vida, à história, ao processo da sociedade, e já não exclusivamente à “pura” Palavra, pois tal “pureza” não passa de ilusão; e a perspectiva protestante, o “livre exame das ESCRITURAS”, só que em comunidade, superando-se o individualismo. Dessa forma, a Bíblia, lida no contexto da experiência pessoal, no seio da vida comunitária da Igreja e em diálogo com os grandes desafios da sociedade, pode, então, ressoar como Palavra viva do Deus vivo que nos anuncia agora a Boa Nova e nos interpela com seu Julgamento inapelável. A Palavra do Deus vivo em nossa vida, com diligente atenção ao texto bíblico, decerto, mas percebendo-o como instrumento pedagógico que vem afinar nossos olhos e ouvidos a perceberem por onde Deus está a passar e o que nos está a dizer no momento atual de nossa vida de pessoas e de povo, de acordo com os princípios hermenêuticos trazidos pela  segunda Epístola aos Coríntios, capítulo terceiro..

Devemos reconhecer que há dois espaços privilegiados de educação teológica popular: a Liturgia e a leitura da Bíblia, pois têm como referência dois campos muito concretos com os quais o povo está em contacto imediato: o culto comunitário e o texto bíblico, lido pessoalmente e em grupo.

Ora, nos processos de educação popular há alguns princípios metodológicos que os caracterizam: aprender fazendo, a centralidade do corpo em ação no processo educativo; cada pessoa é sujeito do processo de aprendizagem (“e-ducar” é conduzir a partir de dentro, das potencialidades da pessoa); o princípio básico é o da participação coletiva; pratica-se outro conceito de “ciência”, não como discurso complicado e elitista, mas como toda palavra correta sobre a realidade; a relação estreita e imediata com a VIDA em suas várias dimensões, desde a economia até a religião, passando pelas relações e estruturas sociais, políticas e culturais; o papel de assessoria que ajuda a caminhar, não de “professor” que impõe suas teses; o débito e a lealdade dos intelectuais para com o povo, devolvendo-lhe aquilo a que tem direito, inclusive porque é o povo trabalhador que sustenta os “privilégios” de quem ascende às universidades; espiritualidade de adoração, comunhão e serviço; permanente abertura ao Espírito.

Dimensões ou Princípios da Leitura

  1. atenção à vida: leitura militante, não eclesiástica, mas profética, “política”, na perspectiva do Reino de Deus;
  2. atenção ao texto: leitura literal, exegética, científica, que leva seriamente em conta os procedimentos já testados na ciência exegética: crítica textual, crítica literária, crítica histórica, crítica das formas, crítica da tradição, crítica da redação, análise literária ou retórica e estrutural, assim como análise sociológica e até psicológica. Em outras palavras, penetrar o texto com ajuda das ciências da literatura, da história, da análise da sociedade, incluindo Antropologia e Psicologia.
  3. atenção ao contexto – leitura contextual: contexto de produção (crítica científica do texto e de sua origem) e contexto de leitura, ou seja, autocrítica do leitor, identificação de seu lugar social, de sua formação social e os desafios de seu tempo – para isso é importante a contribuição da Arqueologia, da Antropologia, da História, da Sociologia, da Psicologia;
  4. atenção às relações de gênero como condicionamento de percepção do texto – leitura de gênero: dado o milenar machismo nas relações entre as pessoas e tendo em conta que a relação homem-mulher é a relação elementar na humanidade, faz-se necessário ter atenção particular a como esse condicionamento se transpõe e transparece nos textos e na leitura, e pode desviar a mensagem de seu núcleo essencial e mais profundo que é a igualdade na realização da “imagem de Deus” na criação;
  5. leitura crente: contemplativa e celebrativa das obras de Deus na história das pessoas e do povo enquanto coletividade histórica, desde a economia até religião;
  6. atenção à comunidade – leitura comunitária: eclesial, tradicional (a interpretação da Bíblia ao longo da vida da Igreja), ecumênica (intercâmbio das diferentes perspectivas das várias tradições cristãs);
  7. atenção à experiência – leitura por conaturalidade: sintonia profunda com a experiência geradora do testemunho gravado no texto – mística e profecia (cf. 2Cor 3).

                Pode-se representar tudo isto naquilo que costumamos chamar de triângulo hermenêutico: no centro do triângulo está o texto bíblico, pois é esse que queremos interpretar para escutar em nossa vida a Palavra atual de Deus. A interpretação, porém, passa através de três ângulos: a experiência de cada pessoa que lê, sua vivência mística da filiação divina e sua experiência de inserção no mundo; a vida da comunidade que carrega a Tradição da fé, a qual lhe dá identidade na história; a sociedade mais ampla com seus desafios sempre novos e de toda ordem. Assim, desse diálogo entre o texto e a realidade da vida, surge a percepção da Palavra hoje, como faísca que brota do atrito das pedras. Outra maneira de dizer a mesma coisa é usar a terminologia  católica tradicional, tão cara ao Anglicanismo: a leitura da Bíblia se faz tendo em conta a Experiência (pessoa), a Tradição (identidade eclesial comunitária) e a Razão (os desafios que surgem da vida em sociedade e da razão humana, inclusive da razão científica):

triangulos_hermeeuticos

 Fundamentos da Leitura Popular e Comunitária. Por que lemos a Bíblia em relação íntima com a vida e de maneira comunitária?

  1. Fundamento teológico – a Trindade divina é diversidade essencialmente “reconciliada” na comunhão originária. Deus, o princípio último da realidade, a causa última de todo ser, não é solidão, mas plena comunhão. Comunhão, participação, parceria, interdependência são o dinamismo mais íntimo de toda a realidade do universo. Apartação, isolamento individualismo, exclusão não passam de perversão e recusa a entrar na corrente do dom e do Amor;
  2. Fundamento cristológico – Jesus, o Messias, é o Servo por definição, de acordo com a famosa síntese contida em Fl 2,1-11. Nele Deus revela a radical solidariedade com a criação, particularmente com os seres humanos. “Ser em Cristo” é formar-se nessa mesma solidariedade, entregar-se a serviço, buscar ser como Cristo, sentir com Ele e como Ele e “ter a mente de Cristo”;
  3. Fudamento eclesiológico – Igreja é “sacramento da unidade com Deus e da unidade humana” (Const. LG, Conc. Vat. II), comunhão no Espírito, não só na própria comunidade, internamente, mas em dimensão ecumênica e aberta à totalidade do universo, mediante a compaixão por todos os seres criados, que é a fonte da paz universal;
  4. Fundamento gnoseológico (Teoria do Conhecimento) – a formação do próprio pensamento entendida como elaboração solitária é pura ilusão. Como, aliás, tudo na vida, também o pensar é essencialmente processo de elaboração coletiva, contribuição de milhões de pessoas e de todas as gerações a cada pessoa, processo que passa pela criatividade e a ampla comunicação, pelo diálogo e até mesmo pelo conflito das interpretações da realidade;
  5. Fundamento político – a leitura comunitária e popular da Bíblia também é coerente com o ideal de construir uma sociedade democrática participativa, na qual as pessoas e os diversos grupos sejam realmente sujeitos ativos da construção social, a começar das maiorias pobres e excluídas. Participação que se deve dar na reflexão, na comunicação, na decisão e na ação;
  6. Fundamento pedagógico – como se disse acima, a leitura bíblica não pode dar-se mediante processo autoritário, mas tem de ser praticada por uma pedagogia que seja verdadeiramente  processo “educativo” (de “e-ducere”= conduzir desde dentro, tirar de dentro), no qual a pessoa é o sujeito da própria aprendizagem e decide seu caminho de vida, provocada a entrar em comunhão com os demais seres humanos. Tal pedagogia tem de promover um método (“méthodos”, caminho) que estimule a participação ativa das pessoas, a criatividade, a troca de saberes mediante a escuta, o diálogo, o enfrentamento de conflitos, de tal modo que o “coletivo” seja ambiente natural de formação e amadurecimento de cada pessoa.

Conclusão

              Na verdade, nestes bem mais de trinta anos, temos tido a grande alegria espiritual de participar de um processo de escuta da Palavra, que se dá mediante a participação ativa das pessoas, a começar das pessoas mais pobres em diversas comunidades, pelo Brasil afora e até para além de nosso país. Eu mesmo considero-o uma das melhores coisas que aconteceram em minha vida. Desde os inícios tenho tido intensa participação na família do CEBI. Como assessor, como membro do Conselho Nacional, como diretor nacional, como coordenador de programas de formação e de estudos. É boa nova e quase incrível pensar que, na “Conferência de Lambeth” 2008, o encontro mundial de todo o episcopado anglicano e de seus cônjuges, que acontece de dez em dez anos, os estudos bíblicos diários eram feitos de acordo com o método da leitura popular e comunitária da Bíblia: pequenos grupos de oito pessoas, atenção ao texto, atenção à vida, comunhão com a realidade dos pobres, plena liberdade de participar e intervir. Este “método do CEBI” chegava ao Anglicanismo mundial através de grupos anglicanos da África do Sul, marcados por seus contactos com nosso Centro de Estudos Bíblicos.

               A Bíblia tem sido tomada como o testemunho clássico da experiência da Palavra ao longo da história do povo de Deus. Através dela, comunica-se a nós hoje as vivências de nossos pais e mães, nossos antepassados na caminhada da fé. É como nos encontrar na seqüência daquela procissão da fé, tão belamente apresentada em Hebreus 11. O texto ilumina a vida e a vida abre ainda mais plenamente o texto. Como se deu com os discípulos e discípulas de Jesus. A nova experiência só podia ser compreendida à luz dos antigos textos da tradição da fé, por isso foram reler as profecias e toda a história libertária de seu povo. Só com a ajuda das Escrituras era possível perceber o que significava Jesus em suas vidas e na vida de seu povo e do mundo. Doutro lado, conviver com Jesus abria o sentido último e mais profundo dos antigos textos. Era, assim, possível entender o que “em última análise” Moisés e os Profetas e os Salmos queriam dizer… Não é disso que nos fala a segunda Epístola aos Coríntios, capítulo 3º, quando estabelece os princípios de interpretação das Escrituras? A Bíblia, lida em íntima relação com a vida e em comunidade, não apenas nos faz “conhecer a Bíblia”, mas, ao mesmo tempo, constrói comunidades. Revela-se, de maneira muito clara e palpável, a eficácia da Palavra de Deus, como nos fala o Apóstolo no início da primeira Carta aos Tessalonicenses. E o povo, fortalecido pela fé e pelo amor fraterno, que fazem brotar a esperança, vai sendo capaz de encontrar “soluções de fé” para os problemas de sua vida tão sofrida. E faz experiência ecumênica, no sentido mais amplo da palavra “ecumenismo”: une-se na busca de “soluções de fé”, indo muito além dos limites das “confissões de fé”, sempre mais estreitas que o exercício vital da práxis da fé, a grande confiança na Fonte da vida, capaz de nos reunir em unidade, muito além de nossa diversidade. Diversidade, sim; “adversidade”, nunca. Como dizia o bom e santo Papa João XXIII: “Não saiam da caridade, para não saírem de Deus!” Só assim, o mundo pode tornar-se efetivamente a casa onde todas as pessoas e todos os povos têm o direito de permanecer (“ecu-menismo”, de “óikos”=casa/ “méno”=permanecer).

Endereço do Centro de Estudos Bíblicos

Rua João Batista de Freitas, 558

Bairro Scharlau – Caixa Postal 1051

93.121-970    São Leopoldo    RS

Fones: (51) 568. 2560 e 568. 3225

E-mail: cebi@terra.com.br

About Sebastião Armando (176 Articles)
<p>Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber<br /> to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema “Evangelização”, convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social (“Casa Ecumênica – Crer & Ser”) com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.</p>