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“Só Senhor é o meu Pastor, nada me faltará”

“Só  Senhor é o meu Pastor, nada me faltará”

(Sermão no 4º Domingo de Páscoa)

  1. bom pastorPor que lemos tantos textos bíblicos? É que, a cada domingo, a liturgia tece uma teia com os textos da Bíblia, constrói novo tecido para que possamos perceber que a Palavra nos chega a partir de variados fios e, assim, possamos ter a experiência atual de ver iluminada nossa vida hoje ao enxergar diversos pontos de luz que nos descobrem o centro: “O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará”, é o centro da celebração de hoje.

Estamos no tempo de Páscoa, sob o impacto de sentir o renovado anúncio de que Jesus está  vivo e hoje o contemplamos como nosso Pastor e Guia – “reconhecer quem nos chama pelo nome e segui-Lo para onde nos conduz”, como oramos na Coleta do Dia.

  1. Atos dos Apóstolos (9, 36-43) nos traz típica situação vivida em comunidade – uma mulher às portas da morte, e enfatiza com cores muito vivas a solidariedade de todos e todas frente a esse evento indesejado: morreu Tabita, a Gazela, artesã da lã e grande benfeitora de gente pobre. Todo o mundo a correr e a fazer tudo o que pode para salvar-lhe a vida. Chega Pedro e pela oração consegue restituí-la à vida. Quantas vezes não experimentamos também nós situações como essa? Quantas vezes também nós não temos experimentado livramento e proteção inesperada? Quantas vezes não temos exclamado “só um milagre teria podido resolver o impasse”?  Quantas vezes,  porém, não nos parece que Deus silencia e temos de carregar o pesado fardo de não obter o que desejamos ou pedimos da Vida? O texto sugere a consternação geral, todo o mundo a lamentar a morte de Tabita. O clamor é ouvido e ela é salva da morte na comunidade que a rodeia de amor e gratidão.
  1. Apocalipse (7, 9-17) nos faz contemplar o outro lado: multidão de santos e santas que também oraram para ser salvos da morte, mas estão diante do trono de Deus, depois de ter enfrentado o desfecho final. Sofreram o martírio por causa do caminho que seguiam sob a guia invisível de Jesus. Deus não os salvara da morte, mas até o fim guardaram a promessa de que “toda lágrima será enxugada dos olhos”. Do mesmo modo nos fala a Carta aos Hebreus, capítulo 11.
  1. O Salmo 23 nos dirige ao foco central: “O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará”. Duas imagens constroem o poema: primeiramente, Deus aparece como pastor, guia a paisagens tranquilas e restauradoras; sustenta e protege na travessia de vales tenebrosos, como faz todo pastor na guia de ovelhas; em seguida, Deus assume a figura do hospedeiro, anfitrião que acolhe em sua tenda alguém que vem a correr, perseguido por algum adversário; assim, garante-lhe o direito, naquela cultura, inviolável, de hospitalidade e integridade, oferece-lhe banquete inesperado; a impressão que temos é que o inimigo se mantém à espreita bem defronte da tenda; o hóspede precisa continuar sua caminhada, o anfitrião providencia-lhe escolta para a viagem, “bondade e misericórdia” serão guardacostas a acompanhá-lo e eventualmente defendê-lo de qualquer cilada.
  1. Finalmente o Evangelho (Jo 10, 22-30). Jesus aparece mais uma vez em ambiente de conflito com adversários e aí fala da relação de intimidade com suas ovelhas: “conheço-as e me conhecem, escutam minha voz e Me seguem”. E acrescenta a promessa: “Ninguém as arrebatará de minhas mãos, dou-lhes a vida eterna”. E avança a falar da intimidade com o Pai: “O Pai me deu tudo… Eu e o Pai somos um”, e isto aparece pelas obras que faz “em nome do Pai”, obras que o próprio Pai opera por meio d’Ele.
  1. A intimidade com Deus é o que torna possível fazer as obras de Deus, assimilar o Seu jeito de fazer e, assim, experimentar já agora a vida de Deus, a vida eterna. E qual é a principal obra de Deus neste mundo? É a vida em comunidade, pois só vive realmente em comunidade, quem tem amor e o amor é Deus: “Deus é amor”, diz-nos São João em sua primeira carta. Sim, porque nossa tendência natural e espontânea é o egoísmo. Só o amor nos arranca de nós e nos faz ser para além de nós, isto é transcender-se, ultrapassar-se, e o além de nós é Deus. Ora, a vida em comunidade nos treina  para viver o amor de Deus em nós, que nos abre sempre mais e nos leva além de nós, de nossos interesses, de nossa família, do grupo de amigos e amigas, de nossa Igreja, de nossa roda política, enfim, de nossos mais próximos que sempre estão a nosso redor ou em torno a nossa casa… O amor de Deus em nós nos leva mais longe, a amar o mundo todo que se torna próximo, nos leva até a nossos inimigos(as), como Deus ama o mundo e se entrega em Jesus e em nós, discípulos e discípulas. “Passamos da morte para a vida porque nos amamos como irmãos”.

No começo da caminhada espiritual, quem sabe, prevalece a oração de petição por nós e por outrem. Buscamos influenciar as decisões de Deus em nosso favor e de pessoas que prezamos. Pedimos proteção, saúde, sucesso, bens materiais, mudança de situação, tanta coisa que venha suprir nossas carências. Na medida em que amadurece a intimidade com o Pai e nos assimilamos ao jeito de ser  de Deus, crescemos na oração de adoração, de louvor, de ação de graças e de contemplação, e nos entregamos sempre mais a Deus para ser instrumentos de Sua obra. Já não pretendemos pôr Deus a nosso serviço, antes, nós é que  nos entregamos a Seu serviço e de nós Ele cuidará, como cuidou de Seu Filho, mesmo sem poupá-Lo da cruz…

Pode não acontecer conosco o que se deu com Tabita, salva da morte. Pode ser que não possamos fugir do destino de mártires ou de todas as pessoas que um dia morrem. Mas a intimidade com Deus, o tornar-nos uma só coisa com Ele, faz-nos passar da morte para a vida, a ponto de não mais temer nem mesmo a morte, pois “o perfeito amor lança fora o temor”. Irrealismo ingênuo, pura utopia? Na verdade, a marcha da história está cheia de pessoas que chegaram a viver essa experiência: por amor nada temeram, nem mesmo a morte. Chegaram à certeza íntima e inabalável de que o amor vence a morte, experimentaram já nesta ida a vida eterna. Em verdade, quem morre por amor só se entrega porque no íntimo está certo(a) de que não morre, o amor vence a morte, a vida é eterna.

Deus nos ajude, em nossos medos e fraquezas, a seguir nosso Pastor! “Só o Senhor é meu Pastor, nada me faltará”.

About Sebastião Armando (176 Articles)
<p>Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber<br /> to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema “Evangelização”, convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social (“Casa Ecumênica – Crer & Ser”) com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.</p>