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Semana de Oração pela Unidade Cristã.

  1. semana de oraçãoA partir do diálogo entre um padre católico romano e um reverendo anglicano, há muitos aos atrás, surgiu a idéia de uma semana de oração pela unidade cristã. Depois outras comunidades e denominações foram aderindo à iniciativa. Hoje, no Brasil, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) tem incentivado muito a Semana de Oração pela Unidade como espaço de celebração e de tomada de consciência do mandamento de Jesus: “Sejam um para que o mundo creia!” Este ano a Semana se celebra de 17 a 24 deste mês de maio.

Ao nos reunir para celebrar,  meditar sobre a unidade e orar para que possamos progredir sempre mais no caminho do encontro, reconhecemos que somos diversos(as), diferentes. Marcas de família, de origem local, de lugar de moradia, de classe social, de faixa etária, de profissão, de formação, de nível de instrução, de convicção política, de crença, de ideal de vida… tudo isso nos distingue e nos faz diferentes.

  1. A Bíblia nos convida a refletir sobre diferença e unidade desenhando a nossos olhos duas imagens clássicas opostas: Babel e Pentecostes. Duas imagens conhecidas de muitos e muitas de nós, uma, do livro de Gênese, capítulo 11. no Primeiro Testamento, outra, de Atos dos Apóstolos, capítulo segundo, no Novo Testamento.

BABEL é a capital do antigo império babilônico, símbolo de dominação e opressão. Ali muitos membros do povo da Bíblia viveram exilados e em trabalhos forçados por cinqüenta anos depois que seu país tinha sido derrotado e conquistado. A torre que se constrói para chegar até o céu é a imagem da ambição do poder humano que quer igualar-se a Deus. Todo império se impõe, ou pela força ou pela influência, e deseja abarcar toda a terra. Os povos dominados devem assimilar e adotar sua cultura, costumes e até a língua. Temos entre nós a experiência do império americano que difunde seus tentáculos e seus padrões em todo o mundo. É chic, por exemplo, visitar Nova Iorque e Orlando, fazer compras nos Estados Unidos e até pôr nomes em inglês em nossas coisas: shopping center, fast food, look, sale.. . Acontece isso com todo império. Pretende-se unir todos os povos da terra sob o domínio de um só. Para a Bíblia esse projeto fracassa reiteradamente e os impérios se sucedem. A resistência dos povos está justamente na diferença. A Bíblia expressa isso quando diz que Deus espalha os povos mediante línguas diversas, isto é, culturas diferentes que não permitem a uniformidade nem a conformidade com as imposições dos impérios. A diversidade de línguas é bênção para os povos e castigo para os poderes de dominação. Babel é o projeto da unidade sob o jugo da imposição e da dominação.

PENTECOSTES é a imagem oposta.  A unidade e a aproximação entre os povos se dão pelo entendimento mútuo. Todos continuam a falar sua língua materna, isto é, a preservar suas diferenças culturais e de modos de ser, mas têm a nova capacidade de se compreender entre si. Segundo a Bíblia, essa é obra do Espírito Santo, vento de Deus, que reúne os povos em comunidade. Todos podem entender-se porque há uma linguagem comum, a invocação do santíssimo nome de Jesus, os padrões e critérios do Reino de Deus por Ele anunciados . O projeto de Pentecostes, que pode ser duradouro, é a comunicação, o respeito e o diálogo entre as pessoas e os povos de todo o mundo. A diversidade permanece, não há unificação forçada pelo poder dos mais fortes, mas sim aliança horizontal baseada na solidariedade e na justiça (cf. Epístola aos Efésios). O oposto de Babel.

  1. O Apóstolo São Paulo nos diz que a diversidade entre nós não é, por si mesma, expressão de limitação e desordem, mas, antes de tudo, manifestação da multiforme riqueza e sabedoria do ser de Deus que a nós se comunica mediante Seus dons. Como na Trindade, a diversidade pode ser vivida em plena unidade. Por isso, é preciso distinguir com sabedoria unidade de uniformidade, diversidade de adversidade. Podemos ser diferentes continuando a ser iguais, podemos ser diversos sem necessariamente ser adversos, adversários. O ideal é unidade na diversidade (cf. 1Cor 12-14).

  4. O foco de nossa diversidade é que somos pessoas e cada pessoa é essencialmente um feixe de relações. Nós somos enquanto nos relacionamos, são as relações que formam nossa identidade, desde a mais tenra infância. Além de indivíduo, elementos de uma mesma série (é nosso aspecto de “coisa”), somos pessoa, isto é, realidade única que se forma e se fortalece na relação com outras pessoas e com a totalidade do universo. Assim, a pessoa se forma na diversidade relacional, na referência à alteridade, isto é, na referência a quem é diferente de mim. Cada qual é si mesmo, na medida em que se relaciona com a coletividade das pessoas e dos seres em geral. Outra atitude é narcisismo, enxergar-se como no espelho em tudo o mais, com a ilusão de só ver reproduzida a própria imagem.

  1. O que celebramos esta semana envolve um grave perigo: reunimo-nos uma vez por ano, oramos e jogamos para Deus a responsabilidade de operar a unidade entre nós.  E no restante do ano o que fazemos para nos aproximar e nos tornar mais unidos(as)? O mandamento de Jesus é claro, atribui a nós a responsabilidade de ser um assim como Ele e o Pai são um. Amar-nos uns aos outros é o novo mandamento que nos conforma à obra de Deus em nós, porque Ele já nos amou primeiro (cf. Jo 17). Se uma vez por ano oramos por unidade, mas no restante do ano não operamos unidade, degradamos este momento a evento anual a ser inscrito no folclore religioso da cidade e das Igrejas.
  2. A unidade do povo cristão é possível, necessária e urgente, em Cristo já está dada. . É propósito de Deus revelado na obra de Cristo e na manifestação do Espírito em Pentecostes. Só não se revela plenamente por força dos obstáculos interpostos por nosso próprio pecado. “Ecu-menismo” não pode ser tido como projeto de alguma ou algumas denominações cristãs, mas é na verdade o reconhecimento de que todas as pessoas e todos os povos, com suas diferenças, inclusive religiosas, têm direito de ser e de habitar a terra como casa comum. Todas as pessoas têm o direito de “permanecer na casa”, é isto o que quer dizer “ecumenismo”. Tendo como base esse direito, Ecumenismo tem tudo a ver com “Eco-nomia”, com estabelecer uma lei da casa que seja a serviço de toda a coletividade humana. E tudo a ver com “Eco-logia”, pois essa lei, a Economia, tem de estar de acordo com a lógica da casa. Por isso, na base do movimento das Igrejas cristãs para crescer em unidade e colaboração fraterna, há um projeto imensamente mais amplo, o da unidade humana e da cultura da paz para a felicidade das pessoas e dos povos, o “xalôm” de que nos fala a Bíblia. Nossas divisões só enfraquecem o povo. Em vez de a fé cristã favorecer a união das pessoas e associações nos bairros em vista da afirmação da cidadania e das melhorias das condições de vida, ao favorecer discussões religiosas e animosidade mútua, estamos, de fato,  a favorecer conflitos e separações motivadas por coisas secundárias, já no interior da casa das famílias. A que servem nossas divisões? A quem servem nossas divisões? É pergunta para profundo e honesto exame de consciência de nós, lideranças da Igreja. Nossos gestos, mesmo religiosos e eclesiásticos, têm sempre um grave peso político.

Um antigo bispo anglicano de nossa Diocese costumava dizer: “Continuamos divididos por razões de mortos, enquanto o povo vivo de hoje nos dá todas as razões para nos unirmos”.

Dom Helder Camara, um homem que foi além de todas as fronteiras, inclusive denominacionais, disse certa vez: “Quando nós, as Igrejas cristãs, resolvermos assumir realmente as preocupações de Deus, que são as questões que dizem respeito à vida de Seu povo, então sentiremos vergonha de nossas divisões, pois as veremos tão pequenas e mesquinhas”. E eu mesmo costumo dizer: “O povo não nos pergunta primeiro por confissões de fé, mas por soluções de fé”. Ecumenismo, unidade cristã é projeto de fé, propósito de Deus na criação, revelado na cruz de Cristo, objeto de sua oração derradeira e obra constante do Espírito Santo; e é projeto político para fortalecer o povo e ajudá-lo a sair da miséria e da opressão em que se acha até hoje. Imaginemos a Igreja cristã chegar a um projeto comum de mobilização de nossa gente, esse projeto seria invencível (o “Ficha Limpa” é só pequena amostra…). É isto o que Deus quer. Impossível a nós? Impossível só por causa de nosso pecado, motivo de vergonha, de penitência e de conversão a nova maneira de ser e de agir: “Não vos conformeis às estruturas do sistema deste mundo, mas transformai-vos desde o íntimo de vossos sentimentos e pensamentos para discernir qual sejá a vontade de Deus” (Rm. 12, 1-2).

  1. Que fazer? Qual o caminho a seguir? Ouso sugerir uma caminhada em cinco passos:

a) tudo tem de começar por relações de amizade e de mútuo conhecimento entre pessoas e entre comunidades. Quando pessoas se conhecem e se relacionam em base à confiança mútua, imagens e fantasias se dissolvem, estereótipos e preconceitos caem; descobrimo-nos simplesmente como seres humanos, portadores de dons a oferecer e carências a preencher;

b) daí, pôr-nos em comum a escutar os desafios que a sociedade lança hoje à Igreja, como ato de amor ao mundo, que é de Deus (exercício de compaixão) e de comunhão entre nós, para chegar a elaborar uma VISÂO comum da sociedade e de nossa AÇÃO como resposta;

c) orar em comum como eco e associação à prece de Jesus, na busca de partilhar a visão e as preocupações de Deus – o que seria realmente uma “oração bíblica”, fundada na escuta comum, na meditação e no estudo do testemunho da Palavra, para aprender com nossos pais e mães na caminhada da fé;

d) partilhar entre nós, com sentimento positivo e espírito de acolhida, o conhecimento de tradições diferentes e conhecer-nos de maneira imediata, franca e leal;

e) só então dispor-nos ao diálogo teológico e doutrinal, com paciência e redobrada atenção, para perceber mais profundamente entre nós as razões e as riquezas de compreensão do mistério cristão e, assim, compreender melhor por que temos, eventualmente, formulações diferentes para os mesmos mistérios em que cremos. E não esquecer que nossas diferenças e discordâncias têm muito a ver com a história que temos percorrido, pois não há teologia fora da história.

8. Por que somos desunidos(as)? É que ainda somos infantis e inseguros; como pessoas e como instituições carecemos de maturidade humana e espiritual. Jesus o sabia muito bem. Por isso nos alertou insistentemente a respeito do desejo de poder e do desejo de riquezas. Constantemente temos necessidade e dever de avaliar a quantas andam nossa relação de posse com as coisas e nossa relação de apropriação do poder sobre as pessoas. O caminho proposto por Jesus é claro: o da partilha das coisas e o do serviço entre as pessoas. Temos de crescer, não podemos ficar aí como crianças afetivamente carentes que se agarram ao brinquedo e não aceitam partilhá-lo.

Por que não sair da Semana de Oração pela Unidade com a decisão de uma iniciativa concreta? Com nova ousadia tenho a confiança de sugerir: constituir um fórum permanente com encontros periódicos (digamos, uma vez por mês ou uma vez a cada dois meses) de pessoas de diferentes denominações cristãs. Não chegaríamos aí como representantes oficiais de nossas Igrejas, mas simplesmente como pessoas que buscam ser amigas e chegam em próprio nome e desejam em conjunto prosseguir seguindo, quem sabe, o roteiro dos cinco pontos da caminhada há pouco mencionados. Seria um simples espaço fraterno para crescermos juntos na vontade de Deus, no desejo de Jesus e sob o impulso do Espírito Santo. Está lançado, não sei se diria melhor, o convite ou o desafio. Que Deus nos ajude e tenha misericórdia de nós!

About Sebastião Armando (170 Articles)
Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema "Evangelização", convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social ("Casa Ecumênica - Crer & Ser") com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.