Novidades

Responsabilidade ou Mordomia Cristã

meioambiente

Responsabilidade ou Mordomia Cristã

Cada qual dê conforme decidiu em seu coração, sem pena nem constrangimento, pois Deus ama quem dá com alegria”(2 Cor 9,7)

  1. CONVITE

Quem sabe, este período da Quaresma seja particularmente oportuno para orar, refletir e conversar sobre o tema de tal modo que nos preparemos devidamente para compreender melhor o chamado que nos é feito quando se diz que somos “responsáveis” pela Casa Comum.

Estamos entrando no grande “retiro” quaresmal em preparação ao momento culminante do Ano Litúrgico, a celebração Páscoa da Ressurreição. Este período deve ser especialmente dedicado à prática da oração e da avaliação de comportamentos (exame de consciência), de tal modo que seja possível corrigir rumos e nos decidir por um estilo de vida mais austero e generoso, aberto à comunhão interpessoal, à partilha dos bens e ao compromisso pela transformação da sociedade. É isto de que se trata quando a tradição cristã na Quaresma, nos lembra a oração, a penitencia, o jejum e a esmola. Intensificar a prática da oração é buscar com mais empenho escutar a Palavra de Deus no silêncio do coração e perceber com mais clareza qual o propósito de Sua vontade em nossas vidas. Penitência ou conversão é voltar ainda mais nossos caminhos na direção de Deus, examinar por onde estamos andando, quais os critérios que nos guiam e qual tem sido o jeito de nos comportar em nosso quotidiano. Jejuar é privar-se renunciar, abster-se. Nossa sociedade atual é meramente permissiva, consumista, estimula a busca do supérfluo e do secundário, em detrimento do que é realmente necessário e essencial. “Jejuar” é voltar ao essencial, ao necessário, priorizar o que é de fato principal na vida. É testemunhar que o ser é mais importante do que o ter, que as relações com as coisas têm de estar a serviço das relações entre as pessoas para tornar possível a experiência de felicidade em nós e em torno de nós.

Esmola” não pode ser entendida apenas como estender a mão e dar auxílio a alguém. A palavra “esmola” vem de um termo grego que quer dizer misericórdia, compaixão, solidariedade. O gesto de ajudar alguém deve manifestar, através de nosso corpo e de nossos bens, que o coração está procurando sentir o sofrimento alheio (miseri-córdia = o coração sente a angústia e a miséria de outrem). Trata-se de solidariedade, de fazer-se sócio a ponto de formar com a pessoa necessitada um só corpo, um único “sólido”. É compartilhar a paixão, o sofrimento: compaixão, “padecer com”. O Evangelho segundo Mateus fala de “esmola” como sinônimo de “fazer justiça” (Mt 6,1-2). Aqui está o sentido do nosso “jejum”: optamos por um estilo de vida mais austero para economizar e poder partilhar com quem necessita mais e, assim, contribuir para que se faça justiça na terra. “Jejuar” é o termo tradicional para designar o pressuposto de uma economia solidária, buscada na fraternidade, na partilha e no estabelecimento de relações e de estruturas de justiça (cf. Is 58). Temos de sentir isto com a urgência e a obrigatoriedade que têm os mandamentos de Deus: vivemos num país com milhões de miseráveis, que chegam a cerca de 1 bilhão e meio no mundo todo, irmãos e irmãs nossos, filhos e filhas de Deus como nós, com igual direito à vida e à dignidade. Que escândalo: 1% das pessoas possui 99% da riqueza do mundo, restando 1% dos bens da terra para ser dividido (e ainda de maneira iníqua) por 99% da população mundial! Depois da luta de tantas gerações em favor da justiça, estamos em situação de desigualdade ainda muito pior que antes. Que tragédia, que vergonha!

2. SOMOS IGREJA

Igreja não é uma mera associação de pessoas que se reúnem por certos interesses religiosos: ter um local de encontro, cumprir atos devocionais, batizar-se, casar-se e enterrar-se sob supostas  bênçãos de Deus. Não é uma simples corporação de sócios contribuintes, como acontece com os clubes sociais. Não se trata de contribuir com bens materiais pelo interesse de receber benefícios e bênçãos espirituais, como insinua a herética “teologia da prosperidade”. Só existe Igreja quando as pessoas se sentem chamadas por Deus a se juntar com outras pessoas, em nome de Cristo (cf. 1Cor 1,1-3). Para que? Para escutar a Palavra e apreender a caminhar imitando a vida de Jesus; para formar comunidade, vivendo em comunhão (comum-união), isto é, como se cada pessoa fosse parte da outra; para assumir em conjunto a condição e a tarefa de Cristo, de restaurar a sociedade de acordo com a vontade de Deus (cf. Mc 3,13-15). Sim, a fraternidade vivida na comunidade cristã, apesar de todos os seus limites, deve ser sinal de que o mundo pode ser diferente e deve ser para nós uma experiência real que nos estimule a trabalhar para tornar  realidade os ideais do Evangelho: “que tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). É assim que a Igreja pode ser fermento de transformação na massa do mundo (cf. Mt 13,33). Estamos na Igreja porque Deus nos chama para ser como o Seu Filho e para que Ele nos envie como Ele mesmo foi enviado: “Assim como o Pai me enviou, Eu vos envio” (Jo 20,21). Igreja é  vocação e missão. Como Jesus, nós também somos profetas e profetisas, gente que anuncia ao mundo as maravilhas das obras de Deus, e denuncia as obras das trevas. Como Ele, somos sacerdotes e sacerdotisas, gente consagrada que consagra o mundo a Deus; através de nós deve-se derramar sobre todas as coisas a santidade de Deis e se revelar que tudo é puro e santo, porque saído de Suas mãos criadoras. Como o Messias, somos pastores e pastoras, guias da criação, administradores(as) e mordomos(as) da Casa de Deus, para organizar o mundo de acordo com as regras de Seu Reino (cf. I Pd 2,4-10).

Nossa dignidade é excelsa. Somos criaturas de Deus, fruto de “um sopro do Criador, numa atitude repleta de amor” (Gonzaguinha). Somos parte do mundo, da mesma matéria das coisas, membros da mesma família dos minerais, dos vegetais e dos animais. Mas em nós o mundo material toma consciência de ser e de poder assumir o governo de si mesmo. É isto o que a Bíblia nos diz quando fala do ser humano como “imagem e semelhança de Deus”. Somos do mesmo tecido das coisas, mas em nós o mundo material tem a capacidade de pensar e, assim, elaborar projetos e imaginar como possível o que ainda não está feito; em nós, as coisas são capazes de amar e entrar em diálogo até mesmo com o Mistério escondido de sua origem; em nós, a matéria é capaz de continuar a construir-se, pois, mediante o trabalho, prossegue a obra da criação e se atuam os projetos de transformação de si mesma. É pelo pensar, pelo amor e pelo trabalho que vamos amadurecendo como pessoas e as coisas, de algum modo se “personalizam”, se “humanizam”, isto é, se fazem ambiente e instrumentos de nossas relações. Finalmente, além de criaturas e de imagem de Deus, somos seus filhos e filhas, parte de Seu próprio mistério trinitário. Em nós habita o próprio Espírito do Filho que nos dá a ousadia de dizer a Deus “Papai”, como Jesus dizia ( cf. Gl 4,1-7). Pertencemos ao mundo, pertencemos umas pessoas às outas, pertencemos ao Mistério. Nessa “pertença do Universo” se acha o fundamento de nossa  dignidade e de  nossa corresponsabilidade.

  1. RESPONSABILIDADE ou MORDOMIA CRISTÃ

Talvez a palavra-chave para traduzir a ideia de mordomia seja CUIDADO. Somos responsáveis por cuidar de todas as coisas.

Primeiro, porque tudo é, de certo modo, parte de nós. Sim, somos parte do universo e nossa carne é do mesmo tecido e da mesma energia que compõem a matéria. E “ninguém jamais quer mal a sua própria carne” (Ef 5,29). Nosso parentesco com toda a Natureza é descrito plasticamente pela Bíblia: somos ADAM feitos de ADAMAH (barro da terra). O ser humano é “terrestre”, feito da “terra”. Somos barro (adam), feitos do barro (adamah). A Bíblia imagina como se houvesse entre nós e a terra uma aliança de amor matrimonial, como se a humanidade fosse o masculino (adam) e a  Natureza fosse o feminino (adamah). Matrimônio tem de ser cuidado recíproco: a terra, como mãe e esposa nos dando a vida, e nós, como marido amoroso, apaixonadamente zelando por ela. O profeta Oséias estava pensando assim quando escreveu seus poemas. Veja especialmente o capitulo 2º. Esse também é o clima do Cantar dos Cantares. Já não cabe “dominar” a terra como se fosse escrava a explorar, mas tem de ser como bonito jardim a cuidar (cf. Gn 2,4-15). No jogo do amor, se está para-além de toda relação de dominação ou sujeição, pois já não se sabe mais “se sou dominado ou se domino” (Roberto Carlos).

Nesta Quaresma, em todo o Brasil, muitas comunidades cristãs estão orando, refletindo, conversando e buscando caminhos de ação a respeito de um tema importantíssimo: “Fraternidade é Cuidar da Casa Comum”. Nosso país tem dívida impagável com os povos aborígenes que aqui viviam quando os invasores europeus chegaram. Traíram sua confiança e acolhida, caçaram-nos na floresta como se fossem animais, escravizaram-nos nas fazendas, transmitiram-lhes doenças, mataram-nos de tristeza, de maus tratos e em absurdas guerras de “cristãos contra infiéis”… Como reatar com estes povos a fraternidade? Como restabelecer a solidariedade com eles? Como ajudá-los a defender-se do extermínio? Como chegar perto deles para fortalecer, na resistência, a preservação de sua cultura, a recuperação e demarcação de suas terras? Como ajudar o povo brasileiro como um todo a perceber-se devedor aos povos indígenas, a sentir com humildade que necessita de seu perdão, a reconhecer que esses povos têm direito a evoluir a partir de seus próprios valores, diferentes das sociedades que os têm esmagado em todos estes séculos? Em vez de cuidar, destruímos a Casa Comum que estava sendo cuidada por eles.

Doutro lado, quanto não temos a aprender desses povos que dedicam à terra um amor filial ou matrimonial! Quanto não nos poderiam ensinar sobre ciclos da vida, a atenção ao ritmo da água, das plantas, dos animais! Quanto não teríamos a aprender com eles sobre o equilíbrio ecológico, esse diálogo paciente e silencioso entre o ser humano e a Natureza, cada coisa tratada com amor e delicadeza porque veiculo de comunicação entre a terra e o céu! E como as civilizações indígenas nos poderiam ensinar sobre outro jeito de conviver em sociedade, onde só existisse o “nosso” e “ter” equivalesse a “precisar”, onde não se conhece o que é “meu” da posse exclusiva, as coisas só têm valor de uso e de instrumento a serviço da coletividade, e não há “crianças de rua”…!

Se, além de sermos parte da Natureza, homens e mulheres, somos imagem de Deus, isto quer dizer que somos seus representantes para governar e cuidar carinhosamente de Sua obra e de Seus domínios, pois o Senhor é o “amigo da vida” (Sb 11,24-26). É isto de que nos falam os primeiros capítulos de Gênesis (1-2) e o lindo Salmo 8. O profeta imagina o retorno do exílio na Babilônia como a transformação do deserto em jardim, Deus reinando soberanamente através de Seu povo, e a Seu redor o paraíso restaurado (cf. Is 40-66). Finalmente, se somos filhos e filhas no Filho, não somos estranhos(as), como escravos e escravas que estivessem a cuidar das coisas de um  patrão. Cuidamos do que é nosso, pois a obra da criação é nossa herança, cuidamos do que é a nossa própria casa. É isto o que nos ensina o Apostolo São Paulo na Carta aos Gálatas.

Responsabilidade vem de resposta. Ou seja, é a capacidade e o dever de responder. Nosso cuidado com o mundo é a maneira correta de responder à vida que se dá e se entrega a nós, e assim nos convoca a dela cuidar. Ora, a fonte da vida é Deus. Por isso, ao respondermos à vida, estamos, na verdade, respondendo a Deus. Assim, responsabilidade é a capacidade e o dever que temos de assumir o cuidado com o mundo e as várias formas de vida, como resposta a Deus que nos confia Seus dons.

Vemos, então, que se trata de uma experiência profunda de diálogo. Sentimos a Natureza e a vida como se dando a nós, e é como se escutássemos um chamado a responder. É como se, através das coisas que nos chegam aos olhos e às mãos, e através de nossos gestos, se estabelecesse uma conversa amorosa, provocada, de um lado, pelo DOM, e do outro, pela gratidão. Estamos, consequentemente, no gratificante ciclo do Dom: a vida se dá a nós gratuitamente (graça) e nós nos damos fazendo com que a corrente do dom não se estanque, mas se prolongue e espalhe (gratidão). É essa a ideia subjacente ao chamado que nos faz o Apostolo: “Entregai os próprios corpos (a vida cotidiana e suas relações concretas) como oferta viva, santa, isto é, reservada a Deus e agradável a Ele” (Rm 12,1).

Nossa resposta brota do sentimento de gratidão pelo Dom, pois “tudo é de graça” (George Bernanos). Supera-se, assim, qualquer sentimento de apropriação individualista. O mundo, a vida, tudo nos é dado. Até o que nós mesmos(as) conquistamos é dom, pois, embora as conquistas sejam nossas, a capacidade de conquistar nos é dada, precede as nossas obras, é graça. A vida toda vai sendo experimentada como maravilhoso presente, é a experiência da gratuidade. E nossos olhos vão sendo lavados pelo sentimento da gratidão. Ora, gratidão leva, necessariamente, à experiência da gratuidade. Completa-se, assim, o círculo da graça. Ao nos sentirmos objeto do dom, tornamo-nos sujeito do dom: através de nós a vida prossegue em seu dinamismo de dar-se generosamente. Nasce, naturalmente, em nós o sentimento da necessidade e urgência de participar e de colaborar na imensa tarefa de salvaguardar e conservar a vida. E tornamo-nos disponíveis a partilhar nossos dons e nossos bens (cf. Rm 12-14; 1Cor 12-14). Pois, se tudo é recebido, mesmo o que conquistamos, então arranca-se de nós todo o perverso sentimento de propriedade e nos convencemos de que somos apenas administradores(as), encarregados(as), mordomos(as), pastores e pastoras da vida, jardineiros e jardineiras da terra (cf. 1Cr 29,10-18). A vida é como um Senhor que parte em viagem, torna-se invisível, e nos confia a administração de seus bens. Há várias parábolas de Jesus que nos falam disso (cf. Mc 12, 1-12;13,34-36; Mt 25,14-30; Lc 19,12-26). São Bento escreve em sua Regra palavras muito radicais: “É preciso arrancar pela raiz o vício extremamente perverso da propriedade privada”. Sim, porque nada é só meu, “tudo é nosso”, porque tudo é de Deus” (cf. 1Cor 3, 21-23).

Assim, a mordomia cristã é uma atitude global que se vai manifestar por comportamentos concretos em todos os campos da existência humana: pessoal, interpessoal, comunitária e social. Se tudo é obra de Deus, nada é profano ou impuro, é o que nos ensina Jesus em Mc 7,1-23. Se tudo está posto como herança em nossas mãos, somos responsáveis por todas as dimensões da  vida e do universo: no templo, em casa, no campo, na “praça”. Nossa vida de família, nossas relações na Igreja e na sociedade, no campo dos negócios em geral, tudo isso é de nossa responsabilidade diante de Deus. A mordomia tem a ver com a totalidade da vida. É pergunta sobre como vivemos, quais os valores a que damos peso, quais as nossas prioridades, quais os critérios que nos guiam em nossas escolhas e no agir, como é nossa maneira de pensar e de sentir a relação com as coisas e com as pessoas, como e para que usamos nosso dinheiro e nossas posses. Isso não diz respeito apenas a cada qual pessoalmente, mas vale também para nós como coletividade: congregação, diocese, província, Igreja universal. Tanto como parte da Igreja Cristã, como enquanto cidadãos e cidadãs de determinada nação e do universo inteiro. Pois por tudo somos, pessoalmente e coletivamente, responsáveis. E a responsabilidade se manifesta através de nossos sentimentos de honra e gratidão a Deus; pela submissão a Sua vontade e pelo arrependimento por nossos comportamentos irresponsáveis; através da qualidade de nossas relações sociais e da intensidade de nosso engajamento político; pela honestidade nos negócios; por uma sadia e generosa relação com o dinheiro e os bens; pelo cuidado com as pessoas necessitadas.

 Ao manifestar nossa gratidão a Deus, nós o fazemos como filhos e filhas, isto é, como expressão de nossa condição em Cristo e de nosso compromisso fraterno com Ele. Reconhecemos nossos dons e bens como parte destinada por Deus para responder, não só a nossas necessidades, mas às necessidades de toda a humanidade. Nossa vida, poder, posses, capacidades e dons vêm de Deus e são para ser usados a serviço da preservação, da restauração e da consumação da Sua obra. Mordomia cristã é, então, compartilhar da missão do próprio Cristo, enquanto princípio e primogênito da criação, e como redentor do mundo e restaurador da vida, naquele maravilhoso horizonte que se nos abre em Ef 1,3-14. Por isso, São Paulo nos diz uma palavra muito exigente e comprometedora: nossos diferentes dons nos são concedidos conforme a medida da graça e nós os distribuímos de acordo com a proporção de nossa fé. Isto é, seremos pessoas generosas na medida em que formos pessoas de fé, pessoas identificadas com Cristo (cf. Rm 12,6).

A mordomia cristã implica em responsabilidade eclesial. Conosco Jesus constrói a Sua casa. Nos evangelhos, conta-se exatamente isto: como, da multidão do povo, Jesus vai edificando uma nova casa, novo espaço de convivência, novas relações. Aí todos os discípulos são servidores, ministros e ministras na obra de construção da comunidade. O ministério da Igreja é o ministério de todos os seus membros. Cada qual é chamado a sentir-se ministro ou ministra, responsável pela construção e pela manutenção do novo templo de Deus, sinal de Sua presença no mundo. É o que vemos na vida da primeira comunidade cristã, conforme os Atos dos Apóstolos: “Todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e tinham tudo em comum, vendiam suas propriedades e bens, e dividiam-nos entre todas as pessoas, segundo as necessidades de cada uma” (cf At 2,44-45; 4,32-37).

Mas a mordomia é também, ao mesmo tempo, responsabilidade social, exercício de cidadania. Se somos casa de Deus, somos herdeiro e herdeiras do mundo. É por isso que, desde o começo, a Igreja cristã, além de cuidar de sua manutenção e do próprio crescimento teve o coração sensível ao sofrimento de outrem; teve os olhos voltados às necessidades das pessoas, dos grupos e do povo a sua volta; teve os pés em caminhos que levam na direção de estranhos e estrangeiros; teve as mãos estendidas aos pobres, como já podemos ver nos evangelhos, nos Atos e nas epístolas dos Apóstolos. E logo cedo o Cristianismo se apresentou como uma dinâmica corrente social fundada sobre um principio radicalmente libertário: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” e  “é para a liberdade que Cristo nos libertou, permanecei firmes, portanto, e não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão” (Gl 3,28; 5,1). Isso se manifestou na luta contra a escravidão, contra o trabalho infantil e a opressão da mulher; por condições dignas de moradia e de trabalho em empresas e minas, e por proteção e resgate de quem se achava em prisões, em hospitais, em asilos ou orfanatos; pela promoção da educação através de escolas, e pelas caixas comuns, precursoras do sistema cooperativo e previdenciário.

Hoje a grande questão já não é simplesmente a pobreza, ou mesmo a opressão ou a marginalização. Estamos diante de algo muito mais grave, radical e global: o fenômeno da exclusão, que se dá por diversos motivos: físicos, de gênero, econômicos, sociais, culturais, políticos, religiosos… pensemos, por exemplo, no “povo de rua” e nas milhares de pessoas refugiadas, que tudo perdem, até a pátria, senão a própria vida…

O modelo proposto por Jesus continua a ser o Samaritano da parábola: atenção a quem se acha em nosso caminho, compaixão, coragem para “fazer-se próximo”, rompendo barreiras e preconceitos, amparo e cuidado, e disponibilidade para partilhar (cf. Lc 10,25-37). Assumir as atitudes do Samaritano deve significar para nós socorrer pessoas com necessidades imediatas ou em situação de risco; em conversas privadas e em manifestações públicas, expressar decidida resistência a qualquer tipo de discriminação, por exemplo, social, religiosa, racial ou sexual; tomar partido em favor de lutas sociais e políticas contra a exclusão e a discriminação. Responsabilidade social é, particularmente, “cuidar de quem ninguém quer cuidar”, quer se trate de gente excluída que se acha bem perto de nós, no centro ou na periferia de nossas cidades, quer se trate daquelas personagens filmadas em terras distantes e que, pelo televisor, de repente, invadem nossa sala-de-estar. Nosso mundo é um só, pois Deus, o Criador, é um só.

Se ainda há um abismo de distância entre adoração e nossos comportamentos quotidianos, entre o que celebramos em nossos templos e o que se passa em casa, no campo, nas empresas, nas lojas comerciais, nos escritórios, nas praças e nas ruas de nossas vilas ou cidades, então temos o mesmo contraste entre fé e vida que, na Bíblia merece a critica e a condenação feitas pelo profetismo e pelo próprio Jesus (cf. Am 5,4-27; Is 1,10-20; Jr 7; Mc 12,38-40; Mt 23).

  1. DIMENSÕES DA RESPONSABILIDADE CRISTÃ

A primeira e mais ampla dimensão da nossa responsabilidade é o zelo e o cuidado com a vida e a Natureza. Trata-se da obra da criação de Deus. Todo o universo é imenso templo, casa de Sua habitação, como nos diz Is 66,1-2. E todas as coisas são elementos de uma maravilhosa e fantástica liturgia cósmica: “O céu manifesta a glória de Deus e o firmamento proclama a obra de Suas mãos” (Sl 19,1). Nada é profano e nada deve ser profanado, pois tudo o que existe é “corpo” da palavra criadora (cf. Gn 1) e está carregado de energia vivificadora do sopro divino (cf. Sb 1,7). É nossa responsabilidade ecológica, e muito poderíamos aprender das lições que nos dão os povos aborígenes e a milenar sabedoria e mística do Oriente, baste pensar na Índia, na China e na antiga cultura japonesa.

A partir dessa relação elementar com o universo, que nos faz experimentar a sacralidade de todas as coisas, sentimo-nos particularmente responsáveis diante da terrível divisão entre ricos e pobres – pessoas, grupos, categorias, povos. Não somos mordomos e mordomas para garantir a divisão, mas para promover a comunhão.

Toda a Bíblia e Jesus, em particular, nos ensinam que o amor de Deus se realiza no amor ao próximo. Li, certa vez numa igreja anglicana em Portugal: “Há muitas maneiras de amar o próximo, mas só há uma de amar a Deus: amando o próximo”. Ora, num mundo marcado pela ferida do pecado e pela força misteriosa e poderosa da Divisão (“diabo” quer dizer “o que divide”), amar inclui a responsabilidade de nutrir quem passa fome, visitar quem está enfermo, levantar quem jaz no abatimento, libertar de grilhões, alegrar-se com quem se alegra, chorar com quem chora (cf. Mt 25,31-46; Rm 12,15). E não podemos esquecer que Nosso Senhor teve especial predileção por aquelas pessoas que não eram bem-vindas nem acolhidas junto à gente religiosa de seu tempo: por estigmas de sua situação física (paralíticas, loucas, cegas, pessoas enfermas de toda ordem), por sua profissão tida como inferior (pastores, cobradores de impostos, pescadores…), por sua condição sexual (prostitutas, impotentes), por sua pouca observância de leis e regras religiosas (pessoas de conduta impura, estrangeiras, mulheres, por exemplo). É nossa responsabilidade econômico-social.

Outra dimensão de nossa responsabilidade é anunciar a Boa-Nova de Jesus como caminho restaurador da vida, e dirigir as pessoas a seguí-Lo. Em conjunto, vamos, assim, constituindo o rebanho de Cristo e vamos edificando Sua casa. Formar, manter e fazer crescer a Igreja como espaço de novas relações humanizantes, é dimensão essencial de nossa resposta a Deus. Somos responsáveis por fortalecer a Igreja, inclusive por meio de nossos bens, para que seja realmente espaço alternativo de relações humanas de convivência e, assim, eficaz instrumento de transformação da sociedade de acordo com os ideais do Reino de Deus.

Não estaremos a escutar o chamado de Cristo, de jeito nenhum, se permanecermos fielmente na Igreja só com  expectativas de satisfazer necessidades religiosas, alcançar alívio de nossos fardos e receber mensagens de conforto. Seguir a Cristo é abrir-nos a que Ele nos interpele com Sua Palavra e Seu exemplo de vida. É aceitar que Ele nos desafie, nos desinstale, nos prove nossa autenticidade. Venha provocar-nos a assumir, de maneira mais efetiva, nossa condição de discípulos e discípulas, o que inclui também a disposição para partilhar nossos bens em favor da casa comum que é a Igreja. É a nossa responsabilidade eclesial na moldura mais ampla da responsabilidade política, pois não se trata apenas de edificar a Igreja, mas de forjá-la com uma ferramenta, instrumento adequado de manifestação do Reino de Deus. O mundo é nossa Casa Comum.

  1. DO QUE É TEU T’O DAMOS”

Estamos vendo que a responsabilidade ou mordomia cristã não deve ser entendida simplesmente como ofertar dinheiro para que a Igreja possa pagar suas contas. É algo muito mais amplo e bem mais profundo. É o resultado do entusiasmo (“entusiasmo” quer dizer vibrar em Deus) pela obra de Deus: é sentir-se com a prerrogativa divina de ser responsável pela preservação da vida e das coisas da criação; é sentir-se urgentemente responsável diante da tragédia das pessoas pobres e necessitadas; é sentir-se alegremente responsável pela tarefa de manter e fazer a Igreja de Cristo. Na Bíblia, a contribuição generosa é apresentada como expressão de fé, de gratidão, de alegria e de benção (cf. 2Cor 8-9). Por isso, dar dinheiro tem de estar sempre associado a partilhar afetos, ofertar tempo e talentos pessoais, em suma, é oferta de amor, antes de ser coisas. Só seremos realmente pessoas generosas se para nós as relações entre pessoas forem mais importantes que nossas posses.

Jesus nos diz isto de maneira enfática: “Que adianta alguém ganhar o mundo inteiro, se perde e destrói a si mesmo?” (Lc 9,25). Lembra-nos de uma situação que conhecemos bem na experiência: por causa de dinheiro e herança até as relações familiares podem destruir-se sobre base extremamente frágil (cf. Mt 7,26-27). Zaqueu, porém, foi capaz de partilhar e restituir porque preferiu abrir sua casa para entrar em comunhão com Jesus e seus discípulos (cf. Lc. 19,1-10). Na verdade, há algo que para Jesus é absolutamente claro: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro!” (Mt 6,24). E nossa preocupação não deve ser a de “ajuntar tesouros na terra” (Mt 6,19-21). O modelo que o Evangelho nos apresenta é o da pobre viúva que oferta a Deus tudo o que tem. O texto é enfático: ao dar as únicas moedinhas que possuía “ela deu a sua própria vida” (Mc 12,44). E Jesus chega a dizer que anunciar a Boa-Nova é, afinal de contas, proclamar o gesto daquela mulher de Betânia: entregar, sem reservas, o que se tem de mais precioso, à maneira de Jesus que deixa que se despedace Seu corpo e que se derrame Seu sangue (cf. Mc 14,3-9,22-25).

Às vezes, dizemos que o trabalho da Igreja não se desenvolve porque não temos dinheiro e nossos meios são precários. Ora, a verdade é justamente o contrario: a Igreja não tem dinheiro porque seu trabalho não se desenvolve e, às vezes, parecemos um povo paralisado, agarrado a manter o pouco que ainda nos resta, sem coragem de avançar, carente da ousada esperança que brota da fé. Dinheiro não é a causa, é sempre a conseqüência. O que há é uma relação profunda entre falta de entusiasmo espiritual e falta de entusiasmo para contribuir. Pois a experiência tem comprovado o seguinte: quando as pessoas estão profundamente marcadas pela experiência da salvação, elas se convencem da importância decisiva da Boa-Nova de Cristo. Por isso, tornam-se impacientes por ajudar outras pessoas a descobrirem a “pérola preciosa” que encontraram.

Enchem-se de entusiasmo e de disposição para falar de seu “caso de amor” e para usar o tempo, os dons, as energias, os bens e o dinheiro com generosidade e criatividade a serviço da obra de Deus. E, progressivamente, vão compreendendo o que Jesus queria dizer quando falava de praticar a generosidade ou gratidão (cf. Mt 5,43-46; Lc 6,27-35). Vão escavando dentro de si mesmas a fonte profunda da alegria indestrutível de ser como Deus (cf. Jo 7,37-39); “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36).

Nossa identificação profunda com a família da Igreja e com a missão de Cristo no mundo tem de crescer e amadurecer. Cada pessoa deve chegar a um momento de decisão definitiva e bem pensada: fixar o quanto de minha renda vou dedicar à obra de Deus, para ir ao encontro das necessidades de Sua Igreja e de Seu mundo. É assim que expressamos, de maneira concreta e responsável, nossa gratidão e lealdade para com Deus. Esse compromisso é solenemente assumido por toda pessoa confirmada na Igreja, isto é, que livremente decide tornar-se membro pleno da Igreja.

O Primeiro Testamento, em suas leis, estabelece o dízimo. Ordena separar a décima parte da renda como restituição a Deus por todas as suas bênçãos ( cf. Lv 27,30; Ml 3; Mt 23,23). Assim, se manifesta a gratidão a Deus, ao mesmo tempo em que se confraterniza com as pessoas necessitadas, como se vê em Dt 14,22-29.

Para o profetismo, a oferta religiosa tem de estar em estreita coerência com a oferta da própria vida, manifestada na prática de fidelidade a Deus nas relações com o próximo. É o que vemos claramente em Amós para quem as oferendas sagradas têm de estar a serviço da justiça: “Que o direito corra como água e a justiça como arroio perene” (Am 5,21-24). Para o profeta Isaías, de que servem os dons oferecidos ao templo se não nos preocupamos em defender a justiça e o direito das pessoas necessitadas? (cf. Is 1,11-17). Oséias nos deixou uma palavra que diz tudo: “É o amor e a solidariedade o que eu quero e não sacrifício, conhecimento (por experiência) de Deus, mais que holocaustos” (Os 6,6). Miquéias nos indica de modo definitivo como podemos agradar a Deus: “Foi-te anunciado, ó ser humano, o que é bom, e o que o Senhor exige de ti: nada mais do que praticar o direito, dedicar-te à solidariedade e caminhar obediente na presença do teu Deus” (Mq 6,8).

O principio que nos deve guiar, na Igreja, em matéria de ofertas e contribuições tem de ser aquele estabelecido pelo Apóstolo São Paulo: “Cada qual dê como decidiu em seu coração, sem pena nem constrangimento, pois Deus ama quem dá com alegria” (2Cor 9,7). Essa decisão, porém, tem de ser um ato de lealdade diante de Deus: dar tudo o que realmente temos possibilidade de dar, por isso o dízimo já não é necessariamente o limite, podemos ir além dele. Já não se trata de “lei”, pois nossas ofertas têm de ser alegre gesto de generosidade pelo qual expressamos nosso desprendimento em relação aos bens materiais e nossa abertura de coração e de mãos para promover a obra de Deus e responder as necessidades das pessoas. Tudo já é de Deus é “do que é Teu T’o damos”, como belamente dizemos no ofertório da celebração litúrgica.

  1. RESPONSABILIDADE CRISTÃ É UM NOVO ESTILO DE VIDA

Sentir-se responsável pela obra de Deus no mundo, em nome de Cristo, é resultado de uma opção de vida que resulta da conversão ao Evangelho. Trata-se de decidir-se por um jeito de viver, buscando pôr os próprios pés no caminho de Jesus. O desafio segue sendo o mesmo que um dia foi lançado aos primeiros discípulos: “Vem e segue-me!” E eles, imediatamente, redefiniram tudo, rompendo com seu antigo estilo de vida e começaram a ser com Jesus uma nova “casa” (cf. Mc 1,14-20; 2,13-14). Na verdade, a questão de fundo é aquela tão bem formulada pelo Apostolo São Paulo: “Oferecei vossos corpos (as concretas relações quotidianas) como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso culto como deve ser. E não vos adapteis ao sistema deste mundo, mas transformai-vos profundamente pela renovação de vossos sentimentos e pensamentos! É assim que podereis discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, desejável e perfeito!” (Rm 12,1-2).

Não é suficiente que sejamos pessoas honestas, “caridosas” e religiosas. Há uma pergunta fundamental que nos temos de fazer: se somos de Cristo, será que isso produz alguma diferença em nosso estilo de vida? Nossa “vida cristã” é assumida como um simples conjunto de crenças e rituais, ou como um caminho de vida, na seqüela do jeito de viver de Jesus? Ele nos falou muito claro: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9), pois “Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Assim, a “verdade” já não é mera crença ou teoria, mas a caminhada humana concreta de Jesus de Nazaré; nossa regra de vida é Seu jeito de viver, dado a conhecer pelos evangelhos e formado em nós pelo Espírito Santo. O que está na raiz do que chamamos de “responsabilidade cristã” é uma opção profunda que brota do centro do coração (cf. Mc 7,14-23; Mt 6,21) e transforma a totalidade da vida, jogada  agora num movimento permanente  de conversão, isto é, de estar voltada para Deus.

O Livro do Apocalipse tem uma imagem muito sugestiva. Jesus “está à porta e bate”. Ele não invade nossa vida à força, aguarda que Lhe abramos a porta e O convidemos a entrar (Ap 3,20). É certo que mudar de vida é graça, é convite, pois Deus nos procura como um marido apaixonado “persegue” loucamente a esposa infiel (cf. Os 1-3). Mas, se a relação é de amor e diálogo, depende também da nossa decisão: “Se alguém ouvir-me a voz e abrir-me a porta…” E toda a Bíblia não encontra melhor imagem para traduzir o que acontece em seguida, senão a cena da ceia ou banquete. Se a “casa” se abre, acontece a ceia. Esse era o ideal para o templo de Jerusalém (cf. Dt 14,22-29; 26,1-11). Isso é o que acontece nos dias de Jesus, “quando o esposo está presente” (cf. Mc 2,19; 2,15-17; 6,30-44; 8,1-9; 14,3-9,17-25; Jo 2,1-12). Para concretizar a vida nova de Sua comunidade, Jesus fala repetidamente de banquete (cf. Mt 8,11; 22,1-14; 25,1-13; Lc 12,35-38). A Igreja acha na ceia o seu melhor retrato (cf. Mc 16,14; Lc 24,28-32; Jo 21, 1-15; At 2,42-47; 4,32-37). Apocalipse nos diz isto da maneira mais linda: “Feliz quem tem sido convidado para o banquete das bodas do Cordeiro” (Ap 19,9).

Dirigir a própria vida, na nova perspectiva da partilha dos afetos, do tempo, dos dons e dos bens, não é outra coisa, senão o alargar-se daquela ceia intima na qual compartilhamos radicalmente nossa “casa” com Jesus. É Jesus o motivo mais profundo e a explicação de tudo o mais – é como se nos sentíssemos no arrebatamento irresistível de um grande amor pelo qual somos capazes de entregar tudo e de nos entregar totalmente. Foi justamente essa a experiência apaixonada do Apóstolo São Paulo, como podemos perceber na Carta aos Filipenses (cf. Fl 1,3-26; 3,7-16); e ao escrever aos Coríntios (cf. 2Cor 4,5-6,10). A Eucaristia é disso o modelo e a proclamação; celebramos o que somos e o que queremos ser: a partilha de um único pão, “pois nós, embora muitos, somos um só corpo”. No partir do pão revela-se a “presença real”: o Corpo de Cristo entregue por nós nos faz Corpo de Cristo entregue pela vida do mundo (cf. Jo 6,27-71).

Se estamos em Cristo, diz o Apóstolo, somos “nova criatura” (2Cor 5,17). “Pelo batismo baixamos à sepultura com Ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim também nós vivamos vida nova” (Rm 6,4). Se isso é real em nós, tem de manifestar-se em nosso quotidiano: no jeito pessoal de ser, em nossos critérios, atitudes e comportamentos; nas relações com as coisas, começando de nosso trato com a Natureza e com nossas posses; nas relações pessoa a pessoa; nas relações comunitárias, imediatas, a começar da família; nas relações sociais mais amplas, desde nossa cidade até as relações internacionais. É a globalidade de nossa vida que está em causa, mas que, de fato, se concretiza em cada decisão e em cada ação por pequena que seja: “Sentir e pensar globalmente, e agir localmente” Por isso, temos de decidir em relação a coisas bem concretas e quotidianas. Do contrário, a presença de Cristo em nós será apenas ilusória teoria. Sua “presença real” só se manifestará ao tornar a nossa vida real diferente da realidade do sistema do “mundo”:

     – Cuidar da Natureza: zelar pela pureza e pelo volume da água, pela saúde da terra, pela            produção ecológica dos alimentos, pela limpeza e preservação do meio-ambiente fonte, extensão e suporte do nosso corpo;

     – Distinguir bem entre o principal e o secundário e viver com austeridade, frugalidade e economia de recursos;

     – Planejar bem os próprios gastos, evitando luxo e ostentação, pois preocupação com a aparência e símbolos de “status social” é sinal de superficialidade infantil e de vazio interior;

     – Escolher com cuidado e criteriosamente o que compramos, tendo como ideia mestra a simplicidade de vida, não nos deixando arrastar pela propaganda e pela tentação do consumismo;

     – Ter cuidado com o que e como investimos daquilo que poupamos;

     – Ter atenção a quem está a nosso redor, desde as pessoas mais próximas até aquelas de países distantes, das quais só sabemos pelo televisor ou pela internet – para manter aberta nossa casa e disponíveis nossas coisas;

     – Aprender a dar de maneira proporcional ao que ganhamos, incluindo em nosso orçamento mensal o que vamos destinar para o sustento da Igreja e para ajudar as pessoas mais necessitadas;

     – Dar o que podemos realmente dar: nossa oferta pode ser a do rico Zaqueu (cf. Lc 19,1-10) ou da pobre viúva (cf. Mc 12,41-44), o importante é que seja feita com lealdade e gratidão para com Deus, e com a honestidade de quem sente estar “restituindo” aos pobres o que lhes tem sido arrancado, isso feito com alegria, generosidade e confiança (cf. 2Cor 9,6-14).

  1. RESPONSABILIDADE ESPIRITUAL ENCARNADA EM REALIDADES MATERIAIS

Nossa relação com os bens materiais revela a qualidade e intensidade de nossa vida espiritual. Quando as pessoas perguntavam a João Batista o que fazer para converter-se espiritualmente a Deus, ele respondia exigindo decisão a respeito de coisas bem materiais: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem, e quem tiver o que comer, faça o mesmo” (Lc 3,11). Ao homem rico que O procurava, Jesus lhe pede que redefina sua relação com os bens materiais a partir de novo relacionamento espiritual com os pobres (cf. Mc 10,17-27). Os Apóstolos dão testemunho da Ressurreição “com grande poder” espiritual porque conseguem suscitar em redor de si uma comunidade capaz de partilhar os próprios bens materiais (cf. At 4,32-37). A partilha material dos bens é o “corpo” através do qual se manifesta a realidade da conversão espiritual. Já devíamos ter aprendido a lição. Na vida humana o amor é o que há de mais sublime e espiritual. Pois bem, as mais completas e mais expressivas manifestações do espírito que ama aparecem no dom de nossos corpos materiais: o sexo (entrega erótica do corpo), a partilha dos bens (entrega econômica do corpo), o martírio (entrega total do corpo). Isto quer dizer o seguinte: o novo estilo de vida, no qual se traduz a responsabilidade cristã, tem de alicerçar-se em novo entusiasmo e em nova disciplina espiritual.

Antes de tudo, temos de cultivar o “estado” de oração como atitude permanente de contemplação do agir de Deus e de escuta de Sua voz. E nunca devemos esquecer que, tanto Suas obras como Sua voz, nos chegam frequentemente através das pessoas e dos acontecimentos. E quantas vezes não nos iludimos, pedimos orientação do Espírito Santo, mas deixamos de prestar atenção aos acontecimentos e de escutar as pessoas a nossa volta! Os Salmos podem ser para nós grande escola de oração, pois nos ensinam a contemplar a Deus no que acontece na vida do povo e em nossa história pessoal. Temos também de ter cuidado com uma tentação muito freqüente: muitas vezes oramos para que Deus, ou anule o efeito negativo de nossos atos, ou faça as coisas em nosso lugar, substituindo-nos em nossas responsabilidades, ou simplesmente nos aprove em decisões que já tomamos. Ora, o que devemos buscar na oração é questionar-nos, abrir-nos ao inédito e escutar uma voz que nos envie por novos caminhos (cf. 1Rs 19,7). A oração de Jesus era sempre “oração de vigília”: identificar-se com o querer do Pai para enfrentar com coragem e responsabilidade os acontecimentos (cf. Mc 1,35-38; 6,46; 14,32-42; Lc 6,12).

Além da oração, temos de priorizar o estudo da Bíblia, pois dela recebemos o testemunho privilegiado da Palavra de Deus. A experiência de nossos pais e mães na fé nos ensinam por quais caminhos Deus costuma caminhar conosco. Com a Bíblia aprendemos os critérios para discernir a voz de Deus em meio aos ruídos de tantas vozes que escutamos no mundo. Com ela, temos na mão a lâmpada que nos auxilia a não pôr os pés em falso (cf. Sl 119,105; 2Pd 1,19-21). A caminhada de nossos antepassados se faz para nós estimulo, modelo e lei, instrução para a vida (cf. Rm 15,4; 1Cor 10,11; 2Tm 3,16; Hb 11). Quem frequenta a Bíblia vai-se deixando aos poucos imbuir do senso, da mentalidade das Escrituras – na verdade, da “mente de Cristo” (1Cor 1,16; Gl 2,20; 6,17).

Se adquirimos “a mente de Cristo”, sem grande dificuldade aceitamos submeter-nos a nova disciplina de vida, que fará com que afirmemos nossa marca, nossa diferença onde quer que estejamos, como se dá como sal e com a luz (cf. Mt 5,13-16; Jo 13,35). As outras pessoas nos reconhecerão como o povo da oração, da meditação, do estudo da Palavra; olharão para nós e sentirão um povo que ama a simplicidade, o silêncio, a solitude (não o isolamento!), a recíproca obediência, o serviço; acharão em nós alegria, abertura, disponibilidade, generosidade, desapego, capacidade de dar, coragem, perseverança.

Disciplina, porém, não pode ser apenas uma prática deixada a critério de cada pessoa. Igreja é coletividade e por isso essas da disciplina de vida têm de ser as marcas do povo cristão com tal.

  1. RESPONSABILIDADE CRISTÃ E PLANEJAMENTO

Finalmente, a disciplina coletiva da Igreja exige que essa seja um povo organizado, ciente dos próprios rumos, conhecedor de suas necessidades, de suas possibilidades, de seus limites e de suas tarefas. Por isso, para promover a mentalidade da responsabilidade cristã, é necessário que a liderança ajude a congregação a ter visão a respeito do que ela deve ser como Igreja de Cristo (educação teológica) e acerca do que ela mesma pretende ser, de seus obde seus er que ela mesma pretende açsponsabilidade cristades, de seus limites e de suas tarefas. por .

 Mc.1,35-38; 6,46; 14,3jetivos e de suas metas (operacionalização das opções). Isso implica também em ter consciência dos custos a pagar, custos humanos e custos financeiros, e de quais as necessárias mudanças a empreender ou do que se deve consolidar. Além disso, é preciso que o povo perceba quais os passos do processo que se tem de percorrer. Ou seja, a Igreja tem de definir estratégias de ação.

É muito importante, e particularmente pedagógico, chegar a uma formulação sintética das perspectivas e das metas estabelecidas para a Igreja. Um dos sínodos de nossa Igreja Anglicana  fez isso muito bem, quando, de forma lapidar, indicou o rumo da Igreja na entrada do novo milênio: Celebrar, Transformar, Servir.

Para chegar a elaborar o plano estratégico de ação, temos de vivenciar pelo menos cinco grandes “momentos”. Não se trata necessariamente de momentos cronológicos sucessivos, mas de passos metodológicos, em parte sucessivos, em parte simultâneos:

  1. É preciso ANALISAR a realidade: ver, ouvir, refletir, identificar necessidades ou exigências da situação de fato, possibilidades e recursos humanos e financeiros, ou outros meios disponíveis, e também carências e fragilidades;
  2. É preciso PLANEJAR, isto é, prever, programar e decidir: estabelecer objetivos, metas, prazos, determinar estratégias e táticas de ação; prever recursos humanos, materiais e financeiros; distribuir tarefas;
  3. É preciso ATUAR: buscar executar fielmente o que foi planejado, respeitar os prazos, os limites de orçamento e as atribuições das pessoas encarregadas de agir em cada área de atividade;
  4. É preciso CELEBRAR: em nosso agir, os olhos devem contemplar pela fé a atuação do próprio Deus e por isso é natural que cantemos ao Seu Nome, exaltemos Sua glória e nos fortaleçamos com o sentimento de Sua presença salvadora no meio de nós;
  5. É preciso AVALIAR: rever cada ação realizada e o caminho percorrido, identificar os resultados e os possíveis fracassos, verificar o que nos facilitou, e o que porventura dificultou ou até impediu de agir. A avaliação, além de ser exercício de monitorar todo o processo de execução, é plataforma importante para possibilitar novo momento de análise e, assim, novo plano de ação.

Em todo processo de planejamento estratégico, deve-se observar um princípio fundamental: as pessoas da comunidade ou do grupo não devem ser consideradas apenas mão-de-obra, executoras do que é decidido por um pequeno grupo que determina as regras do jogo. Não, quanto mais gente participar do processo de análise, de discussão, de elaboração, de decisão e de planejamento, tanto mais chance se tem de que mais pessoas se envolvam e se comprometam com a execução e a avaliação. Por isso, uma tarefa muito importante da liderança é ajudar a que se vá elaborando o consenso da comunidade, para que:

  1. Cada pessoa seja informada do que se passa e do que se deseja fazer, tanto no que diz respeito ao aspecto da ação litúrgica e pastoral, como da atividade de serviço social e da situação das finanças (as fontes e o montante da receita, e o quanto e como se gasta);
  2. Cada pessoa tenha oportunidade de manifestar seu próprio pensamento, suas ideias, críticas e sugestões;
  3. Cada qual possa expressar suas dúvidas ou suspeitas a respeito do rumo em que se está para decidir;
  4. Haja possibilidade de refletir e discutir as dúvidas e os questionamentos levantados;
  5. A liderança tenha clareza sobre as escolhas feitas e se esforce por elaborar o próprio consenso, chegando, assim, a um anteprojeto do plano de ação;
  6. O plano de ação seja submetido à comunidade mais ampla para obter aprovação final, de tal modo que o conjunto das pessoas como um todo se sinta comprometido, e não seja manipulado.

Outro principio muito importante é estabelecer processos de comunicação, durante a elaboração das decisões e depois, para que as pessoas sejam corretamente informadas do que se passa. A comunicação também é importante como meio de obter a opinião e o parecer daquelas pessoas que não quiserem ou não puderem participar diretamente do processo. Estar em comunicação com as pessoas é importantíssimo, até como meio de testar se estão compreendendo exatamente o que queremos dizer. Muitas vezes, há boas iniciativas que não prosperam porque não se consegue falar a mesma linguagem, ou as palavras que usamos não querem dizer a mesma coisa para outras pessoas.

  1. CONCLUSÃO

Estas reflexões, escrevi-as, inspirado, e ajudado em parte, por um excelente pequeno livro, escrito por um reverendo anglicano inglês, Michael Wright, e publicado em 1992: “Yours, Lord. A Handbook of Christian Stewardship” (“Somos teus Senhor. Um Manual de Mordomia Cristã).

Espero que nos ajudem a refletir e orar no “deserto”, quando buscamos velar junto com o Senhor em Seus 40 dias de combate com o Adversário.

Que esta Quaresma seja mais uma oportunidade de renovar nossa conversão e redirecionar nossos passos no caminho de volta para o Senhor! Que cresçamos em entusiasmo para proclamar o Evangelho de Jesus! Que abramos ainda mais nossos ouvidos para escutar a Voz do que nos chama; nossos olhos para enxergar o que nos cerca; nossas mãos para restituir o que já é, de fato, do Senhor! Que nossa fé nos provoque à generosa alegria de dar, para que a Igreja se mantenha e cresça como firme “coluna da Verdade”, projete-se para o futuro como sinal de esperança para este mundo de tantas trevas!

“Deus pode enriquecer-vos com toda espécie de graça, para que tenhais sempre e em tudo o necessário e ainda fique de sobra para poderdes colaborar em qualquer boa obra…Sereis enriquecidos de todos os modos, para praticar toda espécie de obras de generosidade, o que provocará ações de graças a Deus” (2Cor 9,8.11).

About Sebastião Armando (176 Articles)
<p>Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber<br /> to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema “Evangelização”, convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social (“Casa Ecumênica – Crer & Ser”) com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.</p>