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Receita Para Amar O Brasil

RECEITA PARA AMAR O BRASIL

 

Padre Prof. Daniel Lima

 

                          Para amar o Brasil

              é preciso paciência,

                          aquela doce e amável,

              aquela burra paciência

que nos faz suportar o patriotismo idiota

              dos que amam a bandeira e o hino

              mais que o povo,

dos que adoram os símbolos e traem a

                                                  realidade

 

              e que confundem

fardados generais com a pátria

                           que os sustenta.

 

Para amar o Brasil

faz bem fechar os olhos

e esquecer que existem brasileiros.

(Brasileiros em geral

           pois, em particular, alguns existem

que o Brasil justificam.

Aos demais, esquecê-los).

É bom também apagar a memória

            e escrever outra história.

 

             Como um palimpsesto,

uma história real – e imaginária –

            em cima da oficial História do Brasil.

Uma história que conte as espertezas

             dos heróis fabricados

e o que daqui levaram de riquezas

             os pais da pátria;

o que andaram fazendo atrás dos muros,

              as safadezas (araruta!)

dos filhos da …pátria amada.

 

             Para amar o Brasil

é preciso paciência, e muita imaginação.

             Muita paciência para sentir-se,

             como Vaz de Caminha,

                           deslumbrado,

             muito verde nas matas

             muitas matas nos montes

             muita gente inocente,

muitas várzeas com flores

             (E safadeza em toda parte).

 

                          Para amar o Brasil

             é bom se dar as costas

        para não ver esse País saqueado

mais triste e vil que a alma de um

                                                   deputado.

 

            Brasil faminto, assaltado,

                        ferido, conspurcado,

e que faz da sobrevivência a sua grande

                                                    façanha.

 

             Ai, meu Brasil!

Que te fizeram, Brasil? Por onde

                                               andaste?

Tu, ontem, malandro onzeneiro,

hoje, Brasil golpista e caloteiro!

 

              Para amar o Brasil

tem de se ter amor de sobra

              e como D. Quixote

ser derrotado, sofrer pancadaria

              e ir adiante

cantando o Hino Nacional

e fungando e chorando

dar vivas à contente Mãe gentil.

 

Para amar o Brasil tens de acender a

                                                  lanterna

e encontrar sei lá onde um brasileiro

                                                   perdido,

que creia, como tu, no Brasil que não é,

              no Brasil escondido

              humilhado, ofendido

pois o Brasil verdadeiro é uma questão de fé.

 

            E, então,

se tens fé contra toda esperança,

se teu amor é tão grande, que até ódio

                                                                 parece,

garanto não verás nenhum país como este.

E, “Pátria, latejo em ti” (e como latejo”)

            todos nós latejamos…

 

            Para amar o Brasil

só com muita paciência.                          

             E muita imaginação.

 

Poemas, Recife, CEPE editora, 2011, pg.261-263

(É assim, o poeta vê nas entranhas, descreve o que vê, e antevê, profetiza, até, como se hoje fosse…)

About Sebastião Armando (176 Articles)
<p>Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber<br /> to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema “Evangelização”, convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social (“Casa Ecumênica – Crer & Ser”) com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.</p>

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