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Quatorze Referenciais Teológicos para a Missão da Igreja (Versão revista e ampliada)

Quatorze Referenciais Teológicos para a Missão da Igreja

(Versão revista e ampliada)

Dom Sebastião Armando Gameleira Soares

Bispo Emérito da Diocese Anglicana do Recife (1999/2016)

 

Nota Prévia: Em Junho de 1999, antes de ser eleito bispo da Diocese Anglicana de Pelotas-RS, éramos, Dom Sumio Takatsu e eu, assessores teológicos do antigo Conselho Provincial de Missão. No exercício dessa tarefa, fui convidado a oferecer reflexão que ajudasse a Igreja a refletir sobre a Missão, tendo como pano de fundo as conhecidas “Marcas da Missão”, formuladas, há anos, pela Comunhão Anglicana mundial. A partir das propostas que apresentei e da discussão em reunião do Conselho, solicitou-se a nós dois sintetizar os eixos principais para difusão na Província. Dom Sumio me encarregou de elaborar o texto que denominamos de “Quatorze Referenciais da Missão na IEAB”. Ele acrescentou um ou outro detalhe e o texto resultou praticamente como eu mesmo o tinha redigido e, assim, foi aprovado pelo Conselho. É o texto que tem sido publicado e conhecido pela Igreja (cf. UNIÃO DA JUVENTUDE ANGLICANA DO BRASIL, Juventudes – Acolher e Servir, Anexo 2, sem data).

Como, de fato, o texto é de minha autoria, sinto-me agora com liberdade para retomá-lo, ampliá-lo e explicitá-lo em alguns pontos, naturalmente sem alterar seu conteúdo e em quase nada a forma. Evidentemente, esta versão, revista e ampliada, não é oficial, é apenas uma nova versão que em nada altera o conteúdo do documento e se publica sob minha pessoal responsabilidade.

 

  1. “MISSIO DEI”

A Missão é missão do próprio Deus. É Ele quem se sente chamado pelo povo “e desce para livrá-lo” (cf. Ex 3, 7), algo inaudito, é o povo que dá a Deus Sua vocação! Jesus Cristo, plena encarnação de Deus em nosso mundo, é princípio e modelo da Missão (cf. Jo 20, 21-22). É, como discípulos e discípulas do Filho e na força do Espírito Santo, que somos enviados(as) pelo Pai (cf. Ex 3, 10-13; Is 6, 8; Jo 17, 16-21). Missão não é uma tarefa específica, antes, é o ato de Deus de enviar e nossa consciência de ser pessoas enviadas. Se é algo próprio de Deus, refere-se à recriação e constante renovação das pessoas, das comunidades humanas, dos povos e do próprio universo (cf. Rm 8; Ef 1-2; Cl 1-2). Estão excluídos o imediatismo e o individualismo, o que Moisés não havia compreendido num primeiro momento (cf. Ex  2, 11-15), mas Deus o fez aprender (cf. Ex 3, 10 – os tempos são os de Deus; v.16-18 – e a obra é  coletiva).

 

  1. EVANGELIZAÇÃO

A tarefa para a qual somos enviados(as) é evangelizar (kérygma/anúncio), anunciar as Boas Novas do Reino de Deus entre nós (cf. Mt 10, 7). Isto se dá através de sinais de libertação humana, indicados claramente por Jesus em Sua atividade em favor da restauração da vida (cf. Lc 7, 18-23).

 

  1. TESTEMUNHO

Essa tarefa de anunciar o Evangelho se realiza por atos e palavras, ou seja, pelo testemunho de gestos de amor, de justiça e de reconciliação, e pela “narração” da práxis histórica de Jesus (cf. Is 40, 9-11; 52, 7-12; 61, 1-3ss; Mc 3, 14-15; Lc 24, 25-27; At 1,1), em continuidade com a tradição libertária do povo bíblico (cfr. At 7), sinal histórico do propósito de Deus que, desde a criação, alcança todos os povos (martyría/testemunho) (cf. Jo 1, 1-5; Ef 1, 3-10; Cl 1, 13-20; Hb 1, 1-4).

 

  1. MINISTÉRIOS

Não se trata de tarefa só de algumas pessoas na Igreja, mas é a tarefa de todo o povo de Deus, dotado para isso, pelo Espírito Santo, de variados dons e ministérios (cf. Ef 4, 11-13), o que supõe viver a Igreja como Corpo de Cristo e “roda” de carismas múltiplos e complementares, cada qual com a mesma dignidade em sua diversidade (cf. 1Cor 12; Rm 12). Acima da Igreja, só Jesus, Cabeça, que, paradoxalmente, se põe no centro como Servo de todos(as). Quanto a nós, somos iguais, com diferentes ministérios, todos úteis e necessários. Mesmo quem coordena ou preside faz parte da “roda” de dons e serviços. Continua sempre “irmão” ou “irmã”. Por isso, deve-se dizer que na Igreja todas as pessoas se “ordenam” ao ministério de Cristo, mediante a fé, o Batismo e a Confirmação, é o chamado “sacerdócio comum do povo” (cf. 1Pd 2, 9-10); algumas pessoas, porém, são particularmente “ordenadas” (sacramento da Ordem) para ajudar todo o corpo da Igreja a se sentir e se pensar “ordenado” ao ministério de Cristo.

 

  1. ESPIRITUALIDADE

A atitude de discípulo(a), fundada na consciência de ser enviado(a) para exercer a tarefa do próprio Deus – “Missio Dei”, é a base da espiritualidade missionária. Não é possível anunciar eficazmente a Boa Nova se quem evangeliza não experimenta seu poder na própria vida pessoal (cf. Gl 1, 10-24). Na verdade, proclamar a Palavra é, antes de tudo, aprender e testemunhar: “Evangeliza sempre e em toda parte, e fala, se necessário” (São Francisco de Assis). Para isto, o exercício da oração contemplativa é particularmente importante, como o mostra o próprio Jesus (cf. Jo 1, 39; 5, 19-20; Lc 6, 12).

 

  1. COMUNIDADE

A Igreja já proclama o Evangelho por seu próprio jeito de ser, quando se constitui em comunidade (koinonía/comunhão) de irmãos e irmãs (cf. At 2, 42-47; 4, 32-35). Ela é chamada a ser imagem, ícone da comunhão do Deus Triúno e da humanidade reconciliada (cf. Jo 17, 23), sacramento, ou seja, “sinal e instrumento da união com Deus e da unidade humana” (cf. Jo 17, 23).

 

  1. LITURGIA

A Liturgia como ato comunitário de adoração, louvor, ação de graças, confissão de pecados e intercessão – particularmente Batismo, Eucaristia, Confirmação, Confissão, Casamento, Ordem, Unção de Enfermos e enterros – é espaço e “linguagem” privilegiados de proclamação e vivência comunitária e, consequentemente, expressão concreta, sacramental, do ato de Deus de enviar e de nossa consciência de ser enviados(as) (cf. 1Pd 2, 4-10 – mystagogia e leitourgía). Não pode ser um ato repetitivo e muito menos a reprodução rotineira de um costume ou de um texto. Dizia Santo Tomás de Aquino que o que preenche o ato litúrgico são a celebração da “Memória” do que fez Jesus, seguido por suas testemunhas no passado (“Fazei isto em memória de Mim!”), e a “Profecia” do que queremos fazer daqui pra frente no seguimento de Jesus e de Suas testemunhas. Em suma, Liturgia é memória e profecia, isto é, acontecimento, é presente que continua um determinado passado e se projeta num determinado  futuro. É isto o que constitui o “sacramento”, é nossa vida, somos nós na história.

 

  1. EDUCAÇÃO-FORMAÇÃO-AÇÃO

Para capacitar as pessoas em vista de exercer a tarefa de evangelizar, é imprescindível estabelecer processos coletivos, comunitários de formação de lideranças, de estudos bíblicos, de educação teológica em geral, e de reciclagem periódica, para que sejamos um povo bem preparado, “sempre pronto a dar razão da esperança” (1Pd 3, 15); e também capacitado para analisar e compreender corretamente a realidade social em que vivemos, para poder atuar sobre ela de maneira metodologicamente eficaz. Só assim a ação da Igreja estará, constantemente, em íntima relação com a escuta da Palavra de Deus em nosso momento histórico: na Bíblia, ao mostrar-nos a experiência passada de Seu povo, Ele nos dá o roteiro da caminhada (cf. 1Cor 10, 1-13); nos acontecimento de nossa vida de agora, Ele nos faz escutar Sua viva voz como chamado e mandamento.

 

  1. SERVIÇO

Toda a tarefa evangelizadora da Igreja deve ter como método  (“méthodos” quer dizer caminho) o serviço (diakonía). Por isso, tudo na Igreja se dá mediante ministérios litúrgicos, ministérios de ensino, ministérios sociopolíticos e ministérios de administração (cf. 1Cor 12; Mc 10, 42-45; Fl 2, 5-11). Daí, por que não se pode entender exercício de ministério que não seja participativo e comunitário, pois qualquer ministério particular é só expressão e instrumento do serviço comum da Igreja toda. Cada ministério nunca deve ser função exclusiva de alguém, mas é só instrumento para liderar, a saber, convocar e articular o povo a assumir aquele serviço, e ser na Igreja expressão pessoal e viva de que vale a pena dedicar-se a Deus a serviço de Seu povo. Cada ministério é, portanto, expressão e instrumento da sacramentalidade da própria Igreja enquanto “comunhão” em Deus.

 

  1. GLOBALIZAÇÃO

Frente aos novos desafios, que vão surgindo do acelerado processo de urbanização e de, cada vez mais intensa, unificação do mundo (cf. At 11, 19-26; 16, 9-10), a Igreja hoje deve ter especial preocupação com reformular seus modelos de agir e seus modelos institucionais, o que quer dizer que deve ser cada vez mais ágil para se redefinir constantemente em sua relação com o mundo.

 

  1. COMUNICAÇÃO

Para exercer a tarefa de evangelizar, a Igreja necessita de comunicar-se adequadamente com as diversas forças sociais. Para isso, é imprescindível estabelecer permanente diálogo com a sociedade tal qual é. Deve manter-se solidamente unida em seu seio, evitar alianças com os poderes seculares que dominam o povo (cf. Mc 10, 41-45) e articular-se cada vez mais com os “movimentos populares” que se organizam na sociedade civil em vista da libertação do povo, e lançar mão dos modernos processos e instrumentos de comunicação (cf. Rm 1, 13; 1Cor 9, 20-23; At 17, 22-23). Isto é importante lembrar, pois temos estado por séculos habituados(as) à proximidade da esfera do poder, aí nos sentimos  a cômodo. Ora, hoje a voz de Deus nos chama, como pessoas e como instituição, a situar-nos na base da sociedade, cada vez mais próximos(as) de pobres e oprimidos, vítimas do poder estabelecido.  

 

  1. CONTEXTO

Qualquer processo de comunicação Igreja-Mundo tem de estar alicerçado num outro processo bem mais fundamental que é o processo da Encarnação. Este assume forma histórica mediante a inculturação pela qual o Evangelho e a realidade da Igreja vão tomando forma no contexto de cada sociedade e de cada cultura; ao mesmo tempo em que se estabelece um processo de diálogo crítico pelo qual cada cultura particular se sente interpelada ao confrontar-se com os valores perenes do Evangelho e a Igreja se sente chamada a rever sempre de novo seus modelos. Por isso, os modelos concretos de Igreja são necessariamente plurais e não podem ser impostos universalmente (cf. Jo 14; 1Cor 9, 20-23: 8,8; 10, 23.30-33).

 

  1. CRESCIMENTO

No exercício da tarefa missionária, a Igreja tem em vista não só sua manutenção, mas também seu crescimento. “Crescimento” entendido como amadurecimento no assumir a identidade cristã (“batizando… e ensinando a observar tudo quanto vos tenho ordenado” – Mt 28, 20); como compromisso de lutar em vista de transformar a sociedade, a si própria e a cada eclesiano(a) (“não se deixem moldar pelas estruturas do sistema deste mundo, mas transformem-se por meio de uma mudança profunda dos sentimentos e pensamentos, assim vocês conhecerão a vontade de Deus, o que é bom, perfeito e agradável a Ele” – Rm 12, 2); e como expansão em número e território de atuação (“Ide e fazei que todas as nações se tornem discípulos(as) – Mt 28, 19).

 

  1. AS MARCAS ANGLICANAS DA MISSÃO

A perspectiva da Missão, conforme as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento, é radicalmente profética: a Igreja proclama a graça (anúncio) e o julgamento de Deus (denúncia) para que cada pessoa se torne “nova criatura”, as estruturas sociais estejam a serviço da justiça, e a criação seja salvaguardada em sua integridade. Por isso, a Missão é integral, holística e ecológica, pois a Igreja é enviada ao mundo e seu olhar se alarga para muito além de si mesma à totalidade da obra de Deus e a seu futuro escatológico (cf. Ap 21).

Em Missão, todo o povo de Deus vive as Boas Novas do Reino de Deus na medida em que:

  • Testemunha e anuncia o amor que restaura a dignidade humana enquanto perdoa, salva e reconcilia por Cristo todas as pessoas e a sociedade humana como tal;
  • Constrói comunidades de fé, acolhedoras, celebrativas e transformadoras, sacramento ou sinal da presença viva de Cristo no mundo;
  • Permanece em solidariedade com pobres e excluídos(as), servindo com amor em suas necessidades;
  • Desafia a injustiça, a opressão e a violência, assumindo lutar pela transformação das estruturas injustas da sociedade;
  • Com zelo, cuida, busca restaurar e renovar os recursos da terra, obra de criação de Deus.

 

           Tudo isto com o objetivo de que haja no mundo cada vez mais  comunidades de pessoas cônscias de sua dignidade, que pratiquem o amor (diakonía de agapé) manifestado mediante a comunhão fraterna que se dá no serviço recíproco (diakonía/serviço); mediante assimilação e aprofundamento da Palavra de Deus, tendo a Bíblia como referência, e esta lida com o auxílio da Tradição, da Razão e da Experiência do povo de Deus (didaskalía/ensino); mediante a consciência de participar do mistério de Cristo (mystagogía/iniciação ao mistério ou sacramentalidade da vida); mediante a celebração da santidade de Deus e de nossa vida como serviço integral para manifestar Sua glória (leitourgía/serviço do povo e em favor do povo). Até aqui o que se refere às duas primeiras Marcas.

            Tais comunidades são chamadas a assumir como tarefa primordial o testemunho de amor ao mundo, obra de Deus, é o conteúdo das três Marcas seguintes: solidariedade, luta pela justiça e cuidado com a criação  Assim, o povo de Deus se consagra ao grande “projeto” divino de estabelecer o Reino de Deus, cujo conteúdo é o “xalôm”, a saber, o bem-viver, a felicidade, a paz e harmonia universal (cf. Is 2, 1-5; 9, 1-6; 11, 1-9; Ef 2).  

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Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema "Evangelização", convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social ("Casa Ecumênica - Crer & Ser") com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.

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