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Pensamentos (Por ocasião do “Dia Internacional da Mulher”)

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Para Francisca das Chagas, liderança quilombola, covarde e cruelmente assassinada no Maranhão

Deus é como pai e mãe

A Bíblia nos diz que Deus é misterioso, como um segredo escondido (cf. Mt  6, 5-15). Mas não é só porque não o vemos, é sobretudo porque não o compreendemos.  Não sabemos e nem podemos saber como Ele é. Está acima de todas as coisas e é totalmente além de tudo o que existe.

É por isso que a Bíblia diz: “Não fareis imagens” (cf. Dt 5, 6-10). Quer dizer, não se pode representar Deus com nada deste mundo. Nada pode figurar o que Ele é.  Só Ele mesmo pode construir Sua própria imagem. Está bem claro na Bíblia: a imagem de Deus, feita por Ele, são o homem e a mulher, os seres humanos em seu conjunto.  Não é imagem que a gente faz, mas é a imagem que Deus mesmo já fez (cf. Gn 1, 26-31).

Isto quer dizer que não adianta imaginar Deus no próprio coração e na própria cabeça. Não adianta querer fazer uma imagem d’Ele, nem fora, nem em nosso interior. Não. Ele nunca seria o que possamos imaginar. É preciso conviver entre nós, umas pessoas com as outras, de maneira boa, positiva, amorosa e, então, vendo o que há de bom e de positivo nas pessoas e no universo, vamos conhecendo alguns traços da face de Deus. Como Jesus foi o ser humano melhor, pôde dizer: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo  14, 9).

Mas, atenção. Deus não é como os seres humanos, homem e mulher, macho e fêmea. Ele não tem dualidade sexual como nós, nem tem nossos limites. Por isso, Jesus nunca diz: “Deus é isto”, mas sempre fala assim: “Deus é semelhante a… é parecido com… é como se fosse assim…” Só uma chamada para a gente ir adiante.

Sempre oramos chamando-Lhe de Pai, mas Ele é muito além e muito mais que qualquer pai humano, só por machismo e patriarcalismo é que tendemos a identifica-Lo com a figura masculina. Na Bíblia, Ele mesmo nos diz que também é MÃE.

Tome sua Bíblia, abra-a em Isaías 49, 15-16: “Pode a mãe se esquecer do seu bebê, pode ela deixar de amar a cria de suas entranhas? Pois bem, ainda que ela se esquecesse, eu nunca me esqueceria de você. Veja. Eu tatuei você na palma da minha mão”. Ou Isaías 66, 11: “Como a mãe consola o seu bebê, assim eu vou consolar vocês”.

Vamos abrir também o profeta Oseias, capítulo 11: “Quando o povo de Israel era criança, Eu o amei. Da escravidão do Egito chamei o meu filho”. E mais adiante: “Não há dúvida, fui Eu que ensinei Efraim a andar, segurando-o pela mão. Mas não percebiam que era Eu quem cuidava deles. Eu os abraçava com laços de bondade, com cordas de amor. Fazia com eles como quem levanta até o rosto uma criança e, para dar-lhes de comer, Eu me inclinava para eles”. Vejam bem a imagem: Deus está se comparando com uma mãe que dá de mamar ao seu bebê.

E tem um pequenino salmo, muito lindo, o Sl 131, que diz assim:

“Senhor, meu coração não é ambicioso; nem meus olhos elevados para coisas altas. Não ando atrás de grandezas, nem de maravilhas que me ultrapassam. Não. Eu fiz calar e acalmei meus desejos, como criança que acaba de mamar no colo de sua mãe”.

Aqui a Bíblia diz que nossa oração é para dizer a Deus que, com Ele, nós nos sentimos tranquilos e felizes, como criança no colo da mãe, satisfeita, depois de mamar, o mais pleno sentimento de felicidade e segurança.

Quando dizemos que Deus é Pai é para dizer que é nossa origem, a fonte da vida e de toda bênção. Podemos também dizer que é mãe, pois a mãe é também, e de modo todo especial, fonte da vida.  “Eva” quer dizer VIDA. Ah, como seria bonito se a gente orasse assim: “Ó Deus, fonte da vida, que és para nós como pai e mãe, origem de todo bem e de toda graça”.

Que beleza, como pais e mães, participamos dessa maravilha que é ser, como o próprio Deus, fonte de vida para outras pessoas, e de energia e coragem para melhorar este mundo!

Homem e mulher, somos uma só coisa

 Quando lemos Gênesis 1 e 2, é inevitável, percebemos logo que todas as imagens apontam no sentido da unidade. Primeiro, do ser humano com Deus: homem e mulher, somos, em conjunto, Sua imagem e semelhança, participamos de Sua tarefa de cuidar e administrar o mundo (cf. Gn 1, 26-31). Em segundo lugar, a unidade entre os seres humanos: somos “ix” (varão) e “ixah” (varoa), a forma masculina e a feminina do mesmo ser (cf. Gn 2, 23). Finalmente, somos uma só coisa com o conjunto da criação: homem e mulher somos ADAM, isto é, “terrestre”, ser do barro da terra, fomos feitos de “ADAMAH” (cf. Gn 1, 26-27). Somos “humanos” porque viemos do “húmus”, do chão da terra. E a prova é que, quando morremos, voltamos ao barro (cf. Sl 146, 3-4).

Na verdade, somos todos e todas da mesma “carne” (condição de precariedade, de fragilidade, de provisoriedade, de historicidade…). Como homem e mulher, somos da mesma carne entre nós; como seres humanos, somos da mesma “carne” (condição) da terra, do mesmo “barro”; como irmãos e irmãs de Jesus, somos da mesma carne do Filho de Deus, somos da carne de Deus…

Todos os seres da criação, apesar de nossa ilusão de óptica de olhar tudo como se fosse tão sólido, não são outra coisa que variadas formas de concentração de energia cósmica. Ah, se tivéssemos olhos de ver dentro das coisas, em seu processo de fazer-se e desfazer-se continuamente! Apareceria claro que a relação, a comunidade, a coletividade é que são, na verdade, o real. Somos imensa teia cósmica. Tudo conectado, em maravilhosa comunhão originária.

O individualismo, o egoísmo, o narcisismo não passam de ilusórios sentimentos de infantil apropriação da realidade. São apenas ideologia e falsidade, máscara, em contradição com o dinamismo mais profundo das coisas. São nosso delírio na tentativa de escapar do medo. Como se nos sentíssemos órfãos, sem colo, e a “posse” nos livrasse da angústia de ser. Só que, quanto mais medo, mais solidão… quanto mais sentimento de poder, maior a suspeita de impotência…

About Sebastião Armando (176 Articles)
<p>Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber<br /> to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema “Evangelização”, convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social (“Casa Ecumênica – Crer & Ser”) com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.</p>