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“Passemos à outra margem!”

“PASSEMOS À OUTRA MARGEM!”

(ASSEMBLEIA DA DIOCESE ANGLICANA DA AMAZÔNIA)

foto oficial

De 18 a 20 de Março passado, a convite de Dom Saulo Maurício de Barros, Bispo Diocesano, e do Rev. Marcos Barros, Presidente do Conselho Diocesano, estive a participar do Concílio anual, com tarefa de assessor do momento de estudo bíblico. Fui acolhido pelo povo da Diocese de maneira muito fraterna e cordial, e revi pessoas que já não encontrava há anos. O lema da Assembleia era “passemos à outra margem!”, tirado do Evangelho segundo Marcos, capítulo quarto, quando Jesus, depois de avaliar as diferentes reações a seu trabalho de “conscientização” do povo e de testemunho da presença do Reino de Deus no meio dos pobres, avaliação feita mediante as parábolas, ordena aos discípulos avançar na direção do território dos gentios, como se dissesse: “vamos ao mundo mais amplo”.

Após breve análise do texto evangélico, na secção 3,7 a 6,6ª, que narra a formação da “casa” (família) de Jesus a partir da multidão do povo, chamei a atenção para o fato  de que a Igreja já há anos nos tem indicado para qual “outra margem” devemos passar. Formamos a “casa de Jesus”, a comunidade, não para nos refugiar num “clube” religioso de amigos(as), mas para nos fortalecer em vista do testemunho do Reino de Deus na sociedade. O convite e a direção estão indicados pela Igreja nas “Seis Marcas da Missão”:

  1. O anúncio da Boa Nova da liberdade nos deve dar a certeza da dignidade de toda pessoa, filho ou filha de Deus, livre, não mais sujeita a qualquer tipo de opressão;
  2. A vida em comunidade passa a ser o ambiente para a partilha e comunhão fraterna; para o aprofundamento da Palavra que desmascara a mentira das ideologias justificadoras dos sistemas de opressão; para a iniciação ao mistério de Cristo (sacramentalidade), que nos traz nova coragem para lutar; e nos fortalece para assumir o serviço recíproco;
  3. A relação com a sociedade se dá mediante o que podemos chamar de “mutirão do bem”, a união de todas as pessoas, movimentos e forças que almejam um mundo melhor:
  4. Assumindo a solidariedade que se traduz concretamente em “serviços de amor” a quem necessita: pobres, pessoas excluídas, sem casa, sem terra, pessoas enfermas, com deficiência, marginalizadas, idosas, solitárias, perseguidas, etc;
  5. Enfrentando, lúcida e corajosamente, a luta pela Justiça, para transformar as estruturas injustas da sociedade, pois não basta assistir as vítimas, é preciso eliminar as causas de sua condição de opressão;
  6. Assumindo o cuidado com a preservação da Criação e a renovação dos recursos da terra, a partir da consciência profunda de que somos parte da terra, já que somos “humanos”, isto é, do mesmo “húmus” do chão;
  7. Pela compaixão universal por todos os seres do universo, lutar para que o diálogo, e não a violência, seja o caminho de solução de conflitos, de modo que se estabeleça e se garanta a paz entre as pessoas e entre os povos.

 

Na celebração eucarística de Domingo de Ramos, quando a Liturgia nos chama a associar-nos à tarefa e ao destino de Jesus, voltei ao mesmo tema. Em meio ao tenebroso mar do sistema deste mundo, Ele nos precede, garantindo-nos a presença salvadora do “EU SOU”, o Deus da Libertação, em nosso meio (cf. Mc 4, 39-41, combinado com 6, 45-52; Sl 107, 23-32). Os prodígios do Êxodo devem renovar-se em nós (cf. Is 43, 16-21; Sl 107, 33-36). O batismo nos arrancou das águas desse mar ameaçador (cf. Mc 1, 16-20) e, como pessoas nascidas de novo, nos transporta para o ambiente do Reino de Deus, a comunidade que nos envia à sociedade (cf. Rm 6, 4-11). O famoso teólogo protestante Carlos Barth definia a Igreja como “conspiratio testium” (conspiração de testemunhas). Somos “conspiradores(as)” contra as trevas desta sociedade injusta e anunciadores(as) e agentes de “outro mundo possível, necessário e urgente”.

Para assumir essa missão, precisamos ser um povo espiritualmente profundo, comprometido com a obra de Deus (cf. Jo 5); ser um povo bem formado no conhecimento da Bíblia e naquilo que é a missão da Igreja em nossa terra; ser um povo capaz de perceber a realidade do país e do mundo, e de analisá-la com lucidez; ser um povo unido, com vivência comunitária e projetos comuns; ser um povo politicamente comprometido com o bem de nossa gente e, por isso, com a transformação do país, atuando de maneira metodologicamente correta, quer no campo pastoral, quer no campo político. Não somos apenas um povo religioso e devoto. Carregamos conosco muito mais, a missão de Jesus de anunciar e dar os sinais do Reino de Deus, como fermento de transformação deste mundo; certamente mediante projetos sociais e políticos institucionais da Igreja, mas, antes de tudo, pelo engajamento pessoal e/ou de grupos, no ambiente familiar, no ambiente escolar e profissional, nos movimentos sociais, nos partidos políticos, etc. Ou seja, como fermento na massa, sal na comida e luz que ilumina caminhos (cf. Mt 5, 13-16; 13, 33) de reconstrução do mundo segundo Deus, agentes dessa “coisa nova” de que nos fala o profeta Isaías (cf. Is 43, 16-21), dessa “coisa nova” que Deus quer para Seu povo, através de nós.

Deus abençoe  nossa Igreja na Amazônia, para que tenha lucidez, energia e coragem para trabalhar particularmente pela Justiça e pelo Cuidado, de modo que este mundo chegue a ser o jardim de Deus, como sugere o texto da ressurreição  no Evangelho segundo João: Jesus, o jardineiro, novo Adão, Maria Madalena, a nova mulher, a que sai a anunciar: “Eu vi o Senhor”, eu estou enxergando o mundo invisível, como Moisés, o Libertador (cf. Hb 11, 27). O clarão da Ressurreição tem potência de luz para invadir este mundo visível e afastar as trevas (cf. Jo 20, 1; Gn 1, 1-5).

Que Deus nos dê a mesma coragem de santos e santas para sermos realmente “aquela coisa nova que agora mesmo já está brotando, será que ainda não a percebemos?” (cf. Is 43, 18-19). “Ecclesia Anglicana, mater sanctorum”. Igreja Anglicana, geradora de santos e santas. Amém.

About Sebastião Armando (170 Articles)
Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema "Evangelização", convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social ("Casa Ecumênica - Crer & Ser") com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.