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“Para nos servir de exemplo” (1Cor 10, 6) Setembro, Mês da Bíblia

                 setembro 2A Bíblia é mensagem divina. Nela temos o testemunho clássico da experiência histórica da Palavra de Deus. Mas a própria Bíblia nos mostra que Deus nos fala do meio da vida humana. A Bíblia fala do Deus do povo enquanto nos fala da vida do povo de Deus. Na verdade, é assim porque é d’Ele que tudo flui, pela criação é a Fonte de tudo. É na vida que o povo de Deus percebe Sua presença e registra por escrito essa experiência de “epifania”, de manifestação de Deus, Ele é Emanuel, Deus conosco (cf. Is 7,10-17).

                Como é o Deus vivo, perfeito, infinito e inesgotável, Suas manifestações não podem ser adequadamente registradas em palavras humanas, sempre necessariamente limitadas e falíveis. Além disso, se é vivo, continua a falar-nos em nossa vida hoje, a manifestar Sua vontade e a mostrar caminhos para Lhe sermos fiéis (cf. Sl 36, 10; 119, 105). É sob a luz do Espírito Santo que o percebemos. Daí, por que não é possível ter na Bíblia toda a Sua Palavra, pois nenhuma medida humana pode contê-Lo. Tudo o que está contido na Bíblia é Palavra de Deus nos limites de palavras humanas. A Bíblia é totalmente Palavra, mas não toda a Palavra. Além de limites de compreensão e de interpretação da Revelação, os limites de nossa pecaminosidade. Por isso, a Bíblia, por ser uma forma de encarnação de Deus, é limitada, não pode conter tudo o que Ele pode e nos quer dizer (cf. 2Cor 3). Mesmo em Jesus de Nazaré, a encarnação se dá nos limites de um homem (masculino), judeu, do século Iº. Nela o povo de Deus registrou o que foi capaz de perceber d’Ele, em sua própria experiência de vida, nos estreitos contornos de cada época e de suas representações culturais: fala de sua escuta de Deus ao contar-nos sua própria história (cf. Hb 11). Pensemos, por exemplo, nas imagens que se faziam de Deus em tempos antigos: um Deus irado, vingativo, comandante de guerras contra os inimigos, que escolhe um povo e despreza outros, que se arrepende do que fizera, que expulsa povos estrangeiros para dar terra aos seus… O profetismo e sobretudo Jesus vão corrigir claramente tais representações (cf. Am 4, 18-20; 6, 1-3; 9,7-10; Mt 5, 21-48).

                    Devemos admitir que é preciso estabelecer princípios básicos de correta leitura e interpretação, para não nos desencaminhar-nos e identificar, na Bíblia, o que é realmente testemunho da Palavra de Deus, em meio à multiplicidade de palavras humanas, veículo indispensável. É preciso exercer cuidadoso discernimento. A primeira coisa a ter presente é que os escritos bíblicos são obra literária humana, pois o veículo da mensagem é humano. Para compreender a Bíblia é preciso possuir ao menos alguma noção sobre os diversos estilos, gêneros de linguagem, formas literárias, figuras de linguagem, jeito de redigir e compor textos na Antiguidade, concepção de autoria e de historicidade naqueles tempos, tendo em conta que estamos a ler uma obra antiga e que nos chega de civilização bem diferente da nossa. “Ler ao pé da letra”, por exemplo, é grande ilusão, pois o que se escreve, muitíssimas vezes, não é para ser entendido assim. Nós mesmos(as) falamos frequentemente por figuras, símbolos,  parábolas, ainda hoje. Como entender “ao pé da letra” expressões como “estou com o coração na mão”, “coração aos pulos, quase saindo pela boca”, “estas crianças me fazem correr doida”, “vá plantar batatas”, “vá tomar banho”, “você é minha vida”…? A Bíblia contém histórias, poemas, oráculos, fábulas, lendas, “novelas”, orações, cânticos – gêneros literários humanos em busca de exprimir a divina mensagem. Ser considerado “autor(a)” na Antiguidade não é o mesmo que hoje, pois naquele tempo não se conhecia o direito autoral e o livro era patrimônio da comunidade, com liberdade de modificar, acrescentar, suprimir, atualizar… em grande parte, era trabalho coletivo de recolher tradições orais nascidas no meio do povo. Livros como os de Jeremias, o Deuteronômio e o de Isaías passaram cerca de trezentos anos até ficar prontos, quantas vicissitudes!. “Autor”, muitas vezes, era como patrono de uma certa corrente literária, como se vê com Moisés para as leis, Davi para a poesia cultual e Salomão para a sabedoria. Até o que se criava depois vinha com o nome de grandes figuras tradicionais. Além de muitas obras serem postas sob pseudônimo.

                           É preciso também ter atenção à leitura histórica. A Sagrada Escritura encerra o patrimônio de gerações ao longo de séculos. Contempla milhares de anos de história, de costumes, de normas de vida bem diversas do mundo em que vivemos hoje. Sem conhecer o que nos é possível do contexto de vida daquele povo – sua economia, as relações sociais, políticas e culturais – não é possível entender adequadamente os textos que produzem. Livro é sempre expressão de vida de um determinado povo, sobretudo suas histórias e poemas. Toda mensagem só se compreende no contexto em que se produz. Também para nós vale a mesma regra. É por isso que o Apóstolo São Paulo nos diz que o texto está sempre coberto por um “véu”, há entre nós e seu mundo uma distância que precisa ser rompida, mediante o conhecimento de seu contexto e iluminada pelo contexto de nossa própria vida (cf. 2Cor 3).

                          Outro aspecto é a leitura teológica. Não basta penetrar a Bíblia como obra literária e histórica. Conhecer bem os textos, aprofundar sua beleza literária (pensemos nos Salmos, no Cantar dos Cantares, em Lamentações e nos poemas de profetas e profetisas) e a história que os fez nascer, é importante para, finalmente, perceber qual é a mensagem que Deus dirigiu a nossos pais e mães na fé, e como essa mensagem antiga ainda hoje pode tornar-se julgamento e boa nova em nossa vida. Estudamos a Bíblia, não tanto para aprender a Bíblia, mas para aprender da Bíblia o jeito de ser de Deus, e perceber por onde Ele costuma passar e por onde costumam andar as pessoas que Lhe são fiéis. Afinar o ouvido para escutar, abrir os olhos para enxergar, fortalecer os joelhos e os pés para firmá-los na caminhada, exercitar as mãos para o trabalho na obra de Deus (cf. Jo 5, 17; 9, 1-7). Não basta querer ler mecanicamente cada palavra ou frase das Escrituras e dizer “palavra de Deus”. Os Pais da Igreja e Lutero o diziam muito bem:  é o conjunto da Bíblia que nos faz compreender cada palavra da Bíblia. Precisamos exercitar uma leitura de conjunto. E ainda ensinavam que, na Bíblia, é Palavra de Deus “o que nos conduz a Cristo” e toca o centro da mensagem da Revelação e da fé (cf. 2Cor 5, 14-21; 1Jo 4, 7-21). É justamente este o trabalho que fazem os evangelhos ao reler o Primeiro Testamento. E no Concílio Vaticano II, da Igreja Católica Romana, foi dita frase muito importante no documento sobre a Divina Revelação, “Dei Verbum”: “Não pode conter erro o que foi revelado em vista de nossa salvação”, quanto ao mais, cai sob as vicissitudes do limite humano e seus condicionamentos históricos e culturais.

                           Finalmente, a leitura comunitária. O ambiente mais propício a uma leitura crente e proveitosa das Escrituras é a comunidade. Primeiro, porque mais olhos veem mais do que apenas dois e mais corações sentem com bem mais intensidade. A percepção de cada pessoa vai sendo ampliada pela percepção de outrem. “Ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, todos(as) nós nos educamos em comunhão”(Paulo Freire). Conhecer é sempre empresa coletiva. Segundo, a leitura em comunidade é instrumento preciosíssimo para edificar a própria comunidade. Pela leitura comunitária da Bíblia vai-se construindo a Igreja. Nascem e se fortalecem relações de amor e intimidade entre as pessoas, pois, naturalmente, nossas vidas vão-se entrelaçando entre nós e com a vida de nossos pais e mães na fé, que vai brotando dos textos. Sim, porque, por trás de cada página, o que está são histórias de vida, é como se dos textos, de repente, saltassem pessoas vivas, caminhantes como nós, e tomassem assento em nossa roda de conversa. A Bíblia o que faz é revelar nossa vida em suas raízes – Deus e o povo, e nos entrelaça em novas relações de partilha e comunhão (cf. 1Jo 1, 1-4).

                           A leitura da Bíblia na Igreja, ao longo do tempo, sempre foi “leitura espiritual”, a saber, leitura que conduz a Cristo, “simbólica”, alegórica, ou seja, além da letra, em plano superior. Sem dúvida, na perspectiva de 2Cor 3. Os Pais da Igreja, certamente, não tinham os instrumentos científicos modernos, praticaram justamente aquela leitura, hoje dizemos “popular e comunitária” (fizeram interpretação da Bíblia sobretudo quando partilhavam a Palavra com o povo na liturgia). Chamavam de “leitura alegórica”, acentuada especialmente pela famosa “Escola de Alexandria”, no Egito, tendo Orígenes como um de seus grandes representantes. Mas, ao mesmo tempo, sempre houve grande respeito e atenção ao texto, ao “sentido literal” ou “histórico”, enfatizado particularmente pela “Escola de Antioquia”, na Síria, tendo entre seus grandes nomes o de São João Crisóstomo que chegou a ser patriarca de Constantinopla. Nesta era muito vivo o senso da “encarnação”. As duas dimensões ou perspectivas são naturalmente complementares. Já a partir dessa época antiga dos Pais, iam ficando sempre mais claros dois critérios para interpretar a Bíblia: cada texto devia ser compreendido à luz da tradição de fé da Igreja e tendo em conta a razão, de modo que não se pode “interpretar literalmente uma passagem que seja absolutamente contrária à razão” (cf. Julio Trebolle Barrera, “A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã – Introdução à História da Bíblia”, pg. 642, 1996). Já temos aí o que hoje chamamos de “triângulo hermenêutico”: o texto deve ser interpretado a partir da experiência da pessoa que lê, da fé que identifica a comunidade (tradição) e da razão, ou seja, os desafios que nos vêm do âmbito mais amplo dos desafios da sociedade.

                           A “leitura científica” ou “crítica” tem sido praticada sobretudo a partir do século XIX, com ajuda das Ciências, particularmente aquelas que estudam os textos antigos e as antigas civilizações, como a Crítica Textual, a Crítica Literária, a Crítica Histórica, a Geografia, a Arqueologia, a História, a Antropologia, e, mais recentemente, a Análise Literária ou Retórica, a Sociologia e até a Psicologia… Tem-se mostrado, assim, muito útil e proveitosa para maior compreensão da “letra” e da “história” que é o seu contexto vital. Mas não se deve nunca esquecer que tem de estar a serviço da “leitura espiritual”, em busca do “sentido mais pleno”.

                           Na Idade Média, chegou-se a sistematizar os “quatro sentidos das Escrituras”: o “sentido literal ou histórico” que buscava compreender o texto assim como ele se mostra imediatamente, buscando resolver dificuldades para seu entendimento; daí, passava-se ao “sentido alegórico”, ou seja, àquilo que queria dizer em relação ao mistério de Cristo e da Igreja, humanidade redimida; em seguida, ao “sentido tropológico” (de “trópos”, em grego, que quer dizer direção, maneira de ser, costumes, moral…) que era a aplicação da Bíblia ao modo de viver segundo Cristo; finalmente, o “sentido anagógico” (também do grego, “que conduz para cima”) ou escatológico, enquanto o texto nos dirige para as realidades definitivas e finais.

                           A mesma perspectiva se acha em outra sistematização medieval, com uma  linguagem mais característica do Monaquismo, a conhecida “lectio divina”: antes de tudo a “lectio” ou leitura, que equivale à atenção ao texto, acolhê-lo em sua forma imediata; segue a “meditatio” ou meditação, que é justamente o aprofundamento da leitura, a atenção ao “por trás das palavras, corresponde, em boa medida, àquilo que chamamos de “exegese”, buscar explicar e compreender  o sentido do texto; vem  a “oratio” ou oração que é por-se à escuta do Espírito de Deus, invocá-Lo e procurar deixar-se levar por Seu impulso, como quem é carregado pelo vento (cf. Jo 3, 5-8); finalmente, a “contemplatio” ou contemplação, situar-se na mesma perspectiva da obra de Deus no mundo e, assim, perceber os apelos da mensagem do texto a partir da realidade de hoje, ou seja, aquilo que designamos como momento “hermenêutico” da leitura, em outras palavras, sentir o texto, com toda força como Palavra de Deus atual em nossa vida, que nos julga em nossos limites e pecados e, ao mesmo tempo, nos anuncia uma  Boa Nova (Evangelho) hoje.

                          Há mais de trinta anos tenho participado da família do Centro de Estudos Bíblicos – CEBI, ecumênico, e posso testemunhar o quanto isto é, para mim, verdade de experiência. Uma leitura correta da Bíblia é meio privilegiado para transformar nossa vida, renovar a Igreja e nos preparar para contribuir na mudança da sociedade. Ah, se conseguíssemos, como povo, chegar a ter realmente “mentalidade bíblica”, a “mente de Cristo”, de tal forma que “as marcas de Jesus se achassem impressas em nosso próprio corpo”! (Gl 6, 17)

About Sebastião Armando (170 Articles)
Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema "Evangelização", convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social ("Casa Ecumênica - Crer & Ser") com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.