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Palavra de Deus e Libertação Humana “A Verdade vos libertará” (Jo 8, 32)

 

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Para muita gente, dentro e fora das Igrejas, Palavra de Deus e Bíblia são a mesma coisa.  Esta maneira de pensar traz consigo algumas conseqüências:

  1. Reduz-se freqüentemente a Palavra a um documento do passado, fundamento normativo de sistemas tradicionalistas e conservadores. Sistemas esses, inclusive, denunciados de modo contundente por Jesus, como hipócritas, semelhantes a sepulcros caiados, calculistas e cheios de perigoso veneno semelhante ao das serpentes (cf. Mt 23).
  1. Reduz-se a Palavra a normas abstratas, instrumento de controle com o qual se sobrecarregam os ombros do povo de fardo muito pesado (cf. Mt  23,4)  e  se chega até a  justificar ações repressivas,  semelhantes àquela  dos escribas contra os discípulos quando colhiam espigas no campo, no dia de sábado, para saciar a fome. Aos olhos do fariseu a Palavra equivale a preceito cego às necessidades concretas das pessoas. Aos olhos de Jesus, ao contrário, até mesmo as leis tidas por mais sagradas e dadas por Deus, só têm valor se consideradas como normas que nascem da História e que com a História devem permanecer em constante confronto (cf. Mc 2,23-28; 3, 1-6).
  1. E, finalmente, identificando-se Bíblia e Palavra de Deus, corre-se o risco de reduzir a Palavra a doutrinas eclesiásticas formuladas e sobretudo interpretadas segundo interesses ideológicos das elites dominantes, degradando-se assim a Palavra, reduzida a tradições humanas como tentativa de evasão das duras exigências da convivência social, para refugiar-se naquilo que Marx, neto de rabino, formado, portanto, em ambiente hebreu, na mesma linha dos profetas bíblicos, denunciou como “alienação religiosa” (cf. Mc 7, 1-23; 12, 38-44; Am 5; Is 1, 2-21; Jr 7).

Em vez disso, a Palavra é essencialmente acontecimento atual. E aqui quem é religioso e quem não é nos encontramos. Aqueles, como eu, para quem é importante testemunhar expressamente a própria fé, dizem que, no próprio desenrolar-se da vida, é o Deus vivo que se manifesta, se revela e se comunica. Existem, porém, companheiros e companheiras que se dizem não crentes. Nós respeitamos esta sua maneira peculiar de expressar a experiência da vida. Antes, compreendemos muito bem as razões que têm de tomar distância  de instituições religiosas, cujo passado e o próprio presente  testemunham da dificuldade de levar adiante, com  fidelidade, a proposta de Jesus de Nazaré. Não fazem referência a Deus, mas a experiência da Palavra, fazem-na igualmente. Na verdade, o essencial não é apor etiquetas de tipo religioso às próprias ações, mas efetivamente fazer a experiência  da Palavra, como nos indica claramente Jesus  quando proclama: “Não é quem diz: ‘Senhor, Senhor’,  que entrará no Reino dos Céus, mas  quem faz a vontade do Pai” (Mt  7,21).  A experiência da Palavra corresponde à experiência humana como tal.

Sabemos bem que, como ser consciente, o ser humano não só se encontra no mundo como alguma coisa a mais, entre as tantas coisas existentes, mas, de alguma maneira, se encontra com o mundo, como alguém que se experimenta em permanente diálogo ou conflito, como se estivesse diante de alguém, como se escutasse o som de uma voz que convoca, interpela, aprova e critica. A realidade parece estar sempre a dizer alguma coisa, os fatos da vida são eloqüentes, falam, gritam até, pedem atenta escuta e capacidade de entendimento e discernimento. “E onde a vida é pisada, aí é que grita mais forte” (Carlos Mesters) Antes de falar de Palavra de Deus, devemos dizer que a vida mesma é Palavra.  Nós a sentimos como se fosse alguém que fala. Não se trata, porém, no seu sentido mais profundo, de palavra doutrinal, que venha trazer esclarecimento aos enigmas da existência. Todas as doutrinas, filosofias ou explicações não vão além do nível precário e provisório das tentativas e do balbucio. A Vida, antes de tudo, é Palavra, não de explicação, mas de convocação. Convocação a viver. Pois todo o seu dinamismo coincide com a imanente afirmação de si mesma. Ou seja, a Vida, o que pretende é afirmar-se como tal, nada mais do que isto: somos chamados(as) a participar da Vida  e a construí-la  em nós, levando adiante aquele impulso que, em nosso nascimento, nos foi comunicado: em cada qual de nós a Vida é comunicação gratuita do ser, doação de si mesma. Somos chamados(as) a viver e a comunicar Vida (cf. 1Jo 1, 1-4). Por isso ela não se explica, mas se afirma por si mesma enquanto se dá.  E assim nos indica um Caminho a seguir, o caminho da doação de si (cf. Jo 14, 6). Escutar a Palavra significa então aceitar seguir a voz da Vida, aproximar-se sempre mais dela, dispor-se a deixar-se penetrar por seu dinamismo de dom, tornando-se semelhante a  ela, fazendo-se sempre mais vivente. A Vida só se deixa perceber e conhecer profundamente por via de conaturalidade, por interpenetração. ‘Interpretar’ quer dizer  interpenetrar, por via de convivência íntima, ousaria dizer,  por conivência.  O vivente é cúmplice do viver. E o grau de cumplicidade se define pela capacidade de doar-se sempre mais.

Concretamente, isto significa que somos chamados(as) simplesmente a viver o mais plenamente possível. Nada de extraordinário. Eis aí alguma coisa que a todo ser humano deveria ser evidente e óbvia. A Vida nos chama a exercitar-nos no ato de viver, na arte de praticar a vida naquela  mesma direção de seu dinamismo radical. Cada pessoa humana é chamada a ser a Vida que em nós, cada vez de novo, se afirma,  e, cada vez de novo, em nova forma se oferece e se dá. Isto é, a Palavra  convoca à ação, ao exercício de viver (cf. Jo 1, 1-5).  Todas as teorias, quaisquer doutrinas não serão outra coisa que tentativa de buscar as razões de conhecer, de desejar e de agir, os três dinamismos de apropriação do mundo. Em outras palavras, explicação e justificação da prática. Assim, mediante prática e teoria, o ser humano exercita o próprio poder sobre a realidade, poder, na verdade, de apropriação da Vida,  desde as formas mais infantis e elementares de apropriação do mundo até as mais complexas funções no nível público do poder político (cf. Gn 1, 26-31). Daí, a questão da Palavra de Deus estar intimamente articulada com a questão do poder, da potência, da posse, da possibilidade, do possível... A saber, em nossa maneira de exercitar o Poder torna-se concreta nossa escuta da Palavra  e nossa resposta a ela. Nós, crentes, dizemos que é nessa experiência (não necessariamente em sua formulação) que se dá, de fato, a experiência de Deus. A Palavra, então, é eminentemente práxis, desde o exercício mais elementar do poder nas relações interpessoais e de produção e reprodução da vida, até  o exercício da política como ordenação da sociedade em geral.

Se é verdade que a Palavra surge do próprio ato de viver, devemos, sem dúvida, afirmar ser a prática a fonte donde brota  a Palavra. Isto é, Palavra e práxis são uma só coisa. Assim compreendida, parece ter muito a ver com o que Marx chama de “ciência”, pois a ciência  para Marx é o desvelamento do real histórico, a luz que deixa a nu a falsidade das construções ideológicas (legitimadoras da opressão) e a força capaz de empurrar na direção que devemos seguir, na difícil tarefa de levar adiante o processo de construção da vida humana no mundo. Nesta perspectiva, talvez possamos entender melhor a palavra do evangelista São João quando, contrariando a expectativa de nossa  cultura intelectualista, não nos recomenda pensar a verdade, mas nos diz que é preciso fazer a Verdade (Cf.  Jo  3,21). A verdade deve ser feita, a Palavra é para se cumprir em ato. Foi por isso que o grande poeta alemão Goethe traduziu: “No Princípio era a Ação”. É como uma vontade que deve ser obedecida sem demora. É a dimensão de lucidez, imanente e emergente da prática histórica humana. A verdade é práxis, ação e reflexão, intimamente articuladas. Justamente por isso, o Apóstolo São Paulo não reconhece o simples “erro” como oposto de verdade (assim falariam os filósofos gregos), mas tem a ousadia de dizer que a verdade se tornara prisioneira da “injustiça”, ou seja, de uma prática injusta (cf. Rm 1, 18). E o quarto evangelho proclama que é a Verdade que produz a liberdade: “Se permanecerdes em minha palavra, sereis de fato meus discípulos e conhecereis (fareis experiência) a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8, 32). E logo acrescenta Jesus que o contrário da verdade que liberta é o pecado, a prática negativa de viver como “escravo(a)” (cf. ibd. v.34-35).

De fato, o conceito bíblico de “palavra” está no mesmo horizonte. Temos uma indicação muito sugestiva que nos vem da própria palavra hebraica DÃBÃR. Esta palavra significa, ao mesmo tempo, palavra e coisa, ou acontecimento. Assim, pode-se dizer, na Bíblia, que Amós vê as palavras de Deus (cf. Am 1, 1) ou que “a palavra de Deus veio pela mão de Ageu” (Ag 1,1), ou seja, por sua intervenção. Traduzir “dãbãr” por “lógos” ou “verbo”, ou por  “discurso” ou “conceito” não corresponde ao sentido original hebraico, antes, o debilita. “Verbo” seria o menos distante, pois com o verbo se indica a ação, em muitos casos.

Com o conceito de “dãbãr”, estamos diante de uma concepção do conhecimento que considera o pensamento ou a teoria como momento integrante do processo de elaboração da ação, como ”poesia” (do grego “póiesis”), isto é, segundo a concepção original do termo, como projeto da ação. Em outras epistemologias, o círculo do pensamento vai da experiência prática , imediata, sensitiva, até  ao juízo racional, cuja tarefa é medir  o grau de correspondência entre a construção mental e a realidade. Como diziam os medievais, “julgar” é determinar a adequação entre o intelecto e as coisas. Na epistemologia bíblica, em vez, o círculo do pensamento só termina com a volta à prática. Não basta julgar se o conceito que se elabora corresponde ao real.  Isto é apenas um momento para voltar  à experiência da realidade. O círculo só se conclui com a volta à prática, mediante uma nova experiência imediata. Não basta verificar a adequação entre pensamento (“intellectus”) e realidade (“res”), é preciso igualmente e sobretudo verificar a adequação entre  a realidade e o pensamento divino que a criou. E essa volta à prática tem como finalidade dar prosseguimento ao ato criador de levar as coisas a se tornarem mais plenas e mais perfeitas, pois são contingentes e por isso limitadas e precárias, na linguagem da Bíblia, são “carne” e não “espírito”, ou seja, não são divinas e definitivas.

Mais ainda, além dessa precariedade, digamos, radical, “congênita”, o mundo está debaixo da “corrupção do pecado” e necessita de redenção (cf. Rm 8, 18-27). Em outras palavras, o ponto de partida e o ponto de chegada do conhecimento, segundo a Bíblia, é o ato concreto de encontro imediato com a realidade do mundo através do trabalho, da ação. Do encontro com a realidade, pelas relações de produção (ação, trabalho), nasce o pensamento. A elaboração mental, porém, não pode ser pura contemplação. Tem de ser, eminentemente, construção “estética”, a saber, transfiguração da realidade, mediante sonhos de beleza e bondade maiores. Se o real já é “cosmos”, harmonia, pode ser ainda mais belo. E se é possível ser mais belo, deve sê-lo, o conhecimento desemboca, assim, no dever, no campo da “ética”: se pode ser mais belo, deve sê-lo. E o imperativo ético nos leva à “ação política”: se deve ser, tem de ser, pode ser. Volta-se à prática, das relações de produção (economia), passando pela “theoria”, chega-se a relações de transformação (política).

O ideal de humanidade não é o “filosófico”, como pensava o helenismo, longe das penas do trabalho, a usufruir do ócio que é proporcionado por escravos e escravas submetidos ao peso do neg-ócio. O ideal bíblico de humanidade é o ser humano trabalhador, homem e mulher, que está revestido da imagem de Deus, a saber, é no mundo o lugar-tenente da divindade, chamado à relação de comunhão com o mistério incomensurável da Vida (cf  Gn  1,26-31). Deus é eminentemente o que opera, trabalha para fazer surgir a criação (cf. Gn 1, 1-31), e Jesus o diz explicitamente: “Meu Pai vem trabalhando até agora, e eu também trabalho” (Jo 5, 17). Nesta maneira de conceber o “conhecimento”, como teoria nascida da prática e fazendo voltar a ela, está  o fundamento da unidade do povo e a referência crítica permanente à divisão de classes sociais e à inimizade entre os povos. Já foi dito: Não basta interpretar o mundo, o que urge é transformá-lo.

Por sob essa epistemologia, está uma determinada antropologia. Para o pensamento helênico, o mundo é “cosmos”, harmonia, beleza, perfeição, ordem, completude. A tarefa humana é contemplar o mundo e absorver a harmonia cósmica, tornando-se, assim, um “microcosmos”, a miniatura da harmonia. Conhecer com exatidão e praticar a virtude que daí decorre é a maneira humana de imitar a harmonia do mundo. Por isso, o ideal não é o ser humano trabalhador, mas o intelectual, o filósofo, o que contempla a beleza do cosmos. Quanto mais longe da matéria, mais elevado estaria o espírito. Para a Bíblia, porém, apesar de o mundo ser bom em sua origem, está ferido pelo pecado, marcado pela desordem. Não basta contemplar a ordem existente, é preciso agir e trabalhar para completar e redimir o mundo. Daí, por que não basta pensar e  absorver a beleza já existente, é preciso ir adiante, agir e trabalhar para que o mundo seja melhor, mais ordenado e mais pleno. Em vez de uma ética de imitação da ordem estabelecida e de adaptação ao que já é, é preciso transformar a realidade, a começar da ruptura com o “status quo”. O exemplo mais eloqüente disso são profetas e profetisas da Bíblia e Jesus entre eles e elas. E mais. Não temos somente de trabalhar para mudar a realidade exterior, é preciso que o próprio ser humano se transforme, seja redimido, pois “pensar corretamente” não significa necessariamente “querer corretamente” e “agir corretamente”. Da ciência não decorre necessariamente a ética, e da vontade não decorre necessariamente a ação. A cultura helênica era intelectualista e não conhecia o pecado, somente o erro: quem conhece, age bem, a prática da virtude seria fruto do aprendizado de uma técnica (os gregos falavam mesmo de “techné”), semelhante ao que se dá com um sapateiro que, se sabe fazer, faz bons sapatos. Ora, sabemos por experiência que não é assim. Como diz o Apóstolo São Paulo, conheço o bem e não o quero, ou quero o bem e não o pratico (cf. Rm 7).

É da prática da vida que surge a Palavra. Palavra é práxis. Quando dizemos “Palavra de Deus”, não queremos falar de nenhuma mensagem de revelação descida do alto, vinda diretamente da divindade. Isto seria mitologia. Também aqui, a perspectiva de Jesus é muito clara. Em nome dos discípulos, Felipe lhe pede mostrar-lhes o Pai. Jesus responde claramente, afirmando não haver outra via de acesso ao Pai, senão permanecer no interior da história humana. Porque esse é o lugar do Filho do Homem: “Quem me vê, vê o Pai” (Cf. Jo  14,9). Os fariseus desejavam “sinais do céu”, Jesus lhes responde chamando-os a “interpretar os sinais dos tempos (cf. Mt 16, 1-4).

Falamos, sim, da Palavra que é a nossa própria vida. Não podemos, porém, negar a experiência de que a origem última dessa Palavra nos foge, nos escapa, misteriosa e imune a qualquer manipulação. Ao falar da Palavra de Deus, o que queremos dizer é que a vida se dá, se oferece, como em íntima relação nupcial, relação de comunhão geradora de vida. Mas se dá e se oferece sem se deixar prender jamais, nem se submeter definitivamente a controle.  Falando em Palavra de Deus, é como se quiséssemos exprimir aquela suspeita que temos de que a realidade em seu núcleo mais íntimo é alguma coisa de muito semelhante a um coração arrebatado pela paixão, lúcido, daquela lucidez que caracteriza as razões do amor. É como se a Vida, na sua raiz mais profunda, fosse um mistério pessoal.

Uma conseqüência se impõe. Se a Palavra é acontecimento atual no desenrolar-se do ato de viver, os critérios em base aos quais a escuta da Vida deve ser julgada, têm de ser buscados, também eles, não fora,  mas no interior da própria Vida. E os critérios últimos não podem ser outros senão a liberdade, o amor e o serviço (ou obediência recíproca), dimensões constitutivas da pessoa como tal. Da pessoa que é a forma mais alta de expressão da vida no mundo. É certo que em relação a este ponto, sempre estaremos, em cheio, no seio de um conflito de interpretações. Pois será preciso discernir, em cada momento, quais os gestos efetivamente capazes de exprimir e de criar amor. E quais os passos a fazer no processo histórico de construção da liberdade, mediante a submissão recíproca. Do ponto onde cada qual de nós se encontra na vida, disto dependerá o seu modo de olhar o mundo e de discernir a direção a seguir. A escuta da Palavra, então, será sempre arena de luta, no meio do conflito vital, inclusive com seu conteúdo necessariamente social e político. E isto estamos a ver claramente, nestes dias, nas lutas internas dentro das Igrejas cristãs e na sociedade.

Por isso, interpretar a Palavra não depende, exclusivamente, nem sobretudo, de idoneidade científica, ou do uso de refinados instrumentos intelectuais. Antes de tudo, escutar e acolher a Palavra, isto é, exercitar interpretação ou hermenêutica correta da Vida depende de uma tomada de posição prática. É questão de opção de vida. Quem está nas trevas não ousa sair à luz a fim de escutar a Palavra, diz o evangelista João, tudo depende da qualidade de nossa prática (cf. Jo  3, 20-21). Antes de ser movimento de pensamento, é pulsar de coração (cf. Mt  6,21).Trata-se das causas humanas em favor das quais pomos empenho e aceitamos arriscar o que somos e o que possuímos.  Eis o lugar de escuta da Palavra.

Mas, então, como é possível que a Palavra e os critérios que julgam a escuta fiel, nascendo do interior da própria Vida, não nos fechem  num círculo o vicioso de autojustificação?  O que se quer é escutar a Palavra que venha iluminar a Vida, mas, se os critérios da escuta estão dentro da vida mesma, então, parece que se está num círculo vicioso, apenas buscando  autojustificar-se. Em suma, como é possível entender que a Palavra não se avilte necessariamente ao nível de ideologia legitimadora? Aqui está um ponto crítico. De fato, a experiência de escuta só será autêntica na medida em que for vivida como superação da ideologia, como experiência de ultrapassagem, de transcendência. A Palavra autêntica é sempre interpelação, chamado a superar-se, a passar adiante, a abandonar o “pai”, o próprio passado e as  redes, e a barca e os próprios negócios e interesses (cf. Mc  1,16-20; 2, 13-17). Paira sobre cada qual de nós como julgamento, crítica de nosso ser passado e, ao mesmo tempo, como boa nova que descortina futuro, põe-nos em crise em nosso presente. Este seria o critério fundamental.

Pode-se entender muito bem por que, em toda a Bíblia, o julgamento sobre a História venha exatamente do reverso da História, isto é, das vítimas da História. Só daí, efetivamente, se tem chance de proclamar uma promessa capaz de fazer o presente mover-se em direção a  futuro verdadeiramente novo. Por isso, é nas margens da História que se manifestam e se revelam a sabedoria e a força de Deus conforme a primeira Carta aos Coríntios (cf. 1Cor 1-4). Não estamos longe da idéia, segundo a qual as classes marginalizadas – o “proletariado”, nas palavras de Marx – são portadoras da promessa do futuro  para todos os povos da terra. É o pobre, o necessitado, o homem ferido e a mulher encurvada, são estes que trazem consigo, mesmo que nós não queiramos ver, a possibilidade concreta de transcendência na História. Hoje vai ser preciso refletir com cuidado para identificar as categorias sociais que correspondem àquilo que se queria dizer quando se falava de  “proletariado”. Então, não é estranho que o caminho da Palavra se faça no corpo encurvado de grupos  oprimidos no antigo Egito, no útero proibido de mulheres que se rebelam na clandestinidade, no grito de rebelião dos camponeses e pastores cananeus, exaustos pelas taxas e pelos impostos e constantemente ameaçados de perder a própria identidade junto com a perda da terra… Estou me referindo a fatos da Bíblia (cf. Ex 1-15;Js 1-12). A Palavra que é “luz para todo ser humano vindo a este mundo” desde a criação, “se fez carne e armou entre nós sua tenda” (cf. Jo 1, 1-5. 14). Não é estranho que a eloqüência da Palavra se faça ver nas chagas do Crucificado e de seus discípulos e discípulas condenados, torturados e assassinados (cf. Hb 11). O Papa Paulo VI, em “Diálogos com Jean Guiton”, chega a confessar ter espantado teólogos, nos tempos em que era capelão de juventude universitária na Itália, ao afirmar: “Se o Verbo se fez carne, é sinal de que a carne é Verbo”. Os pobres, ou melhor, os oprimidos, não são simplesmente os primeiros destinatários da Boa-Nova, antes, são eles e elas seus primeiros  portadores e núncios. Nos próprios corpos são Palavra viva a interpelar e a julgar a sociedade, seus sistemas e instituições. Enquanto padecem “na carne” a sentença de morte, na verdade, acham-se entronizados quais juízes, como bem nos mostra o evangelista João, ao contar-nos a paixão e morte de Jesus de Nazaré, tomado por ele como personagem-síntese de todos os condenados da terra: “Eis o Homem”  (Cf. Jo 19,5).  Na cruz, a exaltação gloriosa do Crucificado, gloriosa por chegar ao máximo da revelação do amor. Da cruz, a difusão do Seu novo Espírito, capaz de reunir os povos (cf. At 2) e estabelecer felicidade (o “xalôm”) ao “derrubar o muro que os separava” (cf. Ef 2).

Não é possível escutar autenticamente a Palavra, isto é, escutá-la sem degradá-la a ideologia, senão tomando como ponto de partida a aliança  com as pessoas e categorias oprimidas. Não me agrada falar de pobres, é linguagem neutra e inócua.  Alguém pode até fazer-se pobre por livre escolha. É preciso falar de pessoas, grupos, categorias, classes empobrecidas, oprimidas, pisadas, termos carregados da crueldade das relações sociais inumanas de exploração, que sugerem  a  exigência de empenho político  pela libertação (cf. Am 2, 6-8). A aliança com as pessoas e categorias oprimidas não significa simplesmente ter por elas um “amor preferencial”, mas fazer efetiva escolha de colocar-se de seu lado, tomar posição em meio a um conflito, “optar pelos empobrecidos”. Esta é a primeira e fundamental condição para uma hermenêutica correta, como é claro nas Bem-Aventuranças (cf. Lc 6, 20-26; 7, 18-23; Mt 5, 1-12).

No horizonte desta escolha fundamental, a escuta da Palavra será, necessariamente, crítica da realidade que nos cerca e autocrítica dos próprios condicionamentos sociais e ideológicos. Jamais poderá ser escuta sectária, fechada, nem meramente religiosa ou confessional. Antes, deve ser ecumênica, no sentido mais amplo do termo, decididamente aberta, humilde, livre de todo sentimento de privilégio em relação à posse da verdade. Será, por isso, amplamente coletiva e radicalmente política, isto é, empenhada na construção de uma sociedade cuja base seja a justiça.

Chegando a este ponto devemos perguntar-nos: E a Bíblia? Qual é o seu lugar? Qual a sua função? Se a Palavra se manifesta em  nossa práxis histórica atual, que sentido pode ter o velho livro da Bíblia? É que a Palavra é História. Encarna-se em acontecimentos, testemunhas, em pessoas que escutam a Voz e seguem o apelo da Vida e por isso chegam até a  ser capazes de, paradoxalmente, atingir a mais alta experiência de viver, naquele  ato mesmo de renunciar livremente a viver (cf. Mc 8 34-38). Chegam  mesmo a viver a morte como a suprema expressão de vida  e assim, nos indicam o Caminho. A Bíblia é testemunho da Palavra de Deus, na medida em que é memória profética de um povo-testemunha, refere a história  da fidelidade e da  infidelidade, e das suas conseqüências, desse povo à voz e à interpelação crítica  da Vida, através  dos acontecimentos históricos. Tem para nós o valor do clássico que consegue tocar o fenômeno humano nas suas raízes mais profundas.  Retrata como a Palavra foi escutada e, assim, nos indica a direção para onde voltar nossos próprios ouvidos. É ponto permanente de confronto para medir e fazer a verificação da qualidade de nossa prática. Neste sentido, é para nós luz e norma de vida, especialmente quando nos chama a contemplar a obra e o engajamento e o destino trágico de Jesus de Nazaré (cf. Sl 119; 2Tm 3, 14-17; 1Cor 10, 6-13; Hb 11, 1-12, 4; Fl 2, 1-11).

Que coisa nos diz hoje a Palavra de Deus?  O julgamento e a convocação que hoje nos faz a História são bastante claros.  No mundo rico, além da ameaça nuclear, paira a ameaça do excesso de consumo e conforto, o chamado “desenvolvimento”, na verdade, dos meios, sem mais saber quanto a suas finalidades; no mundo dos pobres explode, com todo seu poder, a bomba da miséria, da fome, da exclusão e da negação da “cidadania” (baste imaginar a gravidade dos problemas da migração internacional neste momento). Duas faces complementares da mesma relação milenar de opressão que, como humanidade, até hoje, não temos sido capazes de arrancar pela raiz de nossos hábitos de convivência. Nestes tempos, particularmente, tomamos sempre mais clara consciência de que a todos os povos nos atinge uma ameaça global, articulada, decerto, com o sistema de vida que levamos, a começar da economia, mas que se situa num nível ainda mais fundamental: a vida no planeta está ameaçada. Antes dependíamos da Natureza, agora, em larga medida, esta depende de nós e nos grita por socorro. Sentimos a urgência da ação ecopolítica de transformação. Estamos conscientes, sempre mais claramente, de que a grande transformação depende decisivamente de nossa decisão de transformar-nos.

Não é suficiente ajudar os povos empobrecidos e espoliados pela exploração colonial e neocolonial. É necessário e urgente que, em todos os países, pessoas, grupos e instituições se decidam por uma revisão profunda de suas atitudes e de seus comportamentos em relação ao dinheiro, ao poder e aos instrumentos da tecnologia, pois em tudo isto está em jogo o cuidado, a preservação e a renovação dos recursos da Terra. Estamos jogados(as) em luta política e cultural que nos toca até nas nossas relações familiares e pessoais. Começando pelo mais elementar, pelo comer. Que comemos? Como comemos? Para que comemos?  É necessário redefinir toda a nossa vida, desde as relações mais elementares, aquelas que nutrimos com nosso próprio corpo, nas suas dimensões fundamentais, erótica (prazer e reprodução) e econômica (relações de produção e produtos). O desafio nos atinge desde o coração, isto é, a consciência profunda de nossa responsabilidade ética. Os menores atos do quotidiano se tornam atos éticos, a saber, de responsabilidade em face de outras pessoas e do próprio universo como um todo. Exige-se de nós parcimônia e austeridade no uso das coisas. Por exemplo, já abrir a torneira pela manhã para escovar os dentes é ato de responsabilidade ética, pois a água se fez bem escasso e de alta preciosidade. Cuidar da qualidade do ar, cuidar da terra, usar o automóvel são atos de responsabilidade ética, e assim por diante… Essa responsabilidade não pode ser deixada aos poderosos e aos governos, pois os primeiros não querem assumi-la, para não comprometer seu bem estar, os governos, ou não podem, ou não querem, por estarem a serviço de interesses dos poderosos. Incrivelmente, a responsabilidade da ação ecopolítica para transformar o sistema vigente, homicida e ecocida, está em nossas mãos, nas mãos das pessoas comuns às quais interessa que tenhamos um mundo diferente e mais feliz. Hoje é decisivo o mover-se da sociedade civil. Nunca foi tão claro o que diz a primeira Carta aos Coríntios: a sabedoria (palavra autêntica sobre a vida) e o poder (capacidade de transformação da realidade) de Deus se acham naqueles e naquelas que o sistema dominante considera “tolos e fracos” (cf. 1Cor 1).

Concretamente, que coisa se pede de nós? Não existem regras pre-estabelecidas. Na sua Carta aos Filipenses  diz-nos o Apóstolo São Paulo: “Enfim, irmãos, vocês se devem ocupar de tudo aquilo que é verdadeiro, nobre e justo, puro, amável e de boa fama, que procede da virtude e de toda forma merece louvor” (Cf. Ef 4,8). Isto quer dizer que é necessário fazer tudo aquilo que é justo segundo o ambiente de convivência humana em que se está. Neste sentido, não existe uma moral cristã. O Apóstolo ainda uma vez nos ensina que não estamos mais debaixo da lei, mas debaixo do regime da Graça, isto é, da liberdade, é o que aprendemos ao ler as Epístolas aos Romanos e aos Gálatas. Finalmente, “tudo é permitido, só que nem tudo é conveniente” (1Cor 6, 12). E o critério determinante da conveniência é a relação com irmãos e irmãs. A Palavra que nos chama e convoca a agir não é um simples mandamento abstrato, é o irmão ou a irmã, assim  como é, diante de nós. Não podemos mais repousar com tranquilidade sob a falsa segurança de preceitos abstratos que nos gratificariam com  a auto-complacência do dever cumprido e do bem praticado, é a lição da parábola do Samaritano (cf. Lc 10, 25-37). Por isso, já não há lei. Nossa tarefa moral é exigente de maneira radical. As relações humanas devem desenrolar-se  na recíproca obediência (cf. Ef 5, 21) e no discernimento permanente, isto é a fonte da práxis no regime da graça, reino da liberdade.

Cada momento é novo chamado a reinventar a norma moral, a perceber e a definir o que efetivamente  pode libertar e  pode libertarnos. No regime da Graça, isto é, da liberdade, nós mesmos(as) somos nossos legisladores, adquirimos “autonomia” (cf. Gl 4-5). A norma de vida nasce de nossa própria prática de vida. De novo, a norma coincide com a práxis. Tudo está a encargo de nossa sensibilidade, da  capacidade de perceber os apelos e as exigências da realidade que nos cerca. Tudo fica dependente do Espírito que nos anima e nos esclarece com Sua luz (cf. Sl 36, 10). Esta mensagem será sempre considerada subversiva, por qualquer sistema  estabelecido, porque incomoda, desveladora da  insegurança e do medo, hipocritamente escondidos . Não pode não ser assim, pois isto significa mudar a falsa segurança de uma lei geral e abstrata por uma atitude de permanente atenção, característica das relações de amor. Quem fala de amor, fala de relações interpessoais, de peculiaridades irrepetíveis, de gestos definidos pela unicidade do instante. Como crentes não temos o privilégio de saber de antemão que Palavra nos é proclamada. Junto com outros companheiros e companheiras de humanidade e de luta, devemos caminhar e progressivamente descobrir e desnudar as estruturas e os processos  da realidade. E isto já é encontro  com a Palavra, como nos dizem de maneira  tão bonita os textos sobre a Sabedoria, na Bíblia (cf. Pr 8; Jó 28; Sb 6,22-9, 18; Eclo 42, 15-43, 33). Devemos também discernir, em conjunto, em cada situação social ou pessoal, qual é o  apelo que nos vem da Vida. Qual a convocação que a realidade nos faz. A Palavra, assim  como a ciência autêntica da Vida e da História, só se oferece no seio do processo  dinâmico da ação humana. A Palavra é “dãbãr”, isto é, práxis. Cada pessoa, cada grupo, cada povo deve fazer o seu próprio processo. Processo nunca acabado de aprendizagem permanente.

Estamos investidos(as) de tremenda responsabilidade. A Palavra não se identifica com nenhum livro sagrado nem com nenhum sistema dado. Ali se faz memória e se nos oferece o testemunho do encontro com Ela que teve lugar na vida de nossos antepassados(as). Testemunho normativo, é certo, para nós que queremos caminhar adiante sobre a mesma estrada, e que nos serve de luz para iluminar  nossos passos, mas não substitui, de nenhuma maneira, a tarefa que é nossa, hoje, aqui e agora, neste  momento histórico preciso. De fato, todo texto está como que encoberto por um véu. O que o desvela é a experiência de vida, pois é desse encontro entre o texto (histórias de vida) e a vida (“texto vivo” na história) que, qual relâmpago, brilha a Palavra de revelação, como nos ensina o Apóstolo, ao expor sua “teoria” hermenêutica na segunda Epístola aos Coríntios, capítulo 3º.  A tarefa é  escutar agora o que nos diz o Espírito (cf. Ap 2,7).

Não podemos conceder a outrem o privilégio de, quais doutores iluminados, escutar em nosso lugar. É o povo, isto é, somos nós o sujeito da Palavra. Nossa é a responsabilidade de estar permanentemente dando atenção à realidade e a suas exigências. “Obediência”, que deriva de “ob-audire” (do latim, ouvir inclinando-se na direção donde nos vem a voz), é estar com ouvidos voltados para escutar as necessidades de quem nos rodeia e da Criação em geral, escutar e responder (praticar). A Palavra não é um livro, nem propriedade exclusiva das Igrejas, nem apanágio de intelectuais e doutores(as). É, antes, o processo de práxis de todo povo na História. Haverá sempre lugar para o Livro e para mestres e mestras da fé e da ciência, como se queira chamar, mas sempre na sua função de testemunhas e ministros(as), isto é, servidores e servidoras do povo. Neste contexto, ressoa em toda sua atualidade e  revolucionária audácia aquela palavra da 1ª. Carta de São João, quando declara, corajosamente, contra todos os sistemas autoritários, interessados em reproduzir  a própria legitimação ideológica, frequentes vezes até em nome de Deus: “A Unção (da Verdade) que vocês receberam d’Ele, permanece morando em vocês, e não têm necessidade alguma de que ninguém os ensine, porque a Unção que vem d’Ele, ensina acerca de tudo. E ela é verdadeira , e não mentirosa, e como Ele os ensinou, vocês permaneçam  n’Ele” (Cf. 1Jo 2,27). Para João, permanecer  n’Ele significa manter-se no amor (cf. Jo 15 e 17). De fato, nesse caso, o discípulo é apenas o eco da voz do Mestre   quando diz: “Vocês não se deixem chamar de Rabi, um só na verdade é o Mestre de vocês. Todos vocês são irmãos. E não chamem a ninguém na terra de Pai. Porque um só é o Pai. E não se deixem chamar por ninguém  de guia, porque um só é o vosso guia, o Cristo (Cf. Mt 23,8-10).

Exige-se de nós que refinemos sempre mais a capacidade de perceber a realidade histórica e suas exigências; e ainda nossa capacidade de manter-nos  em atitude incansável de  auto-crítica, esforçando-nos por superar os condicionamentos ideológicos nos quais estamos imersos(as) e que nos impedem a visão direta da realidade e a coragem para deixar-nos interpelar, criticar e chamar sempre de novo.

Optamos pelos pobres, quer dizer, empobrecidos, oprimidos, injustiçados. Queremos estar a seu lado e lutar por sua libertação, é verdade. Mas serão nossas atitudes, gostos, hábitos e comportamentos quotidianos, a começar pela comida  e por nossas relações mais primárias, como a relação homem-mulher, adulto-criança, e nossa maneira de fazer uso das coisas da Natureza (a água, o ar, a terra, os vegetais, os animais…), serão nossos costumes  e hábitos verdadeiramente conformes a nossos ideais de libertação? Pretendemos promover a liberdade,  realizar a obra da libertação. Mas, como nos diz muito bem Paulo Freire que ninguém educa ninguém, mas todos(as) nós nos educamos em comunhão, assim, podemos dizer que ninguém liberta ninguém, nós só nos libertamos em conjunto. Na medida em que alguém se dedica à fadiga de operar libertação e ajudar pessoas e povos oprimidos a libertar-se, nessa mesma medida vai descobrindo, sempre mais claramente, que a obra de libertação só se pode dar, na sua globalidade e radicalidade, se, simultaneamente, se estabelece em si mesmo(a) processo de libertação. Libertar exige  libertar-se. É claro que não se trata de condição prévia ou cronologicamente antecedente. Sabemos muito bem tratar-se de duas dimensões dialeticamente simultâneas do mesmo processo. Uma implica na outra. O que se vive é a ação transformadora, sentida como interpelação crítica, que provoca processo solidário de mudança de vida e de mentalidade em todos os níveis das relações humanas: pessoal e estrutural; social e político; como membros de uma família, como profissionais e como cidadãos e cidadãs; nas organizações da sociedade civil, nos partidos políticos e nas instâncias de governo; do ponto de vista intelectual, afetivo e corporal; nas relações entre homens, entre mulheres e entre homem e mulher; nos relacionamentos entre adulto e criança, autoridade e súditos… Libertar-nos no mesmo ato de libertar: não libertar-nos para libertar, mas libertar-nos ao libertar.

Deve preocupar-nos sempre mais que o processo político de libertação se encontre dialeticamente articulado com o processo pedagógico de libertação. Não é mais possível suportar, sem grave incômodo, a contradição entre luta política pela libertação e a reprodução da opressão em nossas relações imediatas entre pessoas, entre grupos, nas instituições, nos partidos e nas Igrejas. É-nos sempre mais incômodo perceber a contradição entre discurso de libertação e prática efetivamente libertadora. Tomamos consciência sempre  mais viva, e isto nos aflige e nos preocupa, de que a libertação não pode ser tomada  simplesmente como um conteúdo entre outros, pois ela é sobretudo uma questão de método. Não é suficiente ter a libertação como fim de nossas ações, é necessário que todo o nosso agir, todas as nossas relações sejam conformes à Verdade prática de que todas as pessoas são realmente iguais e livres, isto é, não basta operar a libertação como meta, é necessário tê-la como método. Isto quer dizer caminhar já agora, encaminhar-se de maneira libertadora. Esta, sim, é a matriz capaz de criar liberdade. Neste percurso, o diálogo é essencial.

Tudo isto é muito exigente. Diz bem o bispo Dom Pedro Casaldáliga, em relação a esta dualidade: “Só tem direito de tocar fogo no mundo, quem  já tocou fogo em seu próprio coração”. Creio, queira dizer, a crítica para ser verdadeiramente honesta, torna-se  necessariamente autocrítica. A revolução para ser realmente radical, para chegar às raízes, torna-se, também ela, necessariamente, autorevolução, conversão, no sentido original da palavra, isto é, mudança profunda, reviravolta na direção que se imprimiu ao próprio caminho de vida, desde o mais profundo de  sentimentos e pensamentos até comportamentos, quer privados, quer públicos (cf. Rm 12, 1-2). Método, conversão e espiritualidade são palavras que se chamam umas as outras. Consequentemente, libertação não é alguma coisa  que diz respeito exclusivamente ao mundo da pobreza, aos países pobres. Libertação é obra radical, interior e exterior, e solidária, de uma humanidade presentemente ameaçada pelo autoextermínio. Promover a liberdade de outrem é, ao mesmo tempo, dimensão intrínseca de nossa própria liberdade. Assim como só nos podemos sentir mais livres, na medida em que haja mais liberdade para todas as pessoas, sem exceção. Na verdade, a vocação à liberdade, como tarefa humana, coincide com a interpelação da Palavra, como chamado divino: “É para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei firmes, portanto, e não vos deixeis prender de novo ao jugo da escravidão! (Gl 5, 1). Libertar é libertar-nos.

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<p>Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber<br /> to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema “Evangelização”, convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social (“Casa Ecumênica – Crer & Ser”) com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.</p>

1 Comment on Palavra de Deus e Libertação Humana “A Verdade vos libertará” (Jo 8, 32)

  1. Muito bom, Bispo! Tem muuuita coisa pra ler e meditar.
    Obrigada
    Rosa

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