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O Respeito pela Vida e o seu Sentido segundo a Bíblia

Recordar alguns fatos

shopingconsumoGostaria de começar lembrando fatos de que todos e todas nós temos experiência.

Estamos vendo surgir em torno de nós e nós mesmos(as) estamos, de várias maneiras, contribuindo para o seu surgimento, um mundo em que só há propriamente lugar para quem é  são, quem é ativo e produtivo. Pessoas fracas, pobres, doentes, idosas ou com alguma deficiência se tornam cada vez mais um peso e são, mais ou menos, apenas toleradas. Só há lugar para quem seja capaz de produzir; também as crianças têm cada vez menos lugar. O único espaço que lhes pode restar se define por sua capacidade de consumir.

Assim, o direito de estar no mundo e de sentir-se bem, não se mede pelo fato de aí  chegar como gente, como ser humano simplesmente. Apesar do muito falar e até produzir leis ou declarações de direitos humanos, o direito à vida, de fato, tende a definir-se ou a restringir-se sempre mais em termos de capacidade de produzir e consumir. Nossas relações vão deixando de ser relações entre pessoas humanas simplesmente e passam a dar-se  num espaço  de produtores(as) e consumidores(as). Nesse espaço, quem é fraco, pobre, enfermo, as crianças e as pessoas idosas ou com deficiência não têm lugar como produtores(as). Sua única possibilidade de se localizar é definir-se enquanto consumidores(as). Ora, que se pode dizer de uma civilização que já não pode ou já não sabe cuidar dos dois elos mais frágeis de sua corrente: as crianças e as pessoas idosas? Sem dúvida, está a perder a  qualidade humana, vai, sem dúvida, em direção à decadência

consumismoSão muitos os sintomas que nos manifestam em cada esquina a gravidade dessa monstruosa distorção. Embora a maioria das pessoas sejam  pobres e até miseráveis, o país e a cidade se constroem em função de uma minoria “válida”, uma verdadeira “aristocracia” (melhores). Como dizia Millor Fernandes, nas suas graças, “se você não encontra seu nome no catálogo do Imposto de Renda, então, meu amigo, se convença de que você não existe…”. A cidade vai tomando aspecto de sala de visitas, cada vez mais chique, em que vai sendo “proibido” entrada a pessoas pobres, feridas, fragilizadas, crianças. Fora dessas zonas de privilégio, e os moderníssimos “centros de compras” são um exemplo bem eloquente disso, o espaço urbano vai sendo rodeado de “quintais”, zonas de exclusão, favelas, e a massa dos pobres, se buscar  refletir sobre  o sentido  de sua vida na cidade, achará talvez uma trágica resposta: não passa de reserva  de mão de obra e de potencial mercado de consumo. Até partidos políticos ditos de esquerda, quando chegam ao governo, não pensam em mobilizar cidadãos e cidadãs, antes, preocupam-se com promover novos consumidores(as), como o disse muito bem Frei Betto.

Basta parar um instante e refletir sobre o problema do tráfego: quase não há mais lugar para pedestre. Tudo é planejado em função de produtores e de consumidores(as) de automóveis, meios que carregam quase só uma pessoa., pois nas casas cada qual tem seu programa e trajeto à parte. Pedestre, então, é aquele “in-válido(a)” (sem valor”) que deveria ter automóvel e não tem (ou ainda não tem); por isso não existe, é tido como invisível. Pensemos no setor imobiliário: cada vez mais “moradias-gaiola”, gente amontoada em espaços exíguos, rodeada de cimento, com belos bairros antigos destruídos, para ceder passo ao “progresso”, de quem, na verdade, se ilude com o sentimento de que agora mora como classe média. Áreas verdes cada vez mais raras, cimento e asfalto por toda parte, o solo todo impermeabilizado, quando chove as ruas viram córregos. Quem está “condenado(a)” a andar em transporte coletivo é visto como “gente do andar de baixo”.

E as crianças? O casal “ideal”, adaptado, bem integrado, que acompanha sem dores de cabeça o ritmo normal da sociedade é o casal sem filhos. Pois as crianças estão a mais. Trabalham fora de casa  o pai e a mãe, e a criança não é produtora. Para ela não há lugar. Os pais já quase não a veem mais ou a veem muito pouco. Elas já não têm lugar nos seus horários diários. Não há onde deixá-las, nem com quem deixá-las. Se algum lugar podem ter é o de consumidoras: o jardim de infância particular, a escolinha, os variados esportes e ballets, e a  propaganda leva burramente os pais a meterem saias longas, cuequinhas apertadas, tamancos altos em crianças pequeninas, maquiagem, sem falar de celular,  “tablets”, computadores e toda a parafernália de jogos eletrônicos… aliás, hoje até as festas de aniversário se celebram em locais comerciais, o comércio da festinha e o comércio dos jogos…

E as pessoas debilitadas pela doença? Assistimos a uma marginalização cada vez mais  acentuada do enfermo(a), de quem é fraco, dependente, inválido. Está fora do círculo da produção. Sua presença no meio da sociedade atrapalha os produtores(as): em casa por exemplo: quem é “válido”, sadio, tem que trabalhar, ninguém tem mais tempo, nem possibilidades, nem nervos para  cuidar de doentes. O seu lugar tem de ser à parte, o asilo ou hospital. Não que o hospital não seja necessário ou útil, mas o que assistimos é a uma apartação progressiva do convívio normal da sociedade  e das relações humanas. Quem é  doente torna-se cada vez mais pessoa  isolada. Enfermos(as) e velhos(as) se isolam do ambiente de quem produz, pois atrapalham. Adquirem sentido só como consumidores(as) da cada vez mais avolumada indústria da doença. Baste observar a imensa quantidade de farmácias, várias delas enfileiradas. Cada vez menos gente morre em casa, rodeada de seus entes queridos, até por netos e netas, prefere-se transferi-la à frieza e ao isolamento de UTIs impessoais. Afinal, morrer vai saindo da “normalidade” do frenético ritmo de vida atual.

Para as populações antigas, atar as feridas correspondia a uma arte, das mais difíceis e das mais ricas  de conteúdo humano. Não era só um fato material como de consertar um objeto quebrado ou um pano rasgado. Era um movimento intenso de comunicação humana onde a relação interpessoal sobressaía no processo da cura. É que o doente, o enfermo, estava inserido já de antemão no ritmo da vida, era algo previsto. No mesmo processo da vida aceitava-se adoecer, era tão normal aceitar a doença quanto aceitar cuidar dela, era parte integrante do viver..

A medicina tem dado passos gigantescos em benefício da vida. As pesquisas e sua aplicação prática têm sido uma vitória magnífica do engenho humano, para curar ou aliviar a dor. Mas não se pode negar que tem havido perda da medicina como arte. Hoje assistimos à mitificação da saúde. As possibilidades técnicas da medicina levam a vislumbrar chegar a vencer um dia a própria morte. A doença, no imaginário, chega a se constituir assim numa anomalia, em algo que acontece fora do processo da vida, algo anormal, absurdo, sem sentido. E a enfermidade, o contrário de firmeza, vai sendo encarada como encarnação de absurdo, tornando-se a pessoa doente um ser absurdo. Do qual é preciso afastar-se.  O enfermo e o morto. Dizem que em certas cidades do mundo os enterros são feitos à noite, em atmosfera de invisibilidade e os cemitérios se tornam quase lugares “agradáveis”, com recursos para distrair quem deveria chorar seus mortos, semelhantes a recintos de “chubs”. Como poderiam aceitar a “en-fermidade”, homens e mulheres que bebem por todos os sentidos a idealização da saúde? Vejamos a propaganda, por exemplo. Idealiza-se a idade jovem, as formas de beleza do corpo jovem, a coragem e a disposição saudável da juventude, escondem-se as rugas e os cabelos brancos, tomam-se medicamentos para rejuvenescer, pelo motivo de que a velhice é um transtorno, um aborrecimento. Pretende-se eternizar a juventude e a saúde, como se permanecer jovem fosse o normal. Como teria sentido a doença e a morte? Esquece-se de que não há alternativa: ou se envelhece ou se morre cedo, antes do tempo. Se alguém adoece, é um “anormal, perturba a normalidade do ritmo da vida, própria e sobretudo das pessoas que o rodeiam. Perde o sentido de ser. Torna-se absurdo. Sua única chance de achar lugar é de consumir o que produz a indústria da doença e os conhecimentos e a perícia da tecnologia. A medicina deixa de ser a arte de atar as feridas, e se torna uma questão de ciência e de técnica, até de puro “cálculo” ou negócio.  Se quem está doente  é pobre, acentua-se ainda mais a marginalização: se o seu existir já é absurdo como pobre, quanto mais como pobre e doente…

Talvez alguém pense que exagero nas tintas. Mesmo que fosse verdade, valeria a pena para ressaltar uma tendência, essa sim, tristemente real na organização do mundo em que temos a responsabilidade de viver. Um mundo que se sente agredido pela presença do fraco, do velho, do pobre, da criança. E reage. Declara-os seres absurdos. E, como ainda não tem a coragem de eliminá-los sumariamente (como faziam os espartanos da Grécia antiga e como fez loucamente Hitler), isola-os em espaços especiais e tenta aproveitar deles, esses detritos de gente, integrando-os nos cálculos de mercado: são, de qualquer modo, uma grande reserva potencial de mercado. Quantas pessoas idosas, que vivem de benefício da Previdência Social, não se têm tornado “arrimo de família”, exploradas, até com crueldade, por filhos, filhas e netos(as)! Estamos diante de uma espécie  de monstruosa  antropofagia  “branca”,  antropofagia de gravata: os  que se definem “fortes” alimentando-se dos que  definem “fracos”,  os válidos dos inválidos, os sãos dos doentes.

Nossa responsabilidade cristã

E a nossa responsabilidade cristã? E nossa responsabilidade de pessoas que trabalham  em hospitais, que tentam exercer a difícil  arte de atar as feridas? Ou simplesmente nossa responsabilidade social? Que contribuição estamos a dar para que a doença readquira sentido no seio da vida, e não à margem dela?  É por isso que  temos de voltar sempre de novo às fontes de inspiração de nossa fé. À Palavra de Deus nas Sagradas Escrituras. Mesmo porque nem sempre o que está contido na Escritura corresponde às nossas concepções correntes.

E gostaria de partir de um fato. Nós cristãos insistimos tanto na imortalidade da alma, na necessidade de preparar-se para a vida depois da morte, que quase desvalorizamos esta nossa etapa da vida na terra. A ponto de muitas pessoas olharem para nós como um bando de “papa-defuntos”, como se a felicidade se estampasse em nosso rosto mais diante da morte do que da vida. Muita gente por aí imagina que uma freira ou enfermeira cristã num hospital está muito mais interessada em convencer doentes de que devem se confessar do que em atar suas feridas e aliviar suas dores… Mas, em parte, nós cristãos mesmos(as) é que temos culpa da criação dessa imagem que outros fazem de nós.

Se a saúde e a doença não nos interessam, se o que nos interessa mesmo é só a “vida eterna”, que contribuição poderemos dar ao mundo, como poderemos ajudar a outrem e a sociedade em geral a reencontrar o sentido da doença e da morte a partir do seio mesmo da vida? Só seremos capazes de contribuir nessas questões se enquanto gente cristã, isto é, se a partir da nossa fé em Deus, e da nossa relação de amor em Jesus Cristo, nos sentirmos motivados(as) a valorizar a vida. E não só a vida após a morte, mas já agora a vida neste mundo. Dos evangelhos recebemos o ensinamento de que a “vida eterna” é a qualidade de vida que já começa agora e se prologa pela eternidade, pois é já agora que “nascemos de novo” (cf. Jo 3, 1-12).

Alguns poderão dizer que nossa fé nos afasta das realidades concretas, como se nos levasse para  uma espécie de mundo que nada tem a ver com a Ciência e por isso não passaria de ilusão .A Bíblia, que é  a fonte de inspiração da nossa  visão do mundo, não constitui uma descrição científica da realidade.  O que pretende não é substituir o que será,  através dos tempos, tarefa da pesquisa científica e das soluções técnicas. Esperar isso da Bíblia é enganar-se redondamente.  O que ela pretende é formar em nós uma determinada atitude  de aproximação em relação à vida. Uma atitude que está mais próxima do comportamento do poeta que do comportamento do cientista. Poderão talvez dizer alguns que o poeta é um louco e que a poesia  é ilusão e supérfluo. Mas o que seria a vida  sem a poesia? Desumana e até assassina. É a poesia, o olhar a vida para além do que aparece, que confere à Ciência  e à técnica o seu conteúdo humano. Ciência e técnica nos falam de “meios”, a poesia nos fala de “fins”, de objetivos e motivos profundos de viver.

A Bíblia nos ensina que não basta  capacitação científica ou técnica para chegar a ser humano(a), é preciso ter capacidade poética  de se deixar encantar e até abismar diante do mistério enorme com que nos achamos confrontados(as): o mistério, o fato que a vida  escapa em última análise a nosso controle. O fato de estarmos como que envolvidos(as) por dimensões e  potências que passam por nós, mas nos ultrapassam, disso fazemos experiência a cada momento de nossa vida. Quem, homem ou mulher, já chegou a entender o mistério tremendo que se esconde dentro dos fugazes instantes de uma relação sexual  por amor? Ou o mistério de ter filhos ou filhas?  A vida e a morte querendo como que coincidir, ou a vida surgindo do risco de morte a cada momento… A intuição de que a vida escapa a nosso controle leva a Bíblia a nos dizer que as suas raízes afundam para além do humano, que é um DOM  que nos chega e muitos dos seus segredos nos escapam. Cada pessoa se acha mergulhada nesse imenso fluxo da vida, cheio de perguntas para as quais não tem a maior parte das respostas.

Só quem é capaz de olhar a vida assim, como diz o poeta Manuel Bandeira, como um milagre, que não prende a vida aos limites das explicações  científicas e técnicas, só esse consegue enxergar potência de vida em gente aparentemente inválida. Só para esses, os  fracos, os doentes, os velhos, as crianças, os mortos não são incapazes. Só esses são capazes de ver e de esperar com amor manifestações do milagre da vida em seres ou pessoas decaídas e humilhadas e aparentemente já excluídas. Se a nossa fé nos torna mais humanos(as), é que ela nos transmite uma capacidade profundamente  poética de olhar em torno para além das aparências. E é exatamente  nesse “para além das aparências” que se situa nossa concepção de vida. Para nós, o ser humano não se reduz a suas experiências de capacidade de produzir e consumir. Para a Bíblia, cada qual de nós se encontra confrontado  em si mesmo(a) com uma realidade  que o faz existir  e ao mesmo tempo o ultrapassa  infinitamente: a realidade  mesma da vida, .enquanto é um raio infinito e inesgotável de possibilidades. E Deus só pode ser encontrado como a fonte donde brota esse inesgotável oceano de possibilidades. Por isso Jesus intuía que o melhor modo de chamar-Lhe era dizer “papai”, a saber, origem, fonte última e misteriosa.

A Bíblia nos diz que toda a vida  humana é permanente diálogo com Deus. Mas nós não podemos imaginar que se trate de diálogo com uma força exterior, poderosa, mais ou menos imaginária, fora da vida. Segundo a Bíblia, o diálogo com Deus se dá precisamente enquanto cada qual de nós na VIDA se encontra com suas próprias perguntas e tenta respondê-las. Viver, ou seja, mover-se no seio da massa das perguntas que a existência nos propõe, é aí o nosso encontro com Deus. Não se sai da vida para encontrá-Lo. Não se o encontra só na vida após a morte. Encontramos ou não encontramos a Deus, enquanto nos abrimos ou nos fechamos ao mistério mesmo da nossa vida aqui no mundo. Deus não está  fora (nas nuvens?), Ele está no mais dentro possível, “mais íntimo que nosso próprio íntimo” (cf. Mt  6, 5-8).

Mas que significa abrir-se à vida e ao seu mistério? Significa aceitar que a vida não se deixa controlar por ninguém; significa abrir os olhos em torno  e aceitar que ela nos faça perguntas. E que ela nos chame, às vezes, em certas direções que antes jamais tínhamos imaginado. Significa deixar que ela nos faça apelos e nos provoque.

E a Bíblia nos diz que há uma interpelação básica, um apelo fundamental, que grita a cada pessoa, a cada ser humano que está mergulhado na corrente do viver: quem vive tem que suscitar gestos de Vida. Isso é tão sério que encontramos um mandamento que diz “não matar”. Considera a vida como propriedade de Deus. Ninguém é dono da vida, é simplesmente chamado a viver e a suscitar gestos de vida. Como Deus, que é Vivente por excelência e  faz viver, “amigo da vida” (cf. Sb 11, 26), assim também o ser humano, sua imagem, vive e é chamado a fazer viver. Tornar-se adulto(a) é tornar-se capaz de transmitir vida. Isso era algo tão sério na antiguidade que o homem que se recusava a fazer viver e levantava a mão para espalhar a morte, em relação a esse, diz a Bíblia, cessa o mandamento, devia morrer. Perdeu a sua humanidade: pois  o que define  o ser humano deve ser a sua capacidade de vida, a sua vocação para a vida. Matar é gesto de morto: Por isso o assassino devia morrer…

A seriedade dessa interpelação atinge o seu ponto mais alto quando Jesus se identifica com os fracos, os doentes, os pobres. Para Jesus esses são a voz da vida que nos chama a fazer  gestos de vida: se respondemos a eles, respondemos a Deus. Não podia ficar mais claro que a Deus encontramos a partir das perguntas e das respostas da nossa própria vida e não num lugar especial e imaginário. Em sua existência terrestre, Jesus mostrou isso a cada passo. Toda sua vida foi um movimento de criação de vida; amor aos fracos, amor aos pobres, amor aos doentes, amor aos marginalizados. E amor por gestos que se exprimiam na amizade, no comer na mesma mesa com excluídos(as) e prostitutas; nas palavras de perdão e de acolhimento; na defesa de pobres e de fracos(as); na cura de doentes.

Ele vinha mostrar a nós a força de Deus que ressuscita os mortos, com O qual todos nós vamos encontrar-nos face a face para além de nossa morte. Mas como é possível  encontrar esse Deus? Preocupando-se com os problemas desta vida: no comportamento de Jesus,   percebemos que Deus existe  e experimentamos sua força  que vence a morte quando percebemos em Sua vida gestos de vida e quando realizamos nós mesmos(as) novos gestos  de vida. A vida pede passar adiante, ser comunicada para além de nós, irradiada.. Esta vida não é um tempo sem valor que só serviria como preparação para a vida eterna, como se, quanto mais longe desta,  mais estivéssemos perto de Deus: ao contrário, para Jesus, este mundo e esta vida são o único lugar onde é possível fazer a experiência  da existência e da força salvadora de Deus (cf. Mt 25, 31-46).

É por isso que a Bíblia diz que só é possível encontrar Deus na atitude e nos gestos de amor para com as  outras pessoas. A questão da vida e a questão de Deus se identificam com a questão do amor e o amor  só é possível no serviço. Por isso a comunidade de São João nos diz que o momento decisivo, não é o do rompimento da vida pela morte, mas o decisivo é o rompimento do desamor pelo amor: a partir daí, até a morte é integrada na vida, é em função da vida. Só aí a morte adquire sentido, quando a vida e a morte se relativizam em função do AMOR (cf. 1Jo 3-4). Só no coração mesmo da vida podemos encontrar o Deus da vida. Só no levantamento da vida a partir da fraqueza e da doença podemos intuir a possibilidade de nossa ressurreição final: a canção do “Homem de La Mancha” consegue exprimir isto muito bem…

Nosso testemunho cristão ao lidar com pessoas enfraquecidas, marginalizadas ou excluídas deveria ser o de gente que não aceita que sejam isoladas da corrente da vida. Que não aceita que sejam seres absurdos. Que as percebe em relação com uma sociedade mais ampla na qual estão realmente inseridas, enquanto  a denunciam por seu mesmo sofrimento, enquanto dela sofrem as consequências, enquanto apontam para o mistério mais amplo e mais profundo da vida,  que vai além das aparências físicas: as pessoas ou categorias fragilizadas não são incapazes de criar e não são incapazes de suscitar novos gestos de vida –  podem irradiar vida: é sinal de que  vivem e devem viver, têm pleno direito a ter lugar à mesa da sociedade. Quantas pessoas à beira da morte não têm sido realmente alavancas de “ressurreição” para tantas outras! Eu mesmo conheço várias delas…

About Sebastião Armando (176 Articles)
<p>Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber<br /> to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema “Evangelização”, convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social (“Casa Ecumênica – Crer & Ser”) com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.</p>