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Missão e Espiritualidade a Serviço da Transformação da Vida

INTRODUÇÃO

samaritanoÉ sugestivo que o título desta reflexão ponha “Missão” em primeiro lugar, o que quer dizer que é a Missão que deve dar o tom a nossa Espiritualidade.

Às vezes, percebo certa confusão em nossa linguagem. Com freqüência, falamos de “evangelismo e missão”, ou de “evangelização e serviço”, ou ainda de “evangelização ou evangelismo e diaconia”. É como se nos referíssemos a duas tarefas distintas, articuladas entre si, é verdade, mas paralelas e, naturalmente, complementares. Ao refletir sobre essa imprecisão de linguagem, tenho chegado à seguinte formulação que pode, quem sabe, conferir a esses termos sentido mais exato e mais correto teologicamente. A imprecisão de linguagem propicia , inclusive, manter no ar certo dualismo na conceituação de realidades que são decisivas para a vida quotidiana da Igreja e para nossa espiritualidade.

Com efeito, MISSÃO é essencialmente relação. Do ponto de vista objetivo, é o ato de Deus de enviar, como se vê nos episódios bíblicos de vocação, como p. ex. Ex 3, 7-15; Jr 1; Is 6. Do ponto de vista subjetivo, é a experiência de se sentir enviado(a). Não se trata ainda de uma determinada tarefa a executar. Antes, é a experiência e a consciência de uma relação que se estabelece entre Deus que envia e o ser humano que percebe e acolhe o chamado. A tarefa é EVANGELIZAR, aliás a evangelização é a única tarefa da Igreja. Tudo depende, porém, de como a compreendemos. Trata-se, na verdade, de anunciar o Evangelho, a Boa Nova da felicidade, o xalôm, completo “bem viver”, segundo a linguagem dos povos aborígenes, harmonia radical e universal, de acordo com os sonhos da profecia bíblica (cf. Is 2, 1-5; 11, 1-9; Ef 2); é o que Deus nos promete se nos voltamos (conversão) para Ele e Seu Reino (cf. Mc 1, 14-15). Evangelizar é testemunhar a realidade da Boa Nova mediante gestos de restauração da vida e palavras que ajudem a interpretar tais gestos, como o próprio Jesus nos diz em Mt 10 e Lc 10, no “discurso da missão”. De fato, foi o que Jesus fez em Seu ministério. Finalmente, DIACONIA ou SERVIÇO não uma tarefa a mais, como se se tratasse de “ação social” da Igreja. “Ação social” são gestos pelos quais se dá testemunho da eficácia do Evangelho na vida das pessoas e da sociedade, parte integrante do anúncio do Evangelho. “Serviço” é o método, o caminho, a maneira de atuar em tudo o que se vive e se faz na Igreja, tudo é “diaconia”, ou não tem o selo de Jesus, que é o Servo por excelência. A adoração ou liturgia é diaconia; o ensino, a comunicação da Palavra e seu aprofundamento são diaconia; a ação social e política também tem de ser segundo o método do serviço. Isto significa que não cabe autoritarismo piramidal, mas sempre   “comunhão e participação” em tudo o que se faça na Igreja e em seu nome, sempre como oferta de dons que se põem a serviço uns de outros (cf. 1Cor 12-14).

Se nos pomos de acordo sobre o conceito de missão, agora passemos ao de “espiritualidade”. Como sabemos, espiritualidade sugere “de que espírito somos”. Na Bíblia, temos várias imagens para designar o Espírito: vento, vendaval, ar, sopro, fogo, água…  todos elementos que se referem aos princípios de vida.  Com efeito, “espiritualidade” quer dizer o caminho de vida no qual somos impelidos pelo “espírito”, pelo vento de inspiração que nos sugere os rumos do viver, conforme a imagem que achamos em Jo 3, 8: “Assim se dá com toda pessoa que nasce do Espírito”. Assim como a Bíblia também diz que quem adora ídolos se torna semelhante a eles (cf. Sl 135, 18). Ou nos assimilamos ao Espírito do Deus vivo, ou ao dos ídolos. O que quer dizer que também a idolatria tem sua espiritualidade. Trata-se dos valores profundos nos quais se assenta a vida, daquilo que para nós vale realmente a pena, pelo que vivemos e somos capazes de morrer. Em outras palavras, trata-se daqueles valores nos quais, por assim dizer, penduramos tudo o mais e damos sentido a nossa existência, o “espírito” que nos guia funciona, e fato, como a divindade que adoramos. Não importa se somos crentes, idólatras ou ateus, há sempre algum valor que nos polariza, que “funciona” como “nosso deus”, que nos legitima, aprova ou desaprova, que se impõe, e ao qual nos doamos e  sacrificamos. Nem sempre se trata de conceitos claramente elaborados ou refletidos suficientemente. É como um núcleo, um feixe de motivações onde se enlaçam o “continente submerso” do inconsciente, as marcas de formação desde a mais tenra infância e que se imprimem profundamente no psiquismo, as influências e apelos que nos vêm das relações sociais e políticas e das estruturas coletivas, os condicionamentos objetivos da sociedade, ou seja, “principados, autoridades, dominadores deste mundo de trevas, espíritos do mal que povoam as regiões celestiais“ (Ef 6, 12), “os espíritos dos ares” de que nos falam os textos antigos, ao formular em linguagem mítica aqueles condicionamentos objetivos (as estruturas sociais dos sistemas de vida e sua ideologia) e os condicionamentos subjetivos do psiquismo, as estruturas do inconsciente, dados anteriores a nossa liberdade e com forte poder de limitá-la e até anulá-la. Todos interesses que nos mobilizam, e, não por último, aquilo que a religião torna indelével em nossa consciência pessoal.

O título já sugere que o senso de “MISSÃO” deve integrar esse feixe misterioso de nossas motivações mais profundas, do qual se projeta o foco para a caminhada de vida, de trevas ou de luz (cf. 1Pd 2, 9-10).

  1. JESUS É O PROFETA DO REINO DE DEUS
  • Revelação da soberania de Deus mediante a práxis de defesa e restauração da vida

Comecemos por Jesus, princípio, fundamento e modelo para nós. Nos evangelhos, nós o sabemos, a práxis de Jesus, ou seja, seus gestos e palavras indissoluvelmente articulados entre si, como se vê muito claro em Mc 1, 21-28, em  Cafarnaum, é apresentada como práxis de defesa e restauração da vida e da  dignidade humana; “palavra com autoridade”, que se manifesta em prática que muda a realidade vigente. Desse modo, é reconhecido pelo povo como “profeta”, à semelhança de Moisés, Elias, Eliseu, Jeremias  (Mt 16, 14; 24, 24; Lc 7, 16; 24, 19; Jo 4, 19; 6, 14; 7, 40. 52). Ele mesmo se interpretou na sequela dos antigos profetas e teve na corrente profética a luz para se compreender a Si mesmo (cf. Mc  6, 4; Mt 10, 41; 13, 57; 23, 37; 24, 24; Lc 13, 33; Jo 4, 44). Para Ele era evidente que estava a serviço da proclamação e instauração do Reinado de Deus, expressão histórica de Sua soberania sobre a criação e a sociedade humana (cf. Mc 1, 14-15; 3, 22-30; Mt 12, 28). Dessa consciência Lhe advém o sentimento de autoridade que exerce sobre a Lei e as instituições sociais e religiosas (cf. Mc 2, 13-28; Mt 5), é a partir desse fundamento que se sente no dever de criticar e denunciar, como os antigos profetas, as estruturas econômicas, políticas e ideológicas de opressão (cf. Mc 6, 14-29; 8, 15; 12; Mt  23; Lc 4, 14-30; 13, 32).

  • A profecia, portavoz das categorias marginalizadas

Ora, a profecia era tradicionalmente portavoz das categorias sociais que se sentiam  marginalizadas, quer pelos poderes políticos e religiosos de Israel  e Judá, quer pelas alianças entre esses e o imperialismo internacional.  Profetas e profetisas — pois as havia, baste pensar em figuras como Débora (cf. Jz 5) e Hulda (cf. 2Rs 22, 11-20) e na personificação de figuras femininas como se vê  em novelas como a de Ester e  na (deuterocanônica) de Judite, e na profecia poética do Cantar dos Cantares – eram arautos de Deus em defesa de camponeses, sem terra, migrantes, mulheres, particularmente, viúvas e órfãos. Após o exílio em Babilônia, no período de reconstrução da nação, parece ter havido conflitos entre profetas, alguns a defender projetos de poder de uma monarquia restaurada ou de uma teocracia encabeçada pelo poder religioso do Templo, como Ageu e Zacarias (cf. cap. 1 a 8; cf. também Ezequiel), enquanto nos capítulos 40-66 do livro de Isaías se manifesta outra tendência, a que põe toda sua expectativa numa reorganização do próprio povo, com a rearticulação das categorias pobres, fiéis aos antigos ideais dos clãs e tribos igualitários. A corrente de Isaías deixa ver, expressamente, não ver futuro para o povo que fosse fundado sobre a restauração da monarquia ou sobre a aristocracia sacerdotal, com toda sua história de opressão e corrupção, em alianças com impérios estrangeiros. Seria sempre “voltar ao Egito”, conforme o famoso paradigma da opressão, formulado em Deuteronômio (cf. Dt 17, 16). Em vez disso, fomentaram o que hoje chamaríamos de “articulação da sociedade civil”. O povo era chamado a recuperar a memória da antiga herança de valores tribais igualitários, articular-se e organizar-se a partir de si mesmo. O símbolo políticamente (a Igreja o diria “pastoralmente”) mobilizador não era mais o trono, nem o templo, nem a Lei, como o pretenderam os seguidores de Esdras, mas a “casa”, era na “rede das casas”, nas aldeias e no povo miúdo, que punham a esperança.  Esse povo que os grandes desprezavam: “De Nazaré pode vir algo de bom?” (Jo 1, 46; cf. ibd. 7, 40-52),perguntava um futuro discípulo de Jesus, tal a força da ideologia na mente do próprio povo.

  • A espiritualidade dos pobres e o “poder popular”

O profeta Sofonias, já no século VII a.C, havia proclamado que a liberdade e a paz no país só seriam possíveis quando aí fosse deixado, em seu centro (“em teu seio”),“um povo humilde e pobre, que busque refúgio no nome de YHWH, o Resto de Israel” (Sf 3, 12). No livro de Zacarias, profeta do século VI a.C., ainda se mantinha expectativas quanto a um novo descendente de Davi, mas já se fala de que se estabelecesse “não pelo poder, não pela força, mas sim por meu espírito” (Zc 4), seus discípulos, porém, lá pelo século IV a.C., já não parecem ter esperança num “rei justo”, antes, vêm dizer que a liderança monta um jumentinho, a montaria dos pobres, elimina todas as armas de guerra, e será como um pastor (cf. ibd. Cap. 9 e seguintes). Nos livros de Jeremias (cf. 23), de Isaías (cf. 7, 14-17; 11, 1-9) e até de Ezequiel (cf. 34), falava-se, no período posexílico, do “poder popular”, personificado na figura idealizada de Davi, criança, pequeno pastor de Belém, o menor dos filhos de Jessé (cf. 1Sm 16-17). Constatamos aí um processo de desideologização ou desaprovação do poder real da dinastia davídica de Jerusalém, cantada em textos contemporâneos da monarquia, como se vê em 1 e 2Samuel e em vários Salmos (cf. Sl 2 e 110). Vários textos bíblicos são testemunhos desse processo de desideologização e as mulheres, sintomaticamente, são postas em evidência enquanto protagonistas que encarnam o “projeto da casa”. Na novela de Rute, seu filho, o avô de Davi, carrega o emblemático nome de “Ebed”, servo. A partir de mulheres e em torno delas, surge abundante literatura na qual a profecia como que se derrama e se difunde como “profetismo coletivo”, popular (cf. Jl 3; At 2,17-21): as novelas de Ester, Rute, Judite; os poemas do Cantar dos Cantares; a Sabedoria representada em figura feminina (cf. Pr  1-9; Jó 28; Eclo 24); mulheres fortes são propostas como modelo : Suzana (cf. Dn 13), a dona de casa de Provérbios 31, a heroína mãe dos sete filhos no tempo da luta dos Macabeus (cf. 2Mc 7)… Cultivava-se um movimento de espiritualidade de caráter intensamente político, o qual ficou conhecido como “dos pobres de YHWH”, que não tiravam os olhos do futuro: camponeses, pescadores, estrangeiros residentes, mulheres, crianças, gente pobre e enferma, gente excluída… são essas categorias que, nos dois primeiros capítulos de seu evangelho, Lucas apresenta em torno de Jesus, a cantar quando percebem que os céus se iluminam por nova luz de esperança. É justamente isto o que se sintetiza nos hinos de Zacarias, de Izabel e, sobretudo, de Maria

  1. O PROFETA É O SERVO DE DEUS
  • Jesus e a diaconia do Reino

É desse ambiente e identificado com ele que “veio Jesus de Nazaré da Galileia” (Mc 1, 9), o profeta que surge das margens da sociedade. Ao longo de anos os evangelhos fizeram elaborado trabalho de reflexão para apresentá-Lo sob a figura do Servo de Deus, oprimido e vitorioso, descrito pelos textos de discípulos, e possivelmente discípulas (cf. Is 8, 3) do profeta  Isaías, entre os séculos VI a V a.C.: o Servo cujo ministério profético era proclamar e dar os sinais da presença de Deus em meio a Seu povo, ao indicar a realização da libertação, característica do Reinado de Deus, estupenda renovação dos prodígios dos antigos tempos do Êxodo, com a vitória sobre o Faraó, sob a guia de Moisés: “Eu ouvi os clamores do meu povo (…)  e desci para libertá-lo (cf. Ex 3; Is 40, 1-11; 43, 16-21; 52, 7-12)). Não é por acaso que, no projeto de Jesus, o símbolo mobilizador seja também a “casa” que reúne os pobres e seus aliados, o mesmo do projeto popular do pos-exílio (cf. meu comentário ao Evangelho de Marcos, na coleção “Comentário Biblico Latinoamericano, Fonte Editorial, São Paulo, 2012).

Jesus assume com tal profundidade a tarefa missionária de profeta que os evangelhos, sobretudo o quarto evangelho  com seus longos discursos, insistem em definir  como sendo essa  Sua identidade, sua própria essência, o ser “Enviado do Pai”. Ser enviado constitui seu ser em profundidade. A mulher de Samaria anseia por aquele que tem certeza que “vem” (Jo 4, 25) e o cego de nascença, por exemplo, vai “lavar-se na piscina de Siloé, que quer dizer Enviado” (Jo 9, 7). Como a “escada de Jacó” (cf. Jo 1, 51), é Ele mesmo o Caminho (cf. Jo 14, 6), “ponte”  entre Deus e os seres humanos, imagem geradora do esplêndido escrito que é a Epístola aos Hebreus.

Ao acompanhar os textos evangélicos, percebemos que o ministério de Jesus, Servo de Deus, bem que poderia ser designado  com o termo que tanto temos usado hoje em dia, “diaconia”, práxis (gestos e palavras) de diaconia, de serviço, em suas três dimensões: de COMUNIDADE (koinonía), por provocar nova convivência em amor, mediante mútuo serviço; de SOLIDARIEDADE  (“miseri-córdia”, “com-paixão”, “hesed”, em hebraico), por gestos de socorro e resgate de quem se acha em desgraça na sociedade; de JUSTIÇA (“sedaqãh”, viver segundo o propósito de Deus a respeito da sociedade e da criação), ao denunciar  o sistema de injustiça  – idolatria — vigente nas estruturas da sociedade e anunciar a possibilidade de nova  vivência das relações de poder,  e promovê-la pela ação, pela luta em favor da justiça cujo fruto é a paz (cf. Sl 85). Sua proposta, o Reino de Deus, incide, assim, nos três níveis das relações humanas: interpessoal, social e estrutural. Na Primeira Epístola de São João, aprofunda-se antropologicamente a reflexão para chegar, finalmente, a identificar essa experiência com a própria experiência de Deus enquanto Amor e Justiça (cf.  Os 2, 18-2; Mq 6, 6-8; Jr 22, 13-16).

Jesus,  como profeta, é “diácono”, servo, isto o foi historicamente e é daí que derivam os outros títulos cristológicos de “pastor” (rei), porque reúne e  nutre o povo (cf. Mc 6, 30ss Jo 6; Sl 23) e “sacerdote” porque pelo povo se entrega e intercede (cf. Jo 17 e, particularmente, Ep. aos Hebreus), mesmo sendo Ele leigo em Sua sociedade. São sugestivas as palavras do Bispo Santo Inácio de Antioquia (século II), sobre Jesus “o diácono”, por excelência, a serviço de Deus, cuja presença se expressa na comunidade pelo ministério diaconal.

  • A espiritualidade da práxis de Jesus

O discipulado de Jesus, seguí-Lo, não equivale, necessariamente, a ser alguém “religioso” em sentimentos ou mentalidade, menos ainda, em comportamentos, observâncias e formas. Sem dúvida, Jesus deve ter sido um judeu fiel à religião de Seu povo, freqüentador do Templo nas  grandes festas prescritas, baste conferir no Evangelho de São João. É, porém, significativo que os textos não chamem a atenção para isso. A “religião” aparece apenas como “moldura” para que cumpra os atos de sua missão e fale a respeito dela. São Francisco de Assis o compreendeu muito bem, quando diz: “Evangeliza sempre e em toda parte  e fala se necessário”. O que se ressalta, por outro lado, é Sua espiritualidade: a profunda unidade com o Pai (espiritualidade da filiação), o sentimento de inseparabilidade, a absoluta dependência sem a ilusão, tão freqüente em nós, de poder subsistir separado, a profunda vivência de uma intimidade que Lhe dá a certeza de que Deus é Sua fonte, a raiz de que brota a seiva que O nutre, é como Seu próprio “Abbã”, “papai”. É essa espiritualidade que O faz assumir a obra de Deus como própria, ou seja, a restauração da criação (cf. Jo 5) e a recomposição da luminosa imagem de Deus no ser humano (cf. Jo 9, 1-7), para que n’Ele se manifeste o “EU SOU” da libertação do Êxodo, que mantém a vida  e até arranca da morte (cf. Jo 6, particularmente vs16-21; 8, 58). Santo Irineu, no século II, iria exclamar: “Gloria Dei, vivens homo” (a glória de Deus é o ser humano vivente, em plena vida) e Dom Oscar Romero, o mártir da justiça na Afroameríndia de hoje, já incluído no calendário litúrgico da Igreja da Inglaterra, parafraseia: “A glória de Deus é o pobre de pé”.

A “espiritualidade filial”, portanto, não equivale a sentir uma religião, praticá-la e divulgá-la (quantas vezes a obra missionária, com a maior boa vontade,  não se reduziu a isso!). Trata-se, antes, de aprender com o Mestre (cf. Lc 10,38-42; 11, 1-4), assimilar e assumir a práxis de Jesus, isto é, Seus proféticos gestos e palavras de restauração e defesa da vida e, assim, Sua identidade de Enviado de Deus para manifestar o Reino entre nós, a saber, criar comunidade entre as “casas” do povo, sair às praças públicas para curar e cuidar de enfermidades, socorrer pessoas desvalidas e excluídas, e alienadas de si mesmas por forças estranhas que as dominam; fazer o povo perceber  (“conscientização”) que está no ar a Boa Nova de que o “bem viver”, como dizem nossos povos aborígenes, a felicidade (“xalôm”)  é possível, e pode tornar-se realidade em sua vida (cf. Mt 10 e Lc 10), contanto que se resolva assumir e enfrentar os problemas coletivos, se tenha confiança no pouco que se possui, perdendo a fé nos poderosos e ricos, haja disponibilidade para repartir o que se tem e capacidade de organizar-se, só assim, a abundância se faz possível (cf. a lição aos discípulos em Mc 6, 35-44): o verdadeiro “milagre do pão”, o mais difícil de acontecer, pois já o esperamos há mais de vinte séculos, é a desalienação da consciência humana, particularmente dos pobres e seus aliados.

É evidente que essa espiritualidade profética e, por isso mesmo, radicalmente política, nos aproxima, necessariamente, do destino de Jesus, de sua condição de austeridade e pobreza (cf. Mt  8, 18-2; Lc 9, 57-62; Mc 10, 17-31) e de sua sorte de alguém odiado e perseguido, como o expressa muito bem o texto de São Marcos, ao introduzir  as duas secções centrais, a da missão e a do destino de Jesus com a menção de Herodes, nos evangelhos, a personificação do Faraó,o poder inimigo de Deus por excelência (cf. Mc 6, 14-16; 8, 15).  Quem assume a práxis de Jesus arrisca ter de enfrentar o mesmo destino da gente excluída, assim como se deu com os profetas e os apóstolos, e tem acontecido ao longo da história de confessores(as) e mártires (cf.Mc 1, 40-45; Mt 5, 1-12). É nesse sentido que aponta a recomendação do Apóstolo São Paulo: o “culto” primordial, o “sacrifício vivo” é a entrega de nossos corpos, isto é, de nossas relações e ações quotidianas em obediência aos propósitos de Deus (cf. Rm 12, 1-2). Por isso, “espiritualidade” não equivale ao que fazemos com tanta freqüência, a tarefas religiosas que cumprimos, nem mesmo a nossos sentimentos e mentalidade piedosa. Nada mais inadequado do que a expressão que escutamos, amiúde, “momentos de espíritualidade”.  Na verdade, espiritualidade são os valores e critérios profundos de vida,  que dão forma constante a nosso quotidiano, e esses valores, nós os devemos aprender com Jesus.

 Um dos símbolos mais eloqüentes em toda a Bíblia é o do “caminho”. É que Deus não se revela em si mesmo. O que faz é convidar-nos a entrar em Seu caminho e, destarte, na caminhada, como se diz em Amós (cf. cap 3 3-8), é que se torna possível “conhecê-Lo”, isto é, experimentar Sua presença, em nós e através de nós, como Emanuel, companhia no caminho, como se vê nos relatos bíblicos de vocação e envio (“Não temas, Eu estou contigo”) e tão belamente se dramatiza   no “Caminho de Emaús” (cf. Lc 24, 13-35) ou, peregrino, a bater à porta, com desejo de entrar e cear conosco (cf. Ap 3, 20; Sl 23). E é com Jesus que aprendemos o caminho de Deus, por onde Ele costuma passar, onde Lhe apraz estar e por onde anda quem O segue (cf. Jo  1, 35-9; 14, 6; Mc 1, 16-20). Ou seja, convida-nos a caminhar com Ele, a fazer e dizer como Ele, o profeta Servo de Deus (cf. Jo 1, 29-34; Mt  12, 15-21). É só nessa trilha que nos será possível experimentar Deus como realidade pessoal e aprender  Seu jeito de ser, de modo que sejamos capazes de entregar-Lhe nossa vida (cf. Mc 9, 34-38), pela certeza de que é ”Eu sou”, “Estou aí”, “Estou contigo, não temas”. Dessa experiência é que brota a oração como movimento de intimidade, contemplativa do Mistério (f. Mt 6, 5-15; 11, 25-29) e a “oração da vigília” que nos fortalece e prepara para as lutas na planície da vida,particularmente em momentos de tentação e desânimo (cf. Mc 1, 35-39; 6, 46; 9, 2-8; 14, 32; Jo 6, 15; 1, 41-42; 17) e para o momento supremo da morte (cf. Mc  1, 34; Mt 27, 50; Lc 23, 46; Jo 19, 30).

“Ser de Jesus” não é ser da religião de Jesus. Ele era de religião judaica, e, de acordo com o que se narra nos evangelhos, nunca convidou ninguém a deixar a própria religião para aproximar-se  d’Ele, nem o funcionário real de Cafarnaum (cf. Jo 4, 46-53; nem o centurião romano (cf. Mt 8, 5-13), nem a mulher de Samaria, missionária proclamadora de Seu nome (cf. Jo 4; Mc 9, 38-50), nem o ex-endemoniado de Gerasa, enviado sem passar pelo grupo de discípulos (cf. Mc 5, 18-20), nem a mulher Cananéia (cf. Mc 7, 24-30)… e nós, não Jesus, é que inventamos a religião cristã. A Primeiro Epístola da São João leva isto ao nível mais profundo: “Quem pratica a justiça é justo, assim como Ele é justo” (3, 7), “e todo que ama nasceu de Deus e conhece a Deus” (4, 7). Na Igreja, há evidente desequilíbrio  entre o aspecto religioso e o aspecto profético, dando a impressão deque somos, acima de tudo, uma religião determinada. Na verdade, o senso religioso inato ao ser humano e as formas e instituições em que esse se manifesta são apenas instrumento para a obra profética de proclamação e instauração dos valores e práticas característicos do Reino de Deus.  Como sugeria, no século XIX, o grande teólogo anglicano Frederico Maurice, a religião só tem algum sentido se está a serviço do Evangelho, do contrário não passa de expressão de nossa “miséria” e idolatria.  De acordo com a mesma Epístola de São João, até o exercício da oração, expressão de nossos afetos para com Deus,  pode ser tremendamente perigoso, pois, sem a concreta abertura para as outras pessoas e o mundo em redor, não passa de narcisismo diante do espelho. De fato, só testamos nossa abertura para o grande Outro, a dimensão transcendente que nos salva se, na prática diária da vida, exercitamos abrir-nos  para fora de nós (cf. 1Jo 4, 20-21): a Transcendência se revela a nós na transcendência das outras pessoas e da realidade maior do mundo que nos rodeia .

“Ser de Jesus” é, antes de tudo, exercer e promover novas relações, desde nosso círculo mais íntimo, até as relações entre as nações do mundo, pois a redenção se manifesta, particularmente, pela paz internacional, conforme Efésios, cap. 2. É que fazemos a experiência da Transcendência, isto e, de Deus, na experiência concreta e quotidiana da transcendência do mundo, das outras pessoas e do futuro,  o que equivale a dizer que experimentamos Deus – espiritualidade – na experiência concreta de nossa liberdade humana, só autenticamente possível na experiência do amor que se traduza em obediência, a saber, voltar o ouvido para escutar a voz  (as necessidades) de outrem e responder pelo serviço. Só a aceitação serena da alteridade, que se traduz em comunhão com as outras pessoas,  nos humaniza, como nos ensina o filósofo judeu Emmanuel Levinas, e nos diz belamente o poeta Ferreira Gullar: “É evidente que o sentido da vida são as outras pessoas”. Na verdade, as outras pessoas, próximas ou distantes, não são “outrem”, estranhas e exteriores a nós, não, as outras pessoas nos constituem no que somos, elas “inabitam” em nós, de forma semelhante ao que se dá em Deus. Com efeito,  nós nos tornamos o que somos pelo acontecer das outras pessoas em nós. É na relação com elas e na dedicação a elas que nos construímos a nós mesmos(as) e isto nas várias  dimensões da existência humana:  pessoal, interpessoal, social e estrutural. Estamos sempre na dinâmica da encarnação: é na raiz da dimensão antropológica que tocamos a dimensão teologal, afinal, somos imagem e semelhança de Deus, e Jesus é a imagem por excelência (cf. Jo 1, 1. 18; Cl 1, 15-20; Hb 1, 1-4.

  1. AS SEIS MARCAS DA MISSÃO, PROPOSTA DE ESPIRITUALIDADE DO REINO DE DEUS
  • As seis marcas como espiritualidade da diaconia, de koinonía (comunhão) e da diaconia de martyria (testemunho) vividas por Jesus:

  • É fácil perceber a lógica contida na proposta das “Seis Marcas”. Tudo inicia com a proclamação do Evangelho (“kérygma”) e a resposta da conversão (“metánoia”). Nasce a Igreja (“ekklesía”, “assembleia”) como comunidade marcada pelo recíproco serviço fraterno, fundada em três colunas que são a convivência amorosa das pessoas (“koinonía”), a assimilação da Palavra (“didascalía”) e a vivência do Mistério de comunhão com Cristo (“mystagogía”). Constitui-se, assim, uma “assembléia alternativa” ao sistema do mundo, como ensina o Apóstolo Paulo, de igualdade radical, onde tudo se deve medir pelo mútuo serviço, mediante a entrega dos próprios dons e capacidades (cf. 1Cor 12-14). Essa forma alternativa de conviver exige transbordar para a sociedade mais ampla. O serviço fraterno que brota do “kérygma” se alarga em “martyría” (testemunho) em favor de um novo mundo: os serviços de amor a quem necessita são a expressão da solidariedade, da consciência de nossa fraternidade antropológica (“filiação divina”), somos todos(as) do mesmo tecido, com igual dignidade, é o que nos leva à  ação social em favor de pessoas mais necessitadas; perceber, porém, com mais profundidade e por experiência, a realidade do sistema do mundo nos impulsiona a “lutar contra as estruturas injustas da sociedade”, passamos assim da solidariedade à justiça, ou seja, de relações puramente interpessoais a ações estruturais de mudança do sistema econômico e político; o olhar se alarga quando percebemos que o sistema do mundo tem posto em perigo a própria vida no planeta e isso se exige de nós atitude mais  radical de cuidado com a vida, com a percepção do nexo profundo entre Economia e Ecologia; finalmente, com olhar de compaixão por todos os seres do universo, entregamo-nos ao diálogo universal, amplamente ecumênico, sabendo que o objetivo último é o estabelecimento da paz (cf. Ef 2), por isso a necessidade de lutar para garanti-la. Trata-se, na verdade, de viver a fraternidade na pequena “casa” da comunidade da Igreja como experiência e treinamento para voltar-se para a grande casa que é o mundo, onde todas as pessoas têm direito de habitar (cf. Gl 4). Por isso, a Eco-nomia (lei da casa) tem de respeitar a Eco-logia (lógica da casa) em função de a casa comum ser realmente o espaço em que  toda a humanidade tenha o direito de permanecer (Ecu-menismo), em comunhão com todos os seres do universo (cf. Mc 1, 12-13; Is 11, 1-9; Os 4, 1-3; Gn 3)). Vê-se, assim, que o “kérygma”, a proclamação da práxis de Jesus, tem em vista tornar realidade o “xalôm”, a promessa da felicidade, da harmonia, do bem-viver, da paz universal (cf. Mt 10 e Lc 10; Ef 2; Is 11, 1-9; 2, 1-5). A comunidade cristã, por sua maneira de viver e de atuar, através do novo jeito de ser das pessoas, da fraternidade comunitária e da ação política, dá “autoridade” a sua palavra de anúncio do Evangelho (cf. Mc 1, 21-28), anúncio que é, ao mesmo tempo, “kérygma” (proclamação da Palavra) e “martyría”- ação de testemunho), em outras palavras, anuncia o Evangelho por sua práxis, ou seja, por gestos e palavras, ação e reflexão, prática e teoria, como vemos na vida de Jesus.
  • Esta espiritualidade está fundada nas Bem-Aventuranças, no Pai-Nosso e na nova lei de pobreza radical no Sermão do Monte: ser pobre ou tornar-se aliado de quem é pobre (“opção pelos pobres”):
  • AS BEM-AVENTURANÇAS

Esquemadas bem-aventuranças

Se observamos a estrutura do texto, percebemos imediatamente que a primeira bem-aventurança é paralela à última, formando juntas uma moldura que inclui o conjunto: “os pobres no Espírito” são, na verdade, quem é perseguido por causa da justiça” (v3.10). Para ambas a promessa é o ”Reino dos Céus”.  No centro da construção estão a quarta e a quinta bem-aventurança: “fome e sede de justiça” e capacidade de exercer misericórdia (v6.7), ou seja, a prática da justiça decorre de um coração (“córdia” vem de “cor”, coração em latim) e “miser” alude a “miséria”. Ou seja, a justiça é fruto de um coração que sente a miséria alheia como própria, dela se aproxima por solidariedade, o que corresponde à ideia da palavra hebraica “hesed” que pode ser traduzida ou por misericórdia ou por solidariedade, categoria fundamental do texto do profeta Oseias (cf. Os 2, 21-22; 6, 6). Os “mansos”, ou “humildes”, tudo indica, no sentido de humilhados, ou gente pisada, podem corresponder aos “aflitos” (v4.5), de acordo com o Salmo 37, sua herança é a posse da terra, o que corresponde à consolação que lhes advém de Deus (cf. Sl 37, 9. 18. 22. 29.34. 39-40). Os “puros (ou íntegros) de coração” parecem corresponder aos “promotores da paz”, pois a promessa é quase idêntica em seus termos: “verão a Deus” e “serão reconhecidos como filhos de Deus” (v8.9). Ademais, é importante notar o seguinte: temos uma série de oito bem-aventuranças, pois os versículos 11-12 fogem à série, tendo o tom de um comentário conclusivo final. Pois bem, a primeira e a última, como vimos, se correspondem, com a promessa do “Reino dos Céus”, e a quarta e quinta que se acham no centro têm íntima relação com a última, uma vez que estão centradas no binômio justiça-misericórdia. Ou seja, os três pilares da arquitetura do texto são os versículos 3. 6-7 e 10.

Tudo isto sugere que no centro da espiritualidade das bem-aventuranças está a prática da solidariedade e da justiça em favor de quem padece opressão e aflição (v3-4). Como todo o conjunto dos evangelhos o sugere, a Boa-Nova se destina aos pobres, conforme o diz claramente a versão das bem-aventuranças segundo  Lucas (cf. Lc 6, 20-26). São eles quem Jesus proclama “felizes”, é a eles que diz “avante”, “vão em frente”, é essa a conotação da palavra hebraica para “bem-aventurados”. Mateus reinterpreta a proclamação profética de Jesus e nos ajuda a compreender que há pessoas que fazem “opção pelos pobres”, com eles se solidarizam, a ponto de tornar-se “pobres segundo o Espírito” de Deus, o qual infunde “fome e sede de justiça”, torna-os “misericordiosos”, isto é, solidários com os pobres, humilhados e aflitos (v. 4-5), capazes de enfrentar toda “perseguição por causa da justiça” (v10).  Se o evangelista quisesse falar de “pobreza interior”, “pobreza espiritual”, teria empregado o vocábulo “coração” (“leb” – em hebraico, ou” kardía” – em grego), pois, na Bíblia, é o coração que é o centro interior dos projetos do ser humano. Em vez disso, usa o termo grego  “pnéuma” (espírito) que, no evangelho,  designa o Espírito de Deus. “Pobres no Espírito” ou “segundo o Espírito” são as pessoas que se solidarizam com a causa dos pobres e fazem “opção pelos pobres”, por isso  assumem lutar por restabelecer a justiça, cujo fruto é o “xalôm” (paz, harmonia, felicidade, v9), essa se torna seu alimento e sua bebida (v6), não sobrevivem mais sem ela , ainda que tenham de enfrentar perseguição até a morte, como se dá com profetas e profetisas  (cf. v11-12)

3.3.2.     O PAI-NOSSO (Mt 6, 9-13):

                PAI-NOSSO que estás nos céus

                – santificado seja o Teu NOME

                – venha o Teu REINO

                – seja feita a Tua VONTADE

               – na TERRA como no céu

              O PÃO NOSSO de cada dia

              – dá-nos hoje (PARTILHA: nova economia, cf. Mt 14, 13-21)

              – e perdoa-nos as nossas dívidas como também perdoamos nossos devedores (PERDÃO: novas relações sociais: cf.Mt  5, 38-48; 18, 21-22)

              – e não nos submetas à tentação, mas livra-nos do Mal (RESISTÊNCIA: relações políticas, cf. Mt 4, 1-11; 12, 22-32).

              Pela estrutura da oração dominical, fica claro que santificar o Nome do Deus, oculto (escondido de nossos olhos pelos véus do  firmamento) e transcendente,  é dispor-se a acolher Seu Reino, o que concretamente é “fazer a Tua vontade” na terra, para que essa se torne céu. Fica evidente que a primeira frase “Pai nosso que estás nos céus” corresponde estruturalmente a “o Pão nosso de cada dia”, e “terra” corresponde a céu. Esta correspondência tem como objetivo explicitar o que significa “vontade de Deus na TERRA como no CÉU”: antes de tudo, a partilha do pão, como novas relações de solidariedade e justiça na área da produção da sobrevivência de cada dia, ou seja, novas relações econômicas; em seguida, o perdão, como sinal e síntese radical de novas relações sociais,  de recíproco reconhecimento;  finalmente, a resistência ao que é maligno, ao que tenta para cairmos na idolatria, para nos impor como poderosos ou nos submeter como escravos, justamente o nível político da proposta do Reino.

3.3.3. A “NOVA LEI” de pobreza radical (cf. Mt 6, 1-34, o discurso prossegue no capítulo 7º):

           – esmola, jejum, oração: descobrir o segredo da “fonte secreta”. Deus é o fundamento escondido (oração) de nova relação com os bens (“esmola” é partilha em vista de restabelecer a justiça), o que exige de cada pessoa nova maneira de viver, com simplicidade e austeridade  (v. 1-18; cf. Is 58)

           – o verdadeiro tesouro: onde está o coração, ou seja, a “opção de vida”; o dinheiro como ídolo que dá “sentido” à vida e exige adoração (obediência irrestrita) (v19-21. 24; cf. a crítica de Isaías ao ridículo da idolatria: Is 44, 9-20)

           – a impureza do olhar: ambição e cobiça (v22-23; cf. 5, 27-30; Dt 15,9; Sl 131; Eclo 14,8-10)

           – simplicidade de vida e vitória sobre a angústia do viver: ruptura com a idolatria da posse e adesão ao Deus vivo – a justiça do Reino é a vivência de comunidade, pois a atenção às necessidades de outrem e a partilha fraterna  extinguem a ansiedade e angústia do viver (v25-34; cf. Mt 10, 17-30), uma vez que a partilha garante a abundância para todas as pessoas (cf. Mc 6, 30-44)..

About Sebastião Armando (170 Articles)
Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema "Evangelização", convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social ("Casa Ecumênica - Crer & Ser") com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.