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Mensagem de Natal 2016

Mensagem de Natal

 Dom Sebastião Armando Gameleira Soares
Bispo Emérito da Diocese Anglicana do Recife (Nordeste-IEAB)

 

“O povo que andava nas trevas viu uma grande luz…” (Is 9, 1)

Entre as histórias do Natal, aparecem os pastores (cf. Lc 2, 1-20). Exercem profissão desprezível e mal afamada, são gente da noite e da periferia. Ao mesmo tempo, lembram Davi, o pequeno pastor de Belém (cf. 1Sm 16, 1-13), o rei que a Bíblia idealiza como figura de pastor, do jeito que um rei devia ser para seu povo (cf. 1Sm 17, 32-58; Is 9, 1-6; Jr 23, 1-8; Ez 34, 23-31). Não dominador, mas companheiro, pequeno entre pequenos, o que chamamos hoje de “poder popular” (cf. Zc 9, 9-10; Sf 3, 11-13). Finalmente, já apontam para a tarefa que deve ser assumida por Jesus em meio a um povo disperso, “como ovelhas sem pastor” (cf. Mc 6, 34; Jo 10). O conto nos diz que os pastores estavam pelos campos, em plena escuridão da noite. Quem sabe, imagem forte de nossa noite, a noite do povo, que se faz agora muito mais escura pelo mundo inteiro (cf. Is 9, 1-4).

De repente, têm de levantar-se e apressadamente caminhar naquela noite de inverno. Como fazê-lo, se estão justamente a cuidar de suas coisas, de suas ovelhas, de seus interesses? Mas obedecem a uma intuição que lhes vem dos céus, de que mais adiante brilha uma luz que “pode alegrar todo o povo que anda nas trevas” (cf. Lc 2, 10-11). Ainda não sabem bem de que se trata, mas têm coragem de levantar-se e apressadamente sair em conjunto, solidariamente, embora na escuridão da noite.

A Bíblia nos ensina que Deus caminha com Seu povo, como Pastor, mediante lideranças humanas, desde o êxodo da antiga opressão debaixo dos impérios deste mundo (Ex 3, 14 e 15; 32, 1; Sl 23). Por isso, o Apóstolo São Paulo nos diz, com muita ênfase, que ”a sabedoria e a força de Deus” estão no povo (cf. 1 Cor 1, 17-31). É que, ao contrário de ricos e poderosos, é o povo que trabalha duro e, realmente, mantém a vida e transforma o mundo; é ele que tem realmente intimidade com as alegrias e as penas de cada dia. Não “sofisticam”, isto é, não falsificam o real, o quotidiano da vida, ao contrário, a conhecem intimamente, “de experiência feita”. Ricos e poderosos têm aparência de fortes, afinal gozam de poder e posses, porém quem os sustenta, quem os carrega em seus braços finos, mas fortes como aço? Quem lhes proporciona de comer? Quem morre em seu lugar nas guerras que “vencem”? Ricos e poderosos têm pés de barro, como a estátua do Império, na visão do grande reino no livro de Daniel (cf. Dn 2). Sim, é no povo que está “a sabedoria e a força de Deus”, a capacidade oculta de saber e de fazer. Infelizmente, com muita frequência, o povo não sabe disso. Os pobres são ensinados a se convencer de que são fracos e impotentes, e em tudo dependem do Poder. Todo dia se repete nas coisas e nas pessoas que ”é assim mesmo”, foi Deus quem nos fez assim, diferentes, “desiguais para a harmonia do conjunto, os pobres existem para que os ricos se tornem virtuosos em ajudá-los”, palavras assim disseram vários papas e tanta gente da classe poderosa assim prossegue tranquila em seus caminhos… É o que se chama de “ideologia”, discurso falso que ilude e falsifica a vida, e é produzido para encobrir as verdadeiras causas da divisão injusta e da opressão; ao longo do tempo, ”a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante”, que “faz a nossa cabeça”. Mas a palavra do Apóstolo persiste viva: “a sabedoria e a força de Deus” estão no povo”, naqueles(as) que são tidos(as) como “lixo do mundo”. Evangelizar é desmascarar a ideologia (“sabedoria do sistema deste mundo” – v19-25), mostrar que é mentira e, assim, arrancar os pobres de seu abatimento (cf. 1Cor 1, 17-25). Não já temos experimentado que quando o povo decide não há “grande”, não há governo que não seja vencido? A grande questão, porém, é o povo chegar a romper com a “ideologia” e, realmente, decidir seu destino. O aparato de força, instalado nas ruas contra o povo, é sempre sinal de fraqueza, de que se teme o povo organizado. Quantas vezes não temos gritado nossa crença: “Povo unido jamais será vencido”?

Mas a quem é pobre e oprimido, ao receber o anúncio da Manjedoura e da Cruz, que equivale a proclamar que a solidariedade de Deus é com as pessoas marginalizadas “da noite” e crucificadas pelo sistema de poder deste mundo, ao receber este anúncio, é chamado a aceitar que nele está a verdade da vida e converter-se. “Converter-se” começa por decidir-se a caminhar apressadamente na escuridão da noite. Para isso, é preciso caminhar em grupo, coletivamente, porque as trevas podem reservar surpresas más. Isto significa novo entendimento da realidade vivida, que começa por perder a fé nos poderosos e no sistema da riqueza, e só crer em Deus e em Sua força presente nos pobres (cf. 1Cor 2, 1-5).

Papa Francisco é uma das figuras mais luminosas destes tempos de trevas. Em seu aniversário, prefere tomar café da manhã com mendigos(as) e lança em nossa direção o apelo que vem de Deus: compreender que este sistema dominado pelas finanças do Dinheiro (cf. Mt 6, 24) é assassino (lembremos a guerra na Síria que caminha para meio milhão de mortos, a Palestina criminosamente invadida pelo Estado de Israel, as pessoas sem pátria a perambular, sem destino, em busca refúgio em noite de flagelo, muros se constroem nas fronteiras, a África sempre mais destruída, a violência a nossa porta cada dia…); compreender que os poderosos são hipócritas, pois provocam e comandam a morte do povo, o mundo com cada vez menos gente a dominar e possuir quase tudo, e exibem suas mãos macias e bem lavadas do sangue derramado e da corrupção desenfreada (cf. Is 1, 15-17; Am 4, 1-3; 5, 21-27); a salvação só nos pode vir do Povo (cf. Sf 3, 12-13). Por isso, em seus encontros com representantes de Movimentos Populares do mundo todo, lança o alerta de “três Ts”: nenhuma família sem teto, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem trabalho; e, profeticamente, brada a nossos ouvidos: não se submetam à opressão, rebelem-se e se organizem. Na verdade, não há outro caminho para clarear a estrada, calar o surdo “barulho das botas prepotentes e queimar as fardas manchadas de sangue” (Is 9, 1-6).

Na noite que se faz cada vez mais escura, o clarão só nos vem da Luz de Deus, que, ao se refletir na face de Cristo, ilumina nossos rostos (cf. 2Cor 3, 17-18) e nos torna “luz para quem jaz nas trevas”. Não há outro caminho. Temos de nos juntar cada vez mais, buscar na noite o novo entendimento que esclarece nossas mentes e nos organizar “em grupos de cem e de cinquenta” (cf. Mc 6, 40), como nos diz a Bíblia quando fala das batalhas de Deus. Só nossa organização pode ser luz nesta densa noite dos pobres do povo!“

“O povo que vagava nas trevas viu uma grande luz, e uma luz brilhou para quem habitava uma terra tenebrosa” (Is 9, 1).

About Sebastião Armando (176 Articles)
<p>Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber<br /> to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema “Evangelização”, convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social (“Casa Ecumênica – Crer & Ser”) com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.</p>

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