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Mensagem às Comunidades no Natal 2015: Santuário das Comunidades – Caruaru-PE

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Texto da alocução de Dom Sebastião Armando Gameleira no Santuário das Comunidades por ocasião do Natal das Comunidades.

Isaías 9, 1-6; Lc 2, 1-20

  1. O povo da Bíblia quando se reunia voltava sempre a contar suas histórias e partilhar os seus sonhos. É a mesma coisa que estamos a fazer aqui: estamos a louvar a Deus pelas bonitas histórias que temos vivido ao longo destes anos e implorar Sua força para continuar a caminhada, pois a caminhada das comunidades não tem sido fácil. Os poderosos do mundo nos desprezam, somos pobres e sem poder; em nossas Igrejas sabemos que também não tem sido fácil: as CEBs têm lutado com dificuldade para tornar a Igreja realmente a “casa do povo”, um povo de comunidades vivas, participativas, fermento e sinal de uma nova humanidade, mais livre e mais justa; um povo de mulheres e homens iguais, com dons e ministérios diferentes; um povo sem donos, todos e todas servos e servas uns dos outros, como nos ensinava Jesus e toda a Bíblia.
  1. Às vezes a gente chega a duvidar e até a desanimar. É como diz o profeta Isaías nos versos imediatamente anteriores ao texto que foi lido: “Passará por aí um povo encurvado e faminto; e com raiva, por causa da fome, amaldiçoará os seus chefes e o seu Deus. Olhará para o céu e para a terra: por toda parte aperto e obscuridade, angústia e densas trevas, sem alvorada, não se vê saída”. O povo naquele momento histórico sofria invasão e dominação estrangeira.
  1. Aí, o profeta teve um sonho e contou esse sonho em forma de poesia: o povo nas trevas viu uma grande luz; alegria tão grande, como nas festa da colheita ou quando se vence a guerra; o jugo, a canga e a vara do opressor, quebrados; as botas prepotentes e as fardas dos soldados manchadas de sangue, jogadas no fogo; tudo isso porque um menino nasceu e na fraqueza desse menino nós enxergamos o Deus forte, o conselheiro maravilhoso, o príncipe da paz, para inaugurar um reino fundado no Direito e na Justiça.

Esse novo reino se revela na criança, no pequeno, no povo pobre e sem valor. Foi esse o sonho de nosso irmão Isaías, oito séculos antes de Cristo.

  1. As comunidades do começo da Igreja sonharam o mesmo sonho quando conheceram Jesus, e o deixaram escrito no evangelho que acabamos de escutar: reis e governadores poderosos dominavam o mundo; um casal de pobres, como tantos de nossa gente, pelo caminho procurava abrigo; o menino nasceu, foi como se a terra se enchesse de luz e anjos do céu descessem para anunciar um novo tempo: o Salvador e Senhor não são os poderosos que nos enganam, mas o menino pobre, enrolado em trapos, deitado num cocho de animais, e acolhido por gente pobre e desprezada, como os pastores.

Esse sonho foi sonhado pelas comunidades já faz vinte e um séculos, mais de dois mil anos.

  1. E agora nos reunimos aqui para sonhar o mesmo sonho, de novo, e mais uma vez continuar a contar o sonho da Bíblia. Como dizia o profeta Sofonias, “no meio deste país, para que haja paz, fomos deixados como um povo humilde e pobre”; nosso rei é uma criança pequena, dizia o profeta Isaías; é pobre, chega montado num jumento, dizia o profeta Zacarias. Incrivelmente, é assim que encontramos Deus no meio de nós.
  1. O que a Bíblia quer dizer com estas imagens? Quer dizer que só haverá justiça e só acabará a opressão, quando tivermos um poder popular, quer dizer, quando o povo estiver no poder, participando efetivamente do governo do país e do mundo. O pequeno, a criança que é entronizada, é a imagem do povo pobre no poder, tendo Jesus como cabeça e exemplo: o que parece frágil aos olhos dos poderosos do mundo, é a manifestação do Deus Forte, porque consegue ser mais forte que os poderes deste mundo. A Bíblia sonhava o tempo todo com isso; nós continuamos a sonhar o mesmo sonho. E parece que nunca chega…
  1. Quando, finalmente, o sonho se tornará realidade? No drama de Natal “Morte e Vida Severina”, alguém dá a notícia: “Minha senhora dona, um menino nasceu, o mundo tornou a começar”. Quando isso se tornará realidade? Jesus disse muito claro: quando não mais acreditarmos nos poderosos; quando chegarmos a acreditar em nós; quando formos um povo organizado e finalmente partilharmos as coisas e o poder. Só quando chegarmos a isso vamos mostrar que temos realmente fé. Pois fé é acreditar que em nós, pequenos, pequenas e pobres, está “a sabedoria e a força de Deus”, só quando chegarmos a esse ponto é que seremos um povo realmente evangelizado, como nos ensinou o Apóstolo São Paulo na 1ª carta aos Coríntios, caps. 1-4.
  1. Jesus disse: “Se vocês tiverem fé, derrubarão montanhas”. E o sinal da fé é a coragem de nos organizar sem contar com os recursos dos poderosos, mostrando assim a sabedoria e a força do povo, unido e organizado, nas Igrejas e na sociedade. Nenhum poder deste mundo resiste ao povo consciente, unido e organizado, porque no povo unido e organizado está a força de Deus. Nosso poder está na nossa fé, nossa fé se revela na coragem de nossa organização, dentro das Igrejas e na sociedade. Teremos fé viva para nos convencer de que a sabedoria e a força de Deus estão em nós, os pobres?
  1. E agora as Igrejas nos convidam a dar um passo ainda mais corajoso. Além da luta pela Justiça, temos de assumir a luta para salvar a vida no planeta terra. Os poderosos não querem mudar, os governos estão comprometidos com eles. Por incrível que pareça, a salvação da vida depende de nós, o povo comum. Só com muita união, muita organização e muita luta vamos conseguir salvar a obra da criação de nosso Deus. Este é o ano de rezar, pensar, agir e exigir que haja água e saneamento básico para a saúde e a vida do povo.

Papa Francisco, com muita coragem, já disse que a Igreja tem de pisar na lama e ficar junto com o povo e, enfrentando os poderosos, denunciou que o sistema do mundo está causando a morte das pessoas, de povos e da terra inteira e, assim, já nos fez o convite para lutar e salvar a obra de Deus que é a vida na terra. E, num gesto inédito, resolveu dialogar diretamente com os movimentos sociais organizados do mundo inteiro, gente de diversos países. Quis acender em nosso meio um clarão de esperança. Daquela esperança que vem de baixo, do lugar onde os poderosos pensam que está o lixo do mundo, que são os pobres. E tem insistido com força em que é preciso protestar, não se conformar com a opressão, não se submeter e organizar-se para que não haja camponês sem terra, trabalhador sem trabalho, família sem casa. Quando daremos esse passo? Quando seremos povo organizado? Quando vamos passar, corajosamente, do sonho à realidade? Quando vamos, finalmente, mostrar que somos um povo de fé?

About Sebastião Armando (176 Articles)
<p>Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber<br /> to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema “Evangelização”, convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social (“Casa Ecumênica – Crer & Ser”) com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.</p>