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Mãe, Serviço Gratuito

Mãe, Serviço Gratuito

Maria Madalena Fonseca Soares

Assistente Social – Coordenadora do Projeto Crer & Ser.

 

Será que, na sociedade atual, mercantilista e utilitária, ainda há espaço para ser MÃE? Cada vez mais se exige da mulher desempenhar uma infinidade de papéis: geradora de renda, dona de casa, profissional competente, filha, esposa, mãe…

Sabemos que filho(a) é a obra prima da mulher, isto é, a primeira, a mais importante, porque um novo ser humano vem partilhar de nosso mundo, mas é espantoso como a sociedade não está preparada para receber essa nova criatura. Há cada vez menos espaço para a criança viver plenamente como criatura dependente e em construção. A mulher tem de entrar no mercado de trabalho, pois a necessidade econômico-financeira assim o exige, e as crianças como ficam? Quem se ocupa delas, “crianças”, “seres que devem ser criados”? Elas não chegam prontas, quem se responsabiliza por sua “formação”? Com frequência, nossos(as) filhos(as) são entregues a pessoas que não têm nenhum preparo para desempenhar tão importante papel. A escola infantil, quando se pode pagar, ou a escola pública, quando com muito esforço se consegue uma vaga, nem sempre preenche as necessidades básicas das crianças: amor, carinho, cuidado, gerando nelas confiança e autoestima.

Nossa sociedade está sofrendo de uma grande deficiência que é a falta de AMOR GRATUITO. Importante antropólogo pernambucano, já falecido, falava uma vez, em curto artigo de jornal, de “crianças de rua e crianças de casa, ambas igualmente abandonadas”. Facilmente imaginamos que as de rua cairão na criminalidade. E as de casa, não se acham sob o risco de semelhante destino, solitárias, deixadas à televisão ou aos aparelhos eletrônicos, ao assédio das drogas, à tentação de suicídio, de assassinato de pais, avós, etc.? Não é o que, lamentavelmente, temos visto, tantas vezes tão perto de nós?

Outra grande preocupação é o número crescente de adolescentes mães, e não só nas periferias. Engravidam e têm filhos(as) como se estivessem a “brincar de boneca”, sem nenhuma preparação nem responsabilidade, e essas crianças vêm ao mundo sem adequada proteção nem  condições de desenvolvimento integral. Já está comprovado estatisticamente que, quanto maior a escolaridade da mulher, menos filhos(as) tem; quanto menor  o grau de escolaridade, mais crianças põe no mundo. Isto, na maioria das vezes, sem condições de educá-las, fazendo, assim, crescer o contingente de seres humanos criados sem afeto, predispostos a “cair” na vida como em cruel e violenta guerra. “Se eu morrer, nasce outro, pior ou melhor, que importância tem?” “Meu destino não é este mesmo, vou aproveitar enquanto estou vivo”… Frases que revelam bem a gravidade da tragédia…

Nós mulheres mães devemos ter bem presente que, junto com nossos companheiros, somos construtoras do bem maior, a VIDA. Nosso maior investimento tem de ser o AMOR. Hoje, já mãe de três filhas e um filho, e com três netas e três netos, vejo claro que o grande legado que, como mães, podemos deixar é o AMOR, Não só de sentimento, mas de atitudes e de gestos que se tornem hábitos permanentes. É preciso dispor-se a “perder tempo” para conviver de verdade e, assim, transmitir valores que possam transformar nossos filhos e filhas em seres também amorosos, capazes de achar a alegria em servir outros seres humanos e em achar o sentido de suas vidas na dedicação a fazer este mundo muito melhor. É o que claramente nos ensina a Bíblia: “O amor é paciente, o amor é bondoso; não inveja, não se vangloria, não se orgulha; não maltrata, não procura seus interesses, não se irrita facilmente, não guarda rancor; o amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade; tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13, 4-7). Assim é o amor de mãe. Aliás, o próprio Deus, quando quer falar de Sua infinita capacidade de amar, se compara â mãe (cf. Os 11, 1-4).

Está particularmente em nossas mãos de mulheres mães construir uma sociedade de paz, amando incansavelmente nossos filhos e filhas. Vivo uma experiência de trabalho social com crianças e suas mães, em nosso projeto “Crer & Ser”, na “Casa Ecumênica”, no Alto do Moura, em Caruaru. Nas mesmas dificuldades materiais, há aquelas que, facilmente, se descuidam, não se dedicam carinhosamente às crianças; enquanto outras lhes oferecem afeto, incentivo e amor. As crianças destas últimas, vejo que se sentem mais seguras, atendidas, acolhidas. Ao longo da vida, certamente, vão fazer a mesma coisa: saberão respeitar, conviver em sociedade, em clima de paz e solidariedade. Para além da pobreza (e esta deve ser eliminada, é claro!), é o amor que tem força de salvar.   

Dia das Mães, Maio 2017.  

About Sebastião Armando (170 Articles)
Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema "Evangelização", convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social ("Casa Ecumênica - Crer & Ser") com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.

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