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Diálogo Anglicano/Católico Romano em Tempos de Misericórdia

lançamento do livro maceio (4)Circunstância ecumênica

A convite do Arcebispo Metropolitano de Maceió, Dom Antônio Muniz, e de Edições Paulinas, fui convidado a estar na capital alagoana, nos dias 1º e 2 do corrente, para participar de uma sessão de diálogo ecumênico e do lançamento do livro “A Espiritualidade de Jesus”, escrito em parceria com o Prof. João Luiz Correia Júnior, da Universidade Católica de Pernambuco. Minha mulher, Madalena, e eu tivemos a elevada honra de ser hóspedes do Arcebispo e de acompanhá-lo em visita a alguns pontos do trabalho da Arquidiocese. Sem dúvida, as conversas privadas em casa nos levaram a conhecer muito do que ali se ali faz, uma Igreja local que se define hoje a partir de três lindas perspectivas: Igreja orante, missionária e samaritana.

 Tivemos uma sessão pública de diálogo, com a presença do próprio Arcebispo, de padres, seminaristas, freiras e pessoas leigas. Foi-me solicitada uma apresentação geral do Anglicanismo. Como salientei, entre outros pontos, que o princípio clássico católico “lex orandi, lex credendi” é central para o “ethos” (jeito de ser) do Anglicanismo, Dom Muniz, de maneira tão sintética quanto brilhante, chamou nossa atenção para o seguinte fato: enquanto conflitivas disputas doutrinais dividiam a Cristandade, as correntes místicas no Catolicismo se achavam em plena expansão e, assim, irrigavam a Igreja com fluxos mais amplos e mais profundos, garantindo desse modo que, para além das doutrinas que tantas vezes dividem, a “lex orandi” se mantivesse como veio quase subterrâneo, nutrindo as pessoas e as comunidades com a oração e a contemplação dos mistérios da fé, os quais têm tudo para nos unir no mesmo Deus.

Em seguida, passamos ao lançamento do livro “A Espiritualidade de Jesus”, em coautoria com João Luiz Correia Júnior. Chamei a atenção das pessoas presentes para a “volta a Jesus” como condição fundamental para o diálogo ecumênico e a unidade cristã, para além de eventuais doutrinas ou normas que ainda possam dividir-nos. Segue o texto que serviu de base à exposição em Maceió:

Introdução

Estamos a celebrar o “Ano Santo da Misericórdia”, proclamado pelo santo e querido Papa Francisco. O gesto de “miseri-córdia” – a formação da palavra já o sugere – começa sempre pelo coração. É o coração que se aproxima da miséria alheia, de suas fragilidades, sofrimentos e precariedades. É o coração que acolhe e inclui radicalmente, sem reservas, como escutamos há poucos dias com a narração da acolhida de Jesus à mulher adúltera: “Ninguém te condenou? Nem eu te condeno”.

Na Bíblia, “misericórdia” é palavra central, por exemplo, nos textos proféticos. “Hesed” é movimento que brota das entranhas de Deus e que O leva a fazer-se solidário, tornar-se um único “sólido” conosco e comportar-se como marido apaixonado, capaz de perdoar todas as traições (cf. Os 1-2). E falar de “entranhas” é falar de emoções profundas, viscerais. E seria demais dizer que “vísceras” têm tudo a ver com útero materno? “Solidariedade” é sentir-se um com outra pessoa, em unidade tão radical que se trata de fazer-se uma só carne, em processo de “regeneração”. É o coração que vai dirigir os pensamentos e os passos em vista do agir.

Ora, o coração vai muito além da razão, do certo e do errado. Como dizia o sábio francês Pascal, “o coração tem razões que a própria razão desconhece”, ou, na magistral síntese do “Pequeno Príncipe”, “só se vê bem com o coração”. Por isso, no diálogo entre Igrejas e religiões, antes da conversa da razão, tem de haver a união de corações e a aproximação de nossos passos em direção recíproca, movidos pela compaixão, pela solidariedade, pela misericórdia.

Uma palavra inicial sobre a história

A Igreja Católica se estabeleceu na Inglaterra e daí irradiou para as Ilhas Britânicas, provavelmente, entre os séculos I e II. Surgiram inclusive versões lendárias que atribuem a fundação da Igreja a José de Arimateia ou a Maria Madalena. Escravos cristãos perseguidos nas Gálias tinham fugido em direção ao Norte (Grã Bretanha) por volta do ano 77. O pai da Igreja Tertuliano, em 208, refere-se a regiões da Ilha inacessíveis a Roma que se tinham convertido ao Cristianismo. No começo do século IV, três  bispos  já participavam de um concílio em Arles, no sul da França. Tudo indica que a fundação da Igreja deve ter sido obra de escravos fugidos das Gálias, comerciantes e soldados, viajantes com acesso ao Oriente, pois daí veio forte influência ao longo da história. A data de celebração da Páscoa era fixada de acordo com o calendário oriental e as lideranças da Igreja sempre se interessaram por manter relações com o Oriente e deixar-se influenciar.

Por essas razões e pela própria situação insular, manteve-se autônoma até o século VII, inclusive com rito próprio, tendo sido a “Liturgia de Salisbury uma das mais importantes dentre os ritos autóctones . Invasões estrangeiras, porém, haviam desorganizado o país e destroçado a Igreja que se tinha enraizado no povo celta. O papa Gregório Magno, impressionado com tais estragos, enviou uma missão de quarenta monges, para re-evangelizar a Inglaterra, pois a resistência celta se refugiara nas regiões das florestas do País de Gales e da Escócia. Por isso, Santo Agostinho, o líder da missão, é tido como o primeiro Arcebispo de Cantuária, na Inglaterra. A partir da missão monástica, a Igreja da Inglaterra se vinculou à Igreja de Roma, situação que ia durar por toda a Idade Média, cerca de dez séculos.

No século XVI, a Inglaterra adere à Reforma. Para compreender esse fato, é preciso ter presente o seguinte: a Reforma não significava apenas ruptura religiosa; foi, na verdade, a face religiosa e ideológica legitimadora de um conflito bem mais amplo e mais profundo, econômico e político, que eram o liberalismo da livre iniciativa individual e o nacionalismo nascente com a progressiva quebra do Sacro Império Romano Germânico, cuja legitimação ideológica suprema era o papado. Em certas regiões da Europa, sob a liderança e autoridade de príncipes  poderosos, os feudos se reuniam e começavam a dar unidade estatal às nações. Assim, estava acontecendo na Alemanha, na Suíça e na própria Inglaterra. Ora, com isso se enfraquecia o poder imperial e o papado. Na onda do nacionalismo na Inglaterra, foram crescendo os conflitos com Roma: protestava-se contra as taxas cobradas pela Igreja, contra o enriquecimento das ordens religiosas, contra taxas que deviam ser enviadas diretamente a Roma, legados pontifícios eram designados sem nenhuma consideração nem consulta ou acordo com o poder local; o Reino tinha altas dívidas com bancos italianos ligados a famílias cardinalícias e até a familiares do papa. Em meio a tudo isso, a tão falada questão do divórcio do rei, diante da qual historiadores católicos romanos notam que o papa hesitava e demorou muito tempo a responder, levantava a suspeita de  que o papa não queria desgostar o imperador Carlos V, sobrinho de Catarina de Aragão, a esposa rejeitada. Podemos dizer que a questão do divórcio e das paixões do rei só teve a importância da gota d´agua que fez transbordar o copo. Devemos ter presente que o pano de fundo era a unificação da nação em ruptura com o Sacro Império, os antigos ressentimentos pela perda de autonomia da Igreja local, o que contrariava a tradição dos sete séculos formadores da Igreja, além de questões econômicas e financeiras aludidas, como as dívidas do Reino e os olhos do tesouro real sobre os bens de mosteiros e catedrais, além de questões políticas; sem falar da decadência em que se achava o papado na época.

Outra coisa importantíssima que se deve ter presente é que, até o século XI, o poder leigo era muito importante e influente na Cristandade. Cristandade europeia e Igreja eram a mesma realidade social e política. Os príncipes eram de fato o laicato representativo, sentiam-se responsáveis pela Igreja e nela envolviam também seus interesses temporais, assim como o papado também o fazia. Em sua coroação, eram consagrados a uma missão divina de zelar pela unidade entre a cruz e a espada, entre poder sacerdotal e poder leigo. Tinham até autoridade para convocar sínodos e concílios, tanto doutrinais como disciplinares. Os príncipes, desde o Imperador Constantino, eram uma espécie de bispos leigos, de fato também eles eram “supervisores” da Igreja. Mesmo após a Reforma Gregoriana, de Gregório Sétimo, esse poder ainda continuava forte. O que é evidente na Alemanha onde a Reforma só foi possível com o apoio de grande parte dos príncipes, todos cristãos.

“Ecclesia Anglicana”

Originalmente, “Ecclesia Anglicana” designa a Igreja da Inglaterra (“Anglia” é o nome antigo de Inglaterra, em latim) que se estabelecera desde os séculos I a II e se mantinha com a consciência de ser Igreja Católica  até a época da Reforma e além dela. Não havia nenhuma intenção de expansão missionária, inclusive porque era intensamente acentuada a consciência de identificação entre a Igreja e a nação inglesa.

Foi a expansão colonial, sobretudo no século XIX, que levou a maneira anglicana de ser Igreja para fora da Inglaterra: para os EEUU, para o Caribe, para a África, a Ásia, a Austrália e regiões da Oceania, para nossa Afroameríndia. Primeiramente, tratava-se de enviar capelães para assistência a ingleses agentes do projeto colonial; em seguida, partiu-se para a missão entre os povos nativos, usando-se para isso a obra de agências missionárias. Foi assim que se estabeleceram Igrejas Anglicanas fora da Inglaterra. Hoje o Anglicanismo está presente em mais de 160 países, alcançando perto de cem milhões de membros. Tornou-se, assim, uma família cristã mundial, o que nunca fora o propósito inicial.

A forma do Anglicanismo

Antes de tudo, não existe uma Igreja Anglicana. O que há, de fato, é uma rede de Igrejas locais autônomas, autocéfalas, segundo a terminologia oriental, em comunhão com o Arcebispo de Cantuária e interdependentes entre si. Por isso, em vez de “Igreja Anglicana”, seria mais apropriado falar de “Comunhão Anglicana”.

O Anglicanismo, apesar da ruptura com o papado, nunca pretendeu romper com o Catolicismo. Antes, sempre fez questão de sua identidade católica, através, porém, de uma forma de Catolicismo mais próxima do Oriente, que era justamente a maneira de vivê-lo no primeiro milênio, antes da consolidação do centralismo papal romano. Conservou-se sempre a herança monástica formadora da Igreja nas Ilhas Britânicas. Os grandes heróis da fé, por sinal,  são três monges missionários: Agostinho (Inglaterra), Columba ou Columbano (Escócia) e Patrício (Irlanda). O que se assumiu da Reforma Protestante foi sempre com a consciência de redescobrir elementos genuinamente católicos que tinham estado esquecidos durante a Idade Média, como por exemplo: o princípio de “lex orandi, lex credendi” (a norma da fé se manifesta na maneira de orar, ou o que  se reza é o que se crê); o sacerdócio comum do povo cristão; a acentuação da centralidade de Cristo e de Sua obra redentora, obscurecida pelo devocionalismo e a indevida importância atribuída aos santos e às relíquias, assim como aos méritos das boas obras; a redescoberta da Bíblia e sua leitura diretamente pelo povo cristão em sua língua; a participação direta do povo na Liturgia, com o auxílio do Livro de Oração Comum, o mesmo livro posto nas mãos do clero e do povo; a ausência de justificativa bíblica e da Antiguidade cristã para a obrigatoriedade do celibato para o clero; a maneira de refletir sobre a fé, ou seja, de fazer Teologia, tendo em conta, como princípio básico católico,  o “sensus fidelium”, ou consenso de fé do povo cristão, consenso que se forma através dos tempos a partir da  leitura assídua da Bíblia como suprema regra de fé, lida, porém, em relação com a Tradição, a Razão e a Experiência de vida do povo cristão. Ou seja, uma Eclesiologia muito próxima daquela que se fez presente no espírito e nos documentos do Concílio Vaticano II.

O que se deu na Reforma Inglesa foi algo bem diferente do que aconteceu na Alemanha (luteranismo) e na Suíça (calvinismo). Não se tratou de conflito doutrinal.  Ao contrário, o rei Henrique VIII chegou a escrever um livro para defender a doutrina tradicional dos sacramentos, contra Lutero, e por isso recebeu do papa o honroso título de “defensor fidei”, ostentado pelos monarcas ingleses até hoje. No Continente, quem encabeçara a Reforma  foram doutores universitários, daí a acentuação em disputas doutrinais, enquanto na Inglaterra foram o rei e os bispos. É de notar que essa questão de “disputas doutrinais” tem de ser revista hoje com novos olhos, pois parece ter-se tratado de algo bem mais complexo, sobretudo depois do acordo doutrinal sobre a doutrina da Justificação e a tradução ecumênica da Bíblia.

Embora entre os séculos XVI e XVII tenha havido sérias turbulências provocadas pelo conflito entre a continuidade do Catolicismo e a imposição do Calvinismo, prevaleceu a perspectiva preferida pelos bispos e garantida pela genial rainha Izabel I: para unir o país e fortalecer seu trono, promoveu a consolidação de um Catolicismo que fosse suficientemente amplo a ponto de acolher as tendências protestantes, lançava assim, de fato, o princípio original e profético, segundo o qual, Catolicismo e Protestantismo não são contraditórios, mas complementares, a chamada “via media”. Foi o que muito tempo depois veio a ser formulado pelo grande teólogo luterano Paul Tillich: a Igreja cristã tem de combinar “substância católica com princípio protestante”.

Na passagem entre os séculos XVIII e XIX, Wesley denunciou o formalismo da prática religiosa

e o elitismo da Igreja, chamando-a a se reaproximar dos pobres, numa época em que se começava a perceber  as consequências da Revolução Industrial sobre o povo: lutou por uma espiritualidade que surgisse do íntimo de um “coração aquecido” pelo amor de Jesus e por Seu Espírito, que trilhasse um método preciso de disciplina espiritual e dirigisse os passos aos pobres oprimidos pelo processo de transformação social. O elástico se esticou e ele se transferiu para os EEUU e com sua morte a ruptura se consumou e surgiu o Metodismo como novo ramo da Cristandade e que está na origem de vários movimentos de devoção moderna.

Durante o século XIX dois fenômenos foram importantíssimos para a renovação da Igreja e seu futuro: o Movimento do Socialismo Cristão que chegou a ter entre seus quadros um grande teólogo, Frederico Maurice; e o Movimento de Oxford, surgido entre teólogos e estudantes da famosa Universidade de Oxford. Este chamou a Igreja da Inglaterra a reavivar a consciência de que era uma realidade bem mais ampla que a de ser Igreja da nação, era, na verdade, a Igreja de Cristo que vinha desde os Apóstolos; revalorizou a Tradição, chamando a atenção para as fontes patrísticas; promoveu a reforma litúrgica, com ênfase na dimensão sacramental, da Igreja e da Liturgia; incentivou o ressurgimento das ordens religiosas, de inspiração beneditina e franciscana. Um de seus grandes expoentes foi o grande teólogo Newman, que posteriormente aderiu ao Catolicismo Romano e chegou a cardeal, e trouxe para a Teologia Católica o conceito de “evolução do dogma”, contribuição do gênio anglicano à Teologia católica, conceito tão importante que foi uma das bases da atitude e do pensamento do Papa João XXIII e do próprio Concílio Vaticano II.

A Reforma Inglesa

Como se dizia acima, a Reforma Inglesa não pretendeu ser nova proposta doutrinal. A Igreja continuava católica em sua doutrina, abraçando a grande dogmática cristã surgida dos antigos concílios ecumênicos do século IV: a Trindade, a Cristologia, a Soteriologia, a Antropologia Teológica, os fundamentos da Eclesiologia, ou seja, a Igreja como continuidade da presença e da missão de Cristo na história. O Anglicanismo nunca pretendeu formular uma dogmática ou Teologia própria, daí que se achem teólogos anglicanos em diversas correntes de pensamento. O que a tradição anglicana carrega com certa originalidade é a espiritualidade e a maneira de vivenciar a Eclesiologia, radicada na comunidade da Igreja local, tendo na Trindade seu princípio e modelo. Aí é que se manifesta particularmente o seu “ethos” ou jeito de ser.

O que caracterizou a Reforma na Inglaterra foi uma reforma política : mantinha-se o princípio da união Igreja-Estado, só que a partir de então a suprema autoridade institucional  na Igreja já não era mais o papa, passou  ao rei (rainha) e ao parlamento, o poder leigo. A outra marca foi a reforma litúrgica, com a Liturgia na língua do povo e este de posse dela, mediante o mesmo Livro posto igualmente nas mãos do clero e nas do povo, sinal e instrumento de unidade da Igreja em todo o reino, organizado de tal modo que pudesse alimentar também a piedade familiar e pessoal, e fosse a fonte básica de instrução e de formação da mentalidade de fé do povo, em base ao antigo axioma católico de “lex orandi, lex credendi”. Assim, promovia-se uma espiritualidade acentuadamente cristocêntrica, de inspiração prevalentemente bíblica e centrada na adoração comunitária a Deus, no louvor e na ação de graças, sem dúvida herança da antiga formação beneditina.

Algumas referências básicas

O Anglicanismo se baseia no “sensus fidelium” e, portanto, não conta com um centro autoritativo definidor de doutrinas e de práticas. Naturalmente, o processo de formação do “sensus fidelium” é lento e frequentemente conflitivo. Baste lembrar os acirrados debates e lutas que marcaram a Igreja desde o século I ao IV, quando se chegou às afirmações consensuais (embora nem assim unânimes) dos grandes concílios de Niceia, Calcedônia e Constantinopla. Na séria crise do Arianismo, a posição do povo cristão das comunidades foi fundamental para garantir a expressão equilibrada da fé cristológica, pois dizem os historiadores que grande parte do episcopado estava alinhada com o partido do Imperador Constantino que patrocinava a heresia ariana, a qual fortalecia seu poder, em contraste com as afirmações de Santo Atanásio que enfatizavam “só Jesus é o Senhor” (“Kyrios”).

Além desse aspecto, ou seja, a lentidão e a conflitividade da formação do “sensus fidelium”, há outro aspecto que é importante salientar: a Verdade nos parece muito mais ampla e profunda que simplesmente a formulação intelectual da experiência da fé; o povo cristão pode até passar por períodos de conflito, de turbulência e até de incertezas e de erros, nossa confiança, porém, é que o Espírito Santo através de vias misteriosas encaminha a Igreja a deixar-se tomar pela Verdade salvífica de Deus. São aqueles momentos de renovação profunda da espiritualidade e da prática cristã no mundo. Ou melhor, estritamente falando, não somos nós que possuímos a Verdade, é a Verdade que nos possui, pois a Verdade é Deus que nos guia pelas veredas da experiência da salvação. Isto significa que, para além de necessárias e úteis formulações teóricas, a Verdade deve ser compreendida, prevalentemente, no horizonte da práxis, ou seja, da estreita relação entre prática e teoria, para além do saber, a experiência do “sabor”, ou seja, da sabedoria e da santidade. A Comunhão Anglicana adotou como lema a famosa frase do IV Evangelho: “A Verdade vos libertará” (Jo 8, 32). Aliás, na “Constituição Dei Verbum”, o Concílio Vaticano II afirma que as Escrituras estão preservadas de erro quando dão testemunho da verdade salvífica, pois o que Deus pretende revelar é a verdade “por causa de nossa salvação”.

Dada a complexidade da formação do “sensus fidelium”, processo em que todas as instâncias da Igreja estão envolvidas: Bíblia Tradição, Razão, experiência, sentir dos fiéis e ministério de supervisão do episcopado… chegou-se perceber a necessidade de estabelecer “instrumentos de unidade” que ajudem a Igreja inteira a ir criando consenso, mesmo que às vezes através de acirrados conflitos. São eles: o Arcebispo de Cantuária “primus inter pares”, símbolo e instrumento da unidade da Comunhão Anglicana; a Conferência de Lambeth que reúne todos os bispos e bispas do mundo inteiro, de dez em dez anos, uma espécie de miniconcílio; o Conselho Consultivo Anglicano, espécie de parlamento mundial do Anglicanismo, com a representação das províncias através de bispos, clérigos e pessoas leigas, escolhidas por suas Igrejas locais; o Encontro periódico dos Primazes, convocado pelo Arcebispo de Cantuária, para convivência, oração e discernimento em vista de auscultar o pulso da Igreja no mundo.

Sendo uma comunhão de Igrejas autônomas, bastante diferentes entre si, a partir do processo de inculturação em contextos heterogêneos e com o agravante de abrigar na mesma Comunhão pessoas e comunidades de espiritualidade católica e protestante, estabeleceu-se um “Quadrilátero de Chicago-Lambeth”, em redor do qual todo o mundo anglicano se reconhece: a Bíblia como suprema regra de fé, lida à luz da Tradição, com o auxílio da Razão e da Experiência do povo cristão; o Credo dos Apóstolos como credo batismal e o Credo Niceno-Constantinopolitano como resumo suficiente da fé cristã; os sacramentos do Batismo e da Eucaristia como sacramentos maiores, embora a Igreja pratique todos os sacramentos trazidos pela Tradição; e o Episcopado. Esse núcleo básico é também a plataforma para acordos de plena comunhão com outras tradições eclesiais, como tem acontecido com os luteranos da Escandinávia, os luteranos dos EEUU e do Canadá, os Veterocatólicos, e algumas Igrejas da Índia que se integraram na plena comunhão assumindo o modelo episcopal do Anglicanismo.

Na espiritualidade, enfatiza-se a autodisciplina como acolhida interior da Lei de Cristo, ou seja, dos valores do Evangelho. Na guia pastoral das pessoas e das comunidades, a marca é a pedagogia da liberdade que deve amadurecer na experiência  da vida comunitária. Na missão, ou seja, na relação com a sociedade, acentuam-se seis marcas: o anúncio da Boa Nova deve despertar a convicção da DIGNIDADE DA PESSOA, filho ou filha de Deus, livre, não mais sujeita a qualquer tipo de dominação ou opressão; a VIDA EM COMUNIDADE passa a ser o ambiente para a comunhão fraterna, o aprofundamento da Palavra, a iniciação ao mistério de Cristo (sacramentalidade), o serviço recíproco; para além das relações comunitárias, a missão se concretiza na SOLIDARIEDADE mediante serviços de amor a quem necessita; mediante a LUTA PELA JUSTIÇA para transformar as estruturas injustas da sociedade; mediante o CUIDADO  com a preservação da criação e a renovação dos recursos da terra; mediante a compaixão universal, para que, pelo diálogo entre as pessoas e os povos, se estabeleça e se garanta a PAZ. Ou seja, a pessoa, como “nova criatura”, e as comunidades são chamadas a servir o mundo e transformá-lo. A diaconia do amor fraterno deve transbordar em diaconia de testemunho do Reino de Deus .

Uma palavra sobre estruturas de organização

Uma Igreja anglicana, na verdade, são igrejas diocesanas articuladas entre si, formando uma  província e as diversas províncias se articulam como ampla comunhão mundial. Os vínculos entre si são de “afeição e lealdade”, de comunhão com o Arcebispo de Cantuária e de “companheirismo em missão”, além da relação com a herança do Anglicanismo, que se corporifica particularmente no Livro de Oração Comum, adaptado por cada província, mas guardando o que é o mais característico da maneira de orar e de crer do Anglicanismo. Por isso, o Livro de Oração é uma das expressões e um dos instrumentos privilegiados da unidade anglicana mundial.

Promove-se uma combinação entre tradição episcopal e participação do povo no governo da Igreja, o que se manifesta particularmente no regime sinodal: sínodo diocesano e sínodo provincial. Na comunidade paroquial isso se reflete na eleição, pela assembleia, do pároco(a) e de pessoas leigas confirmadas para exercerem o papel de membros da “junta paroquial” que governa a Igreja paroquial (administração), sob a liderança pastoral do pároco(a), o qual não tem direito de voto, só de opinião, devendo submeter-se à votação dos membros leigos. Do mesmo modo, há conselho diocesano e conselho provincial, para dirigir a Igreja junto com os bispos. Daí, dizer-se que Anglicanismo se caracteriza por “Bispo em Sínodo”, ou que se trata de uma Igreja “liderada por Bispos e governada pelo povo”.

Constante risco: há uma recusa histórica a basear-se na Lei e se prefere manter a unidade fundada “em vínculos de afeição e lealdade”. Um princípio central é a confiança na ação do Espírito Santo e por isso se investe na pedagogia da liberdade e não na imposição da lei e de sansões, por isso são toleradas acentuadas diferenças de linha de pensamento e de ação pastoral – leva-se a sério o pluralismo e o princípio da inclusividade, o  que não quer dizer porém que não haja situações-limite, às vezes traumáticas…

Há forte preocupação com a inculturação da fé em cada contexto local, assim como com o diálogo com a sociedade em cada época. Por causa disso, tendo em conta “a dureza de coração” em nossa época, embora se mantenha a afirmação da indissolubilidade do matrimônio, como situação ideal, acolhem-se e abençoam-se casamentos de pessoas já divorciadas. Além disso, em ruptura com o patriarcalismo, ordenam-se mulheres ao ministério já há mais de cinquenta anos; e hoje se vive um acirrado debate em torno da inclusão institucional de pessoas homoafetivas (ordenação ao ministério e casamento?).

Ser anglicano(a) significa:

  1. Ser parte da Igreja de Cristo, sem excluir ou isolar-se de outros grupos cristãos, participando da vida do inteiro povo de Deus, com suas alegrias e tristezas;
  2. Pertencer a uma comunidade onde cada pessoa deve ser respeitada em sua particularidade e pode desenvolver seus talentos;
  3. Apresentar uma Teologia baseada nas Sagradas Escrituras e na Tradição, coerente com a Razão e a Experiência de vida;
  4. Estar disposto(a) a celebrar a unidade na diversidade;
  5. Considerar com serenidade as Escrituras Sagradas, sem crer que cada passagem deva ser interpretada literalmente;
  6. Preferir a liberdade em Cristo à uniformidade de opiniões;
  7. Sentir devoção e reverência pelos Sacramentos, sem pretender definir cada ponto desses sagrados mistérios;
  8. Compreender o ministério como dever e privilégio de todas as pessoas batizadas;
  9. Insistir na moralidade (o que é bom e edifica) e evitar o moralismo (que define a salvação decorrente de uma conduta determinada e não da obra gratuita de Cristo);
  10. Participar da herança apostólica, a fé no Evangelho de Cristo;
  11. Ser parte de uma história antiga e sagrada, que se renova a cada dia;
  12. Crer que a Igreja é de todos os seus membros, e que todos têm o privilégio de sustentá-la, segundo a possibilidade de cada pessoa;
  13. Participar da administração e do governo da Igreja, segundo a ordem estabelecida;
  14. Pertencer a uma família internacional, intercultural e interracial (interétnica) que, por mandato de Cristo, proclama o Evangelho até o último rincão da terra.

 

Diálogo Anglicano-Católico Romano

lançamento  do livro maceio (1)Depois de quatro séculos, a rainha da Inglaterra visitou pela primeira vez um papa, o Papa João XXIII. A Semana de Orações pela Unidade Cristã nasceu da iniciativa de um reverendo anglicano e de um padre católico romano. Em verdade, na Igreja dividida, o Anglicanismo sente, como parte de sua vocação, trabalhar pela unidade visível da Igreja e se define como “porção limitada e provisória do Corpo de Cristo”. No Concílio Vaticano II, estiveram presentes “observadores” anglicanos. Há anos tem-se instalado em Roma um Centro Anglicano que, além de centro de diálogo e de estudos, funciona como representação do Arcebispo de Cantuária junto ao Vaticano. O Arcebispo tem visitado o papa em certas ocasiões, particularmente logo após sua investidura como Bispo de Roma e Primaz Universal. Há dois anos atrás foi assinado entre ele e o papa um convênio para trabalho conjunto em favor das vítimas de migração e pessoas refugiadas. Para a Conferência de Lambeth, o papa sempre envia numerosa  comissão de altíssimo nível, como observadores, liderada pelo cardeal encarregado do Ecumenismo. Há anos que uma comissão teológica internacional tem enfrentado temas em diálogo, como resultado dos quais já se publicaram importantes documentos de consenso, como, por exemplo, sobre o Ministério, sobre a Autoridade na Igreja, sobre o lugar e a figura de Maria, sobre Moral. Comissões que tais também existem em nível nacional, como no Brasil a CONAC.

Cinco Passos do Diálogo Ecumênico

Sem dúvida, diálogo e iniciativas em nível oficial e institucional são muito importantes, pois desbastam o terreno e abrem caminhos e espaços. Para além, entretanto, de atos ou processos oficiais e institucionais, é preciso provocar e fomentar relações interpessoais, é o primeiro passo para o diálogo, as pessoas se conhecerem, criarem relações de confiança que ajudam sobremaneira a fazer cair preconceitos e fantasmas. Com isso, começa a ser natural interessar-se por outrem, ter prazer em ter notícias a seu respeito, trocar informações e orar e interceder por seus caminhos de vida.  Na caminhada, começa a parecer natural colaborar  entre si, assumir ações conjuntas em favor de pessoas e grupos pobres e excluídos, na perspectiva da solidariedade com quem necessita de “serviços de amor”, da luta contra estruturas injustas da sociedade e de cuidado pela preservação e renovação do planeta, além de ações para estabelecer e garantir a paz. Finalmente, se se estabelece realmente essa relação de profunda e intensa fraternidade, interpessoal e orante,  vital e prática, já não haverá dificuldade de conversar sobre eventuais discordâncias teológicas, começaremos a sentir que muita coisa tem sido só desencontro aparente, fantasmas que assombram, vai ser possível falar de doutrinas e teologias até com leveza e muito humor.

Quando se trata hoje de enfrentar o diálogo doutrinal, depois de seculares equívocos e incompreensões, é obrigatório voltar ao foco que pode irradiar luz para todo o conjunto do edifício da fé, e esse não pode ser outro que “a rocha que é o Cristo”, como já nos indicava o Apóstolo São Paulo. E o Cristo o se nos revela como Jesus de Nazaré, profeta anunciador do Reino de Deus, fazedor de sinais de restauração da vida, amigo de pobres, publicanos, pecadores e mulheres de má fama… A volta a Jesus e a sua utopia messiânica de um mundo de fraternidade e paz, refeito em torno da mesa onde se partilha o pão para “judeus e gentios homens e mulheres, livres e escravos”, eis o caminho do diálogo entre Igrejas e religiões. Para além de todas as nossas formulações, o foco tem de ser Jesus vivo entre nós chamando-nos a sentir-nos todos e todas filhos e filhas do mesmo Pai “que faz nascer o sol sobre bons e maus”… É sobre a continuação da práxis de Jesus que se decide a “verdade” da Igreja, se a Igreja está sendo verdadeira.

Um bispo anglicano, entre nós, costumava dizer que “continuamos divididos(as) por razões de mortos, enquanto o povo vivo de hoje nos oferece todas as razões para nos unirmos”. Dom Helder Camara, em entrevista a queima-roupa durante o Concílio Vaticano II, quando perguntado sobre o que pensava de Ecumenismo, respondeu mais ou menos assim (quase literalmente): “Quando nós, das Igrejas cristãs (e o mesmo valeria para as religiões em geral) resolvermos assumir realmente as preocupações de Deus, que são as questões da vida de Seu povo, então haveremos de ter vergonha de nossas divisões, pois nos parecerão coisa tão pequenina”. Eu mesmo costumo dizer: “As necessidades do povo não nos perguntam primeiro por confissões de fé, mas por soluções de fé”.

Conclusão

O Anglicanismo. com gratidão e crítica lucidez, e em certos aspectos até com pesar,  recebe e acolhe a herança que a história nos legou. Entre grandeza e queda, identifica a verdade do título de glória que exalta a graça de Deus para além da humana fraqueza: “Ecclesia Anglicana, mater sanctorum” (geradora de santos e santas). Na Igreja dividida, reconhece-se porção limitada e provisória do Corpo de Cristo e recebe, como fazendo parte de sua vocação, pôr-se a serviço da unidade da Igreja como diversidade reconciliada. E sobretudo guarda a convicção profunda de que “os pobres precisam de nossa unidade” (Arcebispo Rowan Williams).

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Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema "Evangelização", convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social ("Casa Ecumênica - Crer & Ser") com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.