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Desode

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(Ode triste)

Daniel Lima (personalidade genial, padre, poeta e professor de Filosofia)

Não sou do Clube dos Gatunos Oficiais.
Falta-me ainda o essencial descaro,
                         a cínica retórica, o cinismo e a comenda.

Almoço fartamente todos os dias,
                Sou gatuno menor,
                           participante das sobras
das festas e banquetes dos grandes ladrões.

              Amo a pátria.
Canto o Hino Nacional.
                 Quase choro ao ouvir-lhe
                                              a música
             e me pergunto atônito
quem foi Francisco Manuel.

(Duque Estrada, esse não me interessa
                              é complicado e frio,
                é o Brasil que não é
o Brasil que desamo).

             Mas onde está o Brasil?
             Onde o esconderam? O Brasil
             da música, não da letra,
o harmonioso Brasil e não o complicado?

              Amo a minha pátria.
Mas que pátria é minha?
Esta que agora sofro é dos ladrões
           e não dos pequenos ladrões
que apenas recuperam
           o que lhes foi furtado
pelos grandes ladrões
         de brancos colarinhos
e cívicos discursos de mau gosto.

                           Onde está o Brasil?
Onde o esconderam?

          Ou será talvez que ele nunca existiu
e não passe de um sonho, mesmo agora?

              Esconderam o Brasil
atrás de seus brasões e de sua bandeira,
atrás de seus símbolos, da letra de seu hino,
            atrás até mesmo do próprio Brasil.

                                           Este é o triste País dos Gatunos Oficiais.
E esta é a triste Ode dos que procuram
                                                     o Brasil,
o Brasil daqueles desgraçados
que não ouviram do Ipiranga nada
            nem viram raio fúlgido nenhum
                 do sol da liberdade
brilhar na escravidão em que padecem.

             Enquanto isto,
almoço fartamente todos os dias.
              Sinto-me comodista.
            Não vou a chás-dançantes
e dou esmola aos pobres que me pedem
            e morro em cada criança de rua
e me marginalizo em cada marginal
      e ao ver os sem-terra
        num tão grande Brasil,
sinto a dor de ter casa.
             E vou dormir.

            Sou gatuno menor.
Vivo das sobras dos banquetes
             dos grandes gatunos nacionais
que têm na praça os seus sólidos bancos
   e não sabem o que é dormir
             nos frios bancos das praças.

            Amo-te Brasil.
      Mas que Brasil é este?
Mas, sobretudo, que amor é o meu?

Sei que te escondem atrás dessa bandeira,
            desses discursos
        e dos feriados nacionais.

Sei que estás servindo, nesta hora,
                          de álibi,
        aos que te saqueiam,
           aos que humilham teu povo,
este, sim, ofendido e humilhado
mas heroico
(apesar-de muito resignado e paciente).
            Agora mesmo ouço o Hino Nacional
                              e me comovo.
              Quase choro (sou uma besta).
 Não me atrevo a cantar.
Tenho vergonha.
             Assovio baixinho.
Sou um gatuno menor.

          Quero sobreviver.

     Sinto indignação.
               Faço silêncio.
É hora de lutar, mas vou dormir.

Agosto, 1992

About Sebastião Armando (176 Articles)
<p>Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber<br /> to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema “Evangelização”, convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social (“Casa Ecumênica – Crer & Ser”) com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.</p>