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Carta Pastoral sobre a Liturgia – Carta II

Dom Sebastião Armando, por graça de Deus e eleição do povo, Bispo da Igreja de Cristo nesta Diocese Anglicana do Recife, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, ao clero e ao povo da Diocese, sobre a Sagrada Liturgia

INTRODUÇÃO

Tenho a alegria de publicar esta Carta Pastoral justamente na Festa da Transfiguração do Senhor, que nos convida a contemplar Sua face que resplandece, entre nós, com o brilho da glória de Deus (cf. Mc 9, 2-8; 2Cor 3, 18). Mas foi feliz coincidência, ter tido a chance de concluir sua redação quando nosso calendário marcava a festa de São Bento de Núrcia, Pai do Monaquismo no Ocidente. Com efeito, o monaquismo está nas raízes da tradição anglicana nas Ilhas Britânicas. Sabemos que um de seus mais marcantes traços é a centralidade da celebração da liturgia como símbolo da vida toda consagrada a Deus. Daí, a “liturgia das horas”, marcar o dia com a interrupção do trabalho, “obra de nossas mãos”, para dedicar-se à oração em comunidade – “oração comum” – como expressão e lembrete de que o dia inteiro, a totalidade das horas, é consagrado a Deus: oração é “officium” (trabalho) e trabalho é “oratio”. “Ora et Labora” é a síntese do entrelaçar-se de oração e ação. Não devemos esquecer que “liturgia” deriva de termo grego que quer dizer obra ou trabalho do povo e em favor do povo. Ambos  se chamam “opus” (obra) ou “servitium”, e o mosteiro é “escola do serviço do Senhor”.

O dinamismo profundo, capaz de redimir a vida, dar-lhe sentido e torná-la mais plena, é o amor. Amar, porém, não é mero sentimento, antes, é decisão. Decidir-se por construir o projeto de vida em conjunto com outras pessoas e em favor delas, mediante o serviço e a partilha. Com efeito, o ser humano é, aparentemente, paradoxal. Só tem a posse de si mesmo, só é “em si”, na medida em que não vive “para si”, mas “para além de si”. O segredo de ser mais plenamente é ultrapassar-se, aceitar, no profundo de si mesmo(a), a transcendência das outras pessoas e do conjunto da realidade do universo. Isto equivale a experimentar-se projetado no Mistério da Vida, experiência, podemos dizer, “antropológica”, proporcionada inclusive a quem chega a dizer que não crê, pois, experiência do mistério da vida, que chamamos “Deus”: sentir-se produto do Dom e chamado a doar-se. Experimentar a graça, na verdade, leva à gratidão, e a autêntica gratidão se traduz em gratuidade, faz-nos entrar no círculo da Graça, ao tornar-nos graça, bênção para outrem. O que está “para além de mim”, o que, aparentemente, não sou eu, mas é “outro”, de fato, porém, é o que me constitui como eu mesmo. Eu sou o acontecer de outras pessoas e do mundo em mim. A alteridade não me é exterior, mas me perpassa por dentro e me constitui. “Eu mesmo tanto mais, quanto mais tudo” (Daniel LIMA, poeta e sacerdote, “Sonetos Quase Sidos”, p. 32, Recife, CEPE, 2012).

A primeira epístola de São João o percebe claramente: “Não há temor no amor, ao contrário, o perfeito amor lança fora o temor” (1Jo 4, 18). Só o amor vence o temor e só a vitória sobre o medo torna possível amar. O medo, com efeito, que é, em última análise, medo de viver, se concretiza no medo nas relações com as pessoas, as coisas e os acontecimentos e situações da vida. Em outras palavras, só o amor produz segurança de si, posse de si mesmo(a), liberdade.

Ora. Liberdade é superação da necessidade. Daí, equivaler a libertar-se de apegos, dos próprios instintos e caprichos, e, mais radicalmente, livrar-se das próprias carências e de agarrar-se a viver a qualquer preço. Ser livre é estar de prontidão para não mais guardar a própria vida, antes, entregar-se. “Quem quiser salvar sua vida, a perderá; mas quem perder sua vida por causa de mim e do Evangelho a salvará. Com efeito, o que aproveita a alguém ganhar o mundo inteiro e arruinar sua própria vida? Pois, que daria alguém em troca de sua vida?” (Mc 8, 35-37). Só o amor vence a morte, na certeza de que, “ao morrer, não morre” (cf. 1Cor 15, 54-56). Para o Evangelho de São João, a cruz é a suprema exaltação de Jesus: “Se o grão de trigo, que cai na terra, não morrer, permanecerá só; mas, se morrer, produzirá muito fruto” (cf. Jo 12, 23-26. 32). A cruz é glorificação (cf. Jo 13, 31-35). Por isso, cantava Santa Tereza d’Ávila: “Morro porque não morro”.

Chegar a compreender isso e, de alguma forma, experimentá-lo, é o que provoca o sentimento de felicidade. Ora, felicidade transborda em harmonia interior, alegria, poesia, sorriso, canto, dança… Eis por que amar é, naturalmente, celebrar. Liturgia é isto, transbordamento poético do amor. Se temos um “caso de amor” com o Mistério da Vida, não há como ocultar o brilho, a beleza, que ilumina nossa face e nos faz celebrar com solene simplicidade, à luz de velas, em cores vivas ou suaves, em poemas, canto e dança. No culto, tornamos manifestas as razões de amor, que nos movem na prática quotidiana e exigente de amar, servir, partilhar e sacrificar-se. É que o amor opera o milagre de “fazer sagrada” (“sacrum facere”, “sacrum fieri”) a outra pessoa e cada coisa no universo. Ao “manifestar” o que está no íntimo, sentimo-nos confirmados(as) no Caminho, pois, enquanto se manifesta, o amor se consolida e cresce. Dizer “eu te amo” revela e faz aumentar o amor. O amor que não se diz, que não se declara, tende a definhar e morrer.

É isto o que já ensinava a Teologia clássica. A liturgia é “sacramento”, são símbolos, gestos, sinais, que manifestam a Presença do Mistério entre nós e em nós – Emanuel, Conosco-Deus. E, na medida em que os sinais o manifestam, nos fazem crescer em graça. Isto é, consolidam e aumentam nossa participação na corrente dinâmica de graça, gratidão, gratuidade. Em outras palavras, liturgia é celebração da santidade de Deus, irradiante, tornada fonte inesgotável em nós (cf. Jo 7, 37-39), inaudito dom, gratuito completamente; ao cantar a glória do Deus três vezes santo, nossa consciência profunda tem a chance de transformar-se e deixar-se guiar nas vias da santidade (cf. Rm 8). Tornamo-nos “sacramento” vivo, símbolo, mais que sinal, traço de união com o Mistério de Amor que nos invade. Eis o sentido em que os sacramentos são eficazes, operam em nós o que significam.

O LIVRO DE ORAÇÃO COMUM

Sabemos que o Livro de Oração Comum é um dos elementos mais importantes de identificação do Anglicanismo, desde o século XVI. Sua função é ser o padrão de referência para a liturgia e, assim, regular e ordenar o culto divino. Mesmo que cada uma das províncias possa ter suas peculiaridades, todas se reconhecem nesse mesmo padrão.  No Livro, a Comunhão Anglicana mundial acha uma de suas fontes principais de unidade, pois é em redor da mesa do Senhor que se constrói a unidade da Igreja na mesma fé e se alimenta nossa espiritualidade.

Não se trata, porém, de uma “fórmula”, qual “oração forte”, eficaz por si mesma e intocável. A “oração comum” é, antes, “forma”, expressão de um jeito de ser, codificação de intuições fundamentais presentes na consciência profunda da Igreja, a partir das quais se combinam  disciplina da comunhão universal com a liberdade de cada Igreja local.

ORAÇÃO COMUM: É bastante frequente as religiões estarem sob o controle do clero. Em suas mãos se acha a “mecânica” do sagrado. O Livro de Oração Comum, ao contrário, compreende o culto como “posse comum”, tesouro nas mãos da comunidade toda, exercício do “sacerdócio comum do povo de Deus”. É acesso direto à Fonte, o povo tendo “poder” sobre o sagrado (cf. Hb 4, 14-16; 10, 19-25). As pessoas comuns têm de saber orar tanto quanto o clero, de tal forma que o exercício da religião não funcione como superestrutura alienante e opressiva e, portanto, mecanismo de controle e dominação, mas seja tão somente veículo para a escuta da Palavra e a resposta da fé mediante o compromisso do testemunho. O maior contrassenso no Anglicanismo seria um culto centralizado no clero. “Celebrante” é toda a comunidade. Quem “preside” é como maestro de sinfonia executada por todo o povo. O que vemos, porém, amiúde, é excessiva concentração nos(as) clérigos(as), não só na “regência”, mas mesmo na execução do culto. Nada menos anglicano que liturgia clerical, centralizada e, pior, personalista;

“LEX ORANDI, LEX CREDENDI”: Para nossa tradição, o exercício da Adoração é o ambiente adequado para transmitir e acolher a fé, “uma vez confiada aos santos”. A Liturgia é o lugar da Teologia. Doutrina não é “definição”, nem descrição de Deus, é só “símbolo” que nos refere a Ele, mais do horizonte da poesia que do raciocínio, e o lugar da poesia é a Liturgia, mais que a cátedra. Antes que compêndio de rituais, o Livro é instrumento pedagógico para nos educar no jeito de sentir e de pensar e, assim, assimilar “a mente de Cristo”. Adoração é o meio adequado para comunicar a fé, “meio”, no sentido de instrumento e de ambiente. É que a Palavra da fé se aprende e assimila na experiência comunitária da Graça, não por mero raciocinar. Para nós, a comunidade não é apenas “cenário” em que cada crente, individualmente, dá testemunho da fé e da certeza da salvação. Antes, é “sacramento”, isto é, expressão e veículo da graça. É nela que nosso corpo (relações) se forma para ser “sacrifício vivo, não se conformando ao jeito de ser das estruturas do sistema do mundo” (Rm 12, 1-2);

VOLTA ÀS FONTES: O Livro de Oração significou, para a Igreja, volta às fontes bíblicas e patrísticas. Aprendemos a orar com as palavras das Escrituras. Por exemplo, a 3ª oração de confissão, as sentenças introdutórias, as sentenças de ofertório, as coletas, os prefácios, etc. são compostos de palavras bíblicas. Os salmos são recitados diariamente, como oração privilegiada da Igreja, jeito de orar inspirado pelo Espírito Santo (Sto. Agostinho). A Bíblia é trazida, cada dia, no contexto da oração pessoal ou comunitária, é a leitura orante das Escrituras. Temos uma guia para a leitura continuada da Bíblia durante todo o ano. Ora, ao longo da vida, vamos aprendendo que o ensinamento bíblico é menos doutrinal que “narrativo”.  Acompanhamos a trajetória de nossos pais e mães na caminhada da fé, em seu tempo e espaço, em meio a vicissitudes e conflitos históricos (cf. Hb 11). São, sobretudo, emoções e ações que nos são apresentadas, é o corpo de pessoas como nós, a saber, suas relações concretas, materiais, no contexto do mundo. São modelos de fé que se comunica pelo testemunho, para que aprendamos a escutar a Palavra de Deus hoje e saibamos viver nos Seus caminhos (cf. 1Cor 10, 11-13);

EQUILÍBRIO DE PALAVRA E SACRAMENTO: De um lado, todo o culto gira em torno do tema bíblico trazido pelas leituras. Doutra parte, todo o culto marcha na direção de um ápice que é a Ceia do Senhor, a Santa Eucaristia, o momento sublime do “memorial” da Vida, Paixão e Ressurreição de Jesus, e renovação de nossa íntima união com Ele. Na verdade, Palavra e Sacramento são duas formas da mesma comunicação de Deus. Segundo a tradição das Escrituras, “palavra”, em hebraico, é “dãbãr”, isto é, “práxis”, articulação inseparável de prática e teoria, proclamação e ação. Palavra é proclamação, decerto, mas sempre gesto de dirigir-se a alguém e chamar a atenção aos sinais concretos da realidade; gestos, por sua vez, são sinais que falam e chegam a dizer o que as palavras são incapazes de expressar. Na liturgia, a Bíblia é lida para falar de gestos, de caminhadas de vida; e os sinais sacramentais são mensagem que falam de perdão, de entrega, de serviço, de partilha, de comunhão permanente e, assim, profetizam o futuro da vida;

TRADIÇÃO E CRIATIVIDADE: O Livro de Oração carrega nossa herança de família e, ao mesmo tempo, nos forma para a espontaneidade. Quando se observam as rubricas e normas nele contidas, percebe-se que sua marca não é nem formalismo, nem rigidez da letra. Fidelidade não exclui criatividade, tradição não exclui simplicidade, beleza não quer dizer pompa. Aprender do passado não resulta necessariamente em rotina e ritualismo, a não ser que nossa relação com o passado seja mecânica e superficial. A intenção profunda do Livro é democratizar a oração que se havia tornado privilégio de elite. Às vezes, se pensa que oração espontânea é mais popular e democrática. Quando se deixa tudo à espontaneidade, porém, facilmente a palavra é apropriada por gente letrada. Oração recitada em comum é instrumento de democratização, pois pessoas menos letradas, ou menos eloqüentes, têm chance de se expressar da mesma forma que outras e em conjunto (cf. 1Cor 3, 18-23), desde que as palavras sejam assumidas como próprias. E essas palavras vão sendo aprendidas, pouco a pouco. Sem dúvida, é importante não perder de vista o caráter pedagógico desse instrumento, de tal modo que, com ele, se aprenda a orar também espontaneamente, do fundo do coração. Doutro lado, não se deve esquecer que a “oração comum” pode ser eficaz pedagogia para corrigir, em cada pessoa, sentimentos espontâneos de autocomplacência e satisfação individualista na relação íntima com Deus;

FIDELIDADE À HERANÇA E INCULTURAÇÃO: Em plena crise da Reforma e do processo nacionalista de autonomia do reino inglês em relação ao Império, o Livro de Oração é testemunha de admirável sabedoria, tendo sido capaz de, em meio a incertezas e conturbação,   preservar a grande herança católica, ao mesmo tempo em que se abria à nova sensibilidade nacional e às interpelações da Reforma. Foi realmente, naquele momento, expressão de  processo de inculturação, com a liturgia na língua do povo; a democratização da espiritualidade monástica, ao fazer de cada aldeia um “mosteiro popular”; a simplicidade e clareza dos ritos, o retorno às fontes bíblicas, a síntese entre o rito padrão e a devoção pessoal,  a busca de combinar a tradição católica com a nova sensibilidade protestante;

NOSSA TAREFA: Essas preciosas lições devem guiar-nos no ordenamento do culto divino em nossos dias. Estamos na expectativa de que o próximo Sínodo Provincial, em Novembro, nos brinde com o novo Livro de Oração Comum da IEAB. É o processo constante de recriar a Liturgia para que se mantenha viva e vivificante. Liberdade criadora, porém, pressupõe intimidade com a “matéria” a modelar, sadia criatividade supõe intimidade com a Tradição. Como ousar recriar em nossas comunidades a “oração comum”, se ainda conhecemos tão pouco o que nos foi entregue como herança? Tocar na liturgia é tocar na expressão de nossa fé comum. Temos de ter consciência de que se trata de tarefa extremamente delicada, como, na Medicina, interferir no tecido do coração ou do cérebro. Como recriar a Liturgia sem um mínimo conhecimento de suas fontes bíblicas e históricas, e sem a mínima noção de Antropologia Religiosa, de Psicologia e Sociologia da Religião? Além disso, para a inculturação, será preciso conhecer com profundidade as expressões religiosas de nossa gente (aborígenes, africanas, juvenis…) ter sensibilidade e formação artísticas, sentir atentamente o que hoje em dia marca as expectativas e sentimentos do povo e, não por último, deixar que a adoração brote em nós de raízes místicas… É, a partir de tudo isto, que podemos compreender devidamente o ordenamento do culto cristão.

A ORDEM DE CELEBRAÇÃO DA SANTA EUCARISTIA

INTRODUÇÃO

Não basta ter em mãos um texto a recitar, mesmo que seja o Livro de Oração Comum, pois Liturgia é “acontecimento”. Mas também não se deve confiar puramente na espontaneidade e improvisação. Liturgia é obra de arte, de beleza, já a partir do próprio espaço físico, por isso deve ser confeccionada com esmero e extremo zelo.  Todo ato litúrgico deve ser devidamente preparado, de preferência coletivamente, para que seus diversos elementos produzam o efeito de harmoniosa e bela sinfonia. Uma multiplicidade de fatores deve ser levada em consideração: as indicações e ritos do Livro de Oração, os textos bíblicos que nos trazem o tema a meditar, a homilia que os atualiza, a situação que vive a comunidade, os problemas e acontecimentos da sociedade na qual estamos inseridos(as), o canto, a dança, as tarefas e funções de ministros(as), tanto clérigos(as)  quanto leigos(as)… multiplicidade de peças que se devem encaixar  o mais perfeitamente possível, como em quebra-cabeça. Daí, a importância da tarefa de quem preside e de quem assume a função de “mestre de cerimônias”. Não se permite improvisar, o que não quer dizer abafar a espontaneidade e criatividade. É preciso, porém, respeitar o povo que vem em busca do melhor e imbuir-se do senso da esplendorosa glória de Deus. Todos os “instrumentos” devem estar bem afinados, como em orquestra cuidadosamente ensaiada. É preciso ter muito cuidado com “folhas de papel” e “textos escritos”, para que não resultem em ato de “recitação” mecânica, mas, ao contrário, sejam apenas discretos subsídios para que se revele a cada pessoa presente a glória de Deus, como acontecimento de salvação, mediante a experiência de ser comunidade. É necessário buscar equilíbrio e sabedoria para que não haja submissão servil a textos escritos, nem espontaneísmo, que arrisca ser superficial.  Um excelente instrumento para preparar adequadamente o culto é a “equipe de liturgia”, composta por clérigos(as) e pessoas leigas.

Ao preparar o culto, deve-se sempre ter em conta o público que estará presente e a ocasião. Isto, porque é conveniente que, de vez em quando, haja celebrações diferentes para grupos diferentes, p. ex., crianças, jovens, jovens casais, mulheres, pessoas idosas, homens, pessoas enfermas… Sem dúvida, a situação ordinária é a do culto da comunidade toda, no domingo, especialmente. É bom, porém, de quando em quando, proporcionar a grupos específicos maneiras de se expressar e de celebrar de seu jeito. É evidente que isto só tem sentido se houver na comunidade um trabalho pastoral próprio com esses grupos. Com crianças, a linguagem tem de ser infantil, assim como os cânticos, os gestos, e tudo tem de se passar por entre o sério e a brincadeira; a juventude já não é só faixa etária, é cultura própria (e hoje já se fala de “juventudes”), a começar da música, da maneira de falar e do jeito de se relacionar; imagino um jovem de fora que, ao passar e escutar o tipo de música, reaja dizendo: “Isso aí tem tudo a ver comigo”. E assim por diante com os diversos grupos, considerada sua pluralidade e a variedade de ocasiões e de motivos para celebrar (aniversário, casamento, doença, morte, ação de graças, confirmação, ordenação, rogações, tribulações, etc).

Quanto ao rito, temos várias alternativas no Livro de Oração, inclusive a de combinar a Oração Matutina ou Vespertina, ou a Vigília com a celebração da Santa Eucaristia.

PREPARAÇÃO

Antes de penetrar no recinto do templo, quem vai ocupar o santuário em torno do altar, deve reunir-se em oração preparatória. É conveniente que alguém, de preferência leigo, guie a congregação, convidando-a também a recolher-se em silêncio e oração, e possa formular uma oração de preparação. É essa a intuição que percebemos no Livro de Oração, quando traz no início a bela e inspirada “Oração pela Pureza”. Que tal, de quando em quando, os ministros(as), antes de iniciar o processional, estando ainda à entrada do templo, fazerem aquela oração em conjunto com o povo?

RITOS INICIAIS

1.            Procissão de entrada

A assembléia já reunida, entram ministros e ministras.  Seria significativo que entrassem no cortejo as pessoas que vão fazer as leituras e se encarregar de distribuir a santa comunhão, de tal modo que tivéssemos no santuário gente do clero e leiga. Toda a congregação se põe de pé e entoa o canto de entrada, que já deve ter a ver com o tema bíblico da celebração. O povo está de pé, não como gesto de respeito ou homenagem aos reverendos(as), mas para pôr-se  de prontidão, como que integrando a procissão em direção ao altar. Em ocasiões mais solenes ou quando a comunidade não é tão numerosa, o processional deveria ser feito com todo o povo se dirigindo fisicamente ao templo.

2.            Acolhida

Acolher é receber com simpatia. Convém que o tom não seja formal. Receber as pessoas com alegria, de braços abertos, na casa do Senhor, que é a casa de todos(as). Quem acolhe não deve dar boas vindas como se fosse “dono da casa” e as outras pessoas, estranhas. Convém ressaltar que as boas vindas são recíprocas, pois a casa é de todos(as). É bom salientar, de vez em quando, que aí somos o Corpo de Cristo, um só corpo, sob presidência de Jesus, vivo, Cabeça. É momento apropriado para salientar os motivos da celebração, motivos trazidos pela tradição litúrgica (quadra, festa de santo, memória, etc) e motivos eventuais sugeridos pela vida da comunidade ou por problemas da sociedade. Finalmente, é importante motivar a assembléia para o culto, chamando a atenção para o tema bíblico dominante.  A acolhida pode ser feita por alguém do clero, mas também por pessoa leiga bem preparada. Ao final, convém recitar (ou inspirar-se em) alguma das “sentenças introdutórias”, particularmente aquela que explicita que é em nome da Trindade que nos reunimos.

3.            “Canto congregacional” 

Em seguida, a assembleia deve entoar um hino tradicional. Nosso “Hinário” os contém vários, e quase sempre de boa teologia. Pode haver mais de um canto que ajudem as pessoas a “chegar”, a desligar-se da agitação quotidiana ou das distrações de costume, como se estivéssemos no “átrio”, espaço que faz a transição da “rua” ao santuário. Até pode ser útil para dar tempo a retardatários(as) irem chegando. O objetivo agora ainda não é propriamente “louvar”, mas ajudar as pessoas a concentrar-se, recolher-se e pôr todo o coração no que vamos viver, bem conscientes da presença do Senhor em nossas vidas. Deve(m) ser cântico(s) de chamado, de caminhada, de alegria de ser comunidade, de reafirmação da fé, de aclamação da glória de Deus, de abertura e disponibilidade para escutá-Lo, encontrá-Lo e obedecer-Lhe. De novo, o ideal é que o tema bíblico já se antecipe, já esteja a ecoar nos lábios e nos ouvidos.

4.            Confissão

A Confissão pode ser feita aqui, conforme o Rito I, ou pode ser deslocada para depois da homilia, de acordo com a ordem sugerida pelo Rito II. Pessoalmente, julgo mais pedagógica a sugestão do Rito II. Fazer a confissão no início, decerto, tem o sentido de logo, de pronto, ao chegar, confrontar-se com a santidade de Deus e tomar consciência da condição de pecadores(as), como vemos em Isaías cap. 6º. Doutro lado, após a homilia, tem a vantagem de o povo já estar bem consciente do tema bíblico, pois já o terá escutado nas leituras e na pregação. Convém variar, uma vez de um jeito, outra vez, de outro.

De acordo com o Rito I, a Confissão começa com a recitação dos Mandamentos ou o “Sumário da Lei”. É a intuição de que o primeiro momento é o de “exame de consciência”. Pode ser feito   também de maneira espontânea. A partir do tema bíblico, e de sua atualização, algumas poucas perguntas que levem as pessoas a examinar a vida e identificar pecados ou defeitos e limites que devemos trabalhar no dia a dia. Perguntas breves, bem diretas, para levar a identificar falhas concretas, e não ficar em generalidades, enfatizando apenas genérica condição de pecador, pois não ajuda a progredir em mudança de comportamento. O “exame” é pedagogia para tomar consciência do que devemos melhorar em nós, com a graça de Deus. Não convém substituí-lo por “oração”, esta vem em seguida como pedido de perdão.

Antes da Oração de Confissão, recita-se ou canta-se o Kyrie, tradicional invocação da misericórdia divina. Pode-se substituí-lo por um canto correspondente. Originalmente, era  aclamação à passagem do rei ou príncipe, saudado como alguém capaz de garantir proteção e favor ao povo. O Rito II ainda guarda esse sentido original, quando desloca a Confissão para depois da Homilia e, aqui, mantém a aclamação, ou com o Kyrie ou, em seu lugar, com o  “Glória a Deus nas Alturas”, ou algum outro canto de aclamação e glorificação de Deus.

O próximo passo é a Oração para pedir perdão. O ideal é que seja feita por uma pessoa leiga, preparada e previamente convidada e informada do tema bíblico. Aliás, nada impede que o “exame de consciência” seja dirigido por pessoa leiga, sob a condição de que seja preparada para isso. O passo seguinte é a Absolvição, pois é significativo escutar a declaração de que Deus nos perdoa, renova a inocência e nos acolhe de novo, “setenta vezes sete vezes”.

É muito oportuno cantar na Confissão. Pode ser antes do “exame”, pois ajuda a concentrar-se e preparar-se para reconhecer o pecado; pode ser também depois e antes da Oração de Confissão, ou até, eventualmente, substituir a própria oração, se o canto tiver um tom claro de pedido de perdão; ou, finalmente, pode ser em seguida à oração, como se fosse seu eco. Quando se prepara a celebração, deve-se prever variar, para evitar a sensação de rotina, de que o culto é sempre do mesmo jeito.

5.            Louvor

Após a Confissão, é o momento próprio para a assembléia prorromper animadamente em louvor. Louvar a Deus e dar ações de graças pela certeza que temos de que nos aceita e sempre de novo nos acolhe e renova. É especial momento de alegria e de entusiasmo. De novo, convém que o tema bíblico se faça presente no canto.

LITURGIA DA PALAVRA

1.            Oração “Coleta”

Saúda-se a assembléia com “O Senhor (ou o Espírito do Senhor) seja convosco”. O Presidente convida toda a congregação a orar em silêncio, com o “Oremos”. Pode sugerir o tema da oração silenciosa, relacionado com o tema bíblico ou com motivos especiais. Depois desse breve momento, formula – também uma pessoa leiga pode fazê-lo – a oração chamada de “Coleta do Dia”. Por que “coleta”? É que o sentido é recolher a oração de todo o povo. Deve salientar o tema bíblico e o motivo central da celebração do dia. Tem gente que usa fazê-la inteiramente espontânea, sem levar em conta a coleta indicada para a ocasião pelo Livro de Oração. É certo que espontaneidade é, em si mesma, positiva, mas pode ser que não chegue ao nível pretendido pela liturgia da Igreja. Por isso, mesmo que demos preferência à forma espontânea, é aconselhável, na preparação do culto, consultar o Livro de Oração e daí extrair o núcleo da “coleta” e construir em torno desse núcleo.  Normalmente, as coletas do Livro são de grande riqueza e exatidão teológicas. Seria pena deixar perder-se essa riqueza de ensinamento que, paulatinamente, tem o poder de ir formando a mente da comunidade.

Ao concluir-se a Coleta, não quem recita a oração, mas o povo responde, dizendo “amém” para confirmar o que foi pronunciado. Essa palavra, na Bíblia, é da mesma origem do termo “fé”, que sugere, confiança, firmeza, alicerce inabalável. É como se dissesse: “A palavra é firme, digna de confiança, é verdadeira, sobre ela podemos edificar a vida”. Volta em várias ocasiões no culto. Não deve ser, porém, banalizada, não deve equivaler simplesmente a “sim” (quando se acha texto na Bíblia, p. ex.), para que não venha a perder o sentido forte que tem na Bíblia.

2.            Leituras bíblicas

O lecionário ecumênico oficial, usado pela Igreja, prevê três leituras, incluindo a proclamação do Evangelho. Entre a primeira e a segunda, vem o Salmo, que não é tido como “leitura”, mas como canto de meditação, podendo mesmo ser cantado ou, às vezes, substituído por um cântico correspondente. Algumas comunidades recitam o Salmo de pé. Penso, porém, que a posição mais adequada é estar, calmamente, sentado(a), posição de quem medita. Entre a segunda leitura e o Evangelho, canta-se a aclamação. Ler apenas o Evangelho, parece-me empobrecedor. A intenção da Igreja é que, pela liturgia, ao longo do ano o povo vá tendo a oportunidade de conhecer a Bíblia. Por isso, cada ano, prevalece um evangelista, assim como certas epístolas e textos do Primeiro Testamento. Aliás, certa vez, um jovem da Igreja me disse: “Por que ler só o Evangelho? As epístolas de São Paulo ajudariam a comunidade a se deixar interpelar pelos conselhos concretos referentes à mentalidade e à prática da vida cristã”. Observação bem apropriada, e saída da sabedoria intuitiva de um jovem rapaz.

Quem sabe, três leituras bíblicas, além do Salmo, supõem uma comunidade já bastante madura. Em ocasiões especiais, creio que seja bom manter esse padrão ideal. Ordinariamente, porém, na realidade de nossas comunidades, deveríamos manter um meio termo. Naturalmente, a proclamação do Evangelho não pode faltar. Quanto às duas outras leituras, poderíamos escolher a que mais combina com o tema do Evangelho. Neste caso, o Salmo vem normalmente após a primeira leitura, como “canto de meditação”, seguido pela aclamação. O Evangelho, ordinariamente, deve ser proclamado por diácono(a), enquanto a primeira e a segunda leitura e o salmo devem ficar a cargo de pessoas leigas. Na recitação do Salmo, a comunidade deve participar, ou de maneira alternada, ou responsiva, ou apenas repetindo um refrão ente as estrofes. Ou, de vez em quando, pode ser chamada a fazer a recitação coletiva de todo o texto em uníssono.

Antes da proclamação do Evangelho, deve-se cantar breve aclamação. Pode ser apenas um aleluia, ou versículo de um salmo alusivo à Palavra de Deus, ou um refrão referente à Palavra ou a sua acolhida em nossos corações para a prática da vida. Há bonitos refrões ou antífonas, na tradição musical das Igrejas. Não cabem hinos ou cânticos de louvor, de ação de graças, de petição ou de meditação. A aclamação deve ser breve, pois o sentir da liturgia é que Jesus está aí para nos falar e não há por que não acolhê-lo imediatamente, o que nos vem espontâneo é só um alegre grito de aclamação. O costume anglicano é que todas as pessoas se voltem para o ponto donde o Evangelho está sendo proclamado, do meio da congregação ou do púlpito. Há comunidades que, após a escuta do Evangelho, costumam aplaudir a mensagem da Palavra de Jesus, gesto bonito e significativo. Aqui se pode também cantar como para espalhar o eco da palavra escutada ou como resposta a ela.

3.            Homilia

Sabemos que sua finalidade é ajudar a congregação a compreender melhor os textos bíblicos, inclusive a relação entre eles, que compõe como uma teia a mensagem do dia. Além disso, é objetivo da homilia explicitar o sentido atual da Palavra e suas aplicações na vida de hoje. Em comunidades pequenas, pode ser muito proveitoso promover a participação das pessoas nesse momento de meditação, abrir espaço para que expressem sua compreensão, opiniões e testemunhos. Em certas ocasiões, alguma pessoa leiga, bem preparada, pode ser convidada a entregar a mensagem. Terminada a homilia, é pedagógico cantar, como eco que prolongue a pregação, e a faça penetrar como gotas d’água na mente e no coração das pessoas, ou como resposta à mensagem. Se não houver canto, convém que a assembleia guarde breve momento de silêncio, como sinal de acolhida em clima de reflexão. É desagradável ver o povo se levantar, mal o pregador pronuncia a última sílaba, como se a maior expectativa fosse ver o sermão terminar (Às vezes, pode até ser o caso, quando pregamos mal, ou o que dizemos não interessa, ou falamos tanto que parece que nunca vamos acabar…).

4.            Confissão da Fé

Recitamos o Credo, “símbolo” de nossa fé. Ou o Apostólico, mais breve, ou o Niceno-Constantinopolitano, mais longo, a ser usado em momentos mais solenes. Com isto, após escutar a Palavra, renovamos o compromisso de proclamá-la e testemunhá-la na prática de vida, em união com nossos irmãos e irmãs na fé, agora e em todas as gerações passadas. É particular momento de nos sentirmos na Comunhão dos Santos. O Credo é síntese da Bíblia. Não se trata de uma lista de “verdades” a proclamar, mas de um elenco de acontecimentos históricos a atestar, desde o ato inicial da criação do mundo até o evento da ressurreição, passando pela obra redentora de Jesus e pela ação do Espírito Santo na profecia, na vida da Igreja e no mundo. Portanto, é a confissão da fé trinitária, a Trindade divina como princípio e modelo da realidade do universo e, particularmente, de nós: a fé trinitária deve ser geradora de comunhão entre nós e com o mundo (cf. 1Jo 1-4). De vez em quando, podemos tomar versões modernas do Credo, algumas são bonitas tentativas de atualizar a confissão da fé em nossos dias.

5.  Intercessão ou “Orações do Povo”

Após o Credo, é o momento da intercessão pelas necessidades das pessoas, da Igreja e do mundo. Também se pode apresentar motivos de ação de graças. Em nossa Igreja, temos as intenções do “ciclo anglicano de oração”, que nos convida a orar por outras comunidades ou necessidades da Comunhão Anglicana no mundo. Ordinariamente, quem deve fazer isto é alguém na ordem de diácono(a), mas também se pode entregar a função a uma pessoa leiga.

6.  Saudação da Paz

O Livro de Oração prevê, neste momento, a saudação e o abraço da paz. Não se trata de saudação comum, para perguntar “como vai?”, ou falar da alegria de encontrar-se, dar notícias, etc, mas de desejar o “xalôm” bíblico, a bênção e a felicidade, em nome de Cristo. Deste modo, ao desejar a Paz, como gesto de bênção e, eventualmente, de reconciliação, nos predispomos a aproximar-nos do altar para celebrar a Ceia do Senhor. Quem sabe, é também mais oportuno fazê-lo aqui, para possibilitar atmosfera de maior reverência no momento da santa comunhão.

LITURGIA DA CEIA DO SENHOR

1.            Ofertório

Começamos com o gesto de oferta de nossas vidas, simbolizada nas oferendas que entregamos ao altar (pão, vinho, água) e oferta financeira e de alimentos e outros gêneros para pessoas pobres. A procissão de ofertório deve ser muito valorizada. Algumas pessoas devem ser convidadas a trazer as ofertas, especialmente pessoas que tenham alguma relação particular com a data ou os motivos da celebração, como aniversário, relação com a pessoa falecida (culto em memória), vitória de saúde ou outro livramento, ação de graças, etc. É recomendável que a comunidade se levante de seu lugar e se dirija ao altar trazendo as ofertas, inclusive a oferta em dinheiro, discretamente em envelope. Se, na ocasião, alguém nada pode ofertar em dinheiro, traz nas mãos o envelope, assim mesmo, carregado da oferta da própria  vida, entregue humildemente nas mãos de Deus.

Com efeito, a oferta material na Igreja não é apenas doar alguma coisa ou quantia, é infinitamente mais. O fruto do trabalho de nossa mente, sentimentos e mãos, é sinal da vida toda consagrada a Deus, origem de todos os bens. Não importa, em primeiro lugar, o “quantum”, o que interessa é o gesto de consagração, com lealdade e generosidade para com Deus, segundo as possibilidades de cada qual e “conforme decidimos no coração, com alegria e sem constrangimento” (cf. 2Cor 8 e 9). A viúva, que ofertou duas moedinhas “sem valor”, “depositou mais do que todas as outras pessoas (…) deu toda a própria vida” (Mc 12, 43-44).

Enquanto as ofertas são trazidas, o canto deve expressar pedagogicamente o sentido do gesto: tudo é de Deus, d’Ele tudo recebemos, só temos o direito de reter para nós o necessário e útil para satisfazer nossas precisões e o honesto, suficiente e digno bem estar. O que passa disso deve ser devolvido a Deus, para manter Sua obra na Igreja e para partilhar com quem precisa mais que nós. O padrão do “dízimo”, como referência mínima, é orientação que nos vem do Primeiro Testamento, no contexto do antigo sistema de tributos, mas deve ser bem claro que, no Novo Testamento, a perspectiva é a que aparece em 2Cor 8 e 9: não só 10%, mas TUDO pertence a Deus. O clero tem a particular responsabilidade de ajudar o povo a perceber o sentido teológico e espiritual da contribuição regular; à Junta Paroquial cabe a tarefa de levar o povo a compreender as necessidades concretas e perceber o de quanto a Igreja necessita para cumprir sua missão, dentro (manutenção da casa) e fora (diaconia sociopolítica em favor dos pobres).

Terminada a procissão das ofertas e preparada a mesa, é muito significativo que, ao iniciar a “Sentença de Ofertório, o Presidente eleve a oferta de pão e vinho, enquanto a assembleia  a ele se junta e, em nome dela, pessoa(s) leiga(s) eleva(m) a oferta em dinheiro, tudo como sinal da entrega a Deus de nossa vida e trabalho. Também é significativo que a oferta em dinheiro seja posta sobre a mesa do altar, como sinal do sacrifício “generoso e leal” de nossos bens, expressão de “nosso corpo em sacrifício vivo”.

Duas coisas chamam a atenção: nosso “Hinário” não contém hinos de Ofertório. Por que será? Não tem a ver com as origens de nossa Igreja, quando tudo nos era financiado pela Igreja mãe e não se necessitava da oferta de nossa gente? Por que o clero, de costume, não entrega oferta em dinheiro na celebração? Não seria bom exemplo e comportamento pedagógico? Talvez porque os(as) clérigos(as) partamos do princípio de que já damos tempo à Igreja, mas o povo leigo também não o dá, dedicando-se aos vários ministérios? De qualquer forma, essa questão da oferta em dinheiro ainda é um problema a ser enfrentado. Parece até que há uma espécie de sentimento de pudor em falar disso e educar o povo para a prática de “contribuição regular”. O povo, normalmente, não é mesquinho, antes, é muito generoso, o que está faltando é a cultura da contribuição regular e proporcional ao que se ganha, “com lealdade e generosidade” para com Deus, criador de todos os bens. Ora, cultura se constrói mediante processo de educação e motivação espiritual.

2.            A Grande Oração Eucarística

A Grande Oração

Começa com o Prefácio, louvação a Deus por Sua obra no mundo e em nossas vidas, pelo que reconhecemos e proclamamos Sua santidade. É conveniente aludir brevemente ao dom de Deus que é Sua Palavra, trazida no tema bíblico do dia, e aos motivos da celebração, e dar graças por bênçãos recebidas. O povo também pode ser convidado a apresentar motivos de ação de graças, em vez de fazê-lo antes do Ofertório. Cada quadra litúrgica tem seu prefácio próprio. Se desejamos formulá-lo de forma mais espontânea, é bom não esquecer de se inspirar no que nos traz o Livro de Oração. O povo participa com os responsos iniciais e com a aclamação final do “Santo, Santo, Santo” que convém, seja cantada.

É bom esclarecer que o Prefácio, tido como hino de ação de graças, não é um elemento católico romano introduzido em nossa liturgia, mas vem de venerável tradição da Igreja cristã, desde a Antiguidade, e se conserva até hoje em várias denominações, tais como a Luterana e a Metodista (internacional). A Grande Oração Eucarística começa com a ação de graças pela obra da redenção, pronunciada pelo Presidente da celebração secundada pela aclamação final do povo com o “Santo, Santo, Santo”.

Na Grande Oração, fazemos o ”memorial” da história da salvação e, particularmente, da vida e ministério, da paixão e ressurreição de Jesus, enquanto repetimos Seu gesto na Última Ceia. Convém que a memória da Ceia seja pronunciada só pelo Presidente, pois tem um tom de narrativa. Em seguida, invocamos o Espírito Santo (“epíclesis”), momento importantíssimo, para que nossa vida e ofertas, sinal de nossa consagração, se tornem uma só coisa com a oferta sacrificial de Jesus, de tal modo que sejamos transformados(as) em sacrifício vivo, sinal eficaz de Sua presença no mundo. Na recitação destas orações, após a memória da Ceia, os presbíteros(as) devem associar-se ao Presidente da assembléia, como coro em louvor à obra da Redenção. Os “símbolos”, apresentados na celebração (o povo reunido como Corpo de Cristo, o ministro presidente representando Cristo, Cabeça da Igreja, a leitura das Escrituras, o pão e o vinho, a memória da Ceia, a invocação do Espírito Santo, as orações…), tudo isto é “dramatização” para revelar a presença do Cristo vivo entre nós e deve levar-nos a perceber que o grande “símbolo” da presença de Cristo somos nós mesmos(as), “sacramento vivo”, por sermos o Corpo de que Ele mesmo é a Cabeça. Como dizia Santo Agostinho, no século IV: ao receber o pão e o vinho consagrados, dizemos “Amém”, isto é, “eu sou o Corpo de Cristo, e você recebe aquilo que já é, o Corpo de Cristo”. Que privilégio e quanta responsabilidade, carregar Cristo em nossos próprios membros, ser o sacramento de Sua presença no mundo! É esse mistério que dá conteúdo a nosso nome de “cristão(ã)”, marcados(as) como por tatuagem indelével. Assim se diz na liturgia do Batismo: “Estás selado(a) pelo Espírito Santo, com o sinal da cruz, és de Cristo para sempre”. É conveniente que, na Oração Eucarística, o povo possa intervir com responsos ou diálogos, conforme o modelo das Orações Eucarísticas “A” e “B”.

A recitação do Pai-Nosso

Bem mais que “uma” oração ensinada pelo próprio Jesus a seus discípulos e discípulas (cf. Mt 6, 7-15; Lc 11, 1-4), trata-se de um texto que concentra os critérios fundamentais da oração cristã, oração filial, atitude própria de Jesus (cf. Jo 5). Oramos no plural, o Pai e o pão são “nossos”, só cabe comunidade, são um não ao individualismo; o pão comum, partilhado como “nosso”, sugere novas relações econômicas Os céus são símbolo da transcendência de Deus, não de distância, pois o que lá se passa deve baixar à terra, Deus é conosco, Emanuel. O foco é a proclamação da santidade de Deus e da soberania de Sua vontade, o Seu Reino, nossa vocação é trazer o reinado de Deus sobre a terra. O perdão é o fundamento sobre o qual se deve edificar a comunidade: nossa íntima e generosa relação com o Mistério, que nos gera e acolhe sempre de novo, deve acontecer também entre nós; perdão evoca novo jeito de nossas relações sociais. A tentação, a Maldade em que podemos cair, é ceder ao que vem de encontro aos valores do Reino de Deus. O Reino é, essencialmente, comunidade e realização da justiça de Deus; não ceder à tentação é resistir ao sistema do mundo, é luta para não se deixar moldar pelas estruturas do sistema vigente, antes, esforçar-se por transformá-las (cf. Rm 12, 1-2).

É importante que se avive na comunidade, de vez em quando, a compreensão do sentido do Pai-Nosso, para que não se caia na rotina. Assim como do Credo, dos Sacramentos e dos Mandamentos e da Nova Lei proclamada no Sermão do Monte. Todos estes, conteúdos que devem ser objeto do “catecumenato”, na preparação para o Batismo e a Confirmação.

 A Fração do Pão

Imediatamente antes da distribuição dos elementos da santa comunhão, temos o tradicional e significativo rito da “fração do pão”. É agora que o pão deve ser quebrado, e não no momento de recitar a memória da Ceia. O pão é quebrado para lembrar a violência sobre o corpo de Jesus, na paixão, corpo e sangue separados. Em seguida, um pedaço de pão é metido no cálice, como delicado sinal para dizer da integridade de Jesus ressuscitado, “corpo e sangue” unidos de novo. Não se trata de ritualismo, são pequenos gestos significativos, como os temos também em casa e em nossas relações interpessoais ou comunitárias, como, por exemplo, uma toalha especial, uma flor na mesa em dia de festa, um gesto típico da família…

Também quebrar o pão é proclamar profeticamente que a vida de Jesus – seu “corpo”, a saber, suas relações com o nosso universo material (cf. Cl 1, 15-20; Hb 1, 1-4) – é compartilhada conosco como anúncio de um mundo de partilha, de justiça e de abundância para todas as pessoas. Pessoas leigas podem ser convidadas a distribuir o pão e o vinho. É conveniente, porém, que “purifiquem” as mãos antes de fazê-lo. Não se trata de ritualismo, mas de medida de higiene e de respeito às pessoas. Pois vieram da rua, guiaram automóvel, pegaram em dinheiro, apertaram as mãos de outrem. Como em casa, ao nos achegarmos à mesa, é costume lavar as mãos. Esse “lavabo” pode ser feito hoje com “gel” ou álcool.

Comunhão

É aconselhável cantar um hino antes que se distribuam os elementos da comunhão. O “Hinário Episcopal” contém belos hinos, apropriados para confessar a fé no mistério da presença real de Jesus em Seu Corpo que é a Igreja, mediante os elementos eucarísticos. São instrumento particularmente pedagógico para a formação teológica do povo.

A participação na mesa do Senhor é momento sublime de encontro espiritual com Jesus e em comunidade. É como o beijo de Deus e, entre nós, o ósculo santo da comunhão fraterna. Como comida e bebida, o Cristo se faz uma só coisa conosco para que nos tornemos uma só coisa com Ele. O Cristo, porém, é Cabeça e Corpo, comungar intimamente com Jesus implica, necessariamente, em comungar entre nós, membros vivos de Seu Corpo.

Fortalecer-se com o sacramento do Corpo de Cristo, é capacitar-se para continuar Sua obra no mundo. É, por isso, momento, especialmente, místico, comunitário e de sentir-se enviado(a) em missão. A comunidade contempla a si mesma e se revela como ícone da Trindade, comunhão perfeita e eterna, fonte e modelo de toda a criação.

Os cânticos podem ter um tom místico, de união com Cristo; podem ressaltar o chamado a partilhar serviços, dons e bens, entre nós e, sobretudo, com quem mais necessita; podem também lembrar nossa esperança e compromisso com a construção de um mundo novo, de fraternidade, partilha e comunhão, a começar de nossa vivência em comunidade.

Poscomunhão

É praxe anglicana que haja uma oração final de ação de graças pelo encontro comunitário e pelos maravilhosos dons de Deus. Essa oração pode ser confiada a pessoa leiga que a fará em nome de toda a assembléia. É evidente que deve ser pessoa previamente designada e devidamente preparada. Convém que sintetize brevemente o que aconteceu (liturgia não é recitação, é acontecimento) e, particularmente, lembre a lição bíblica que estamos levando a viver na nova semana, sob o envio de Deus que nos manda à sociedade para servi-la em Seu nome.

RITOS FINAIS

1.       Avisos finais

É o momento dos avisos comunitários, que podem ser dados pelo Presidente, ou por pessoas leigas, da Junta Paroquial, por exemplo, ou de determinados ministérios. É costume apresentar neste momento as pessoas visitantes. O que pode ser feito também no início da celebração — quando temos certeza de que já estamos todos(as), o que é fácil de acontecer quando se trata de grupos menores — para que as pessoas já se sintam incluídas desde o início e a comunidade já possa fazer o gesto de acolhida; ou no Ofertório, imediatamente antes de entrar na Ceia do Senhor.

Não é oportuno “agradecer” a presença das pessoas no culto, salvo em ocasiões muito especiais, quando estão pessoas de fora que vieram só prestigiar o evento. Na verdade, estar presente e participar é nosso dever e privilégio inaudito, não é favor. O que se pode fazer, em vez, é salientar o privilégio de ser admitidos(as) por Deus a Sua intimidade, a alegria de estarmos em conjunto, e fortalecidos(as) como corpo para prosseguir nas batalhas do Reino neste mundo.

2.       Bênção Final

Convém recitar a fórmula de bênção própria para cada quadra litúrgica. Se se formula a bênção espontaneamente, é bom deixar-se inspirar pelo núcleo da fórmula trazida pelo Livro de Oração. Como também não perder a ocasião de mais uma vez retomar o tema bíblico da celebração, visto agora, no final, como tarefa ou mandamento dado por Deus e para cujo cumprimento invocamos a energia de Sua bênção.

3.       Despedida e canto de envio

A despedida, ordinariamente feita por diácono(a), é o “envio”. É conveniente que seja feito na primeira pessoa do plural, para que quem envia se inclua também. Completa-se, assim, a liturgia, como expressão da vida em Deus e fonte que a nutre e fortalece sempre de novo para prosseguir na caminhada. Como tudo na vida, os gestos manifestam o que somos e nos confirmam e fortalecem. Ao dizer “eu te amo”, manifestamos o sentimento e, ao mesmo tempo, crescemos nele. O canto final deve ter o tom de envio para trabalhar na obra do Senhor, a missão continua na partilha e no serviço, em comunidade e na sociedade.

Nota final sobre dramatização e dança: Seria muito bom que nos habituássemos a dramatizar textos bíblicos na celebração, particularmente o Evangelho, que é narrativo. Torna-os mais vivos e atuais, pois possibilitam liberdade de recriar o texto; encarnam a Palavra em gestos, com a força que tem a arte de teatro. Como também seria muito oportuno promover a dança na liturgia. Há momentos especialmente apropriados: no processional de entrada; na introdução da Bíblia para as leituras; após a homilia para ressaltar o tema bíblico; no Ofertório, a abrir o cortejo das ofertas; no final do culto para ressaltar o envio. Pode ser esta uma tarefa a ser assumida de modo particular pela juventude.

CONCLUSÃO

Ao entregar à Igreja as últimas duas Cartas sobre Liturgia, meu desejo é que possamos crescer sempre mais na compreensão dos mistérios da fé, de tal forma que nosso “poema de amor” seja realmente a expressão do amor realizado no “leito nupcial” e na “mesa de família” de cada dia vivido com Deus. Que o amor cantado seja, de fato, a expressão de amor “consumado” na prática do dia a dia! A cruz em nossos templos seja sempre a lembrança viva de que, no centro da prática cristã, tem de estar a aliança com os crucificados(as) pelos sistemas deste mundo. Só assim “a Palavra da cruz” será explosivo desmascaramento de todas as ideologias que justifiquem a injustiça e a opressão. Que nossos cânticos sejam ameaçadora “loucura da cruz” e nunca apenas “sabedoria deste século”; que, por Deus, não se degradem a “sabedoria que é só palavra” (cf. 1Cor 1-4). Que o Deus que cultuamos não seja o ídolo no qual projetamos indigência e ilusória busca de poder, na tentativa de fugir de nossos medos e inseguranças frente ao desafio de viver!

Deus nos abençoe e nos guarde em Sua mão, fortaleza inexpugnável!

+ Sebastião Armando, Recife

11 de Julho de 2013, Festa de São Bento de Núrcia

Publicada em 06 de Agosto, Festa da Transfiguração do Senhor

About Sebastião Armando (170 Articles)
Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema "Evangelização", convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social ("Casa Ecumênica - Crer & Ser") com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.