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“Caminhar como se visse o invisível” (Hb 11, 27)

                       guaritas - caminhada biblica Neste mês de Setembro, em diversas comunidades cristãs, pomos as Sagradas Escrituras no centro de nossa atenção: retomar a Bíblia como escola para aprender a orar e para aprender como viver. Afinal, como compreender uma Igreja cristã que não seja bíblica? Não há alternativa. Já não podemos confiar-nos aos braços da tradição, filhos e filhas de pais e mães cristãs já não serão necessariamente cristãos. As pessoas querem saber por que fazem as coisas, ou por que seguem certas correntes de pensamento ou de fé. Desejam optar por valores que julgam elas mesmas apreciáveis. Exigem saber claramente onde estão. E, se se trata de Igreja, pretendem saber, com clareza possível, qual a tarefa que Deus nos confia neste mundo. E a Bíblia é a guia para nos indicar o caminho, pois está cheia de inspiração para nos inspirar fidelidade. Se a tradição já não nos garante e se não queremos enganar as pessoas com emocionalismo barato ou anacrônico ritualismo, só nos resta aprofundar o sentimento de adesão e de pertença ao caminho de Jesus, mediante o conhecimento da Palavra.

                      Sabemos que a Bíblia é palavra humana, situada em tempo e espaço bem determinados, mas é encarnada nessa palavra que a Revelação de Deus nos alcança. Eis a que ponto chega Sua condescendência! Exige-se de nós meditação e estudo, trabalho árduo de interpretação para discernir, em meio às palavras humanas, tão limitadas e marcadas culturalmente, a pedra preciosa da perene mensagem divina. E será esta a tarefa de cada geração de crentes, inclinar-se sobre o texto bíblico, invocar a luz do Espírito Santo, ter olhos bem abertos para a realidade da vida e, em comunidade, buscar o que Deus nos manifesta. Sim, em comunidade, pois os textos foram inspirados por um Deus que é essencialmente comunidade. A Trindade é isto, Deus, a causa última das coisas, que não é solidão, mas comunhão. É por isso que o dinamismo comunitário, coletivo, se acha na própria raiz do universo. Tudo é conectado em imensa teia. Solidão, individualismo, apartação são perversões do impulso criador originário. A linguagem da fé lhe chama “pecado”, a saber, negação prática, vivida, da estrutura do real. Daí, por que “pecado” se ache nas vizinhanças de “crime” ou agressão. Agressão à realidade, à vida. Como seria coerente interpretar a mensagem divina de maneira individualista, na estreiteza de um espiritualismo desencarnado, se Deus são relações que, em diferenciação, constituem Seu ser pessoal: a Fonte absoluta (o Pai), a Sabedoria que tudo contém (o Filho) e o Espírito que os entrelaça e personifica a relação de Amor. A fé cristã não consegue representar Deus como pura unicidade, mas como “diversidade reconciliada”, originária convergência da diferença na unidade. E o mundo de Deus não é a imensidão de um todo entrelaçado? Os pensadores antigos, para representar esse mistério insondável, chamaram a atenção para a tríade que forma nossa própria dimensão espiritual: a mente ou inteligência (a fonte), o pensamento ou conceito (“conceptum”, concebido, gerado, “filho”) e a vontade enquanto dinamismo de amor (o espírito). Só em comunidade nos exercitamos como imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26; 2, 18-25; Ef 1, 22-23; Cl 1, 18-20). É por isso que a leitura comunitária é o caminho mais adequado para aproximar-se da Bíblia.

                     Nossos pais e mães na fé nos deixaram o testemunho de sua caminhada. Assim nos indicam por onde Deus costuma passar e por onde costumam andar as pessoas que Lhe são fiéis. Retomamos  seu legado para saber por onde caminhar. Deles e delas é que aprendemos como se escuta Deus. Lemos a Bíblia para aprender como escutar e enxergar o Mistério presente em nossa vida, como eles e elas souberam fazer e como, em certos casos, não acertaram o passo (cf. 1Cor 10, 1-13). Trata-se de aprender da Bíblia o jeito de ser de Deus.

                     A Palavra, porém, é viva, pois Deus é o Deus vivente e nos fala hoje, nas circunstâncias da vida, através de nossas relações e dos acontecimentos. Nas Escrituras, temos testemunho privilegiado do que foi no passado a vida de um povo que caminhou na fé em busca de Deus. Acima de tudo, temos o testemunho de Jesus de Nazaré, para nós a suprema revelação divina e a mais fiel resposta humana de obediência a Deus. É por isso que a Bíblia é nossa “escola”, com ela aprendemos quais são os critérios da escuta e quais os caminhos da obediência. É como se dá com a música: na vida de nossos antepassados na fé, a Palavra foi experiência viva, como música uma vez executada; ficou-nos o texto, como partitura que registra a memória da música (cf. Hb 11); agora, ao retomar a “partitura” e  executar a “música ao vivo” em nossa vida, a Palavra volta a soar com harmonia e estridência e se faz de novo experiência viva (cf. ibd. 12, 1-13). Acontece, justamente, o que nos diz o Apóstolo São Paulo: “Tudo o que foi escrito antes de nós, foi escrito para nossa instrução, para que, em virtude da perseverança e da consolação que as Escrituras nos dão, conservemos a esperança” (Rm 15, 4).

About Sebastião Armando (176 Articles)
<p>Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber<br /> to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema “Evangelização”, convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social (“Casa Ecumênica – Crer & Ser”) com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.</p>

1 Comment on “Caminhar como se visse o invisível” (Hb 11, 27)

  1. Evandro Ferreira Candido // 07/10/2015 em 1:05 pm //

    Parabéns, Dom Sebastiâo, pelos textos que nos fás refletir de uma forma real dentro da nossa comunidade e que nos trás força para caminhar.

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