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“Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio” (Jo 20, 21) (Os gestos de Jesus no centro da missão da Igreja)

Dom Sebastião Armando Gameleira Soares
Bispo Emérito da Diocese Anglicana do Recife
Igreja Episcopal Anglicana do Brasil

O TEXTO
jesus_discipulosEstamos no tempo pascal. Segundo os evangelhos, Jesus ressuscitado “se faz perceber” por seus discípulos e discípulas como o mesmo da caminhada terrestre, com suas mãos e pés marcados pelos cravos, preço pago por suas opções de vida em favor de marginalizados deste mundo. O Cristo da fé não pode ser “inventado” pela Igreja, é Jesus de Nazaré, cuja vida foi aprovada por Deus e selada pela vitória sobre a morte. É Ele mesmo quem envia seus seguidores(as) para retomar a caminhada “desde a Galiléia”, isto é, começar tudo de novo… Tomemos como palavra inspiradora desta meditação pascal o texto do Evangelho de São João 20, 21: “Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio”. Naturalmente, para compreender a frase, posta nos lábios de Jesus ressuscitado pelo evangelista, é fundamental verificar o contexto literário imediato, que vai do versículo 19 ao 23:
1. “no primeiro dia da semana”, “ao anoitecer”, “fechadas as portas, “por medo das autoridades”. A menção do primeiro dia, como já se vê nos evangelhos sinóticos (cf. Mc 16, 1-2), insinua o começo de um novo tempo do mundo. A sombra da noite, o medo, as portas fechadas são símbolos sugestivos para indicar que o grupo do discipulado de Jesus ainda não percebe que “o dia” está amanhecendo, o amanhecer do dia final, escatológico. Aliás, no quarto evangelho, a “noite” é tomada várias vezes como símbolo das trevas que envolvem o sistema do “mundo” e se manifestam na mentalidade (ideologia) marcada pela “morte” (cf. 1, 5; 3, 2. 19-21; 8, 12; 9, 5; 12, 55-36; a paixão é “noite”: 9, 4; 13, 30; 18, 18. 27; 20, 1; 21, 3-4). Vem-nos famosa frase de Dom Helder Camara: “Quanto mais escura é a noite, é sinal de que carrega em seu seio a madrugada”, frase enunciada em sua primeira entrevista pública que rompia o silêncio dos meios de comunicação a seu respeito, imposto pela ditadura militar;

2. “Jesus entrou e ficou no meio deles”, como se o clarão da manhã se acendesse (cf. 21, 4; 13, 30-32; cf. Mc 16, 1-2). O novo dia irrompe com o anúncio do “xalôm” – a felicidade é finalmente possível. No envio em missão, Jesus ordenara anunciar essa possibilidade ao povo que se dispusesse a acolhê-la (cf. Mt 10, 12-13). Para Lucas, trata-se do que deve ser primeiro anunciado: “Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: “Xalôm a esta casa”, esse anúncio e as ações que o seguem – curar as enfermidades e expulsar as forças estranhas de alienação pelas quais as pessoas se acham possuídas, são o sinal de que “o Reino de Deus está chegando a vós” (Lc 10, 2-9), é revelação do mundo futuro já presente;

3. Em seguida, Jesus reafirma Sua identidade: o Ressuscitado é o mesmo Crucificado (cf. v24-28), a cruz é o ápice da fidelidade a Suas opções e a Seu modo de agir. Aliás, nas várias aparições, há sempre duas ênfases: o Ressuscitado se identifica com o Crucificado, Jesus de Nazaré, e envia Seus discípulos para retomar a mesma tarefa: “Ele vos precede na Galileia” (Mc 16, 7). No capítulo 21, a pesca na Galileia é o sinal do recomeço da missão. É preciso começar tudo de novo… A Igreja corre sempre o risco de desejar inventar seu Cristo desvinculado de Jesus de Nazaré, homem, profeta, condenado a morte por suas opções de fé que tiveram profundo significado politicossocial em seu contexto de vida;

4. Volta o anúncio do “xalôm”. Para sentirmos o que significava o peso dessa palavra, na qual se resumiam os ideais do povo de Deus, objeto da pregação profética, bem estar coletivo total – o “bem viver” cultivado em nossos povos aborígenes — desde a economia até a paz entre as nações, baste pensar que na Epístola aos Efésios, o autor identifica o “xalôm” com a redenção da humanidade reconciliada (cf. Ef 2, 11-22; Is, 2, 1-5; 9, 1-6);
5. Imediatamente Jesus os envia, os discípulos são enviados com a mesma missão: “Assim como o Pai me enviou, Eu também vos envio”. A ressurreição revela que o caminho de Jesus, embora rejeitado pelo “mundo”, foi aprovado por Deus, por isso é preciso retomá-lo. Jesus se investe, então, da mesma autoridade do Pai. Fica claro que a missão é “missão de Deus”, que deve prosseguir no mundo, e, assim, sinal da verdade da Ressurreição;

6. Relacionado intimamente com o envio, vem o dom do Espírito Santo. A missão não resulta de um simples nexo histórico necessário com a vida terrestre de Jesus, não é mera continuidade de uma instituição fundada por Ele. Saulo de Tarso, por exemplo, não havia seguido a Jesus e o havia interpretado “segundo a carne” (cf. 2Cor 5, 16), no entanto, foi o maior dos apóstolos. A Igreja não é uma “instituição” fundada historicamente por Jesus. O famoso teólogo francês Loisy, condenado pelo Vaticano, tinha razão ao constatar: “Jesus anunciou o Reino e o que surgiu foi a Igreja”. Na verdade, ela tem n’Ele seu firme fundamento e, em sua história pessoal (cf. Mc 1,1), o ponto de partida, mas é um evento provocado pela ressurreição, a qual é obra do Espírito. Por mais que se ligue à vida terrestre de Jesus, é novidade, resultado do derramamento do Espírito (cf. At 2, 1-36), como foi novidade o que o Espírito realizara na vida de Jesus (cf. Lc 4, 16-21). Na própria doutrina católica romana, que tanto insiste na “instituição histórica” da Igreja por Jesus, diz-se que a Igreja nasce do lado aberto de Jesus na cruz e se inaugura no Pentecostes (Papa Pio XII). Ora, é uma maneira simbólica de dizer que na morte na cruz, de algum modo, se interrompe o “projeto” histórico de Jesus e é, pela energia do Espírito, que esse “ressuscita” mediante Seus discípulos. Ora, “onde se acha o Espírito do Senhor, aí a liberdade” (2Cor 3, 17) para que a Igreja leve adiante a missão de Deus em novas circunstâncias, com novas decisões e nova forma de ser, como o percebemos claramente no decorrer dos Atos dos Apóstolos e nas Epístolas: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (At 15, 28) ;

7. “a quem perdoardes os pecados”. O perdão é dimensão fundamental da manifestação do Reino de Deus (cf. Mt 12, 28. 31-32), expressão do “xalôm” que liberta da culpa e do sentimento de exclusão e inferioridade, expressivamente dramatizado pelos evangelhos no episódio da cura do homem paralítico (cf. Mc 2, 1-12; João 5, 1-18). Pecador é alguém paralisado, prisioneiro, dominado (cf. Mt 12, 22), considerado como quem não faz parte da “casa de Deus”, impuro, portanto posto à margem e desprezado. É justamente o que se dá na vida dos pobres: a sociedade os “expulsa” para as margens (marginalizados) e, em seguida, os acusa, castiga e aparta como “marginais”, como se vê nos evangelhos com leprosos e publicanos (cf. Mc 1, 40-45; 2, 13-17). É o círculo perverso do “bode expiatório”. A Bíblia mostra o pecado como onda avassaladora, fermento de morte, para tragar as pessoas e a sociedade (cf. Rm 1-3). Somos vítimas e algozes, ao mesmo tempo, ninguém é inocente, pois “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3, 23),). Com efeito, a responsabilidade pelo “pecado do mundo” é global e coletiva, na complexa cadeia que vai da omissão à ação. Pois ninguém é inocente. Há de fato um “pecado original”, a saber, “de raiz”, que nos afeta a todos os seres humanos e que vai bem além da consciência pessoal (cf. 1Jo 1, 8 –2, 2). Só se restaura a “humanidade” de nosso ser mediante ação recriadora de levantamento das pessoas, liberadas de “cadeias”, desde as profundezas de seu psiquismo até as relações e estruturas na sociedade. Liberadas pela experiência do amor exercido no mútuo serviço. Só não é perdoado, só se retém o perdão, quando a pessoa se exclui dessa corrente salvífica e, assim, não se deixa perdoar, ou seja, ser acolhida de novo na rede de convivência (cf. Mc 2, 4-5).
Nossa imagem de pecado é habitualmente por demais espiritualista e moralista. A ideia bíblica de pecado, antes, se aproxima muito do conceito moderno de “alienação”. No nível psicoantropológico, é perda da liberdade, da posse de si, de autonomia, a pessoa se “alheia” de si mesma e da realidade enquanto totalidade à qual se refere a partir de sua própria interioridade (cf. Rm 7); no nível das relações e das estruturas nas quais se “materializa” o sistema de convivência, em suas várias dimensões(econômica, social, política e cultural-ideológica), a pessoa é vítima da opressão e, ao mesmo tempo, responsável por ela, quer como oprimida, quer como opressora (cf. Rm 1-3; 1Cor 1-4); no nível da linguagem teológica, para caracterizar o que se dá nos dois níveis anteriores,trata-se de idolatria, ou seja, projetar-se, imaginariamente, como poder divino nas próprias obras e a elas sujeitar-se (cf. Lc 4, 5-8; Is 44, 9-20; Sl 135). Trata-se sempre de perda da condição de “pessoa”, de sua autonomia e integridade, pois a vida se faz dirigir do exterior, como sob a vontade de “outrem” (“alium”-alienação). O Apóstolo São Paulo sintetiza tudo isso no “regime da Lei”. Há sempre um aspecto subjetivo (sentimentos, pensamentos, mentalidade, intenções, decisões, ações) e outro, objetivo (condição ou condicionamentos, efeito das ações ou omissões). Nos “hábitos” percebemos o entrelaçamento dos dois aspectos, de um lado, condicionamentos já dados e efeitos reais das ações ou omissões, doutro lado, sentimentos, pensamentos, mentalidade, intenções, decisões, ações ou omissões pessoais, tudo isso cria hábitos ou os modifica, e pode até, em certa medida, modificar as próprias condições já dadas. Deve-se acrescentar que, nas decisões e nas ações ou omissões, joga certa margem de liberdade pessoal que vai determinar a quota de responsabilidade consciente contida nos atos pecaminosos. Decisivo, para ser perdoado, é desalienar-se e reconhecer, sem subterfúgios, a verdade da própria condição humana, “confessar o pecado”, na linguagem da Bíblia.

8. Se o envio dos discípulos se dá “assim como o Pai enviou” Jesus, é preciso, naturalmente, ir ao contexto mais amplo do Evangelho e verificar como, de acordo com o autor, Jesus mesmo compreendeu o envio, pois, é nessa compreensão que se espelha o envio dos discípulos. Na verdade, ser “o Enviado do Pai” é a própria essência de Jesus, constitui sua própria identidade pessoal. Ele não tem centro em si mesmo, está completamente descentrado no Pai, como se vê no discurso do capítulo 5º (cf. p. ex., 3, 2. 16-18. 31-36; 6, 29, 33. 39. 50. 57). Seu ser é ser ponte entre o Pai e a humanidade, “ser para”, ser “pontífice”, conforme a linda meditação da Epístola aos Hebreus. Para mostrar como se cumpre o envio, o texto escolhe da tradição alguns “sinais”, mediante os quais Jesus revela Sua missão: recria o vinho em Caná da Galileia, para possibilitar a festa da alegria do amor; “destroi” o templo; levanta da enfermidade o criado de um oficial estrangeiro; levanta um homem paralítico; sacia, pela partilha, a fome do povo e, assim, possibilita a “travessia” do mar onde se manifesta o “EU SOU”; abre os olhos de cego de nascença; levanta Lázaro já morto.

I. A GLÓRIA DE DEUS SE REVELA PELA FIDELIDADE DE JESUS
A tese de fundo do quarto evangelho é que carregamos conosco um segredo, um mistério oculto que transparece por nossos gestos, sempre “sinais”: o mistério é a “vida eterna”, a vida de Deus em nós, revelado por Jesus através de sua práxis existencial. Corresponde ao que diz o Apóstolo São Paulo: “Vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3, 3).
Para o quarto evangelho, essa vida, simbolizada pela água da qual se nasce e que a alimenta, nós a percebemos, ao mesmo tempo, como luz, fonte de nova visão de tudo. O grande conflito pessoal e coletivo é, então, entre a vida, como luz que redime e liberta, e as trevas do sistema vigente, que se recusam a recuar frente à expansão da luz, antes, tentam “apreendê-la (cf. 1, 5; 3, 19-21; 12, 35-36), isto é, persegui-la e anulá-la.
A “vida eterna”, já presente em nós, se manifesta plenamente pela ressurreição, que é consumação da obra de Deus, plena recriação do mundo (cf. Rm 8). Assim, a ressurreição não equivale, simplesmente, ao grande evento de reviver após a morte física, mas é um dinamismo – o Apóstolo São Paulo falava do Evangelho como “dynamis” – de plenitude de vida, que já se mostra nesta vida e neste mundo, através de “sinais” poderosos de transformação, sempre em meio ao conflito com forças que se recusam a seguir o apelo da Vida (cf. 5, 24-25; 11, 25-26; 1Jo 3, 11-20). É justamente isto o que se mostra na estrutura geral do texto:
A estrutura teológica geral é de grande profundidade, inclusive porque não está claramente expressa no “desenho” aparente do texto, mas subjacente (cf. Fl 2, 5-11):

I. DEUS É GLÓRIA INVISÍVEL (Cf. 1, 18 ): cap.1-19
DEUS “DESCE” em JESUS, “feito homem” (cf. 1, 14; 13, 4-5)
A GLÓRIA DE DEUS SE REVELA NA FIDELIDADE DE JESUS SERVO: cap. 18-19
II. JESUS RESSUSCITADO É GLÓRIA INVÍSIVEL: cap. 20-21
JESUS “DESCE” EM SEUS DISCÍPULOS E DISCÍPULAS
(cf. 13, 12-17)
A GLÓRIA DE JESUS SE REVELA NA FIDELIDADE ATÉ A MORTE: cap. 21.

Ao longo do texto , vão-se apresentar os “sinais” (João prefere não falar de “milagres”) que manifestam a glória de Deus mediante a práxis de Jesus, sempre fiel a restaurar a vida:
1. Em Caná da Galileia, por ocasião de casamento de pobres da aldeia, Jesus recria o vinho, para suprir necessidades e carências, de tal forma que a alegria que celebra o amor possa prosseguir, como expressão do “xalôm”. A cena tem forte caráter simbólico, evocando as bodas escatológicas de Deus com Seu povo, tendo como esquema de fundo o mito do “matrimônio divino”, tantas vezes, sendo o rei o centro da cerimônia enquanto representante da divindade. Aqui, um pobre casal de jovens de aldeia. Para o profetismo, Deus é o esposo de Israel (cf. Os 1-3; Is 54, 1-10). Para João, assim se apresenta, em Jesus (cf. 3, 29-31). A simbologia matrimonial volta no texto no cap. 20, no encontro de Jesus com Maria Madalena, chamada de “mulher”, no “jardim”, “no primeiro dia da semana”, evocando o paraíso de Gênesis 2. Deve-se notar ainda que para o evangelista a cena de casamento em Caná é o sinal que diz tudo da missão de Jesus: em torno do Cordeiro de Deus (cf. 1, 29. 34.36. 49. 51; 2, 1-2), reúne-se a comunidade do discipulado (cf. 1, 35-51) e, ao “terceiro dia” (2, 1), “manifestou a Sua glória e os seus discípulos creram n’Ele” (2, 11). No primeiro sinal, já se antecipa a Páscoa;
2. De novo em Caná, Jesus levanta da enfermidade o servo de um funcionário real, gentio (cf. 4, 46-54; Mt 8, 5-13) portanto. O beneficiado é pobre, servo (“pequeno”), e seu patrão é estrangeiro. O “sinal” revela o cuidado universal de Jesus, aberto aos excluídos: menores e estrangeiros, onde quer que se achem;
3. Entre os dois primeiros, vem o “sinal” da destruição” do templo para que o CORPO seja o novo templo “levantado em três dias”. Esse tema é tão importante que pervade o capítulo 3º (“nem em Jerusalém”, pois o importante é ser um corpo que “nasce de novo”) e o capítulo 4º (“nem neste monte”, pois o que importa é beber da “água viva” e “adorar em espírito e verdade”). Toda a Epístola aos Hebreus é desenvolvimento desta temática, de importância central para o Novo Testamento;
4. Jesus levanta um homem paralítico, paralisado e preso pelas cadeias da doença, à margem das águas, sem ter quem dele se aproxime (cf. 5, 1-18). O “sinal” provoca tensa discussão sobre as instituições do sistema (Lei, sábado,instituições, ideologia… tudo isto tem muito a ver com o que chamamos hoje de Estado e de Igreja e religião) e é interpretado como irradiação da “dýnamis” da ressurreição (cf. 5, 19-47);
5. A vitória sobre a fome é dada pelo “pão da vida” que sacia a massa faminta e alienada, mediante a partilha entre os pobres (“pães de cevada” carregados por um pequenino). Para que haja pão e vida é preciso “fazer a obra de Deus”, que equivale a radical mudança de mentalidade e de relações, “travessia” que possibilita recriar a vida dos pobres (alusão ao maná do deserto – Eucaristia), “sinal” da ”vida eterna”, e revela a presença do “EU SOU” (alusão ao Êxodo). Para os evangelhos, trata-se do maior milagre de Jesus, pois equivale a desalienar o ser humano. Comprova-o toda a história destes vinte e um séculos: a partilha, nova relação de poder entre as pessoas e sobre as coisas, é, na verdade, o mais difícil de acontecer, o maior milagre, a redenção sobrenatural, que significa santidade, pois é ser como Deus (cf. Mt 5, 48);
6. Jesus “abre os olhos” de um homem, mendigo e cego, que é vítima do sistema das trevas, “integrado” na margem, por isso, alienado. “Faz a obra de Deus”, isto é, recria o ser humano para superar a condição em que se acha no mundo. Possibilita que “nasça de novo” pelas “águas”, isto é, pelo “Enviado”, enquanto se torna capaz de ver sempre mais ampla e profundamente, e, ao assumir e defender sua experiência de vida, tem a coragem de enfrentar os poderosos garantidores do sistema estabelecido e revelar que, na verdade, são eles os cegos. Para esse tipo de ser humano, mendigo de olhos abertos, abre-se o rebanho do Bom Pastor (“Igreja dos Pobres” e seus aliados);
7. Entre o sinal do pão e a abertura dos olhos do homem, Jesus proclama solenemente ser a ÁGUA (nova vida) e a LUZ (nova visão), e denuncia a ideologia do sistema (idolatria) que leva à morte;
8. Finalmente, um homem, que tem nome, Lázaro, caracterizado como “amigo”, partícipe da intimidade de Jesus, é levantado da condição de morte: “quem vive e crê em Mim, jamais morrerá” (11, 26). Acirra-se o conflito e chega-se à decisão de matar Jesus: o sistema opressor, paradoxalmente, mata para negar a denúncia de que é sistema de morte… (cf. Mc 3, 1-6). Na verdade, porém, o que se está dando é a unção messiânica, de alcance universal, que põe a nu o julgamento do “mundo”: a grande inversão é simbolizada pela unção feita pela mulher e não por sacerdotes e profetas, agentes da religião;
9. Na ceia, domina o tema de Jesus Servo (cf. 13, 1-17), no qual é preciso permanecer como galhos em tronco de videira (cf. 15, 1-23), de tal forma que haja unidade plena, animada pelo amor, como a que se dá entre o Pai e o Filho (cf. 17, 1-26). O dinamismo que tudo irriga e garante é o Espírito Santo, energia de Deus, derramada por Jesus (cf. 14, 26; 15, 26-27; 16, 5-15);
10. Na Paixão-Ressurreição, a fidelidade de Jesus até o extremo revela a glória de Deus, e Sua realeza em Jesus que, ao abaixar-se, é entronizado (cf. cap. 18 e 19); restaura-se o jardim originário, com a recriação do homem e da mulher (cf. 20, 1-18); o Ressuscitado é o Crucificado e estar com Ele é “crer”, isto é, ter convicção de que Sua causa vale a pena, pois foi aprovada por Deus, e assumir Sua mesma missão de anunciar a Boa Nova e criar comunidades (20, 19-31), com a coragem de enfrentar o Seu mesmo destino (cf. 21, 1-25)

Observemos o esquema a seguir:

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II. A IGREJA CRISTÃ E SUA MISSÃO

O que é a Igreja cristã e qual é sua tarefa neste mundo: é ela uma agência para promover a religião, ou para promover a libertação da vida humana integral? Na verdade, é muito comum ter uma visão da Igreja como religião, decorrendo daí uma concepção espiritualista da vida e uma leitura religiosa e moralista da Bíblia. Na base dessa compreensão, está a identificação ou confusão entre “religião” e “fé”, ou, como dizia Frederico Maurice, grande teólogo anglicano do século XIX, “religião” e “Evangelho”. Assim, como referir à religião um mundo próprio, como conteúdo da linguagem religiosa, distinto do quotidiano da vida¿ Na verdade, esquecendo-se de que religião é linguagem simbólica, mediante a qual se fala da vida real das pessoas e da sociedade, vida esta que também pode ser expressa em outras linguagens, como a psicológica, antropológica, econômica, sociológica, política, etc., todas igualmente linguagens para falar da realidade mundana, única à qual temos acesso, pois o mais é mistério.
De Deus em si mesmo nada sabemos, é mistério absoluto. Ele se revela, é certo, como dizem as Escrituras, mas não descreve, nem explica a Si mesmo, antes, revela-Se como Caminho, o mesmo que “método” de viver (cf. Jo 14, 6; 1Jo 1, 1-4). “Meta-hodós”, na língua grega, quer dizer “através do caminho”, ou “para além do caminho”. Ele nos leva, ou melhor, conduz para além do caminho, manifesta-Se naquilo que na vida nos leva a ser mais plenamente e a ultrapassar-nos. Só ao fazer os passos da caminhada, ou seja, ao experimentá-Lo como Caminho de vida é que nos vamos firmando na certeza de que Ele É, está conosco, está aí (cf. Ex 3, 7-15) e nos arrebata para além de nós e vale a pena. “Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao andar”, diz o poeta. Ou seja, mais que saber sobre Ele, até mais do que sentir “estar com Ele”, como alguém outro, o decisivo, na verdade, o que pode transformar nossa vida é “estar n’Ele”. Por isso, o Apóstolo São Paulo fala de “ser em Cristo” e a corrente joânica fala frequentemente de “permanecer em Jesus”. “Estar n’Ele” equivale a estar em Seu caminho, isto é, em Seu jeito de ser (cf. Mc 8, 34-38; 10, 41-45; Jo 13, 12-17). Não se trata simplesmente de “imitação de Cristo” como modelo exterior, o que não passaria de uma forma de pelagianismo, mas de um caminho de assimilação, de “participação”, como gostavam de dizer os Pais da Igreja do Oriente (cf. Jo 15).
Frequentemente, as pessoas se enganam e estabelecem objetivos como se esses estivessem fora, depois que acaba o caminho e se fixam nesse ponto longínquo e exterior, o que provoca sentimento de angústia, preocupação e insatisfação. Sim, porque, dessa maneira, nos apartamos de nós, nos alienamos. Ora, na verdade, o caminho é nossa própria vida, portanto, somos nós mesmos. Quando estabelecemos objetivos na vida como algo “para onde” o caminho nos levaria, a saber, imaginariamente ponto ou pontos “fora de nós”, como se aí, então, finalmente, terminasse o caminho, o que, de fato, fazemos é estabelecer como objetivo da vida algo que não somos nós mesmos, tais como coisas, posses, dinheiro, posições de poder, projetos, etc. em suma, “coisas”, “obras de nossas mãos” que jamais mereceriam ser alçadas a essa altura, deveriam ser apenas e nada mais que meios para facilitar a caminhada. Por isso não devem ser elevadas a absoluto ao qual nossa vida estaria relativizada. Seria dobrar-nos às coisas, criação nossa, as quais jamais poderão satisfazer anelos profundos. Dizia Santo Agostinho: “Inquieto estará nosso coração, enquanto não repousar em Ti”. Seria a grande inversão. Em linguagem da Bíblia, a idolatria, fonte produtora de tudo o que é “alienação” e “morte” na vida. Espiritualidade que leva à morte pela negação do que constitui radicalmente a essência da pessoa humana, sua liberdade para estar acima e para além de tudo o que não é ela mesma. Só o absoluto transcendente de Deus pode ser a referência não alienante, mas constitutiva da pessoa, uma vez que o divino não é concorrente, mas fundamento de nosso ser.
Uma vez, um amigo, pastor presbiteriano, disse de modo muito apropriado: “A Bíblia é um livro religioso, mas não é um livro de religião”. “Livro religioso” porque seu fundamento é a realidade misteriosa de Deus, assim como sua finalidade é conduzir-nos a Ele. Mas, ao tratar-se de uma Palavra encarnada, assume, por consequência, as várias dimensões da vida humana e os limites inerentes a nossa condição de “carne”. Sim, a Bíblia é palavra de revelação enquanto desvenda a realidade que vivemos, traz à luz mecanismos ocultos, desmascara as ideologias que pretendem legitimar o “pecado do mundo”. No quarto evangelho, trata-se de trazer à tona o acirrado conflito entre a Vida e o sistema estabelecido no “mundo”, em todas as suas dimensões, desde a economia até a cultura e a religião.
Religião é expressão e meio através dos quais se simboliza a totalidade da vida. Desse modo, é “linguagem” para falar da vida e confirmá-la. Seu conteúdo é a vida, “lugar” onde se dá o decisivo encontro com o Deus vivo, experiência profunda de libertação, ou a submissão aos ídolos. Isto quer dizer que o que se expressa simbolicamente, no espaço, na atitude e nos gestos religiosos (mitos, doutrinas, ritos, organizações), é a vida humana real em todas as suas dimensões: psicoantropológica, econômica, social, política e cultural. Grande engano, sinal de alienação, é conferir à linguagem religiosa um mundo à parte que lhe corresponda, pois não passará de fantasia. O que constatamos, de fato, é que, pelo menos no Ocidente, as religiões (e as Igrejas) vão assumindo cada vez mais o formato de organizações na sociedade civil para fins bem determinados e visíveis: ou se apresentam como organizações não governamentais, cada vez mais caracterizadas como empresas lucrativas, as chamadas “religiões de mercado”, sempre mais em aliança com poderes políticos para restaurar privilégios tipicamente medievais; ou se põem ao lado dos pobres, marginalizados e excluídos, e, com seus aliados, assumem lutar por modelos alternativos de sociedade, ou seja, inserem-se no chamado “Movimento Social”. É assim que parecem achar seu espaço.
Quando se olha a história da Igreja cristã, constata-se que esteve sempre ocupada com tarefas e questões que vão bem além de sua tarefa central e específica que é evangelizar e, assim, promover a fé no Deus vivo. A “religião”, portanto a dimensão cultural da sociedade, tem sido seu campo privilegiado de atuação. Aí tem achado o veículo principal para dialogar e comunicar-se com os povos. O que é fácil entender, pois o campo da fé no mistério de Deus e a religião, que busca expressar simbolicamente o mistério, são evidentemente afins. No entanto, enquanto criação humana, a religião é necessariamente ambígua. Pretende dar forma ao mistério de Deus, tornar “sensível”, como que “dramatizar” nossa relação com Ele, e, por isso, cai facilmente na idolatria, ao modelar Deus a nossa imagem e semelhança, “obra de nossas mãos” (cf. At 7, 39-50). Na verdade, em cada sociedade, a dimensão cultural é a criação de princípios, valores e normas, com os quais se legitimam relações e estruturas de convivência humana, desde a economia até a política e a ideologia. Ora, na cultura, a religião funciona como ápice de tudo, valor maior, suprema legitimação. Não é por acaso que políticos vitoriosos desejem frequentemente “culto de ação de graças” que os legitime como “escolhidos” do Alto. A religião tem o poder de pronunciar a palavra final e vincular a consciência: “Deus o quer” ou o exige, já ninguém discute, e por Deus se mata e se morre… ou as pessoas se entregam ao “destino”. Quantas vezes já o ouvimos: “Que fazer, Deus quer assim, é a vontade de Deus”…
A Igreja, porém, não se relaciona apenas com o setor religioso da vida em sociedade. Ela tem sempre atuado também na economia. Particularmente no passado, sua riqueza repousava em grandes propriedades de terra, já que na terra se achava o grande meio de produção nas sociedades agrárias. Por doações dos fieis – e príncipes, grandes senhores, reis e imperadores se achavam entre esses – foi-se enriquecendo com objetos preciosos de grande valor: monumentos, imóveis, obras de arte, objetos de luxo e dinheiro. Por que o rei Henrique VIII extinguiu mosteiros e ordens religiosas, embora fizesse questão de manter as instituições tradicionais do Catolicismo, como religião oficial do reino e do povo inglês? É que precisava de expropriar os bens da Igreja para fortalecer o combalido tesouro real. Ficou famoso o desfile de carruagens em direção a Londres, carregadas de objetos de grande preço, acumulados ao longo do tempo no famoso santuário de peregrinação, que era Cantuária, desde a Idade Média, particularmente pela santa memória de Santo Tomás Becket, assassinado a mando do rei. Pode-se esquecer que a Reforma achou seu estopim na maldita “venda de indulgências” para financiar as obras da Basílica de São Pedro em Roma? Na atual era do capitalismo financeiro, a Igreja mantém e faz crescer seu capital com investimentos em grandes bancos (a Igreja Romana chega a ter um banco próprio) ou empresas multinacionais, mediante ações e diversas aplicações financeiras, até sob denúncia, de vez em quando, de investir, mesmo sem o saber, em empresas de produção de armas ou produtos poluentes… Dom Helder Camara chegou a escrever em uma de suas “Cartas” que a Igreja cristã está enredada na engrenagem internacional do dinheiro e não se livrará dela, a não ser por um milagre de Deus.
O campo social, ao lado da religião, tem sido privilegiado para a atuação da Igreja. Deve-se mesmo dizer que seu papel aí tem sido benemérito, ocupando-se sobremaneira das categorias menos favorecidas, pobres e miseráveis, justamente “aquelas de que ninguém cuida”. Inúmeras foram as fundações de hospitais, no setor da saúde; de escolas e universidades, no setor educacional; de instituições de assistência social (as escolas de Serviço Social, no Brasil, nasceram da Igreja, assim como foi sua obra de assistência que inspirou o próprio surgimento desse tipo de instituições e de ramo do saber no mundo inteiro), com creches e orfanatos para crianças, abrigos para menores, asilos para pessoas idosas ou abandonadas, leprosários… Sem falar das “irmandades” que funcionavam como “monte pio” cooperativo para garantir auxílio, empréstimos, assistência na enfermidade e, particularmente, em funerais dignos, e nas obras de resgate e alforria de pessoas escravas. Já não era, porém, a partilha e ajuda mútua das origens, como se vê nas comunidades do Novo Testamento, ou o sistema cooperativo dos primeiros séculos, mas eram iniciativas de “assistência”, “obras de misericórdia”, ou “de caridade”, em substituição ao Estado e aos setores da elite social, sendo os pobres “objeto” do cuidado e com o resultado de acomodar os desvalidos e marginalizados ao sistema social vigente, ou seja, margens integradas enquanto permanecem à margem. Devemos reconhecer que, o mais das vezes, havia reta intenção, agia-se com compaixão e solidariedade para com as pessoas necessitadas, mas a partir do lugar das elites ao qual a Igreja tem estado associada. Por isso, quando, na Idade Média, surgiam repetidamente movimentos de rebeldia dos pobres, foram sempre todos combatidos e destruídos, até por meio de Cruzadas convocadas por papas, e de processos da “Santa Inquisição”, a pretexto de submeter hereges, na verdade, gente inconformada com a opressão, ou, se recalcitrantes, eliminá-los.
Finalmente, a Igreja tem estado, permanente e profundamente, metida no setor político, ou seja, implicada nas instâncias de poder. Baste ler a história para perceber isto de maneira claríssima. Enquanto religião oficial do Império Romano, não só obteve imensos benefícios, como também seus prelados ocuparam posições de poder; com a queda do Império, foram bispos que em muitos casos assumiram a liderança para defender a sociedade e reconstruí-la em meio à onda avassaladora das invasões dos povos do Norte, chamados de “bárbaros” pelos romanos; o império franco, de Carlos Magno, foi concebido como restauração do Império Romano, agora ainda mais vinculado à Igreja; depois veio o Sacro Império Romano Germânico, e a Idade Média, com a Cristandade, foi o apogeu do poder eclesiástico, concentrado e simbolizado, particularmente pelo Papa, sobretudo a partir de Gregório VII no século XI, atingindo o ápice com Inocêncio III no século XII a XIII; nas monarquias modernas, foram atuantes nas cortes dignitários eclesiásticos, como conselheiros e até ministros de Estado (pensemos no cardeal Richelieu, na França), reis eram consagrados e coroados por papas e arcebispos, e a autoridade secular era compreendida como “delegada” (“braço secular”) para encarregar-se da “ordem do mundo” em nome de Deus, concretamente, da Igreja; os príncipes eram o laicato representativo. A relação de poder foi tão íntima e forte que a “liberdade religiosa” e a aceitação plena da separação “jurídica” entre Igreja e Estado só foram assimiladas na Igreja Católica Romana no Concílio Vaticano II, nos anos sessenta. Mesmo assim, até hoje, o papa é chefe de Estado, personagem política, portanto, o Anglicanismo é religião oficial do Estado na Inglaterra e só recentemente as Igrejas escandinavas iniciaram o processo de autonomia em relação ao Estado. Informalmente ou mediante concordatas e pactos, e até por meios ilícitos, as Igrejas se mantêm ainda hoje na expectativa de que o Estado as auxilie e subsidie no exercício de sua missão, impondo à sociedade os valores defendidos por elas, ou as favoreça com privilégios, buscados inclusive através de partidos políticos ou da conquista de posições de governo, particularmente no parlamento e no executivo. Baste lembrar, anos atrás, a pressão exercida pela Igreja Católica Romana no Brasil contra a adoção do divórcio, com a eleição de deputados e senadores “católicos”, luta simbolizada por Mons. Arruda Câmara, eleito repetidas vezes ao parlamento. E agora, desde alguns anos para cá, a existência da nem sempre exemplar “bancada evangélica”, movida por interesses corporativos, sedenta de privilégios e “concessões”, a manifestar saudades do regime de cristandade. Não se pode esquecer que, mesmo a Reforma, embora sob o lema da “libertas christiani” (liberdade do cristão), nasceu em aliança com os príncipes e sob sua proteção. A simbiose entre poder religioso e poder político se perpetua a olhos vistos, é só questão de graduação, nuns casos, mais, noutros, menos. Sem falar da simbologia e das insígnias do poder até hoje usadas nas “cortes” eclesiásticas, na etiqueta de tratamento e na própria liturgia.
Temos de reconhecer que a Igreja está no mundo, implicada com tudo o que constitui a sociedade humana e, por isso, não pode evitar ter profunda inserção nas várias dimensões e setores da vida pessoal e social. Acontece, porém, que hoje os instrumentos de análise da sociedade, os meios de informação e a própria evolução do sistema economicossocial, político e cultural tornam mais aguda a consciência do que está em jogo. No mundo eclesial contemporâneo, particularmente no que toca às Igrejas chamadas históricas, dois papas, João XXIII e Paulo VI, por suas análises e testemunho profético, chamaram a atenção para a globalidade e radicalidade da chamada “questão social”. O grande paradoxo é que o mundo se torna cada vez mais rico e, simultaneamente, mais desigual, com pouquíssimas pessoas e povos riquíssimos e inumerável multidão de pobres e miseráveis, inclusive em países de abundância: 20% da população mundial possui 80% de toda a riqueza, o que corresponde a apenas 230 famílias ou a 10% dos lugares mais ricos do planeta. Além do agravamento da crise, ou da “fraude”, como dizem os “indignados” espanhóis, por sua globalidade e radicalidade, a “questão social” transborda no problema ecológico, não só a vida humana está ameaçada pela injustiça, mas a própria vida como tal, na terra, corre sério risco. Tudo isso põe em tela de julgamento a própria civilização ocidental e seu legado, uma civilização que se mostra cada vez mais fundada na violência e no medo.
Essa agudização do problema leva a humanidade atual a uma encruzilhada. A Igreja cristã, toda ela em conjunto, acha-se agora frente a imenso desafio: ou nos mantemos no cordão dos poderosos, que dominam o mundo, e aceitamos, por interesse ou covardia, o sistema estabelecido, ou nos articulamos, no campo do chamado “movimento social”, com as forças que sonham com “outro mundo possível”, e agem e lutam, a partir da consciência de que é “necessário e urgente”. Não há alternativa fora desta mencionada. Não podemos não concordar com a famosa constatação do filósofo e ativista cristão francês, há tempo falecido, Emmanuel Mounier, que marcou profundamente gerações: “Tudo é política, embora a política não seja tudo”. E deveríamos tomar a sério a resposta de Dom Helder Camara, já nos anos sessenta, quando, em entrevista no aeroporto de Paris, se lhe perguntava sobre Ecumenismo: “Quando nós, as Igrejas cristãs, decidirmos levar a sério as preocupações de Deus, que são as questões da vida de Seu povo, teremos vergonha de nossas divisões, pois, então, nos parecerão coisa tão pequenina”.
Se nos aliarmos, ou melhor, se continuarmos em aliança com o sistema estabelecido, significa que aderimos aos ídolos e renunciamos a guardar a fé; se decidirmos que nosso lugar é na corrente da libertação, então, sim, teremos decidido pelo serviço ao Deus vivo, que se exerce no serviço aos vivos, mediante obras de redenção da vida (cf. 10, 10; Mc 12, 1-34: a vinha – o povo – deve ser devolvida a Deus; o Império é o ídolo que se impõe pelo dinheiro e a “imagem”; Deus é o Deus dos vivos; a Ele se serve e obedece mediante o amor ao próximo, pois os dois mandamentos são um só). O Jesus dos evangelhos não nos permite hesitar, o rumo está claramente indicado.
Na Carta Pastoral ao Concílio de 2012, o Bispo anglicano de Brasília, Dom Maurício Andrade, arauto do Evangelho, convocava a Igreja: “Passemos à outra margem”. Propunha às comunidades um processo de edificação de pessoas e de grupos, mediante “ensino e formação”. Chamava a Igreja à “responsabilidade cristã” em vista de edificar comunidades com sólida base material, “para que haja alimento em minha casa”, dizia o profeta Malaquias, ou seja, para que haja meios de manter a comunidade e de subsidiar a missão, sobretudo em serviços aos pobres. Finalmente, propunha o “compromisso com os direitos”, a saber, a diaconia sociopolítica mediante a defesa e a ação de implementar os direitos da pessoa em suas diversas dimensões: os chamados direitos humanos que caracterizam a inviolabilidade da pessoa, os direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais.
III. TRÊS CAMINHOS POSSÍVEIS
A Igreja não tem sistema institucional originariamente definido. Tem, na verdade, seu fundamento na vida e na missão de Jesus, mas Ele mesmo não é seu “fundador”, no sentido de criador de uma determinada organização. Nem mesmo podia pensar nisso, pois a “assembleia do Senhor” era o povo de que Ele mesmo era membro. Não lhe podia passar pela cabeça fundar uma assembleia alternativa, cismática. O que pretendia era desencadear um movimento de radical renovação do povo da Aliança. Assim, a Igreja nasceu do “Movimento de Jesus”, eminentemente profético, fundado em Seu carisma pessoal, tendo em torno de si uma pequena comunidade de seguidores e seguidoras. Com a experiência da morte e ressurreição do Mestre, o antigo grupo se rearticulou, embora não soubesse bem o que fazer, como se vê claramente no final dos evangelhos e nos primeiros capítulos dos Atos dos Apóstolos. Foram surgindo novas comunidades as quais se espalharam e se articularam em sistema de rede, diríamos hoje, sem rígido controle central. Vão experimentando e assumindo paulatinamente modelos institucionais do Judaísmo e do mundo helenista, dependendo do contexto, como vemos nas epístolas. Ao vincular-se ao Império Romano foi construindo um sistema que combinava aristocracia com monarquia, no qual os príncipes e nobres tinham grande poder. Unida ao Estado, tendeu a imitá-lo na montagem da própria estrutura de poder, a ponto de algumas pessoas perguntarem se foi o império que se converteu à Igreja, ou esta que se converteu ao Império. No século XI, prevaleceu o controle do clero, sobretudo do alto clero, e a centralização papal. Nos tempos modernos, quebrada a aliança do clero com as monarquias europeias, o que se expressa na separação Igreja-Estado, vão penetrando lentamente fermentos democráticos. É claro que esse processo de encarnação em modelos políticos oferecidos pela sociedade prosseguirá. Quem sabe, hoje em dia, a influência pode muito bem vir dos modelos de organização da “sociedade civil”, inclusive das ONGs e das articulações do chamado Movimento Popular. Concretamente, parece-me, haveria três caminhos para a Igreja:
1. Permanecer como agência de serviços religiosos, na ilusão de que assim não nos estaremos misturando com o “mundo”, livres de nos meter em política e em economia. Restringir-se ao religioso é fechar-se, acriticamente, na dimensão cultural da sociedade. Ora, já vimos que a religião é o ápice da legitimação cultural do sistema social. E não esqueçamos o axioma: “A cultura dominante é a cultura da classe dominante”, nada é mais evidente, pois essa possui poderosos meios para promovê-la e impô-la. Fechar-se no “religioso” é abandonar o povo a ser presa fácil da ideologia dominante, buscar consolo ilusório face às agruras da vida, manter intocadas as razões da desgraça social, em outras palavras, iludir-se por um mundo fantástico, camuflagem ideológica da realidade quotidiana. Com isso, o serviço que prestaríamos ao povo seria fazer de nossas comunidades, no máximo, apenas espaços de “suspiro dos oprimidos”, assumindo nós a terrível responsabilidade de ministrar “ópio do povo”, degradando a fé a alienação e ideologia legitimadora do sistema de opressão;
2. Adotar o modelo empresarial da atual “religião de mercado”, já seguido em tantas “igrejas de sucesso”, seria, não apenas degradar a fé cristã a ideologia que justifique nossos privilégios econômicos, sociais e políticos, mas cinicamente renunciar a ela. Seria idolatria, mantendo-se o nome de Jesus apenas como pretexto de apelo cultural, já que a cultura de nossa gente ainda é prevalentemente cristã. Na verdade, só estaríamos a enganar o povo, como hoje se vê, com charlatanismo, curandeirismo, exploração da boa fé e da credulidade pública, pastores e pastoras a enriquecer, desbragadamente e cada vez mais, fantasiados de “ungidos louvores” e “palavras poderosas”, coisa que já conhecemos desde a Bíblia nas veementes denúncias dos Profetas (cf. Is 28, 7-13; Jr 7; Os 5; Am 5, 21-27);
3. Adotar, conscientemente, o modelo de organização comunitária na sociedade civil, com objetivos e metas bem determinados no campo social, o que, naturalmente, incidirá nos outros campos, econômico, cultural e político. Isto implica em renunciar, completamente, à imagem medieval de “Igreja sociedade perfeita” que ainda persiste em nossa fantasia, Igreja como mundo à parte, autossuficiente, paralelo à sociedade “profana”, dispondo de todos os meios para promover a religião e seus próprios interesses; em renunciar à falsa ideia de que promover a religião seja nosso objetivo específico, sem perceber que essa é criação humana, necessária em qualquer sociedade, que nela acha a suprema forma de legitimação pela invocação da aprovação divina para o que construímos em nossas relações e estruturas; em convencer-se de que a religião é só um dos instrumentos mediante os quais se pode manifestar a fé, ao lado de tantos outros pelos quais se faz possível a transformação da vida das pessoas pelo amor feito serviço e luta para que haja mais vida em nosso mundo; em renunciar à fantasia de que à linguagem e simbologia religiosa corresponda, como conteúdo, um mundo à parte, que quase não tem a ver com este mundo e esta sociedade, sem perceber que a linguagem religiosa fala, na verdade, deste mundo e, ao expressá-lo simbolicamente, manifesta a dura realidade da vida e também cria espaços de superação, e projeta sonhos nos quais se dizem desejos e utopias, o que faz com que a linguagem religiosa seja eminentemente poética, de lamento, tantas vezes, mas também de louvor, de gratidão, de declarações de amor, de anúncios proféticos e apocalípticos. Implica ainda em convencer-se de que, conforme a Bíblia, sobretudo o comportamento e a palavra de Jesus nos evangelhos, a fé é, antes de tudo, a grande confiança que nos leva à decisão de amar para ir ao encontro das pessoas pobres e necessitadas, e é, por isso, coragem de agir para que sua vida se transforme, não mediante instrumentos de poder opressor, mas pelo poder da consciência que se expressa em denúncia e anúncio proféticos, motivadores da ação; na formação de comunidades de liberdade e participação, espaços onde a solidariedade e a partilha de dons, de serviços e de bens fortaleçam todos os membros e provoque à organização e à luta coletiva; na aliança com todas as forças sociais sensíveis à situação dos pobres e dispostas a agir e lutar para que os valores do Reino de Deus (cf. Gl 5, 22-26) se encarnem nas relações e nas estruturas da sociedade.
Evidentemente, será prioritário cuidar da formação das pessoas para que cada qual, em sua situação de vida, a começar da família e da profissão, em base à visão cristã da realidade, seja agente de transformação nos vários setores de atuação na sociedade: economia, pesquisa científica, saúde, educação, comunicação, ação e serviço social, arte e espetáculo, política partidária, formação da juventude, segurança pública, tarefas de Estado e de governo… Do ponto de vista coletivo e institucional, as tarefas da Igreja hoje têm de ser definidas a partir das demandas prioritárias do “movimento social”, como reforma agrária, povos aborígenes, povo negro, iniciativas de alfabetização-conscientização, proximidade com as periferias para discernir onde atuar, educação política, monitoramento e controle de políticas públicas, trabalho de formação da juventude, problemas como AIDS, drogas, prostituição e violência, educação artística, promoção de formação cultural (cultura da solidariedade, cultura da indignação, cultura da paz e da não violência…), trabalhos educativos com crianças, ação junto a mulheres, a pessoas da terceira idade, etc.

De fato, a Igreja já fez um ensaio dessa nova forma de ser no período das ditaduras militares no Continente, quando foi, de certo modo, empurrada pelos fatos a assumir a defesa dos direitos humanos de gente perseguida e entrar em aliança com as forças de resistência do movimento social popular. Nesse período, quem era perseguido era vigiado, proibido, preso, torturado, exilado, desaparecido ou morto. Agora, trata-se de firmar aliança com pessoas e categorias excluídas, vítimas de múltiplas carências, sob o flagelo da fome, do desemprego, da enfermidade, da droga, da prostituição e da violência, camponeses que perdem a terra ou nunca a tiveram em mãos, moradores das periferias urbanas, povos aborígenes expulsos das terras tradicionais, quilombolas, categorias discriminadas por variados motivos, entre os quais a terrível praga do preconceito de nacionalidade, de gênero, de “raça”, condição religiosa, social, sexual, etc.

Ora, se temos presente o que foi dito acima, já não é mais óbvio o que significa fundar ou implantar uma igreja. A Igreja Católica Romana, por ser tradicionalmente arraigada no país e ainda contar com a maioria do povo, pode continuar na antiga estratégia, praticamente comum até hoje em quase todas as Igrejas: estabelecer um espaço, até de maneira planejada, já que a população tem aumentado e se acha espalhada nas cidades; promover cultos e convidar as pessoas a “assistir” ou, no melhor dos casos, participar; dirigir leitura bíblica, estudo e catequese doutrinal; e, quem sabe, com o tempo, montar algum projeto social, frequentemente de feitio assistencialista.
As “Igrejas de mercado” têm, por sua vez, uma estratégia bem definida: observar a área, promover “pesquisas de mercado”, certificar-se da demanda religiosa local, formar agentes capazes de usar com eficácia técnicas de comunicação, de manipulação emocional e de convencimento, e, assim, pôr em prática uma ofensiva para arrancar dinheiro das pessoas, particularmente de tanta gente pobre, sob o pretexto do nome de Cristo, poderoso para acabar todo sofrimento.
Para nós, da Igreja Anglicana, assim como para outras Igrejas históricas, o caminho tem de ser bem diferente, nem contamos com a tradição, nem há disposição de nossa parte para seguir o modelo das “igrejas de sucesso”. Se queremos nos aproximar de uma comunidade, seja urbana, seja rural, a primeira coisa a fazer, parece-me, é conhecer o território e entrar em diálogo com pessoas da localidade (visitas, leituras sobre a área, entrevistas, pesquisas, identificação de lideranças e de pontos estratégicos de convivência do povo, equipamentos públicos de apoio, políticas públicas em execução, identificação da presença de outros grupos religiosos e de associações comunitárias, projetos sociais já implantados, grupos políticos, etc) e, a partir do conhecimento e desse contacto iniciais, perguntar-nos sobre o que fazer por este povo e com ele. Da observação inicial e da pergunta pelo que fazer, deve surgir paulatinamente a comunidade, conduzida por uma visão, por objetivos claros e por uma estratégia de atuação, de tal modo que o Evangelho signifique realmente uma Boa Nova para a vida do povo, e não simplesmente a chegada repentina de um grupo religioso a mais. Evidentemente, para isso teremos de ter na Igreja uma geração de agentes leigos de missão e de clérigos, além de intensamente apaixonados, muito bem formados, com profundidade espiritual, abertura sociocultural para analisar a sociedade, lucidez teológica e capacitação metodológica (um outro “quadrilátero”). Além disso, é fundamental, como decorre da reflexão anterior, que estejamos em conexão com o “movimento popular” e nos façamos presentes, na cidade, em setores particularmente importantes hoje como campos de missão, quais sejam, juventude, agentes da cultura, meios profissionais, população de periferia, pessoas enfermas (pastoral hospitalar e domiciliar) e presença junto a situações de perda e luto (“pastoral da consolação”), entre outros.

IV. A IGREJA ANGLICANA
A Igreja Anglicana, por sua tradição, índole e jeito de se organizar, deveria estar disposta e preparada para levar adiante o terceiro modelo proposto acima, de inserir-se efetivamente na sociedade civil e articular-se com o conjunto das forças do “movimento social”, que lutam pela transformação do sistema social e internacional de convivência. Para isso, é preciso que tenhamos clareza acerca de objetivos sociais e políticos e dos meios para alcançá-los, sempre no arco da grande aliança do movimento popular, local, nacional e internacional. De outro modo, não passaremos de obstáculo às imprescindíveis mudanças para tornar este mundo melhor para todas as pessoas. Concentrar-nos no setor religioso, já será o primeiro passo decisivo para nos aliar ao que há de mais conservador, retrógrado e opressor. É o triste testemunho que a Igreja tem dado tantas vezes e em tantas épocas ao longo da história.
O modelo descentralizado do Anglicanismo, e de ampla inclusividade e compreensividade, com grande margem de liberdade, participação, solidariedade e consciência de cidadania, possibilita iniciativa e experimentação local. O conceito de “comunhão”, que brota do coração de nossa Teologia e se concretiza em variadas formas de “companheirismo em missão”, já se antecipa ao que hoje se chama de “comunicação em rede”, caracterizada pela diversidade, autonomia, descentralização e interdependência. Precisamos, é verdade, superar os habituais mecanismos de “democracia representativa” de estilo parlamentar burguês ocidental, pelos de “democracia participativa”, mediante processos de formação de consenso coletivo, como o método africano “indaba” que temos conhecido ultimamente na Comunhão Anglicana mundial.
Quem sabe, a diaconia social e política, liderada e apoiada pelo SADD (Serviço Anglicano de Diaconia e Desenvolvimento), estaria destinada a situar-se no centro do trabalho missionário e pastoral da Igreja, assim como em sua expressão litúrgica e teológica. Esta poderia ser a marca da vocação da IEAB: a diaconia sociopolítica como polo de irradiação da ação missionária, da comunhão pastoral, da adoração e da reflexão teológica. Afinal, bem sabemos que as virtudes (“energias”) que nos assimilam a Deus são a Fé, a Esperança e o Amor, “a maior delas, porém, é o Amor” (1Cor 13, 13). Isto quer dizer que a prática do amor (não existe amor teórico), interpessoal e coletivo, necessariamente estrutural, tem de ser o centro da vida cristã, como foi para Jesus. Com efeito, a Fé, que se traduz na Palavra, é a nova visão que brota do Amor e se faz raciocínio na Teologia, é a visão divina, amorosa da vida. A Liturgia tem de ser cantar a Esperança do Amor inquebrantável que nunca desanima, como Deus que jamais desiste de nós. Tenhamos presente o que disse há muitos anos, de modo tão sugestivo, Carlos Barth, tido como o maior teólogo cristão do século XX e, dizem, apresentado por Pio XII, um papa conservador, como “o maior teólogo da Igreja desde Santo Tomás de Aquino”: “A Igreja é conspiração de testemunhas”, contra o sistema estabelecido e sua ideologia idolátrica. A face religiosa da Igreja deve ser assumida , não como conteúdo central de nossa tarefa, mas apenas como moldura e instrumento para dialogar com o povo e, assim, criar ambiente para apresentar-lhe a fé e abri-lo à grande aliança com o Deus vivo, que se revela no serviço aos seres vivos (cf. Ex 3, 7-15; Mc 12 28-34: Lc 24, 5).
De acordo com os evangelhos, no centro do ministério de Jesus, não está a religião nem se trata de observâncias religiosas e rituais (cf. Mc 2, 18-28; Mt 6, 1-18), e sim os gestos recriadores e restauradores da vida (cf. Mc 1, 40-45; 3, 1-6). Sua palavra os explicitam e clareiam seu significado. Assim também tem de ser no ministério da Igreja, no centro, como eixo de tudo, tem de estar a diaconia sociopolítica, pois esta nada mais é que prática do amor compreendido como gesto que vá para além da mera relação interpessoal e alcance a dimensão coletiva e estrutural da convivência em sociedade. Já foi dito que “a política é a máxima expressão da caridade” (Papa Pio XI). É dela, enquanto expressão do amor feito serviço (cf. 1Cor 11-13), que deve brotar a diaconia da liturgia, como cântico de “esperança contra toda esperança” (Rm 4, 18). Liturgia não deve ser outra coisa, senão a representação simbólica, a tradução poética da adoração “em espírito e verdade” (Jo 4, 23), isto é, na liberdade e na prática. Com efeito, na Igreja, o ato religioso do culto tem como devido conteúdo celebrar as obras que Deus realiza em nós e por nossas mãos em favor da vida do mundo, como se dava com Jesus (cf. Mt 11, 25-27). É significativo que “culto” tenha tudo a ver com “cultura”, isto é, a capacidade da pessoa de transformar a Natureza em função de finalidades humanas; que culto tenha a ver com “cultura” entendida como trabalho concreto de cultivo, tanto de cultivo da própria personalidade, como de cultivo do campo; que culto se chame de “liturgia”, isto é, obra do povo e em favor do povo; “serviço” ou “ofício”, a mesma terminologia que designa o trabalho; “adoração”, segundo Jesus, acontece, primariamente, quando “realizamos as obras de Deus”, como vemos nos episódios de levantamento do paralítico, da partilha do pão entre a massa faminta e da abertura dos olhos ao cego de nascença (cf. Jo 5, 20; 6, 29; 9, 4). Se se assume essa perspectiva, sem dúvida, o ministério do diaconato, enquanto ministério de liderança da diaconia sociopolítica, tem de estar no centro da vida e da estrutura da Igreja. A primeira carta de São João foi escrita justamente para dizer que o critério que identifica quem é de Jesus é o amor expresso na prática da vida, ou seja, diríamos hoje, na diaconia que promove novas relações entre pessoas e novas estruturas para a convivência coletiva.
Finalmente, é também do compromisso com a diaconia sociopolítica que surge a diaconia do ensino, ou seja, a leitura e o estudo da Bíblia, a catequese, o “discipulado”, como aprofundamento da prática e da fé cristã, a reflexão teológica, cuja finalidade é aprofundar as razões de nosso engajamento e até de nosso sacrifício e testemunho (martírio) em favor da vida, para que haja, não só coragem, mas também lucidez em nossa prática e, assim, prática e teoria, ação e reflexão, planejamento e análise, componham a práxis transformadora. Além disso, sejamos capazes de “dar a razão de nossa esperança” (1Pd 3, 15) a quem nos olha de fora ou “de longe”. A diaconia do ensino, ou didascalía, diziam em grego, não é outra coisa, senão treinar-se para olhar o mundo com os olhos de Deus, é justamente isto a fé.
É evidente que o grande diferencial, entre nós e toda e qualquer outra organização da sociedade com objetivos semelhantes ou, em certos casos, até idênticos, é a motivação mística, a saber, a fé que nos anima e é a raiz donde brota nossa práxis. Confessamos explicitamente, e é isto o que nos faz ser “Igreja” – “Ekklesía toû Theoû” – que Deus é real, enquanto eterna e perfeita comunhão; que essa comunhão de relações, e não a solidão de Um, é o princípio e o modelo de toda a realidade, particularmente da sociedade humana; que Jesus é o Enviado do Pai e, por Sua prática de vida e mensagem, nos revela que, mediante o dinamismo do amor, é que este mundo tem chance de ser restaurado e até refeito como “nova criatura”; que as obras de amor são as que nos salvam, pois já não são meramente “obras de mãos humanas”, uma vez que o amor é sinal de que nos abrimos à transcendência, jogamo-nos para além de nós, somos salvos(as) do imediatismo e da autossuficiência individualista, como vemos tão explicito na maneira como o livro do Êxodo fala da vocação de Moisés (cf. Ex 1-3) e, assim, nos dispomos a obra coletiva e de longo alcance, que é a libertação, a redenção e a recriação da vida, obra pela qual se consumam a comunhão humana e a criação, não importando as distâncias e as particularidades, pois o agente último e misterioso da plena unidade e do refazimento do mundo é o Espírito Santo de Deus, só Ele, “o que contém todo o orbe da terra”; confessamos ainda que nos sentimos enviados e enviadas por Jesus, “assim como o Pai O enviou”, para perpetuar a “narração” de Sua práxis histórica, por gestos e palavras, a saber, por nossa própria práxis, em cada fase da história, e testemunhar que sonhos e utopias não são invenção de nossa mente “irrealista”, mas fato histórico identificável na vida e na morte de Jesus de Nazaré, e em Sua ressurreição, vitória que resplende na fidelidade de Seus discípulos e discípulas, enquanto se comprometem com novo jeito de viver, que se mostra concretamente no seguimento de um Mestre pobre (cf. Lc 9, 57-58; Mc 6, 6-13; At 4, 32-37), no serviço (cf. Jo 13, 12-18), na partilha de dons e bens (cf. 1Cor 12-14; 2Cor 9; At 2, 42-47), e pela entrega da própria vida para que haja mais vida para todas as pessoas neste mundo (cf. Jo 10, 10; Mc 10, 41-45). Com efeito, “com grande poder os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor”. E como se revelava esse “poder”¿ “Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum (…). Não havia entre eles necessitado algum (…)” (At 4, 32-35).
É esta a visão que nos vem da fé. O tradicional “depositum fidei”, isto é, Trindade, Criação, Encarnação, Ressurreição, ação histórica do Espírito Santo, justificação por graça mediante a fé, Igreja como comunidade de salvação e de testemunho no mundo, o tríplice múnus de profeta, sacerdote e pastor comunicado por Cristo aos membros de Seu Corpo, todo este conjunto que designa a dimensão “sobrenatural” da v ida não é outra coisa, senão o fundamento perene e mais profundo de nossa práxis histórica de amor, desde as relações interpessoais até as grandes ações coletivas de transformação da realidade do mundo em suas várias dimensões, desde a economia até a religião, passando pelas estruturas sociais, políticas e culturais. Se verdadeiramente Jesus é o Senhor, todos os poderes mundanos têm de estar submetidos a Sua soberania (cf. Jo 1, 1-5; Fl 2, 1-11; Cl 1, 15-20; Ef 1 e 2, 11-22; Hb 1, 1-4; Ap 4-5). Ora, a revelação da soberania de Cristo já começa mediante nossa práxis histórica, como confessamos claramente na Grande Oração Eucarística ”A”: “Para que trabalhemos na transformação dos reinos deste mundo no Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo”.
É porque cremos firmemente na dimensão sobrenatural da vida, que nos sentimos chamados(as) a caminhar ( cf. Hb 11-12,4) e agir com a coragem de quem ama, pois “quem ama vence o medo” (1Jo 4, 18). E perseveramos na lucidez da esperança que não desanima (cf. Rm 8, 24-25), pois, “contra toda esperança” (cf. Rm 4, 18-20), sabemos bem em quem confiamos (cf. 2Tm 1, 12). Por isso, para além de todas as aparências, partilhamos a certeza interior de que a vitória, na batalha histórica contra a orgulhosa Babilônia dos impérios do mundo (cf. Ap 17-20), pertence ao Cordeiro que foi imolado (Ap 5, 12). Só há fé quando se a “vive com paixão”, paixão por Jesus e por Seu Caminho, à semelhança de alguém que acha no campo um tesouro ou se depara com uma pérola preciosa e vai e vende tudo o que tem e os compra (cf. Mt 13, 44-46). Em termos práticos, isto significa que uma instância como o SADD se destina a estar no centro do trabalho missionário e pastoral da Igreja, e, assim, irradiar em sua expressão litúrgica e teológica. É, justamente, o que podemos perceber na lógica das 06 Marcas da Missão, indicadas pelo Conselho Consultivo Anglicano há anos, e desdobradas nos “14 Referenciais da Missão da IEAB”.
É óbvio que nem todas as pessoas participarão no mesmo nível e da mesma maneira, mas todas são chamadas a viver a Igreja e sua tarefa de redenção deste mundo com a mesma paixão e a mesma intensidade. Algumas, com mais empatia pelo aspecto religioso da Igreja, se dedicarão a apoiar os projetos da comunidade mediante atitude de simpatia afetiva e pela intercessão, e poderão ser muito eficientes, por exemplo, no âmbito da liturgia e do canto, como expressão dessa nova face da Igreja. Outras, por seus vínculos profissionais e de classe social, poderão ser muito importantes para possibilitar contactos na sociedade e facilitar o acesso a instituições, quer privadas, quer públicas. Outras ainda participarão por generosa oferta de recursos materiais e financeiros. Finalmente, haverá aquelas que estarão na linha de frente da militância cristã e social. O desafio é chegarmos todos(as) e cada vez mais a uma “mentalidade evangélica”, isto é, formada pelos critérios do Evangelho, que seja o fundamento de uma ampla “aliança comunitária”, eclesial, firmada na convicção de que a Igreja é Boa Nova, dom de Deus para os pobres e seus aliados (cf. Mt 5, 1-16), e tem de ser interpelação profética e denúncia contra a omissão de tantos e a perversidade de quem se mantém “indiferente à sorte do povo” (Am 6, 6; cf. Mt 23-25), e até “esmaga sobre o pó da terra a cabeça dos miseráveis” (Am 2, 7). Só assim a comunidade da Igreja será “sacramento”, sinal revelador da presença do Reino de Deus entre nós e em nós (cf. Lc 17, 20-21):

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CONCLUSÃO : A LÓGICA DAS SEIS MARCAS DA MISSÃO:

1. O termo “ekklesía” (Igreja) quer dizer assembleia, povo convocado para estar em conjunto (“com-vocação”). Foi o Apóstolo São Paulo quem o adotou, na época em que designava a assembleia política das cidades grecoromanas, naturalmente, formada por “cidadãos” ricos, proprietários de terra, machos, ou seja, uma “democracia” (sic) aristocrática e patriarcal. Na mente do Apóstolo, em coerência com seu projeto e estratégia de ministério universal (da Palestina à Ásia Menor e daí a Grécia, a Roma até a Espanha), tratava-se de formar comunidades de iguais, pelas quais a sociedade civil internacional, diríamos hoje, se articulasse: judeus e gentios, patrões e escravos, ricos e pobres, homens e mulheres, adultos e crianças… No Primeiro Testamento, falava-se de “qahal YHWH”, “Assembleia do Senhor”, expressão da aliança do povo com Deus e de seus membros entre si. Era, idealmente, o povo livre organizado, em meio ao qual só Deus é o rei, portanto a Assembleia do Reino de Deus. É preciso ter presente que o pano de fundo ou os antecedentes dessa imagem paulina da Igreja se acham no que se propõe na profecia do chamado Terceiro Isaías (cf. Is 56-66), um profeta da corrente do grande profeta Isaías do século VIII a.C., que viveu após o exílio em Babilônia (por volta do século V a.C.), quando o povo procurava se reorganizar na terra, sob o poder dos persas e, em seguida, dos gregos. Ao voltar do exílio, sob a dominação de império estrangeiro, os grupos herdeiros de Isaías já não têm expectativas e nem o desejam, em relação à restauração do trono davídico, como transparece, por exemplo, em profetas como Zacarias e Ageu; nem olham com esperança para o templo (poder sacerdotal), como se vê em Ezequiel e Malaquias. O ambiente popular dos chamados “pobres de YHWH”, que se evoca, p.ex., no evangelho segundo Lucas (cf. Lc 1-2), põe sua esperança no restabelecimento dos vínculos clânicos, comunitários, de mútua assistência, como se buscara viver no período antigo das aldeias tribais de camponeses e pastores, tempo simbolizado na imaginação popular pelos grandes justiceiros, os Juízes e defensores das tribos, e em certas leis de Deuteronômio. Não é por acaso que Jesus escolhe “doze”, justamente para evocar o antigo ideal da igualdade tribal. Por isso, a instituição central já não é o trono do rei, nem o templo, mas a CASA, a rede de casas do povo (cf. Mc 13 1-37: depois de destruído o templo, só restarão a figueira – imagem do povo (v28-32), e a casa (v33-37). O futuro já não estaria, nem no que hoje chamamos de “sociedade política” (o Estado, naquele período a monarquia), nem na teocracia sacerdotal (poder religioso), mas na articulação da sociedade civil. É nesse contexto do que se poderia chamar de “projeto popular” que, por exemplo, a figura da mulher aparece como protagonista, o que a Bíblia documenta, sobretudo sob o gênero da novela: Rute, Judite, Ester, e pondo em evidência personagens femininas como a amada do Cantar dos Cantares, a Sabedoria representada como mulher, Suzana e a heroína mãe dos sete filhos mártires do livro dos Macabeus. Nos evangelhos, de novo as mulheres estão em primeiro plano enquanto discípulas de Jesus, junto com os homens (cf. Lc 7, 36-50; 8, 1-3; 10, 38-42), e primeiras anunciadoras da Ressurreição. Em Apocalipse, o grande conflito que move a história é personificado em duas mulheres, a grande Babilônia e “a mulher” (cf. Ap 12-18) que simboliza o povo fiel (cf. Ap 21).
Na lógica das 06 Marcas, a conversão das pessoas e a formação e o fortalecimento interno da comunidade visam a servir a sociedade mais ampla, ou seja, as pessoas são chamadas a transformar-se em agentes de transformação e o conjunto da Igreja é articulação no seio da sociedade civil com a consciência de ser instrumento da missão de Deus, no seguimento de Jesus;

2. Tendo como fundamento e ponto de partida o “kerygma” (anúncio) e a “metánoia” (conversão, mudança radical de vida, cf. Rm 12, 1-2) – 1ª Marca, dois círculos se desenham, o primeiro em função do segundo: o ministério de amor para realizar a “koinonía” (comunhão, 2ª Marca) está em função do ministério de “martyría” (testemunho) em vista de transformar a sociedade (3ª a 6ª Marcas);

3. No segundo círculo, há claramente uma progressão, desde a solidariedade (relações mais próximas) até as estruturas da sociedade (economia política), a preservação da vida no planeta (ecologia) e a paz internacional (diálogo internacional e não violência ativa);
4. O grande objetivo é o “xalôm”, isto é, a felicidade coletiva da humanidade, com forte acento na harmonia universal (cf. Is 2, 1-5; 9, 1-6; 11, 1-9). Ou seja, o próprio objetivo do Reino de Deus, em suas várias dimensões, desde a economia até a cultura e a liberdade de crer. É significativo que a Epístola aos Efésios identifique o “xalôm” internacional com a redenção revelada em Cristo (cf. Ef 2);
5. É evidente que o “kérygma” implica na “martyría”, pois baseia-se na própria estrutura da práxis de Jesus (“fazer e ensinar”, At 1, 1) e, assim, supõe que evangelizar é, antes de tudo, agir em função de transformar a vida das pessoas (conversão ao amor), as relações entre elas (“koinonía”, “serviços de amor”) e as estruturas da sociedade, desde a base economicoecológica até o poder político a ser exercido segundo a justiça, e a cultura da paz, o cume da realização do amor;
6. Dessa maneira, fica claro que, da 2ª à 6ª Marca, o que se faz é explicitar o sentido mais profundo e mais pleno da 1ª, ou seja, do que é evangelizar: transformar-se (ser evangelizado) pela conversão (metánoia) e pela a comunhão (práxis da “koinonía”) e transformar (evangelizar) pelo testemunho e pela palavra (práxis da “martyría”). Processo literário semelhante, encontramos na estrutura das Bem Aventuranças, nos evangelhos de Mateus e de Lucas, onde as demais explicitam e aprofundam a 1ª, da felicidade dos pobres (cf. Lucas), e da felicidade dos pobres e também de quem opta solidariamente por sua causa (cf. Mateus);
7. O Arcebispo Rowan Williams resumiu, de maneira lapidar, todo o conjunto das 06 Marcas da Missão, com duas frases que, segundo ele, são as duas perguntas que nos são feitas perante o julgamento de Deus: “anunciar o Evangelho” (1ª e 2ª Marcas) e “servir os pobres” (3ª a 6ª Marcas), as duas dimensões básicas e totalizantes da Igreja, não paralelas ou sucessivas, antes, uma implicada na outra, exatamente porque são as duas dimensões simultâneas da práxis de Jesus: o ensinamento (teoria ou “prática do coração e dos olhos”) e os “sinais” ou obras poderosas (“prática das mãos e dos pés”) – “ensinamento com autoridade” (Mc 1, 21-28), como é o dinamismo do “dãbãr” (“práxis”) de Deus (cf. Comentário Bíblico Latinoamericano, Marcos. São Paulo, Fonte Editorial, 2012, pg 73-80).
8. É freqüente ouvir falar de “missão” como se fosse uma tarefa determinada da Igreja, entre outras. Até em documentos se lê, por exemplo, o binômio “evangelismo e missão”, como duas tarefas principais e complementares. Ora, como vimos, conforme a lógica das “Marcas da Missão”, a única tarefa da Igreja é “proclamar as boas novas”, ou seja, evangelizar, mediante gestos e palavras. De fato, é pela própria maneira de ser comunidade fraterna (2ª Marca), pelo testemunho público em favor da transformação da sociedade (3ª a 6ª Marca) e pela palavra (1ª Marca) que a Igreja anuncia o Evangelho. O serviço ou diaconia não é uma tarefa a mais, mas o método de exercer toda a tarefa de evangelização: diaconia da Palavra, diaconia da Liturgia, diaconia da Ação sociopolítica. Tudo na Igreja deve ser exercido pelo método do serviço. Missão é, objetivamente, a ação de Deus de enviar em Seu nome, já que se trata da descida de Deus através de nós (cf. Ex 3, 7-15; Is 6, 8); subjetivamente, é a consciência que temos de ser pessoas enviadas a realizar no mundo a tarefa do próprio Deus e em Seu nome, de ir em nome de YHWH e de Jesus (cf. Ex 3, 7-12 e Mc 3, 13-19). Em resumo, envio é a relação fundante; evangelizar é a única tarefa a realizar, mediante gestos e palavras; dicaonia é o método de todo o agir da Igreja.

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Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema "Evangelização", convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social ("Casa Ecumênica - Crer & Ser") com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.