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Anglicanismo no Brasil: “Igreja” ou Comunhão de “Mosteiros”?

O Sr. Bispo da Diocese da Amazônia, Dom Saulo Barros, de vez em quando, nos alertava sobre a necessidade de rever as estruturas da Igreja. Somos uma Igreja pequena espalhada pelo país, mas com um modelo de organização convencional e “pesado” para o tamanho que temos. Não seria necessário, perguntava com insistência, simplificar nossa organização, torná-la mais leve e adequada a nossa realidade no Brasil? E a pergunta tinha também outra face: Não seria preciso colocar todo o foco na formação de comunidades fraternas e fortes no testemunho, particularmente tendo em consideração que nossas congregações são grupos relativamente pequenos, em sua maioria?

Eu acrescentaria outro tipo de consideração. A referência “Igreja” tem-se tornado cada vez mais problemática. Primeiro, pela grande diversidade. Já não temos, como antigamente, grandes blocos claramente identificáveis: o mundo das chamadas “Igrejas Orientais Antigas”, como a Copta (Egito) e a Etiópica; as chamadas “Igrejas Ortodoxas”, ligadas aos antigos patriarcados do Oriente: Constantinopla, Moscou, e patriarcados menores da Europa do Leste; a Igreja Católica Romana; as Igrejas Luteranas; as Igrejas Presbiterianas; a Comunhão Anglicana, derivada da Igreja da Inglaterra e da missão colonial britânica na África, na Ásia e no Caribe, e, mediante os Estados Unidos da América do Norte, chegada a nosso continente; e outras menores oriundas da Reforma; e mais recentemente o bloco pentecostal, destacando-se em nosso meio a Assembleia de Deus. Agora já não é assim. Com o chamado Neopentecostalismo, ou melhor, Postentecostalismo, temos chegado a uma quase absurda diversificação da Cristandade, além da surpresa de topar no ambiente tido como cristão com complexa e até escandalosa “religião de mercado”. Alguém poderia até chegar a dizer que hoje a coisa mais fácil é estabelecer uma “bodega (ou supermercado?) de religião”... e que rende consideravelmente, a olhos vistos.

Nesta situação, meditar sobre nossas origens pode ser inspirador. A Professora  Vera Lúcia Simões de Oliveira é há muitos anos docente de História do Anglicanismo em nosso Seminário. É coautora do livro “Nossa Identidade – História e Teologia Anglicanas”, publicado em 2012. Também pela “Fonte Editorial”- São Paulo, publicou recentemente dois volumes, um de “História do Anglicanismo” – Igreja da Inglaterra”, outro de “História do Anglicanismo” – Estados Unidos da América do Norte”. No momento prepara a edição da História do Anglicanismo no Brasil. Em artigo, oferece-nos agora um texto de memória histórica preciosa. Mostra a importância da vida monástica como elemento formador da identidade anglicana. Ainda hoje temos em nossa liturgia o costume do chamado “Ofício das Horas”, criado pelos mosteiros como sinal da consagração da jornada diária. Foi em torno dos mosteiros que muitíssimas de nossas comunidades se formaram. Os mosteiros foram, quem sabe, mais importantes do que as “paróquias” como berço da Igreja. Não é por acaso que as três grandes figuras simbólicas do Anglicanismo sejam justamente três santos monges missionários: Agostinho de Cantuária (Inglaterra), Columba ou Columbano (Iona, Escócia) e Patrício (Irlanda). A imagem de “igreja” tem estado tão desgastada que, quem sabe, deveríamos buscar inspiração nessa tão gloriosa origem. Seria desproposital imaginar o Anglicanismo no Brasil como uma comunhão (articulação) de pequenas comunidades que, à imagem dos mosteiros, fossem verdadeiramente “escolas de serviço do Senhor”? Assim, São Bento queria os mosteiros, comunidades que se caracterizassem como “escolas”, a saber, pontos de reunião para aprender a servir o Senhor na jornada de cada dia: convivência, trabalho, estudo e oração. Desse modo, conseguiu fundar uma verdadeira “sociedade” alternativa ao Feudalismo medieval. Nessas pequenas comunidades, quem sabe, poder-se-ia formar um povo relevante para contribuir com a vida do país: um povo preparado espiritualmente na “mente de Cristo”, firme nos critérios do Evangelho; profundo em sua formação teológica; politicamente lúcido na análise da sociedade; metodologicamente capaz de agir em conjunto com as forças que buscam a transformação desta sociedade de opressão. Não basta ser “uma Igreja”, é preciso saber “por que” e “para que” somos seguidores e seguidoras de Jesus, a serviço da redenção deste mundo, mediante a solidariedade, a luta pela justiça e o cuidado com a vida, a começar do zelo pela criação de Deus. Só assim estaremos contribuindo para que se estabeleça o Xalôm, a Felicidade humana numa terra fraterna.

                                                         Os celtas e a Igreja Anglicana

                                                                                                        Vera Lucia Simões de Oliveira

Introdução – Antes de falarmos na relação celta e sua Igreja Anglicana, queremos identificar um pouco a cultura celta. Havia uma prática entre os antigos greco-romanos de usar as expressões Keltoi, Galli e Celtae para identificar povos diferentes. Posteriormente, linguistas se apropriaram destas expressões para identificar um grupo de povos que usavam e ainda usam uma “família celta de línguas”. Dentre esses povos, nós encontramos os da Irlanda, Escócia, Gales, Britânia (nome dado à atual Inglaterra, enquanto província romana, durante os séculos I e IV da nossa era), Cornuália, a ilha de Men (no litoral inglês) e até a Galícia, região da atual Espanha. É curioso, no entanto, que enquanto a cultura celta estava em seu auge nas Ilhas Britânicas (no período de tempo mencionado acima), os povos de então não se identificavam entre si como Celtas. Isto também é um fenômeno referente a outros povos do fim da Idade Antiga e início da Idade Média, ou seja, essa falta de identificação entre eles, como hoje são conhecidos. Foram os historiadores que, analisando diferenças e semelhanças entre várias culturas daquela época, estabeleceram essas denominações para distingui-las uma das outras. E esses estudos mais aprofundados destas características culturais, que passaram a identificá-las, só aconteceram a partir do século dezoito, quando a História começou a ser reconhecida como ciência.  Isto aconteceu porque os estudiosos precisavam definir, com uma certa precisão, o que era característica cultural de um e de outro povo (dentre essas características leia-se espaço geográfico ocupado, linguagem, estilo artístico, tempo, etc.).

Os povos mencionados acima com a denominação celta, não podem ser considerados como uma unidade única cultural. Embora haja semelhanças entre eles, todos experimentaram diferentes fatos históricos e tiveram que “negociar suas próprias identidades com respeito aos povos dominantes em seus dias”, inclusive suas experiências de espiritualidade. A própria Igreja Celta, da qual zelamos, nos dias de hoje por sua identidade, não deixa de ser um ramo da experiência da Igreja Cristã unida em seus principais elementos, sendo a questão entre as então tradição romana e tradição celta, mais o resultado de uma competição pelo poder entre diferentes centros de expansão cristã ( na época – século VII – a quem obedecer, a Roma ou Iona?).istória começou a aparecer no cenário das ciências como tal. Há autores que, inclusive, num certo exagero purista por encontrar uma definição mais exata sobre o Cristianismo daquela época, dizem que a Igreja Celta, como tal, independente, com organização própria, etc, era só um acidente, mais geográfico do que cultural, portanto, um mito. Esse exagero também pode se dever ao fato de que alguns/as eruditos/as não querem qualquer possível associação entre as práticas da chamada Nova Era, que tem, entre seus conceitos, semelhanças com as culturas celtas, e a Igreja Anglicana, que por parte deles, não pode ser confundida com práticas não cristãs. Não me encontro em nenhuma dessas posições. Penso que a antiga Igreja Celta tomou a sua forma própria, como tal, na era romana, devido ao contexto geográfico (isolamento, poucas áreas urbanas), cultural (experiência religiosa pagã na forma de druidismo, que depois foi moldada pela experiência cristã através dos mosteiros e seus abades, tendo o bispo apenas uma função pastoral), ambiental (valorização do espaço aberto, cruzes espalhadas pelos campos, como possíveis centros de reunião, além do relevo e da vegetação que também eram importantes para sinalizar locais de culto), bem como a prática de um rigoroso ascetismo, herdeiro da primitiva forma monástica da Igreja da Síria e Egito, das quais a Igreja Celta bebia em seus fundamentos, entre outras características próprias. E essa Igreja Oriental, separada da autoridade romana, não era um mito, e exercera importante papel na formação do Cristianismo. Portanto, a Igreja Celta, embora um ramo da unidade cristã,  tinha a sua experiência particular de Cristianismo e, sim, a luta pelo poder foi uma circunstância que a abalou profundamente.

O transcorrer da Igreja Celta

Na medida em que a história acontecia, tivemos muitos acontecimentos importantes circundantes ao Cristianismo. Um deles, talvez o mais importante, fosse a existência do Império Romano, que desde a era não cristã, se expandia graças às suas legiões de generais eficientes e bravos soldados, além do seu maquinário de guerra, avançado para aqueles tempos. Num determinado momento, eles dominam parte das Ilhas Britânicas ( anos 50-60 a.C até a metade do século I da Era Cristã). Os generais romanos levaram cerca de 100 anos para conquistar as tribos celtas- britânicas. Mais tarde, foi feita, inclusive uma muralha a nordeste, separando os territórios romanizados celtas, dos da atual Escócia, na época, dominados pelos escotos. A Escócia e a atual Irlanda nunca foram conquistadas pelo poderoso império da época. O terreno difícil as protegia, o sistema de guerrilhas funcionava muito bem contra invasores, o clima era difícil e os romanos nem tentaram dominá-las.

A chegada dos primeiros missionários cristãos na atual Inglaterra encontrou um povo belicista (os celtas), mas que já tinham apagado o seu ardor guerreiro, nas lutas vencidas pelos romanos. O processo de cristianização realizou-se aos poucos, e por volta do século II a.D., já havia menção aos cristãos da Britânia em literatos da época. A participação de bispos cristãos em concílios e alguns sínodos do século IV mostra, inclusive, uma certa organização eclesiástica. Essa primitiva Igreja Cristã Celta era pobre e despojada. Seus bispos viajavam para as reuniões conciliares  às custas do Império Romano, o que já demonstrava um traço típico da organização celta: a humildade. Mais tarde  (por volta do século V a.D), o Império Romano, na sua parte ocidental, teve a sua unidade quebrada e seu poder centralizado no Imperador eliminado, por invasores do leste, vindo de dentro da própria Europa. Eram os povos, chamados genericamente de germânicos, germanos ou bárbaros, porque não cultivavam a civilização greco-romana, urbana, mas viviam nas florestas, sem unidade administrativa, sendo seus chefes os da tribo em que se dividiam, e acostumados à guerras constantes entre si. Eles entraram de roldão na parte mais civilizada do oeste, e destruíram o que viam pela frente: casas, igrejas, mosteiros, palácios, pontes, etc. E pessoas. Milhares foram mortas, e o mundo ocidental viu o Império Romano ruir antes os olhos dos sobreviventes. Mas a Igreja Cristã ficou de pé, embora bastante abalada em suas estruturas. Também isso aconteceu na atual Inglaterra. Os sobreviventes de lá, no entanto, tomaram outra atitude: fugiram para as regiões montanhosas de Gales e da Cornuália, onde se esconderam e sobreviveram, e, acima de tudo, não desejavam fazer missão ante os invasores. Posteriormente, essa atitude levou ao fim da Igreja Celta Britânica antiga. Nesse meio tempo, missionários britânicos tinham ido para regiões da Escócia e Irlanda, particularmente Nínian e Patrício. Eles atuaram pouco antes das invasões e conseguiram cristianizar parte do povo daquelas regiões, até, também, no mesmo exemplo dos romanos, porque elas não tinham sido invadidas. Mais tarde, outros evangelizadores, como Columba, também trabalharam nestas regiões mencionadas, e a fé cristã, no modelo celta, se espalhou, através da atual Irlanda e da Escócia, enquanto no Império Romano ocidental só havia sobras de uma Igreja Cristã(esta, de tradição romana, em sua maior parte).

Com o tempo, o ocidente aos poucos vai se estabilizando e, com isso começa a fazer missão cristã, através de seus monges, principalmente beneditinos. O bispo de Roma havia adquirido poder extra-muros, e comandava grande parte da Igreja Ocidental, uma Igreja que tinha se sustentado por sua disciplina e organização. Da mesma maneira, na parte insular do extremo oeste da Europa, o trabalho missionário celta avançava, indo, aos poucos, atingir parte dos sete reinos anglo-saxões e juta que tinham se formado, pós invasão. (Justamente aqueles povos que os antigos celtas britânicos se recusaram a fazer missão entre eles, que  formaram, depois da conquista do território britânico, uma Heptarquia pagã, que adorava as divindades germânicas).

Quase paralelamente, missionários de tradição romana, a mando do papa Gregório I, liderados por um monge beneditino Agostinho, iniciam sua jornada para atual Inglaterra. Ela só se completou em 597, depois de vários incidentes, e atingiu o reino juta, mais próximo da Europa, e onde havia uma princesa cristã que se havia casado com o rei pagão, do reino de Kent. Em uma cidade de Kent, Cantuária, Agostinho sediou seu trabalho, construiu edificações que precisava, e cristianizou o rei e, praticamente, todo o povo. De Cantuária, Agostinho mandou missionários para outras regiões, mas não teve tanto êxito. Enquanto isso, os missionários celtas faziam seu trabalho de cristianização a partir do sul da atual Escócia e do norte da atual Inglaterra. O reino da Nortúmbria (anglo) foi cristianizado por eles, com o apoio do rei e seus sucessores. Também eles fundaram nas costas da Escócia, dois mosteiros que foram centros irradiadores de missão, Iona e Lindisfarne. Nesses dois mosteiros e em outros, os abades regiam todas as situações administrativas da Igreja Celta e em alguns, os bispos residiam neles, para saírem juntos com os monges, a fazer missão. O bispo era, pois, um líder pastoral e espiritual, e não administrativo.

Com o andar do tempo, as missões célticas floresciam, mas as romanas, muitas vezes, passavam dificuldades. Por que? Será porque elas aconteciam em nome de um príncipe estrangeiro, o papa de Roma, será porque desconheciam o caráter celta de ser, será porque empunham uma autoridade com costumes estranhos aos poucos sobreviventes celtas romanizados e pagãos invasores de algumas regiões da atual Inglaterra? Não há uma resposta clara para estas perguntas. O certo é que, enquanto o trabalho celta se desenvolvia com relativa facilidade, o romano passava mais dificuldades para se afirmar. Houve casos, inclusive, de novas expedições missionárias em alguns reinos, para que a tradição romana se fortalecesse.

O ano de 663 foi vital para o futuro da Igreja Celta. Como falei no início, a questão do poder e da autoridade máxima estava em pauta, nas murmurações das pessoas e das autoridades, de um e outro lado. Então, um rei criado na tradição celta da Nortúmbria, Oswy, resolver convocar um sínodo em seu reino, para decidir a questão. Roma ou Iona? A reunião se deu numa abadia liderada por uma mulher, a futura Santa Hilda e abadessa de Whitby. Estavam presentes líderes celtas e romanos, a abadessa e o rei. Ele presidiu a reunião e, apresentados os argumentos de um e outro lado, Oswy decidiu-se por Roma. Assim, o seu reino, o mais importante da época, dos sete da Heptarquia, passou a seguir a tradição romana; outros reinos, já tinham sido recristianizados sob essa tradição e, com os tempos, os reinos de tradição celta remanescentes também optaram por Roma. A partir daí, a Igreja na Inglaterra passa a ser romana e a maneira celta desaparece, aos poucos, enquanto sistema, hierarquia, e poder. Permanece, no entanto, na memória dos que tinham sido cristianizados por eles, reminiscências de uma Igreja profundamente mística, devocional, onde os monges eram amados profundamente pelas comunidades que visitavam, e os bispos exerciam o poder de uma forma suave e agradável. Cabe aproveitar o fim desse parágrafo para retomar uma informação sutilmente passada nas frases acima – a ideia de uma abadessa chefiando um importante mosteiro, o de Whitby. Hilda liderava um enorme convento, para ambos os sexos; portanto, ela liderava homens e mulheres. E não nos esqueçamos da importância que o abade tinha na estrutura eclesiástica celta. Há evidências, também, que mulheres teriam chegado até o sacerdócio, naquela região. Isso é um outro traço da cultura celta influenciando a Igreja, já que, na tradição pagã, as mulheres eram sacerdotizas e, ainda, a divindade maior era feminina: a Mãe Terra, responsável pela agricultura, fecundidade, ou seja, tudo o que nascia. O culto à Mãe Terra era o mais importante de todos, além de haver várias outras divindades femininas, bem como masculinas. Não há evidências de que o episcopado tenha sido exercido por uma mulher, na Igreja Celta.

A tradição e a influência celtas

Voltando à era pré-cristã nos domínios celtas, eles se espalharam por toda a Europa, deixando traços de sua cultura por onde passaram, mas se fixaram, mesmo, nas Ilhas Britânicas, em partes da Espanha do norte e numa porção  oeste da antiga Gália, atual França. Nessa época, já se iniciava o processo político e cultural da dominação romana naquelas regiões, que, como já foi referido, durou cerca de cem ano de conquista. No entanto, divididos em suas tribos, os celtas tinham uma organização política-administrativa típica dos povos iletrados da Antiguidade: possuíam seus chefes, grandes guerreiros (assumia-se o poder pelas qualidades de força, táticas de guerra e chefia), os druidas, sacerdotes de vital influência na vida da tribo, os bardos, uma espécie de poetas-cantores, destinar a exaltar as conquistas dos chefes, os chefes militares e o povo. O druidismo foi uma força das mais poderosas nas tribos guerreiras do período. Nada se fazia sem consultá-los, matavam pássaros para ver suas entranhas e decodificar os presságios que se apresentariam para o futuro do evento em pauta, geralmente, lutas. O modelo do druidismo aconteceu em todos os povos da Antiguidade, fossem eles pertencentes a rudes tribos, ou ao poderoso exército romano. Mesmo a cultura grega, tão adiantada para a época, tinha os seus druidas, na forma de homens ou mulheres, as pitonisas e os homens, sacerdotes. Eles proclamavam augúrios ou revelações do futuro, sempre examinando sinais os mais estranhos, de acordo com o costume do povo em pauta. Na língua italiana, como um reflexo dessa experiência, quando se deseja votos de felicidade para alguém, usa-se a palavra “auguri”, ou seja, bons augúrios.

Uma característica importante da cultura celta, no início, é que ela era oral, ou seja, não havia o uso da escrita. Todo o conhecimento era passado para as novas gerações, geralmente pelos pais e, particularmente, pelos druidas, no sentido de dar uma uniformidade ao conteúdo da história e cultura da tribo. Por isso, os druidas eram tão considerados. E, muitas vezes, eles se aproveitavam dessa situação de serem os mestres da cultura do seu povo, para assegurar seu lugar de importância na tribo. E, de um modo geral, o fenômeno do druidismo era, geralmente, hereditário, consistindo-se eles uma casta importante em seu grupo. O pai passava para o filho mais velho os segredos do seu poder. Esses segredos constituíam uma concepção cosmológica da tribo, um conhecimento genealógico e legal de suas origens, muitas vezes repassados de forma poética, para facilitar a memorização. De modo algum, era um conhecimento filosófico que os celtas cultivavam, mas, simplesmente, uma maneira pragmática de explicar os mistérios da vida. Alguns desses traços culturais vão aparecer, mais tarde, na prática religiosa cristã celta. Outro exemplo era o castigo do isolamento. Júlio César conta que, em sua campanha inicial de conquista dos celtas, certa vez, viu um homem ser castigado com a condenação de uma vida solitária e isolada, por ter compartilhado sacrifícios com os romanos. O banimento foi a sua condenação.

Outra marca de sua religião era a de que ela se constituía como um fenômeno individualizado. As divindades eram adoradas, geralmente vinculadas a um certo local, pelo grupo pertinente. Isto chocou muito aos romanos, quando chegaram, pois os celtas, com a maior naturalidade, se reuniam às margens de um rio, mar ou lago, ou a redor de uma árvore. A natureza constituía, para eles, uma fonte prazeirosa de referências cúlticas. Isto tudo vai marcar, posteriormente, a sua experiência, quando convertidos ao Cristianismo. Mas, deste fato, deriva a idéia de que Deus falava com eles em qualquer lugar, principalmente relacionado com a natureza. Em outras palavras, a sua concepção de cosmos incluía a ideia de que o ambiente, o local onde se reuniam, fazia parte do diálogo dos seres humanos com Deus. Era como que um certo panteísmo. Assim, como para os antigos hebreus, Deus se manifestava de qualquer maneira, em qualquer parte, dialogando com seu povo.

Quando eles assumem seu papel na experiência cristã, muitos desses traços culturais aparecem, alguns de forma velada, outros, de modo mais explícito. Não foi mencionado, ainda, o valor que a mulher tinha na religião e sociedade celta. Havia mulheres, consideradas separadas, que praticavam o método dos augúrios, como os druidas. Geralmente, eram idosas e tinham uma vasta experiência na vida do grupo. Não viviam em cabanas comunitárias, mas em lugares isolados, onde realizavam suas práticas, muitas delas de aconselhamento, cuidando e meio que protegendo a tribo. Suas maldições, quando aconteciam, eram temidas por todos, até os mais poderosos. Mais tarde, na experiência cristã, fala-se, até, em mulheres sacerdotes. Uma das mais importantes santas do repertório inglês era uma mulher, Brígida. Sua cruz tem um formato bem diferente.

O Cristianismo celta absorveu algumas dessas características e, até, as desenvolveu. A marca do isolamento foi uma delas. Mas era um isolamento comunitário, severo, ascético, vivido em pequenos mosteiros, erguidos no meio do nada, pequenas construções de madeira, com o mínimo para a sobrevivência. O abade detinha os poderes administrativos do trabalho monacal, cuidando da organização, da ordem, da disciplina, do trabalho missionário. Para se ser abade, não havia necessidade de ser sacerdote (reminiscência da autoridade druídica?), mas conhecer o seu trabalho e ter capacidade de liderança (semelhança aos chefes da tribo?). A Igreja Celta aceitava as 3 ordens sacerdotais, mas o bispo não tinha função administrativa, só pastoral. No mosteiro, o abade era superior a ele. No campo missionário, a autoridade estava com o bispo. Era uma separação de poderes semelhante aos chefes da tribo e os druidas. Na verdade, na medida em que foram se constituindo as dioceses, na segunda evangelização da atual Inglaterra, os limites das dioceses eram os limites das antigas tribos britânicas. Só que, após a invasão anglo-saxônica, os sete reinos dominavam politicamente o país. E a Igreja tinha uma organização administrativa diferente, ao lembrar as velhas tribos celtas, e não considerar os limites dos sete reinos que se formaram. Assim, uma diocese podia estar localizada em mais de um reino. Era a velha divisão de poderes entre a fé e o poder político, pois a Igreja não considerava o segundo como um item a ser observado para a sua organização, bem diferente da tradição romana. A unidade da Igreja, no futuro, foi conseguida antes da unidade política. E isso não era celta, mas romano. Os celtas não tinham, enquanto Igreja livre, um poder superior, como o do papa, por exemplo. Na verdade, como já vimos, o poder era dividido entre o bispo e o abade, e ainda, isso acontecia localmente. Sei que o contexto histórico é completamente outro, mas ousaria dizer, fazendo um paralelo com outras denominações de hoje, que os celtas, enquanto cristãos, seriam  de uma tendência “congregacional”.

A Igreja Celta se caracterizou pela sua ardente experiência devocional. O próprio meio rural onde se estabeleceu convidava para isso. Não era incomum se encontrar monges e até abades fazendo penitências dolorosas nas águas frias do Mar do Norte. Muitos abades construíam celas para passarem um tempo longe do mosteiro, em solidão e meditação. O mesmo acontecia com os bispos. Era como se a antiga experiência dos monges do deserto sírio e egípcio estivesse se repetindo, lá no extremo nordeste da Europa. Os monges irlandeses faziam longas caminhadas a pé, em suas expedições missionárias, recordando em voz alta os salmos e partes da liturgia, como uma maneira de fixar esse conhecimento. Era a velha tradição oral que existia antes, com uma nova roupagem.

A questão da vida em contato com a natureza também não se perdeu. Era comum os cristãos orarem ao ar livre, ao redor de grossos troncos de carvalho, árvore comum naquela região, à beira de lagos, em pequenas elevações do terreno, etc. E deixaram marcada a sua presença com a chamada cruz celta. Ela é formada de 2 hastes , uma maior, a vertical, e a outra menor, a horizontal. Na intersecção entre as duas, era colocado um círculo, de tamanho suficiente para abraçar as quatro partes que  ficavam formadas, com o entrelaçamento das hastes. Por todas as Ilhas Britânicas encontram-se, espalhadas pelos campos, cruzes no modelo celta – as duas hastes e o círculo, que representa a eternidade. Quando se viaja de trem pelo interior da Inglaterra, vê-se, da janela do mesmo, igrejas em estilo normando e as cruzes isoladas. O mesmo deve acontecer em outras partes das Ilhas Britânicas.

Uma característica celta que a Igreja da Inglaterra está custando a incorporar, na sua liderança, é a plenitude das ordens para as mulheres. Em outras partes da Comunhão Anglicana isso já aconteceu, mas não na velha Albion, ainda.

Mas o norte da Inglaterra ainda está cheio do espírito celta. Ele é composto, administrativamente, pelo Arcebispado de York. Tive a oportunidade de conversar com duas pessoas, bem diferentes uma da outra, em épocas bem separadas no tempo, ocasiões em que elas afirmavam a mesma coisa. Diziam essas pessoas (um bispo inglês, nortenho, e uma clériga brasileira, que trabalha  numa diocese do norte) que no Arcebispado de York respira-se, ainda, a espiritualidade celta. Para essas pessoas, e, acredito, muitas outras, a devoção e a espiritualidade são bem latentes entre o povo anglicano; são comuns peregrinações ao ar livre, muitas vezes à noite, com orações e plegárias do tempo antigo, a prática de litanias que remontam aos monges irlandeses, que ficaram famosos na Europa de Carlos Magno, por seu conhecimento teológico e seu ardor místico, a música que eleva o espírito, mesmo que composta nos dias atuais. Isto não quer dizer que no Arcebispado de Cantuária (do meio para o sul da Inglaterra) não se possa viver climas de espiritualidade. Eu mesma tive uma experiência deslumbrante e emocional, ao passar alguns dias, numa conferência, no ambiente da Catedral de Cantuária. Eu a tinha a minha disposição todos os dias, e fazia parte do programa experiências raras, para mim, de início de quaresma.  Isto mostra, como em certo sentido, uma liturgia que toque os sentidos ainda é pobre em nosso país, como um todo, embora as devidas exceções. E vivenciei isso em Cantuária, a sede do poder da Igreja da Inglaterra. E não foi numa Conferência de Lambeth, mas numa reunião de mulheres anglicanas, que atuavam ou ainda atuam na área da formação teológica. Para mim, pessoalmente, sinto-me, no ambiente da Igreja, como os antigos celtas – não gosto do barulho exagerado, mas de músicas alegres; não gosto de excesso de bateria ou instrumentos muito ruidosos, mas adoro um órgão tocando, que lembre um órgão de tubos, e, especialmente, das flautas suaves; gosto muito, também, da espiritualidade de Taizé, nas suas letras e melodias harmônicas e suaves. E, sim, adoro simplicidade nos celebrantes, até nas suas vestes. Também gosto de “decência e ordem”, como diz o nosso Livro de Oração. E gosto de me sentir incorporada na liturgia, acompanhando o rito e cantando hinos da velha tradição cristã, desde que tenham uma melodia bela e uma teologia que fale de mim, do meu próximo e, acima de tudo de Deus, na sua forma trinitária, embora não dispense a novidade dos cancioneiros atualizados. Além disso, adoro belos corais, como os anglicanos. Sou bem conservadora, mesmo, aos olhos de muitos, em termos de liturgia.

A vida monástica celta ainda permanece viva, hoje, em mosteiros anglicanos, por todo o território da Igreja. O Revdo. Dessórdi Leite, de minha diocese, fez uma experiência em um mosteiro galês. E me disse que foi como se voltasse ao passado. Silêncio, estudo, devoção e trabalho. Como nos primeiros tempos. E, ainda, inserção na comunidade. Essa é uma coisa que diferencia o movimento monástico anglicano de muitos outros. Embora exista o isolamento, ele serve como experiência alimentadora, para depois sair ao mundo e revelar a boa nova. Quando Agostinho, o futuro primeiro Arcebispo de Cantuária, deixou a Itália para evangelizar, com seus 40 monges, o reino de Kent,  não  sabia como agir no mundo que o cercava, porque estava acostumado a viver no ambiente fechado só do claustro. Os abades celtas nunca teriam essas dificuldades. E os monges anglicanos também não a tem.

O que resulta importante de toda essa experiência contada, é que ela não sofreu solução de continuidade, com exceção do período do rei Henrique VIII, que mandou fechar os mosteiros da Inglaterra para se aproveitar dos seus recursos. Sua filha Maria reabriu-os, mas Elisabete I repetiu o ato do pai. No entanto, no século XIX eles voltaram com toda a força e hoje, homens e mulheres que se dedicam à vida monástica, à oração, ao trabalho e à educação dos mais jovens, devem muito à experiência celta. Suas orações estão impregnadas das ênfases que os celtas tinham da natureza, seus cantos exaltam a grandeza de um Deus compassivo e companheiro de seu povo. Não de um Deus distante. A experiência celta, que a Igreja ainda mantém, não passou pela experiência da Reforma, no sentido de pragmatizar o misticismo. Whitby, Lindisfarne e Iona, entre outros, ainda são locais de devoção e oração, abertos, inclusive, ao laicato que os procuram. Há programações para isso. Igrejas, como a de Coventry, no norte, destruída pela segunda guerra, foram reconstruídas com o dinheiro do povo. Em cada quadra, em muitas cidades inglesas (Londres é uma delas) pode se ver uma igreja, não somente anglicana. A liberdade religiosa foi obtida, plenamente,  no século XIX, na Inglaterra, sendo esta uma das primeiras experiências de liberdade religiosa que o mundo ocidental experimentou. Pode haver alguma coisa mais  celta nisso? Sim ou não? O que significa, realmente, “unidade na diversidade”? Isto existe ainda hoje, na atual crise do Anglicanismo? Será que não precisamos olhar para as lições quer são positivas da História, para refletir, refletir, e descobrir a nossa identidade, talvez perdida por muitos? A tradição celta era unida na diversidade. Esse moto, adotado pelo Anglicanismo, está por um fio, hoje, por causa da intolerância de muitos. Mas em que medida deve haver tolerância ao novo, sem se perder a identidade como Igreja? Precisamos orar muito, para que em reflexão e inspiração, possamos encontrar a resposta conciliadora. Um “sínodo de Whitby” do século XXI não pode nos dividir.

Numa tradução livre, uma pequena parábola celta talvez possa nos auxiliar.

“Fortalecendo nossa religião”
“Nós dizemos que devemos nos fortalecer na religião
Nós clamamos por ideias novas em nossa fé
Nós imaginamos que entendemos muito mais que nossos ancestrais
E olhamos com piedade para seus erros ignorantes.

No entanto, como podermos melhorar os ensinamentos de Patrício?
Como nós podemos ter mais leveza do que a de Brígida?
Como podemos ter uma compreensão mais profunda do que a de Columba?
Na verdade, nós devemos é olhar com mais misericórdia para os nossos próprios erros.” (Do folclore popular)

Bibliografia:
DAVIES,Oliver e BOWIE, Fiona – CELTIC CHRISTIAN SPIRITUALITY – An Anthology of Medieval and Modern Sources – Londres, SPCK, 1995.

WEYER, Robert Van de – CELTIC PARABLES – Stories, Poems and Prayers – London, SPC Km, 1997.

Entrevistas com o Bispo William Godfrey (na época, Bispo Anglicano do Uruguai), Revda. Anésia Nascimento de Jesus, clériga da Diocese Meridional, cedida para a Diocese de Sheffield, Inglaterra, e Revdo. Dessórdi Peres Leite, atualmente cursando doutorado em Berkely, Califórnia, EEUU.

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Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema "Evangelização", convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social ("Casa Ecumênica - Crer & Ser") com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.

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