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Alguns desafios lançados à Reforma

A Leitura Bíblica na Óptica da Reforma Protestante

Segunda Parte

concilio-vaticano-iiAo lado de positivas e até proféticas contribuições, a Reforma deixa em seu rastro alguns importantes desafios, alguns deles até hoje não respondidos.

1.Comunidade e indivíduo.  A Reforma, naturalmente, foi marcada de maneira profunda por sua época. Teve de situar-se em estreito corredor entre a aristocracia feudal da qual necessita de apoio e a burguesia nascente. É aí que se compreende a desaprovação à rebelião camponesa, mais radical, liderada por Thomas Münzer. Ora, era o tempo da inebriante descoberta do indivíduo. Em oposição ao corporativismo medieval, surgia o liberalismo, justificador do capitalismo. Afirmava-se com força o que bem conhecemos, o individualismo da cultura moderna, que depois Descartes vai formular em seu “penso, logo existo”, a razão do sujeito individual como a certeza referencial para toda a relação com o universo. Trata-se da centralidade do “indivíduo”, não da pessoa. Com efeito, “indivíduo” indica nossa dimensão de coisa, ser isto e não aquilo, é categoria indicativa de apartação. Pessoa, ao contrário, é centro e feixe de relações. Ninguém se torna pessoa, livre, autônoma, sem ser habitado por outras pessoas e potencialmente por todo o universo. É categoria de inclusão, pois somos o acontecer de outrem e do mundo em nós. Sem dúvida, a Reforma foi redescoberta da dimensão comunitária da Igreja primitiva, mas o individualismo a tem marcado até hoje pelo próprio contexto de seu nascimento. O “livre exame das Escrituras”, condicionado pelo individualismo, pode facilmente levar a impor opiniões e interesses individuais, confundidos com moção do Espirito. A comunidade pode reduzir-se só a cenário e ambiente onde o crente individual testemunha de sua conversão e da iluminação do Espírito Santo, sem que essa, a comunidade, seja considerada instrumento da graça. A autonomia expressa no “livre exame” tem de ser compreendida como autonomia da comunidade na qual se busca, mediante as relações de diálogo e também de conflito, a manifestação da Palavra de Deus. No Centro de Estudos Bíblicos – CEBI – por exemplo, defendemos o “livre exame” como uma “leitura popular e comunitária da Bíblia”.

  1. Livre exame das Escrituras e “sensus fidelium”. Como elaborar o sentir comum dos fieis sem uma vivência profunda da relação comunitária? “Sensus fidelium” é categoria eminentemente comunitária, senão facilmente a Igreja se despedaça em grupos dos mais diversos, em torno de lideranças e fortes personalidades individuais. Só a redescoberta do senso de comunidade e, consequentemente, do senso de responsabilidade mútua e interdependência, pode garantir na Igreja a solidariedade comunitário e evitar o divisionismo, tão profundamente combatido pelo Apóstolo Paulo na Primeira Carta aos Coríntios, com argumentos decisivos do ponto de vista cristológico e eclesiológico. Sem falar do triste panorama de hoje em dia, quando as igrejas se tornam agentes da “religião de mercado”, para a qual o mais sagrado é a oferta de dinheiro em troca das bênçãos de Deus… É este um desafio do povo da Reforma hoje no que diz respeito a seu testemunho de Cristo nesta sociedade atual. Se a unidade não fosse central para a Igreja Cristã, não teríamos o Novo Testamento, uma vez que seus escritos giram em grande parte em torno desse problema. Como dar o salto hoje, quando nosso passado colou em nós esse “pecado original” do individualismo burguês? Digo “original” porque não o cometemos deliberadamente e também porque se trata de marca da origem. Não há como evitar a constatação de que a Reforma surgiu como expressão socioreligiosa da burguesia  nascente. Ora, dizer “burguesia” é dizer senso de “indivíduo”, individualismo.
  1. Escritura e Tradição. Dois fatos ajudaram muito a clarear a discussão. A Antropologia Cultural nos ensinou que tradição não é outra coisa que a dimensão histórica de todo grupo social; cada geração recebe do passado o “acervo” que constitui a vida do grupo: princípios, valores, normas, costumes, instituições… é o passado que nos chega “transmitido” por quem nos precedeu; o presente é o momento de receber, acolher, reinterpretar, recriar a herança e criar coisas novas e transmitir adiante. O outro fato importantíssimo foi a pesquisa bíblica protestante desde o século XIX especialmente: evidenciou-se que o “texto” surge de longa tradição, primeiramente oral, até que depois de muitos séculos foi-se documentando por escrito. Ou seja, percebeu-se mais claramente o próprio conceito de tradição: é o processo de vida de todo grupo social que se “transmite” na história; o “texto” vai brotando da vida, como as demais instituições, a saber, vai surgindo do processo da tradição e, uma vez constituído, se reinsere, como marco referencial, no processo social de transmissão da vida. Assim, entre texto e tradição viva a relação é íntima e orgânica. Pois o texto brota da tradição, enquanto documento fixa etapas da tradição, realimenta-a e é renovadamente reinterpretado no fluxo da tradição e aí, nesse mesmo fluxo, de certa maneira continua a crescer, dado que a “leitura” do texto, e simultaneamente do mundo, é sempre novo momento de “autoria”. Por isso a cadeia do texto nunca cessa e sempre se acha entrelaçada com a tradição. É o que já sugere o Apóstolo São Paulo na 2ª Carta aos Coríntios, capítulo 3. E foi assim que surgiu o Novo Testamento: na tradição viva de Jesus foi-se fazendo a releitura do texto bíblico (Primeiro Testamento), processo que resultou no que chamamos de Novo Testamento. E este continua a ser lido e reinterpretado na Igreja, dando assim origem a novos textos.
  1. Livre acesso ao trono da Graça e sacramentalidade da Igreja. Toda Igreja cristã tem dois elementos básicos de expressão da fé, que são o “gesto” e a “palavra”. Proclama a Palavra e manifesta a Graça e a conversão mediante sinais, “ordenanças” ou “sacramentos”. A dimensão da “sacramentalidade”, porém, é mais ampla e mais profunda. Não se trata apenas de a Igreja fazer ou administrar sacramentos, atos religiosos determinados para simbolizar a graça. Antes, trata-se de a Igreja ser, ela mesma, enquanto comunidade de fé e amor, pelo conjunto de sua vida, ser o sinal e instrumento da presença da graça redentora no mundo. Se é o Corpo de Cristo e o Templo do Espírito, é “sinal visível da Graça invisível”. Quando, no entanto, se acentua a autonomia do indivíduo na vivência da fé, o que é marca da Reforma por sua própria origem histórica, pode haver uma tendência a relegar a segundo plano a “sacramentalidade” da comunidade em relação à experiência religiosa de cada membro individual. Facilmente, na imaginação e nos sentimentos, a comunidade quase se reduz a “cenário” onde o crente dá testemunho de sua fé e conversão, pois privilegia-se a relação direta e imediata com Deus, obscurecendo-se, então, o papel “mediador” da comunidade. Ouvi certa feita de um teólogo presbiteriano uma palavra dura a respeito disto: “Ninguém é sacerdote para si mesmo(a), sentir o contrário seria trair a Reforma”. Na verdade, ”sacramentalidade” é isto, é a comunidade eclesial sendo sinal e instrumento da graça para o mundo e para cada um de seus membros. Em outras palavras, se temos presente que, além da individualidade (característica de nossa “apartação”), somos “pessoas”, isto é, constituímo-nos em nossa identidade, liberdade e responsabilidade pela mediação das outras pessoas e do mundo, a dimensão coletiva salta a primeiro plano. Por isso, justamente, o Novo Testamento insiste tanto em amor, solidariedade e serviço recíproco. A graça nunca pode ser experiência “individual”, mas se dá mediante nossas relações, e estas são sempre gestuais, “materiais”, acontecem através de gestos e palavras, a saber, de maneira “sacramental”. Não chegamos a ser melhores por nossas próprias “obras”, por nossos “méritos”. Na verdade, são as outras pessoas que nos salvam: acolhem, edificam, compreendem, corrigem, são “suporte” para carregar nossos fardos. As pessoas e a grande realidade do mundo são veículos da graça de Deus; através das relações entre nós e com o mundo é que nos tornamos melhores e vamos sendo muito para além de nós. Em grande medida, o que somos é o acontecer de outrem em nós, vamos sendo “inabitados” pelo bem que nos comunicam. O Apóstolo São Paulo deixa bem claro que somos Corpo e é enquanto corpo, coletivo, portanto, que se nos comunica a seiva de Cristo a cada qual de nós, “membros uns de outrem” (cf. 1Cor 12-14). O poeta Ferreira Gullar diz com firme convicção que “é evidente que o sentido da vida são as outras pessoas”.
  1. Pecado do mundo e transformação do mundo. O senso do pecado e da corrupção de nossa natureza “carnal”, que tanto angustiava Lutero, corre o risco de dificultar uma atitude positiva em relação ao mundo, aos bens da criação e à sociedade. Há nisso o que se poderia chamar de “pessimismo antropológico”. Sem dúvida, temos de afirmar com clareza o absoluto de Deus e a mediação única e universal da graça redentora de Cristo. Não podemos confiar na bondade de nossas obras, sempre de algum modo contaminadas. Temos de reconhecer com realismo que o mundo criado, além de contingente e imperfeito, está ferido pelo pecado, nossos pecados pessoais e a onda avassaladora do “pecado do mundo” que condiciona até nossos atos de bondade. Isto, porém, não nos deve afastar do mundo, da realidade da vida “material” e social. Com efeito, enquanto “novas criaturas” renascidas em Cristo, temos a tarefa de levar adiante a obra da criação de Deus, pois em sua raiz é boa e bela (cf. Gn 1). O que temos de reconhecer, isto sim, é que “a figura deste mundo está a passar”, a saber, temos de viver sempre a proclamar e a operar em vista da transformação do mundo para que nele transpareça aquele processo de parto de sua nova condição de que nos fala tão belamente Romanos, capítulo 8º. Longe de o pecado nos separar e nos levar a negar nossos vínculos com a criação, deve ser estímulo para louvar a graça de Deus já presente eficazmente em cada gesto de amor e comunhão. A missão do Evangelho é “integral” e nos envia, como enviou Jesus, a proclamar profeticamente um novo futuro para o mundo, como lemos no evangelho segundo Lucas, capítulo 4º.
  1. 6. Palavra das Escrituras e Revelação pela criação. Sem dúvida, as Escrituras são o testemunho privilegiado da experiência histórica da Palavra. Mas a própria criação já é Palavra originária mediante a qual Deus se comunica com “todo ser humano que vem a este mundo” (cf. Jo 1, 9). Nela está presente o Verbo, a Sabedoria divina. Santo Agostinho já lembrava que Deus escrevera dois livros: o mundo criado (Natureza, sociedade, história) e a Bíblia, este, o segundo livro, escrito depois para nos ajudar a interpretar o primeiro, já que o pecado embaralhara as letras e as pusera em desordem. O intelectualismo nos habitua a dar quase exclusiva atenção ao “texto” e esquecer que a vida (tradição viva) é o lugar de manifestação de Deus, como toda a Bíblia o atesta. O Apóstolo São Paulo já o diz em Rm 1, 19-20: pelas obras da criação é possível escutar a voz do Criador que nos fala mediante o mundo e no íntimo da consciência, mesmo aos gentios (cf. Rm 2, 12-29). Não é suficiente buscar o ensinamento divino em doutrinas da Bíblia ou da Igreja, é preciso também dar muita atenção à “corporalidade” e à materialidade da vida, particularmente aos “sinais dos tempos”, pois também por ai passa o sopro do Espírito e o eco da Palavra (cf. Sl 19).
  1. Palavra das Escrituras e Revelação pela história dos povos. A palavra do Apóstolo nos abre o horizonte à universalidade do mundo, incluindo os povos gentios. Deus nos fala por suas obras e dialoga com cada pessoa no íntimo de sua consciência (cf. Rm 2, 14-15). O que a experiência bíblica nos oferece são olhos e critérios para perceber por onde Deus costuma passar e que tipo de palavras usa pronunciar para comunicar Sua vontade. A profecia é guia particularmente importante para nos formar na escuta de Deus, assim como os salmos da Bíblia. Mas acontecimentos, experiências existenciais, pessoais e coletivas, e mesmo a cultura em geral e a religião dos diversos povos são meios pelos quais se revela a presença de Deus e é possível escutar o ruído de Seus passos e o som de Sua voz a proclamar boas novas de felicidade, mas também palavras de julgamento sobre nosso pecado, pois “a verdade se tem tornado prisioneira da injustiça” (cf. Rm 1, 18 ).
  1. Palavra e Sacramento. Um desafio a mais é buscar o equilíbrio entre Palavra e Sacramento, na prática, entre púlpito e mesa. Lutero teve toda razão quando insistia em pôr no centro da Igreja o “ministerium Verbi Dei”. Na verdade, o excessivo ruído de palavras humanas, em vez de facilitar, nos dificulta e até impede escutar o falar de Deus. È sempre preciso voltar a proclamar o “puro Evangelho”. São Francisco quatro séculos antes reivindicara o mesmo, o “Evangelium sine glosa” (sem acréscimos). No regime do dia a dia da Igreja, porém, é preciso cuidar para que haja equilíbrio entre palavra e gesto. Pois, na verdade, palavra é gesto e gesto também fala. Tinha razão Calvino quando dizia que “o sermão tem de ser bíblico, a teologia tem de ser bíblica, a devoção tem de ser bíblica”. O fato, porém, é que a Bíblia precisa de quem a leia e interprete. Podemos iludir-nos facilmente e pôr no centro, não o “Verbum Dei”, mas a humana palavra do pregador, o qual pode se tornar o foco de atenção e sutilmente impor ao povo seus sentimentos, suas ideias, gostos e ideologia. No centro deveria estrar sempre a mesa, simbolizando a centralidade da comunidade, é para ela que o púlpito nos deve dirigir. A “didascalía” (o ensino) deve ter a função de nos guiar à experiência da “eucaristia” (ceia de ação de graças). De fato, no texto paradigmático da caminhada dos discípulos (casal?)de Emaús, está muito claro que as Escrituras nos ajudam a perceber o sentido dos acontecimentos da vida e “aquecem o coração”, mas os olhos só se abrem finalmente para reconhecer a presença da Jesus entre nós, quando acolhemos o Estranho em casa, nos assentamos à mesa e partilhamos o pão. A Ceia é o sinal maior pelo qual identificamos Jesus presente entre nós e em nós, e nos identificamos com Ele para retomar o anúncio da vitória da vida, pois é no milagre da partilha que a vida revela a vitória de Deus em nossa vida (cf. Lc 24, 13-35).
  1. A verdade e a expressão da verdade. Sabemos que a linguagem, meio básico de comunicação, tem três funções conexas: informativa (manifestamo-nos sobre alguma coisa), expressiva (mesmo sem querer revelamos a nós mesmos(as) e interpelativa ou performativa (pretendemos sempre obter de outra pessoa alguma reação ou atitude ou gesto, em suma, pretendemos, de alguma forma, “modificar” algo em quem é nosso(a) destinatário(a) ou interlocutor(a). No processo de comunicação, como se trata de relação entre dois termos diferentes entre si, “emissor” e ”receptor”, nem sempre nos entendemos, podem surgir equívocos e incompreensões. Particularmente em momentos de crise, quando o entendimento se torna ainda mais difícil, como foi na época da Reforma, quando Lutero já falava a linguagem da Modernidade e a maioria dos teólogos e dos líderes da Igreja permaneciam no horizonte medieval. Caso exemplar para entender isto foi o tremendo equívoco quanto ao conceito de “Justificação pela fé”, mencionado acima. Foram precisos mais de quatro séculos para se chegar a reconhecer que, em expressões e com ênfases diferentes, estávamos a dizer a mesma coisa. Por isso, sempre temos de fazer o esforço de não tomar por entendido o que se diz, pois é preciso buscar cuidadosamente compreender o que se quer dizer. Ao convocar o Concílio, o papa João XXIII dizia que não basta reafirmar as verdades da fé, mas era preciso esforçar-se por dizê-las de tal modo que pudessem ser compreendidas por quem a formulava diferentemente, como é o caso dos irmãos de outros ramos da Cristandade. Em outras palavras, não é suficiente dar atenção ao que se diz, é fundamental cuidar de como se diz para se fazer entender corretamente. Um outro exemplo característico, quase pitoresco, é a doutrina sobre o Purgatório. Na linguagem medieval chega-nos revestido de fogo, almas em processo de purificação, necessitadas de nossa intercessão junto a Deus, aliviadas por nossas obras merecedoras de indulgência, etc. É a moldura da linguagem medieval. Na verdade, o que realmente se pretende dizer com isso? Por incrível que pareça, a meu ver, a mesma coisa que dizia Lutero com tanta força: “simul justus et peccator”, o ser humano é simultaneamente justo e pecador, pecador por si mesmo, justo pela justificação gratuita de Deus. Ao falar de “purgatório”, de necessidade de purificação em face da santidade infinita de Deus, a intuição da Igreja não a leva a dizer que até o momento final do encontro definitivo ainda precisamos de ser purificados(as)? Ao chegar frente a Deus, sentimos a vergonha de, apesar de Sua justiça salvifica, persistirmos em ser “simul justus et peccator”, e essa vergonha nos abrasa como fogo, semelhante ao que acontece quando se é acolhido(a) amorosamente por alguém a quem traímos vergonhosamente… Não se trataria fundamentalmente da mesma intuição da fé, em linguagem de duas culturas diferentes? Na polêmica quanto ao Cânon das Escrituras, como dito acima, não nos deparamos com o mesmo tipo de equívoco? Além do que dizemos, é preciso sempre esforçar-nos por perceber “o que se quer dizer”.
  1. Unidade ecumênica e consumação da Reforma. Lutero nunca pretendeu dividir a Igreja, sempre lutou por reformá-la. Para isso chegou a arriscar a vida. Tem páginas duríssimas contra quem trabalha para dividir a Igreja. Sua polêmica era contra os “papistas”, com tudo o que essa palavra envolvia e significava naquela época de autoritarismo absoluto e vergonhosa decadência. Não foi “luterano”, sempre se julgou membro da Igreja “catholica” de Cristo. Seu legado ao Cristianismo foi um grito de liberdade, na aurora de uma nova época, cujo clima cultural o exigia. Diante do pesado edifício da sociedade feudal que estava sob o guarda-chuva do Sacro Império e com a legitimação ideológica do papado, proclamava a “libertas christiani”, a maneira inicial de falar de democracia, que, no século XVIII, se caracterizará como “liberdade do cidadão”, na Revolução Francesa. Com o “protesto”, estabelecia-se a possibilidade de falar nova linguagem, dizer a mesma Verdade do Evangelho de maneira diferente. Pena que, como toda profecia, vinha como antecipação de algo que só depois poderia ser possível. O acirrado clima de conflito não possibilitou entendimento. Mas não é este sempre o destino da Profecia? O que disseram os profetas da Bíblia ainda hoje não está para acontecer?(cf. Is 2, 1-5; 11, 1-9; Jr 31, 31-34). O que profetizou Jesus sobre o Reinado de Deus ainda hoje não aguarda seu cumprimento? O que anunciava o Concílio Vaticano II ainda não está quase para começar a acontecer? E o que temos visto nos profetas e profetisas de hoje em dia? Gandhi, João XXIII, Padre Lombardi, Padre Lebret, Roger Schutz, Martin Luther King, Oscar Romero, Helder Camara, Margarida Maria Alves, Dorothy Stang  e tantos outros homens  e mulheres “aprovados(as) por Deus por causa da fé que tinham, mas, apesar disso, nenhum(a) deles(as)  alcançou a promessa” (Hb 11, 39). Também a profecia de Lutero ainda não alcançou pleno cumprimento. Ainda faltam etapas para seu coroamento. Não seria esse justamente o que pode trazer o Movimento Ecumênico? Uma Igreja em que as diferenças chegassem a ser reconciliadas na grande unidade, não seria a consumação da Reforma? Não está cada vez mais claro que a Igreja das origens se constituía de ramos diversos que convergiam (até conflituosamente) na unidade? A forma da Igreja na “área” paulina, não era a mesma daquela sob a influência de Pedro, ou de João, se o fosse não teríamos documentos tão diversos no Novo Testamento… a uniformidade de magistério “eclesiástico” não é um bem, mas um limite que empobrece. Não se torna cada vez mais claro que o fosso a separar as Igrejas do Oriente da do Ocidente, mais que doutrinal, é político? Não é sempre mais atraente o horizonte proclamado pelo grande teólogo Paulo Tillich quando dizia que a Igreja cristã só é completa “com substância católica e princípio protestante”? Não foi a Reforma um grito por “inculturação”, da qual tem de surgir modelos de Igreja bem diferentes entre si, até na maneira de formular doutrinas, por força das categorias particulares de cada povo ou região? Por que se tem de impor categorias antigas e da cultura helenista a povos aborígenes e africanos de hoje? Se o Evangelho tivesse ido primeiramente para China ou India, não seria tudo tão diferente? Só a “diversidade reconciliada”, à imagem da Trindade divina, levará a Igreja à unidade e a Reforma a seu pleno cumprimento. Sem dúvida, para isso, os ramos católicos da Igreja no Ocidente têm de abrir-se particularmente a conceitos como autonomia, liberdade, colegialidade, subsidiariedade, comunhão, diversidade, Igreja local… O povo da Reforma, por sua vez, tem de investir com força em unidade, comunhão “catholica”, sacramentalidade, também inculturação, e olhar com atenção a experiência dos ramos católicos da Igreja onde se consegue mais facilmente manter a unidade e se evita uma “Igreja dividida”, justamente, pela prática de uma “Igreja subdividida” (pensemos, por exemplo, no Catolicismo romano com sua infinidade de igrejas locais diocesanas, de congregações religiosas, correntes de espiritualidade, correntes teológicas. de instituições e movimentos, “subdivisões” que possibilitam não haver “divisão”, situando-se as particularidades num amplíssimo arco que vai da extrema direita à extrema esquerda, de tendências muito vizinhas ao Protestantismo ao integrismo fundamentalista, passando por correntes liberais… Sem dúvida, o conceito teológico de COMUNHÃO, como se vê no Novo Testamento, tem de estar no centro de nossa prática, de nossos sentimentos e pensamentos, para que a Reforma finalmente chegue a sua consumação…

Mais um Desafio: O Fundamentalismo como fruto indesejado e paradoxal da Reforma?

Sabemos que um dos problemas atuais, no ambiente do Cristianismo e fora dele, no Islam, por exemplo, é o fundamentalismo, corrente que desde os começos do século vinte se tem fortalecido. Sem dúvida, é a busca desesperada de certezas e segurança, quando o edifício da civilização começa a dar sinais de cansaço e ameaça, aos poucos, desabar. É sintoma da longa crise que vimos atravessando com o desfazimento da hegemonia do Cristianismo no Ocidente e, por associação, o pluralismo de blocos religiosos e políticos, e a ameaça que pesa sobre os países e Estados que lideram a política mundial. Trata-se de uma reação, ao mesmo tempo, religiosa e política, por isso, naturalmente, ideológica. Quem é fundamentalista em matéria religiosa tende espontaneamente a identificar-se com a direita politica. Pensemos na “Maioria Moral” nos EEUU.

Temos, então, um fenômeno aparentemente paradoxal. A Reforma protestante fora a face religiosa de uma verdadeira revolução, como o mostra, por exemplo, Comblin, em sua obra “Théologie de la Révolution”: econômica, com o surgimento do Capitalismo, primeiro mercantil e, em seguida industrial; social, com a ascensão da burguesia nascente; politica, com a queda do Sacro Império Romano Germânico e a unificação de principados e feudos para formar países (por exemplo: Alemanha, Inglaterra, Suíça); cultural (ideológico-religiosa), com a mudança de sentimentos, princípios, valores e normas de comportamento, contando-se, então, com a nova “religião do indivíduo”, justificada pelo princípio da “libertas christiani”. Para surpresa, é no mundo religioso que originou a Reforma que o Fundamentalismo se tem fortalecido. Não que não seja presente também em ambientes católicos, pois o sentimento de pavor diante da crise atinge a todos e todas e poderosos interesses podem facilmente levar a situar-se à direita do espectro político.

 Os corifeus da Reforma eram doutores e mestres em universidades famosas da Cristandade. Rompia-se com um magistério autoritário, como era na época – e ainda continua a ser em certa medida até hoje – o Magistério eclesiástico, e enaltecia-se a pesquisa, o exame direto do texto bíblico, como sendo a regra suficiente da fé. O texto, porém, deslocado da Tradição, de fato, a substitui.  Ora, o princípio do texto como base suficiente e aberto à leitura de cada indivíduo, segundo o princípio do “livre exame”, pode levar, em certas circunstâncias, a uma leitura literalista da Bíblia. Paradoxalmente, o que fora enunciado como caminho de liberdade, cada crente livre para ler e interpretar o texto na luz do Espírito Santo, pode gerar exatamente o seu contrário: se só resta o texto lido “por mim”, não é difícil acontecer que se chegue a condenar toda análise crítica da Bíblia, todo aprofundamento teológico como desnecessário e até prejudicial, todo pensamento diferente como desviado e herético. Quando se radicaliza o “livre exame” como mera liberdade individual para ler, liberdade do indivíduo e de seu grupo ideológico, estabelece-se uma ruptura com o “sensus fidelium”, que é sempre necessariamente comunitário. Além disso, esquece-se de que Lutero tinha erigido o Cristo como critério de discernimento para a própria Escritura: “é inspirado como Palavra de Deus nas Escrituras o que conduz a Cristo”. Paradoxalmente, ao enfatizar o “livre exame” do indivíduo (“libertas christiani”), sem a mediação comunitária que se expressa institucionalmente, mediante instâncias “autoritativas”, o que não equivale a “autoritárias”, cai-se necessariamente sob o peso do “magistério” autoritário e até despótico de alguns ou de grupos de poder que funcionam como instâncias de controle e opressão ideológica.

O pessimismo em relação à natureza humana e às realidades criadas, feridas pelo pecado e sob o peso da concupiscência (desejos desordenados), leva facilmente a uma atitude de afastamento do mundo e de alienação em relação a questões da vida coletiva no campo social e político. A Igreja pode, assim, degenerar em refúgio de “náufragos do dilúvio universal” e baluarte arrogante e intransigente para denunciar  o pecado do mundo, sem oferecer-lhe, com humildade, é claro, a prática política das pessoas crentes como subsídio e eventual remédio. Ao contrário, é comum no Fundamentalismo a atitude arrogante que degrada a Igreja  a atuar como guardiã da “moral e dos bons costumes”, sobretudo na esfera sexual e, quando muito, na esfera da conduta individual de “bons cidadãos”, sem pôr em causa  problemas que dizem respeito à  injusta organização da sociedade, sua estrutura econômica e a concentradora estrutura política. Muitas comunidades podem enveredar para a vivência de um clima apocalíptico, no qual se instaura o conflito mortal entre “os remidos” e mundo já condenado, na expectativa do “arrebatamento” final da Igreja. O proselitismo aguerrido, que pode chegar ao fanatismo puro e simples, é a face prática pastoral e moral da absolutização da própria verdade individual, tida como a única capaz de salvar, ou seja, baseia-se na intolerância por causa do exclusivismo do próprio ponto de vista.

Temos de reconhecer que um imenso desafio lançado em face de quem é herdeiro da Reforma é perceber, refletir e trabalhar em vista de fazer com que contribuições da Reforma, em parte até muito positivas, possam dar frutos no rumo das intenções originais dos reformadores e não cheguem a radicalizar-se numa direção que termina por trair a própria Reforma. O clima conflitivo daquela época, que não possibilitava o diálogo entre as partes e a nova linguagem dialética das lideranças, a começar de Lutero, pode provocar ainda hoje malentendidos e levar a conclusões indesejadas e aparentemente paradoxais. Como imaginar que uma revolução que reivindicava liberdade pudesse, a longo prazo, gerar o autoritarismo opressivo do Fundamentalismo!

Nota final sobre a Comunhão Anglicana

A Comunhão Anglicana se considera parte da Igreja Católica de Cristo. A ruptura com Roma no século XVI se deveu ao clima conflitivo da época e a ter acolhido certos princípios e práticas da Reforma luterana e calvinista.

Entre nós costumamos dizer que a autoridade na Igreja não está concentrada em nenhuma instância determinada. Falamos de “instrumentos de unidade”: o Arcebispo de Cantuária, símbolo da unidade e apoio a toda a Comunhão mundial, o Encontro dos Primazes que se dá periodicamente, a Conferência de Lambeth de todo o episcopado mundial e o Conselho Consultivo Anglicano, espécie de parlamento representativo de toda a Comunhão. O Arcebispo Rowan Williams chegou a dizer que há ainda um quinto instrumento, informal, de unidade, a articulação internacional das mulheres anglicanas. Definimos o regime da Igreja como sendo o de  “comunhão liderada por bispos e governada pelo povo, isto é, bispos em Sínodo”, no qual estão representantes do clero e do laicato da Igreja. Sobretudo falamos de “autoridade dispersa e compartilhada”. O foco da autoridade está no “sensus fidelium” (consenso dos fieis), cuja base é o “sacerdócio comum do povo de Deus”, e que se forma mediante quatro instâncias: a Bíblia, com autoridade suprema, lida e interpretada na Tradição, com o auxílio da Razão e da Experiência. São convicções tradicionais e clássicas do Catolicismo. Com efeito, a tradição católica do “sensus fidelium” e de “lex orandi, lex credendi” (crê-se naquilo que se ora, ou: o que se impõe como expressão da fé é o que já se experimenta na oração) está claramente presente nos termos da tradicional fórmula usada na Igreja Romana para proclamar solenemente  doutrina, através do papa e de concílio geral: “Nós, em obediente adesão à fé da Igreja, solenemente proclamamos que a Igreja tem acreditado desta maneira”. As diversas instâncias e ministérios na Igreja, num sistema de autonomia e interdependência, devem confluir para a formação do “consenso de fé” do povo crente: a referência para qualquer proclamação doutrinal é sempre a “fé da Igreja” ou o “sensus fidei”. Como chegar a isso, é grande desafio, pois trata-se de processo lento e complicado e muitas vezes cheio de tensões, como, aliás, se observa nos concílios da Igreja antiga.  Além disso, a Eclesiologia anglicana se baseia particularmente em concepções e práticas do primeiro milênio, antes da consolidação do papado romano, quando era forte a autonomia das Igrejas locais diocesanas e a valorização do papel do povo leigo no governo da Igreja, sem falar de que a contribuição da Reforma foi compreendida como reavivamento de antigas verdades e práticas católicas que tinham sido relegadas ao esquecimento.

Para expressar, de forma sucinta e plástica, o que chamamos de “autoridade dispersa e compartilhada”, podemos desenhar um triângulo, cujo centro é ocupado pela Bíblia. O texto bíblico continua sendo para nós a referência maior, à luz do qual a Igreja tem de continuamente avaliar e verificar sua fidelidade ao Caminho de Jesus. Mas não basta a Bíblia, uma vez que esta requer ser lida e interpretada por cada pessoa, cada comunidade e em cada tempo. Por isso, cada um dos três ângulos é constituído justamente pelas instâncias a partir das quais as Escrituras são alcançadas: a Tradição, a Razão e a Experiência. Os três ângulos correspondem  a princípios católicos básicos na interpretação das Escrituras. TRADIÇÃO é o que define nossa identidade profunda, é a vida da Igreja no presente e em sua história desde os(as) Apóstolos(as) de Jesus, a começar da comunidade local, é o “depósito” que carregamos e, ao mesmo tempo, o curso d’água no qual navegamos e do qual bebemos; no fluxo da Tradição é que, na verdade, reconhecemos o que somos. .. tem muito a ver com as intuições que os Pais da Igreja, e também Lutero e Calvino, tiveram a respeito do Espírito Santo e de sua tarefa na vida cristã, chamado de “alma” do Corpo da Igreja. É na comunidade que aprendemos a exercitar a SOLIDARIEDADE, a compaixão e a tolerância. RAZÃO é reflexão crítica sobre as fontes e sobre os acontecimentos da vida, são os desafios sempre novos que nos surgem da sociedade, é o diálogo entre fé e ciência, entre Tradição e realidade contemporânea. É daí que nos vem o chamado a lutar pela JUSTIÇA e a definir e empregar instrumentos adequados, ideológicos e políticos, na luta. O “senso da realidade”, tão característico do Anglicanismo, leva-o a elaborar novas respostas às exigências da vida, não previstas no passado, nem na Bíblia, nem na Tradição doutrinal, uma vez que estas se vinculam necessariamente a contextos anteriores ao nosso de hoje. O desafio será sempre o de manter-se fiel à “mente de Cristo”, na continuidade do rumo que o Espírito de Jesus nos indica, sem ceder ao “espírito do século”. EXPERIÊNCIA  é a vida que passa pelas pessoas concretas e por suas relações, a começar daquelas mais imediatas e primárias. É no íntimo das pessoas que se forma o sentimento “místico” profundo da DIGNIDADE, a qual brota da certeza de que somos filhos e filhas de Deus. A experiência de fé e de prática das pessoas e das comunidades é levada em grande conta no diálogo hermenêutico com as Escrituras. Disto é um forte símbolo o calendário da memória de santos e santas ao longo do Ano Litúrgico, exemplos vivos de experiência do seguimento de Jesus.

O que parece claro, ao olharmos para esse “triângulo hermenêutico”, é que sua intenção profunda é chegar a equacionar o dilema “Tradição” (comunidade) e “livre exame” (indivíduo). Não se trata de examinar individualisticamente as  Escrituras, confiando numa luz que descesse diretamente do Espírito Santo com poder para vencer nossos condicionamentos psíquicos e de “lugar social”. Não devemos esquecer que o Espírito é como “alma do corpo da Igreja”, diziam os antigos Pais, ou seja, se manifesta mediante a convivência comunitária, a “koinonía”. Trata-se de exame comunitário da Bíblia, o que significa de fato a relação permanente entre Escritura e Tradição, Texto e Experiência, Revelação e Razão. É interessante que a chamada “leitura popular e comunitária da Bíblia”, exercitada em perspectiva ecumênica, e promovida particularmente pelo Centro de Estudos Bíblicos – CEBI, pratica-se com o mesmo triângulo e fundamenta-se na pedagogia de Jesus, como aparece na caminhada com os discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 13-35): a Bíblia recebida e lida pelas Pessoas (Experiência), em Comunidade (Tradição) e aberta ao amplo contexto da  sociedade ou da realidade (Razão), assim fala o CEBI. Os acontecimentos da VIDA iluminados pela leitura da Bíblia, a BÍBLIA voltando a falar como Palavra de Deus na atualidade da experiência da vida, ambas nos conduzindo a acolher o Estranho (estrangeiro, diferente, inimigo…) e nos convertendo à comunhão mediante a partilha do pão…

Essa maneira de ler a Bíblia cuida para que a leitura seja verdadeiramente científica, portanto crítica, atenta ao texto e ao contexto de origem; popular e por isso histórica, política e militante, comprometida com os problemas da vida do povo, sobretudo das categorias mais pobres, necessitadas, marginalizadas e excluídas; comunitária, eclesial, tanto em  sentido local, quanto universal; dialógica, ecumênica e aberta à experiência religiosa e cultural dos povos; “tradicional”, a saber, fiel ao testemunho vivo que a Igreja tem carregado ao longo de sua história, mediante o qual se manifesta sua identidade; autocrítica, consciente da relatividade e dos  limites de percepção, compreendendo que “cada ponto de vista é sempre a vista a partir de um ponto”; finalmente, uma leitura por conaturalidade, já que a experiência testemunhada pelo texto será sempre mais profundamente compreendida na medida em que quem o lê esteja intimamente sintonizado com ela, seja dela participante, daí o privilégio dos pobres como destinatários e primeiros sujeitos da leitura da Bíblia e seus primeiros porta-vozes (cf. Lc 4; 1Cor 1-4). Por isso, pessoas de diferentes ramos denominacionais nos temos encontrado, tanto católicos, como protestantes, desde exegetas até pessoas pobres do povo.

Se entre os desafios que se dirigem à  Reforma está o desafio de  natureza antropológica e o de natureza eclesiológica, então, quem sabe, o “livre exame”, exercido em comunidade e tendo como referência a vida do povo, poderia ser uma das vias de solução. E quando se diz aqui “comunidade”, trata-se tanto de comunidade local, quanto da articulação mais ampla das diferentes comunidades contemporâneas, assim como do diálogo ecumênico entre as diversas comunidades cristãs e até religiões não cristãs, e ainda da relação orgânica com toda a herança que nos vem do passado. Em outras palavras, seria redefinir e exercitar a relação orgânica entre Escritura e Tradição. Quando nos referimos a “vida do povo”, trata-se de relacionar nosso exercício de interpretação da Bíblia com dimensão bem mais ampla que o âmbito da vida eclesiástica e até eclesial. Quer dizer, “ler a Bíblia” não é sobretudo “aprender a Bíblia”, enquanto literatura, história e doutrina, mas “aprender da Bíblia” o jeito de ser de Deus, aprender por onde Deus costuma passar e por onde caminham as pessoas que  buscam ser-Lhe fieis. A “leitura popular e comunitária”  tem mostrado, na prática, sua eficácia construtiva de comunidades, da unidade eclesial e de nova relação da Igreja com a sociedade. Quem sabe se a pista para solução, ou pelo menos atenuação, de nossos conflitos hermenêuticos não estaria nessa “leitura eclesial”, no sentido de um hábito permanente de diálogo no seio de toda a Cristandade, e numa “leitura militante” da Bíblia, não eclesiástica, mas profética, quer dizer, política, no sentido de reconstrução das pessoas e da sociedade, a escuta da Palavra em função da vida do povo. Sim, pois este não nos pergunta primeiro por “confissões de fé”, mas por “soluções de fé”.  Seria colocar nossa leitura da Bíblia e a Igreja como tal  em função de manifestar a presença do Reino de Deus, a ocupar nossos corações e mentes com o que realmente interessa e vale a pena, no sentido de viver uma vida mais próxima dos sonhos de Deus. Lembro-me de uma entrevista de Dom Helder Camara no Aeroporto de Orly, Paris, ainda durante o Concílio Vaticano II. Estava sendo interrogado sobre o que pensava de Ecumenismo. Sua resposta imediata foi de limpidez admirável para entrevista a queima-roupa: “Quando nós, as Igrejas cristãs, resolvermos assumir como nossas as preocupações de Deus, que são os problemas da vida de Seu povo, então teremos vergonha de nossas divisões, pois nos parecerão coisa tão pequenina”. E um antigo bispo anglicano do Nordeste, Dom Clóvis Erly Rodrigues, costumava dizer: “Continuamos divididos por razões de mortos, enquanto o povo vivo de hoje nos oferece as razões para nos unirmos”. Finalmente, Fidel Castro, em uma de suas longas entrevistas, há mais ou menos quarenta anos atrás, sentenciava profeticamente: “Se os cristãos do Continente chegassem a abraçar a causa da Revolução (hoje preferimos dizer “transformação social”), esta seria invencível”. E explicava que a tarefa principal das Igrejas seria a de formar as consciências para que tivéssemos realmente pessoas novas, pois a “Revolução não é simplesmente tomada do poder, mas superar hábitos seculares de egoísmo e lutar até contra os próprios instintos, e a Igreja é que está treinada há séculos para lidar com as consciências”. Em suma, falava de conversão (cf. Rm 12, 1-3)

Conclusão

Se uma é a Cabeça, um só é o Corpo, mesmo com a diversidade de seus membros e partes. Se a unidade orgânica não se faz visível, é que nosso pecado se levanta como obstáculo para que se revele. Diversidade não tem de ser necessariamente “adversidade”, unidade não se contrapõe a pluralidade. Catolicismo e Protestantismo não são contraditórios, mas sim complementares, “substância católica e princípio protestante” seriam a riqueza  da Igreja e testemunho de diálogo para o mundo. Não Igreja dividida, mas Igreja subdividida, para que a riqueza da diversidade conflua para a unidade.  Não esqueçamos que a diversidade em Deus, nosso princípio e modelo, é “diversidade reconciliada”, brota da plena comunhão e nela resulta. É “pericorece”, literalmente “dança circular”, na qual ao parceiro(a) cabe permanentemente se colocar no lugar de outrem, em constante e reciproca “in-habitação”. E este é o princípio mais profundo e o modelo que nos é oferecido pela tradição da fé. Foi por isso que Jesus, profeticamente, orou pouco antes de morrer, verdadeira oração-testamento (cf. Jo 17).

About Sebastião Armando (170 Articles)
Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema "Evangelização", convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social ("Casa Ecumênica - Crer & Ser") com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.