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A Vida, Responsabilidade Ética da Sociedade Civil

A Vida, Responsabilidade Ética da Sociedade Civil

Lembrando nossa situação atual

Permitam-me que comece lembrando em dez pontos a situação atual tão bem conhecida e até mesmo por muitos e muitas de nós pessoalmente experimentada:

01. O esgarçamento do tecido social. Sente-se que em todos os setores da sociedade há como um desfazimento de vínculos, erigindo-se em valor supremo o “levar vantagem em tudo”. Em certos momentos, tem-se a impressão de que estamos à beira da “anomia” (ausência de lei), numa ponta a corrupção, em todos os sentidos, noutra ponta a violência. No meio, a ausência de referências, desde a família até as instituições do Estado e das Igrejas, o que afrouxa os vínculos normais de controle social e faz emergir com facilidade enfermidades, patologias e taras das pessoas e de grupos humanos. Baste lembrar os bárbaros e estranhos crimes de que vamos tendo notícia a cada dia.  Para surpresa nossa, que nos acostumamos na infância a escutar que “o Brasil é um país cordial”, eis que estamos a experimentar uma espécie de monstruosidade: em cada qual de nós começamos a identificar um monstro de duas cabeças, ao mesmo tempo, o opressor e o oprimido convivendo em nosso próprio interior, resultado de mais de quinhentos anos de uma a formação histórica perversa, cuja matriz é a violência; 

02. O triste panorama de pobreza e miséria, com 10% das pessoas tendo nas mãos 80% da riqueza do país. Pior do que a média mundial, quando são 20% de pessoas a apossar-se de 80% da riqueza do planeta;

03. A cegueira dos poderosos, em todo o mundo: o militarismo; a economia em rumos perigosos, o sistema produtivo cada vez mais a excluir as pessoas do trabalho e a concentrar a renda em pouquíssimas mãos; valores culturais absurdos, verdadeira inversão de valores; a vergonhosa manipulação da informação; a chamada “globalização”, na verdade simplesmente sofisticação dos mecanismos de dominação do imperialismo; populações inteiras não mais somente à margem com expectativa de um dia serem integradas, mas agora totalmente excluídas;

04. O triste espetáculo encenado pela liderança política: a deslavada corrupção e o cinismo que escarnecem de cada qual de nós, cidadãos e cidadãs;

05. A maneira como se comportam os poderosos: o ex-presidente da República, o conhecido “sociólogo de esquerda” Fernando Henrique Cardoso,  dizia com ar de resignação: “Infelizmente não cabe todo mundo no sistema, muita gente tem de ficar de fora”. Na mesma época, um deputado presidente da Comissão de Saúde da Câmara tornava ainda mais dramático esse princípio “dogmático”: “Na área da saúde não temos dinheiro para cuidar de todos. Muita gente vai ter de morrer, mesmo. Só vamos poder cuidar de quem restar”. E dizem que o ex-presidente Lula, ele mesmo ex-operário, em discurso, sentenciou com franqueza que “meio-ambiente, quilombolas e indígenas atrapalham o desenvolvimento” (sic!)… E veio, em seguida, a decisão autoritária de impor o projeto faraônico de transposição do Rio São Francisco, ele mesmo já ameaçado de morte, mas com isso grandes empreiteiras recobraram “nova vida”… 

06. As últimas eleições presidenciais e parlamentares têm sido momento simbólico, tragicamente expressivo do impasse político vivido pelo país: elegemos candidatos(as) não porque neles ou nelas tenhamos confiança, mas porque outros(as) são piores;

07. O grave risco que corre o planeta, a vida das pessoas, a sobrevivência das  espécies animais e vegetais, e a preservação das coisas sob ameaça a cada dia, e com que dificuldade se buscam acordos para mudar o rumo da destruição;

08. O “sofrimento difuso” que vivem as pessoas no quotidiano, não sabendo muito bem dizer onde dói, mas sentindo por todo o corpo o “incômodo viver”;

09. A violência crescente, presente nas pessoas, nas instituições sociais, no terrorismo de Estado, como se viu dos EEUU na guerra do Iraque, e se vê nos bandos armados pelo mundo inteiro, a começar das esquinas de nossas ruas;

10. O crescimento do medo e a decisão das pessoas por se recolherem a viver em isolamento.

Nossa tarefa é como remover montanhas rochosas

01. Somos chamados(as) a superar traços da herança que tem marcado a cultura ocidental e que, em grande parte, explicam o relativo fracasso histórico do Cristianismo no mundo: ao lado de grandes vitórias e positivas contribuições – lembremos os conceitos de pessoa e de liberdade, por exemplo, contribuição decisiva à cultura humana universal, o Cristianismo carrega o peso de enormes fracassos, cuja raiz está em nossas próprias fontes de formação, e uma delas é a cultura greco-romana;

02.  Pensemos, por exemplo, no dualismo teológico de céu e terra; no dualismo cósmico de universo material e razão espiritual; no dualismo antropológico de corpo e alma; no dualismo social de senhores e escravos; na divisão cultural entre “civilizado” e “bárbaro” e, de gênero, entre macho e fêmea… nisso tudo não se impôs a mentalidade do Evangelho, mas o que o Apóstolo São Paulo chamava de “sabedoria deste mundo”;

03. O dualismo gera o intelectualismo ou racionalismo e chega a seu ápice no Iluminismo, com a separação entre o universo material e a Razão, entre trabalho manual e trabalho intelectual. Os homens da Razão teriam direito a viver do “ócio”, enquanto outros seres humanos, os escravos, se ocupariam do “neg-ócio”. A atitude humana ideal seria pensar, não trabalhar. A tarefa “superior” é só contemplar o mundo como ele é, já “harmonia” que se impõe por si mesma e deve ser imitada. “Cosmos” quer dizer harmonia, beleza, daí vem o termo “cosmético”. Em latim, traduziu-se por “mundus”, limpo, bonito, o contrário de “imundo”. A virtude seria apenas assimilar em nós, seres humanos, a harmonia cósmica já dada, refletir no “microcosmos” a beleza do “macrocosmos”, como ensinavam os estoicos. Em suma, trata-se de interessar-se mais pelos conceitos das coisas do que pelas próprias coisas, pois este mundo cá de baixo seria inferior e opaco, como nos fala o pensamento platônico. Decorre daí uma perversa atitude de adaptação à realidade como ela é, abafando-se todo impulso de transformação e de criação do futuro. Disso resulta algo gravíssimo: a Razão não existe por si mesma, mas se dá nas razões de cada qual. Como impor-se, se as razões são diferentes?  Facilmente já não se impõe “a força da Razão”, mas “a razão da força”, daí sermos uma civilização tão baseada na violência e na guerra;

04. Uma trágica consequência dessa mentalidade dualista é que nem os poderosos(as) nem os escravos(as) se interessam pelo mundo, ricos e pobres jogamos lixo nas ruas: se a materialidade da vida é algo inferior e desprezível, por ela não vale a pena sacrificar-se, o que temos de fazer é usufruir o máximo, usar tudo em próprio proveito, já que só nossos interesses podem conferir-lhe alguma consistência e valor. O hedonismo, o valor do prazer imediato e egoísta, é uma das marcas de nossa sociedade. O que acontece na prática, porém, é um paradoxo: como se cai na armadilha da idolatria, que é o narcisismo, que nos fecha em nós, terminamos por sacrificar-nos ao que nós mesmos(as) produzimos, às “obras de nossas mãos”, tornamo-nos materialistas. As coisas materiais e o dinheiro, que as representa, tornam-se deuses a ser adorados e, assim, nos dominam e pedem sacrifícios de sangue… O desprezo pela matéria resulta, de um lado, no ascetismo que nega o corpo, e, de outro, na pornografia que o rebaixa e instrumentaliza. Aos “escravos(as)”, aos pobres, também não interessa o mundo, pois não lhes pertence. Por isso, todos nos sentimos à vontade para estragá-lo e destruí-lo;

05. O antropocentrismo e o elitismo marcam nossa cultura. Na verdade, androcracia (poder dos machos), plutocracia (poder dos ricos, os que têm bens) e aristocracia (poder dos “melhores”, dos “homens de bem”), herança da antiga sociedade grega, que capturou a Bíblia em suas malhas produzindo o mundo patriarcal e opressivo que conhecemos, sob o domínio absoluto da “razão instrumental” dos poderosos. É bom lembrar que o patriarcalismo é herança ainda bem mais antiga, quem sabe derivada do medo ancestral que o macho tem da fêmea, pois guarda memória de ter ocupado nela só um “pedacinho” e dela ter nascido. Quem sabe, antecipa-se a oprimí-la com secreto medo de que ela o domine. Como se temesse que a mulher fosse ocupar todo o espaço… Urge passar do “antropocentrismo” ao “biocentrismo”. Produzimos meios e instrumentos de domínio da Natureza, já não nos perguntamos, porém, pelos fins, pelos objetivos de toda a nossa lida. É preciso passar da perspectiva do chamado “desenvolvimento” à atitude de “envolvimento” com o conjunto do universo que é um imenso organismo vivo. O ser humano, mulher e homem, tem de perceber-se e aceitar-se como parte da mesma matéria das coisas, em profunda solidariedade e compaixão com todo o universo material e, ao mesmo tempo, com a tarefa sublime de ser aquele ponto da vida do universo em que as coisas tomam consciência de si mesmas, são capazes de projetar-se no futuro e sentir-se expressão e instrumento de relações de amor, de diálogo e de cuidado. Temos de passar da “antropocracia” (domínio despótico do ser humano) para a “antropodiaconia” (o ser humano servidor), o ser humano como ponto de concentração e de irradiação, núcleo centrípeto e centrífugo da energia cósmica, o ser humano em comunhão e a serviço de todas as coisas, como jardineiro do universo, conforme a bela imagem da segunda página da Bíblia;

06.  O grande parcial fracasso do Cristianismo se vê claramente nos resultados de nossa civilização, tantas vezes denunciados por Dom Helder: os países ricos, povos de origem e de formação cultural cristã, são os que têm imposto ao mundo um sistema de vida que nos está levando ao desastre. Vem-nos à mente a dura palavra do profeta Oséias, oito séculos antes de Jesus: “Não há fidelidade nem amor, nem conhecimento (experiência) de Deus na terra. Mas corrupção e mentira, assassínio e roubo, adultério e violência, e o sangue derramado soma-se ao sangue derramado. Por isso, a terra se lamentará, desfalecendo todos os seus habitantes, e desaparecerão os animais dos campos, as aves dos céus e até os peixes do mar” (Os 4, 1-3). Que palavra de tremenda atualidade, intuição profunda do íntimo nexo entre experiência de Deus, justiça e equilíbrio cósmico, teologia, economia e ecologia, uma implicando a outra!

07. Não é preciso ir longe para enxergar o relativo, mas trágico fracasso do Cristianismo. Nosso país é um dos mais religiosos do mundo, nascido com missa e sob o símbolo da cruz, e neste momento explode com igrejas em cada esquina. Na verdade, porém, somos um dos países mais cruéis do mundo: absurda concentração de renda, elitismo e desprezo pelas pessoas pobres, racismo, dominação das elites e alienação das massas populares. Certa vez, uma freira católica romana, africana, do Burundi, após anos de vida no Brasil, me confidenciou: “Em meu país sou descendente de família de alta nobreza. Já vivi nos Estados Unidos, no Canadá, na França e na Bélgica, e nunca me senti tão desprezada por ser negra como no Recife. Sorrio interiormente, ao ser desprezada por esses “plebeus”, logo eu que, além de nobre, tenho alto grau de formação universitária, com vários títulos acadêmicos, e ainda conto com formação espiritual e cultural para compreender e ultrapassar o absurdo tratamento que me é dado. Fico, porém, a pensar como deve ser trágico para as pessoas negras, pobres e, sobretudo, mulheres, viver aqui”. Apesar de progressos nos últimos governos, pensemos no caos instalado em tudo aquilo que são as políticas públicas destinadas especialmente aos pobres, tais como emprego, moradia, saúde, previdência, educação, lazer, segurança. 

            A herança bíblica ainda é um tesouro a ser aberto, palavra de denúncia radical contra o sistema sob o qual vivemos e com o qual, de alguma forma, colaboramos. Por isso, dizia o grande e saudoso teólogo José Comblin mais ou menos o seguinte: “Na verdade, o Cristianismo não fracassou, é que ainda não foi vivido. O que é urgente é que é preciso começar tudo de novo”:

01. Para a Bíblia o mundo não é uma harmonia perfeita já dada e que bastaria contemplar e imitar. É bom em suas raízes, é dom de Deus. Mas é imperfeito por sua própria natureza contingente, é “carne”, isto é, fragilidade, e está marcado pela maldade do pecado que o vai desviando dos propósitos inscritos em seu próprio ser, segundo a “lei dos instrumentos”: instrumentos inadequados usados para produzir a obra, podem desviar o autor de seus bons propósitos iniciais, é o que, com sentimento trágico de quase desespero, nos diz o Apóstolo São Paulo na carta aos Romanos, capítulo sete;

02. Não basta pensar e contemplar, é preciso que escutemos o chamado da vida ameaçada, formulemos projetos de aliança, de comunhão, e entremos em ação em vista de participar da obra de redenção do mundo;

03. A questão de fundo, em torno da qual se movimenta toda a proposta bíblica é como não cair na idolatria. Nossa insegurança e medo da vida nos fazem necessitar de auto-afirmação, tanto como pessoas quanto como sociedade. A experiência de não poder tudo, leva a agarrar-nos ao pequeno poder de que dispomos, como crianças que se agarram ao brinquedo, gritam alto e dão pontapés, com medo que lho arrebatem. Para nos afirmar, apressamo-nos a dominar as pessoas (relações de poder) e dominar as coisas (relações de posse).  O sistema social se acha simbolizado no dinheiro: na moeda estava a imagem (ídolo) de César, o imperador… enquanto o Deus vivo, Deus dos vivos, nos abre à partilha e ao serviço à vida das pessoas (o próximo, cf. Mc12,13-34). A idolatria necessita de imagens, de ícones nos quais projetamos a nós mesmos(as). Em nossa sociedade, o automóvel é uma das imagens idolátricas mais expressivas: é ideal a atingir porque com ele as pessoas se identificam, ostentam seu “status” divino de superioridade, sentem-se integradas no sistema dominante porque identificadas como privilegiados consumidores; para obtê-lo, porém, se sacrificam e até morrem e matam, fala-se de “guerra do trânsito”; a seus caprichos se submetem; com ele se impõem, dominam, sacrificam a maioria que não o possui (financiamento público de caras obras viárias, diminuição de  áreas verdes para obtenção de álcool combustível, com prejuízo das áreas de plantio de alimentos, poluição, perda de vidas humanas em acidentes etc); e o absurdo círculo de morte chega ao paroxismo quando se reconhece que esse valor, inatingível pela maioria, se um dia fosse possível atingi-lo, provocaria o caos total… Morar em apartamento, se de luxo melhor, para boa parte da população de cidades, como a nossa, vai sendo outro símbolo idolátrico, e qual dragão avança a especulação imobiliária a ferir gravemente bairros tradicionais de uma cidade como o Recife, que já foi bonita, como o de Casa Forte, e a destruir outros, como o de Boa Viagem, quase só cimento e asfalto;

04. Os grandes eixos da Bíblia são a liberdade das pessoas, enquanto processo contínuo de libertação, para que possam assim gozar do mundo, criado por Deus, em comunhão, em aliança, e serem felizes (“xalôm”) (cf. Gálatas 4-5), e a afirmação central de que Deus está entre nós, é Emanuel, o mistério supremo da Encarnação como a dimensão mais profunda de toda a realidade mundana (cf. Jo 1). Não se propõe “fuga do mundo”, ao contrário, anuncia-se a entrada de Deus na materialidade de nossa vida quotidiana, pessoal e coletiva. Criação e Encarnação têm de ser os eixos de nossa espiritualidade. Não devemos esquecer que o Cristianismo não anuncia a imortalidade da alma, mas a ressurreição dos corpos, consumação da obra da Criação (cf. Rm 8);

05.       Ao contrário do dualismo de nossa cultura ocidental, a Bíblia proclama a unidade teológica: Deus é unidade perfeita, radicalmente diversidade e radicalmente unidade, unidade que resulta, não da solidão de UM, mas da plena comunhão do múltiplo, este, o sentido profundo da doutrina da Trindade, princípio e modelo da criação – o individualismo é ideologia e pecado que falsificam o dinamismo natural da realidade, sempre estruturalmente coletiva, tal qual imensa teia. E Deus-Conosco abole qualquer distância entre céu e terra, superior e inferior;

06.       A Bíblia proclama a unidade antropológica: matéria e espírito, corpo e alma não são duas partes de nós, nem mesmo dois princípios suficientes, como lembrou bem Santo Tomás de Aquino, ao corrigir Aristóteles e falar, não de dois “princípios”, mas de “co-princípios”, duas dimensões complementares de nossa única realidade total. É mediante a materialidade que se manifesta nossa espiritualidade. Basta conferir, por exemplo, a Epístola aos Romanos ao dizer-nos que “oferecer nossos corpos em sacrifício vivo e santo”, é o verdadeiro “culto espiritual” (racional) (Rm12, 1-2). Quando perguntavam a João Batista: “Que devemos fazer” para converter-nos a Deus (pergunta portanto “espiritual”), ele lhes respondia indicando obras materiais: repartir as roupas, partilhar a comida, não explorar pessoa nem cometer violência corporal (cf. Lc 3, 10-14). A Epístola de São Tiago é de clareza meridiana: “A religião pura e sem mácula (espiritual) diante de Deus, nosso Pai, consiste nisto: visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações e guardar-se livre da corrupção do mundo” (obras materiais) (Tg 1,27; cf. 2, 14-17). Não devemos esquecer o famoso quadro do Juízo Final no qual o encontro com Cristo se dá durante esta vida, ao prestar-Lhe auxílio material, corporal (cf. Mt 25, 34-46). O que há de mais espiritual na vida é o que nos parece mais material: sexo e dinheiro, relações corporais (as relações humanas são sempre corporais) entre as pessoas e relações das pessoas com as coisas materiais. É mediante essas relações materiais que se manifesta “de que espírito somos”;

07. A Bíblia proclama a unidade social, a começar das relações mais elementares e primárias: homem e mulher, conacional e estrangeiro, senhor e escravo (cf. G1 3,28). Não há seres superiores e inferiores, a aliança com o único Deus nos constitui num único povo em aliança, sem senhores(as) nem escravos(as), todos e todas reciprocamente servidores (cf. Dt 5, 12-15; Ef 5, 21);

08. para a Bíblia, a revelação do mistério de Deus revela a dignidade de cada pessoa humana: somos imagem de Deus, nossa vocação é a liberdade só possível pela comunhão e o serviço, a posse do mundo e o cuidado divino com todas as coisas; mais ainda, somos filhos e filhas de Deus e o mundo é herança posta em, nossas mãos, “tudo é nosso” diz-nos o Apóstolo São Paulo, (1Cor 3, 22-23), não somos escravos(as), nem de menor idade, mas filhos e filhas da casa a quem toda a criação foi entregue em herança (cf G1 3,23-4,10);

09. No Reinado de Deus, a cidadania é titulo que se nos outorga por nossa relação imediata com o Absoluto Transcendente. Não nos vem nem da sociedade, nem do Estado. Temos um único Senhor que nos liberta de qualquer senhorio humano ou mundano e, ao mesmo tempo, impede que nos imponhamos como senhores(as). A soberania divina nos devolve a liberdade humana. A Igreja tem uma missão política que lhe é essencial: ser instrumento para colaborar na implantação da política do Reinado de Deus, particularmente promovendo o que garante o processo de humanização e infundindo a coragem de ir até o fim sustentando valores inegociáveis – por isso o século XX tem sido chamado de “o século dos mártires”, particularmente dos(as) mártires da justiça. A Liturgia anglicana, numa de suas orações eucarísticas, pede “que trabalhemos na transformação dos reinos deste mundo no Reino de Nosso senhor Jesus Cristo”;

10. Na missão evangelizadora, a Igreja tem de fazer como Jesus, “revelar a realidade”, arrancar os véus tecidos pela “sabedoria do mundo” para encobrir a realidade que vive o povo (cf. Mc 3, 1-6), desmascarar o que Marx chamava de ideologia que legitima o sistema de opressão. Para o Apóstolo São Paulo, na cruz de Jesus se revela de modo definitivo a solidariedade de Deus com os crucificados neste mundo; longe de ser palavra de resignação, é denúncia radical que desmascara o poder opressor. Para a Igreja, trata-se de anunciar ao povo, encurvado sob o peso da cruz, que é nele que residem a sabedoria e o poder de Deus (cf. 1Cor 1-4). Isto, porém, a “propaganda” do sistema estabelecido o oculta. Evangelizar é a grande missão da Igreja de ajudar-nos a superar essa alienação e o sentimento de impotência que lhe é lógica consequência. Que seria dos poderes econômicos, das elites sociais, dos poderes políticos e religiosos, se não fosse o povo que é forte o suficiente para carregar o peso da vida da sociedade? Na verdade, quem parece fraco é, de fato, quem é forte. Desmascarar isto: que os “fracos” é que aguentam o peso dos “fortes”, é missão prioritária da Igreja cristã.  Na Comunhão Anglicana, dizemos que “lutar para transformar as estruturas injustas da sociedade” é parte essencial do processo de evangelização e de conversão, e está intimamente associado ao cuidado com a preservação e expansão da vida, que é fruto da compaixão por todos os seres do universo.

O novo desafio de nosso tempo: a responsabilidade ética das pessoas comuns

01. Nunca como hoje a sorte de nossa vida e da própria vida no planeta esteve tão imediatamente em nossas mãos. Antigamente, o povo camponês se sentia dependente da Natureza. Agora, com a Ciência e a tecnologia, é a Natureza que depende de nós, pois temos o poder de preservá-la e expandí-la, assim como de destruí-la. A própria vida, já podemos manipulá-la em laboratórios. Respeitáveis cientistas já nos alertam sobre o abismo para o qual nos dirigimos. E são eles mesmos, e já não só as religiões, que nos têm chamado à conversão, quando dizem que ou mudamos de atitude e comportamento, ou morremos com a Terra ferida. E o que vemos? Já está muito claro que os poderosos não querem mudanças profundas, e os governos também não o querem ou já não o podem. O nosso no Brasil é um caso patético: um governo “preocupado” com o social que entrega a Economia escancaradamente aos poderes econômicos que são justamente os que causam os problemas sociais… Em vez de “políticas emancipatórias”, o que temos são “políticas compensatórias”. Em vez de cidadãos e cidadãs, o que promovemos são consumidores e consumidoras. Quem, na verdade, poderá salvar a Terra? Que Messias temos de esperar? Nunca como hoje foi tão atual a palavra de Jesus:“O Reino de Deus está dentro e entre vós” (Lc 17, 21). Temos de convencer-nos de que o “Messias” é agora o povo messiânico, não há outro, aguardá-lo seria pura ilusão (cf. Hb 12, 1-4). É em nossas mãos que está a sorte da vida, o destino da Terra. Por incrível que pareça, em nossas mãos de pessoas comuns. Em nós, a sabedoria e o poder de Deus, para compreender e manter a Criação. Livros proféticos da Bíblia como Isaías, Jeremias, Ezequiel, Sofonias e Zacarias sugerem, com bastante clareza, que o futuro só será melhor com uma sociedade articulada em torno do que chamaríamos hoje de “poder popular” (cf. Is 11, 1-9; Jr 23; Ez 34; Sf 3, 11-20; Zc 9, 9-17). E é o mesmo o pensamento que se exprime nos textos do chamado Terceiro Isaías (cf. Is 56-66);

02. Precisamos compreender o significado antropológico da democracia, o que está contido, como maneira de viver humanamente, sob a palavra “participação política”: temos a responsabilidade de afirmar nossa própria DIGNIDADE, sentir-nos pessoas, livres e capazes de iniciativa, isto é, capazes de ser sujeitos de poder. Desse sentimento primário nasce a SOLIDARIEDADE, o Budismo diria “compaixão”, ou seja, nossa responsabilidade social de sentir-nos um único “sólido”, um membro vinculado ao único corpo que é a imensa teia de todo o universo. Se aceitamos que a dignidade de alguém seja ferida, por isso mesmo já estamos negando a nossa própria, pois implicitamente confessamos que o mesmo possa também ser feito contra nós – solidariedade é um sentimento e uma afirmação que diz respeito ao todo, ao “sólido” inteiro, com todas as suas partes. Finalmente, temos a responsabilidade de exercer a luta em favor da restauração da JUSTIÇA, nossa responsabilidade política de sentir-nos construtores da realidade social. Temos de ter bem claro que as estruturas sociais não são realidades objetivas adequadamente exteriores a nós. São também realidades subjetivas a partir de nós e em nós. Na verdade, são expressão e instrumentos de nós mesmos: a Economia são nossos interesses e “relações sociais de produção”, propaganda, distribuição e consumo; a política são nossas relações de poder; a cultura são a maneira como nos expressamos, nos motivamos e nos construímos como pessoas em relação umas com as outras mediante nossas relações com as coisas;

03. Há algumas condições básicas que devemos observar para exercer a participação pela ação: do reconhecimento da condição de pessoa decorre sentir-se livre do determinismo das coisas, de si mesmo e do sistema da sociedade – trata-se de desalienar a consciência e assumir a própria liberdade, rompendo os vínculos de sujeição ao sistema dominante, como está tão claro no comportamento, nas opções e nas ações de Jesus (cf. Mc 1, 21-28; 2, 1-12. 15-28; 3, 1-6). Paulo Freire foi uma das pessoas que melhor o compreendeu, quando falava de “conscientização”, neologismo aliás criado por Dom Helder Camara, conforme depoimento do próprio Paulo Freire, e de “educação como prática da liberdade”. Mas não basta sentir-se livre, é preciso informar-se corretamente do que acontece e empreender luta coletiva pela desprivatização e em favor do controle público da informação, a qual, num país como os Estados Unidos, carro-chefe do sistema, está nas mãos de apenas 5% da população e em nosso país não é diferente. Finalmente, é preciso organizar-se, promover a autonomia dos movimentos sociais, ter bem nítida a distinção entre “público” e “estatal”, articular-se sempre mais em redes cada vez mais amplas (o Fórum Social Mundial é uma apreciável tentativa), e ir além da democracia representativa ao reivindicar e promover a democracia participativa;

04. Sob essas condições, como se diz hoje, “é preciso pensar e agir global e localmente”, para promover a dignidade, a solidariedade e a justiça, assumir bandeiras significativas e mobilizadoras: reavivar o trabalho de base nas comunidades populares, mediante o voluntariado social e político; levantar a bandeira da Reforma Política como um dos instrumentos de educar  e constranger os políticos a serem éticos; engajar-se na luta pela garantia dos direitos econômicos e sociais, ou seja, participar ativamente nas instâncias que formulam e controlam as políticas públicas, por exemplo, os Conselhos Municipais: política de posse da terra, de emprego e previdência, de moradia, de regulação do espaço urbano, de educação e cultura, de infância e juventude, de pessoas idosas ou com deficiência, de saúde, transporte, lazer e segurança;

05. Além disso, precisamos, particularmente, assumir a responsabilidade pelo quotidiano, fazer acontecer em nós e em nossa casa o sonho que sonhamos para o mundo todo. Não basta que queiramos e lutemos por restituir à sociedade o controle político, isto é, o poder, que tem sido apropriado por grupos poderosos e pelo Estado. É necessário e urgente que redefinamos nossa visão, nossos critérios e nosso nível de consumo. Já sabemos que a crise da Terra está sendo provocada por nós, concretamente por nossos interesses de consumo. Mas que podemos fazer? É verdade que o sistema produtivo se tem tornado demasiadamente complexo, sentimo-nos impotentes para influir sobre ele. Quem sabe se, no momento atual, nosso poder sobre a economia não está justamente no fato de que somos nós quem consome o que se produz. Hoje nossa identidade social se define a partir da condição de consumidor, é essa a realidade a que chegamos. Na verdade, não se trata de algo absolutamente novo. Assim como se dava antigamente com a agricultura e o pastoreio, sem nós, nem as indústrias nem os bancos nem os chamados serviços funcionariam, pois somos nós que consumimos seus produtos. Apenas entrou em ritmo frenético e até escandaloso uma dimensão permanente do ser humano em toda sua história: produzir para consumir. E nossa vida se refaz pelo consumo de objetos que ela mesma nos proporciona: basicamente, alimento (material e mental), respiração, abrigo e movimentação no espaço do mundo. A grande novidade é que agora já não são nossas necessidades, mas os interesses dos poderosos que definem o que produzir. Em seguida, pela propaganda, criam em nós a necessidade de consumir, vejamos que se dá com o tal de celular: no país a média estatística já é de dois aparelhos por pessoa, até as crianças já “sentem” necessidade de tê-lo. Mas nós continuaremos a ser os que consumimos. De nós, em última análise depende o sistema de produção. Nisso reside nosso poder e, ao mesmos tempo, o tremendo desafio de nosso tempo: estamos alienados de nosso próprio poder. Consumimos, não o de que precisamos, mas passamos a precisar porque nos convencem de que é preciso consumir. Alienação é justamente deixar-se comandar por “outrem”, “alium”, “alienum”, viver não em si, mas de outrem. É o que dizia o saudoso Paulo Freire da “introjeção do opressor no oprimido”. Ora, nossa responsabilidade ética é de fazer do ato de consumir um exercício de liberdade pessoal, cuja motivação sejam autênticas necessidades e não as que nos desejam impor de fora, correspondentes a interesses alheios. Se a responsabilidade é imensa, tremendo é o desafio ético e político, pois a  humanidade parece não estar ainda à altura de assumi-los. Aliás, preferimos, o mais das vezes permanecer na infantilidade, o que desejamos é ser bem tratados(as), mais ou menos como animaizinhos de estimação, não ser livres. Pois a liberdade é sempre o risco de uma aposta no futuro, no que nos supera e nos leva adiante de nós mesmos(as). A liberdade é o risco de apostar na transcendência, das outras pessoas e da realidade maior do mundo que nos cerca… 

      Dez princípios simples para assumir nossa responsabilidade ética pelo universo:

01. Nada é Deus, mas o delicado e discreto mistério de Deus está em tudo. Se não somos panteístas (“tudo é Deus”), temos de ser “panenteístas” (“tudo está em Deus”). A uma nova atitude ética subjaz uma nova espiritualidade, de radical delicadeza para lidar com todas as coisas, atitude que brota do sentimento de  profunda compaixão por todos os seres do universo, como nos ensinam nossos irmãos e irmãs budistas; em tudo nos encontramos com a marca da divindade; 

02. Somos irmãos e irmãs de todas as coisas. Não basta que “nada de humano nos seja estranho”, é preciso que nada no universo nos seja longínquo ou desprezível, pois tudo está aí para compor a imensa teia da vida e em torno dela;  

03. O aparentemente distante é sempre próximo, pois o universo é uma única teia interdependente. O mundo inteiro nos chega hoje à sala de estar ou ao escritório pelo televisor e pelo computador. Para que tenhamos, por exemplo, as enormes castanheiras do Pará dependemos de uma pequena abelha e de seu trabalho silencioso, aliás, como dizia Einstein, sem as abelhas a humanidade não sobreviveria por mais de algumas poucas horas, pois não seria possível produzir alimentos;

04. A salvação está na sobriedade de consumo. É preciso “vivere parvo”, viver com pouco. Saber discernir entre o essencial e o acidental, o principal e o secundário. Só assim será possível exercer compaixão por todos os seres, abrir-nos à partilha e preservar o universo;

05. Só há compromisso pela vida, de seguir a “ lógica da casa” (eco-logia), se há compromisso pela justiça, ao estabelecermos a “lei que rege a casa” (eco-nomia): a lei para que o universo seja realmente a casa (oikos, eco=casa) onde todos os seres tenham direito a permanecer (ecu-menismo). Na verdade, minha relação com as pessoas, de amor e de justiça, é condicionada decisivamente por minha relação com as coisas, de zelo e cuidado, não de prepotente apropriação, e vice-versa;

06. Ninguém se salva sozinho, nós só nos salvamos em aliança, em comunhão, parafraseando o que dizia Paulo Freire do processo de educação;

07. Na parte que ocupo e de que faço uso, eu sou responsável pela totalidade do universo, pois dele sou parte;

08. É preciso passar da atitude de arrogante domínio à atitude de amoroso cuidado;

09. O mínimo gesto do quotidiano é exercício de responsabilidade ética, pois sempre diz respeito à sorte de todos os outros seres, a começar do uso da água, da terra, do ar, do alimento, da qualidade e do tratamento do lixo que produzimos em casa, do uso do automóvel, da energia, etc;

10. É preciso passar do irresponsável utilitarismo à ética da responsabilidade pela vida.

 Que posso eu fazer, eu que não passo de uma pessoa comum, perdida na multidão?

01. Não nos esqueçamos de Rosa Parker, a negra americana que se recusou a  levantar-se do banco dianteiro no ônibus, e com seu gesto desencadeou a revolta pelos direitos civis, que obrigou a mudar a Constituição e reconhecer direitos iguais a pessoas brancas e negras;

02. Não nos esqueçamos da bibliotecária americana que, apenas através de mensagens eletrônicas à rede de bibliotecas, obrigou poderosa editora a distribuir o livro de Michael Moore, “Estúpidos Homens Brancos”, um dos mais contundentes libelos de acusação e denúncia contra o governo Bush, quando já estava tomada a decisão de não mais distribuir o livro e reciclar o papel já impresso;

03. Não nos esqueçamos de Gandhi que foi capaz de levantar o seu povo na luta contra o domínio colonial inglês na Índia;

04. Não nos esqueçamos de Dom Helder, em seu ministério local e em suas viagens missionárias pelo mundo, com o pressante chamado às “minorias abraâmicas”. Seu ministério profético é uma das mais potentes e fecundas raízes do Fórum Social Mundial. Não é acaso que seus idealizadores sejam dois brasileiros, o empresário judeu Oded Grajew e o líder cristão Francisco Whitaker, assessor da CNBB e grande amigo e parceiro de Dom Helder;

05. Como nos lembra a Epístola aos Hebreus, não nos esqueçamos de homens e mulheres que resistiram sozinhos(as) até à solidão da morte porque estavam firmes na certeza de que “Deus previa para nós algo de melhor”. Sobretudo não nos esqueçamos de Jesus Cristo, que, condenado à morte pelo Império, como subversivo, morreu só e nu (cf. Hb 11,1-12, 4), e por Ele e com Ele ainda hoje estamos aqui. Sim, “com profusão a graça de Deus e o dom gratuito de um só homem se derramaram sobre a multidão” (Rm 5,15). É porque tantos e tantas “um só, uma só” tiveram a coragem de ser fiéis que nós hoje estamos aqui…  para proclamar e lutar por “um outro mundo possível”, necessário e urgente, plenamente conscientes de que o mínimo gesto do quotidiano é  exercício ético, isto é, de responsabilidade, de redenção ou de condenação à morte da humanidade e do planeta.

                       Deus nos abençoe e nos dê Sua lucidez e coragem de lutar!

About Sebastião Armando (170 Articles)
Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema "Evangelização", convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social ("Casa Ecumênica - Crer & Ser") com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.