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A Propósito do Estatuto da Criança e do Adolescente.

(Reflexão bíblico-teológica)

1. Querem ferir com violência mortal o Estatuto

ecaSabemos que, no Congresso Nacional, está em andamento absurda proposta de mudança que vem mutilar o ECA em sua própria raiz. Com efeito, pretende-se rebaixar a maioridade penal para dezesseis anos, equiparando, assim, adolescentes a bandidos adultos. Sob o pretexto de que os menores são inimputáveis. O que é mentira, pois crianças e adolescentes são chamados a responder por seus malfeitos, só que em regime diferente de criminosos(as) adultos(as), ou seja, em sistema “socioeducativo” ou de reeducação. O que, aliás, é, teoricamente, a finalidade de qualquer pena imposta a criminosos(as) adultos(as) também. Pois, a pena, no Direito contemporâneo, compreende-se como medida de reeducação e não como castigo de vingança da sociedade. Esse tipo de projeto legislativo vai na mesma direção à direita que se vê, por exemplo, no projeto de mudar o Estatuto do Desarmamento, para facilitar a posse de armas e, por conseqüência, os interesses da indústria que as produz. Maneira fácil e mascarada de não ir, mais uma vez, à fonte donde brota a violência social. Desistimos das crianças e desistimos da paz…só cremos na repressão das cadeias e na força das armas. “Violência mortal” contra os Estatutos? Sim, só para confirmar que é sobre violência que se edificam as bases de nossa sociedade nacional.

Justifica-se a proposta apelando para a “crescente violência juvenil”. Ora, temos notícia de estatísticas que dizem que, no conjunto da criminalidade no país, a percentagem de crimes cometidos por adolescentes não chega a 1%. Argumenta-se também com “o clamor da opinião pública” que deseja os menores recolhidos à cadeia e não a “unidades socioeducativas” só para os de sua faixa de idade. Está a população realmente informada de todos os aspectos da grave questão em jogo? Tem sido informado e explicado que o Estado não tem aplicado a lei? Não tem cumprido devidamente sua parte na implantação concreta das medidas previstas? Que não tem fornecido as adequadas condições para que se dê realmente o processo de reeducação? Basta visitar as chamadas “unidades de apoio socioeducativo”; conversar com agentes responsáveis, alguns e algumas verdadeiros heróis e heroínas, a lutar contra moinhos de vento, feito Dom Quixote, sem as condições necessárias, e até expostos(as) ao risco de insegurança física. para trabalhar eficazmente. Onde estão psicólogos(as) e psicanalistas competentes para trabalhar a “alma” atribulada dessas crianças, profundamente carentes de afeto, fruto de famílias desajustadas, várias delas, inclusive, vítimas de convulsão na primeira infância? Quantas dessas crianças não chegam aos dezesseis anos sem nunca ter recebido um beijo dos pais ou escutado sequer dizer “eu te amo”! Onde estão assistentes sociais especializados(as) no trato com crianças infratoras e capazes de penetrar nos segredos de suas famílias, tantas vezes marcadas por terrível violência quotidiana, para reconstruir relações sociais saudáveis? Onde estão terapeutas ocupacionais capazes de recriar o contacto “material” entre elas e o mundo, na perspectiva de redenção pelo trabalho? Onde estão pedagogos(as) especializados(as) em lidar com crianças “difíceis” ou desajustadas? Onde se acham espaços adequados de convivência, trabalho, estudo e lazer destinados realmente a recuperá-las? Será que pais e mães são alvo de ação específica durante o processo supostamente “socioeducativo”, pessoas sem horizonte, vencidas pela vida, até entregues ao álcool e às drogas para esquecer que, de há muito, já perderam a capacidade de oferecer pão às próprias crias? Temos sabido, por exemplo, de crianças apreendidas por ter furtado um aparelho celular para levar comida pra casa… Sem nem falar de que o próprio sistema parece carcomido pela terrível cultura da corrupção de seus agentes, pela violência e até pelo crime, literalmente. Por acaso, lembramo-nos de que boa parte dessas crianças estão acima da média de seus coetâneos(as) em capacidade de liderança, em intuição, decerto confusa, de sua condição desgraçada, em criatividade e espírito empreendedor? Quem sabe, por causa dessa sua condição para além do “normal” é que, sem dúvida, acham no crime o espaço que se lhe oferece para dar vazão a seu instinto e fantasias de heroísmo… O fato é que temos escutado depoimentos de juízes e estudiosos do Direito e da Sociologia que dizem, sem hesitar, que, onde se dão as condições e estruturas previstas no Estatuto, o índice de recuperação é altíssimo, chegando mesmo a algo em torno de 70%.

Poderão dizer que seria caríssimo. Sim, mas quem as produziu, quem é responsável por recuperá-las? Não é o conjunto de nossa sociedade de mais de quinhentos anos de opressão, injustiça e violência contra os pobres? Dinheiro, bem que o há, baste ver a absurda e escandalosa concentração de riqueza em pouquíssimas mãos (1% a 5% de nossos(as) compatriotas… talvez nem se sintam bem ao saber-se “compatriotas” de descendentes de aborígenes, de gente negra, favelada, faminta, marginalizada e excluída…. Falta de dinheiro? Não temos visto no momento bilhões roubados ao povo pela teia de aranha da corrupção? Uma mínima parte bem que poderia ter sido empregada para recuperar nossos filhos e filhas do povo…

Sim, o Estatuto tem incomodado boa parte de pessoas, desde sua aprovação, porque representa grande novidade na compreensão do significado cultural de “lei” e de “pena”. Pessoas que, na verdade, estão menos interessadas na recuperação dos adolescentes do que em tê-los afastados de perto de si, uma vez que gostariam de não se sentir ameaçadas. Mas as crianças e adolescentes infratores(as) são primeiramente culpados e ameaçadores, ou cruelmente vítimas? Em geral, a lei é feita para pragmaticamente regular relações já em voga, que já se processam no meio social, é instituto para disciplinar a realidade de fato. O que temos no Estatuto? Trata-se de uma lei cujo objetivo é bem diferente, é transformar e recriar a realidade. Daí, não se tem como finalidade primeira segregar e punir, mas reeducar e recuperar. Neste sentido, o ECA é uma lei de inspiração genuinamente profética, que visa a transformar cultura e estruturas sociais.

Na Bíblia, a Lei, a Torah dos hebreus, não se esgota no sentido de disciplina de relações e de punição de crimes. Ao contrário, é, ao mesmo tempo, mandamento e utopia. Não objetiva apenas regular o presente, mas, com base na história e nos valores do povo, pretende abrir horizontes na direção do futuro. Será solução rebaixar a maioridade penal, quando o que se reflete em crianças e adolescentes é, na verdade, a profunda crise de uma sociedade carente de valores positivos e humanizadores, e sem rumos? Querem tornar crianças e adolescentes bode expiatório de uma sociedade que é, ela mesma, criminosa em sua própria raiz. Sociedade nascida da opressão colonizadora, injusta em suas estruturas desde o início, o território apropriado por poucos ricos com a exclusão do povo (capitanias hereditárias), os povos aborígenes escravizados e dizimados, o povo africano roubado de seus filhos e filhas, reduzidos a escravos(as) “sem alma”… Não se disse muito bem que a favela é a sucessora da senzala?

Ora, nas crianças e adolescentes infratores, se refletem as profundas contradições e perversões de nosso meio social em seu conjunto. Com efeito, são elas o elo mais frágil da corrente: frágeis fisicamente, carentes de resposta a suas necessidades vitais que já começam a ser negadas pela condição degradada de tantas famílias incapacitadas de prover segurança afetiva, assistência e proteção; frágeis psiquicamente, marcadas de modo indelével por absorver as contradições econômicas, sociais e culturais em que se debate o país e a própria civilização mundial no momento. Como desligar a realidade de nossa juventude da violência endêmica que tem caracterizado a história e a condição da sociedade brasileira? Historiadores(as) e cientistas sociais chegam a concluir suas análises com a afirmação de que a violência está de tal modo entranhada a ponto de fazer parte da própria matriz de nossa formação social. Já não nos é mais permitido pensar na tal de “cordialidade brasileira” (Buarque de Holanda) ou na sociedade de “congraçamento de raças e classes” (Gilberto Freyre). Mais realistas foram as análises de José Honório Rodrigues, quando nos ensina que somos uma sociedade de “reformas” que sempre tiveram como finalidade impedir a verdadeira “revolução” ou transformação social. Na verdade, temos de reconhecer, com indignação e sentimento de frustração, que somos uma das sociedades mais cruéis da história do mundo. Se não fosse verdade, como justificar que as terras indígenas – solo original de nossos primeiros “proprietários” da terra – não sejam demarcadas? Como tolerar que os quilombolas não tenham seus territórios legalmente reconhecidos? Como explicar que, num país de mais de oito milhões de quilômetros quadrados, não haja terra para camponeses(as) plantar e as pessoas terem chão para sua moradia? Quem tem a coragem de reivindicar recebe balas assassinas de resposta… baste lembrar o que tem acontecido particularmente na Amazônia e no Centro-Oeste. Como conviver, sem se escandalizar, com a violência policial, e o tráfico de armas e de drogas? Como ignorar que os mais ricos pagam relativamente menos impostos que os pobres? Como aceitar como normal a absurda concentração da terra em latifúndios rurais de cana, café e, sobretudo hoje, de soja, milho e gado, enquanto os pequenos lavradores, que alimentam o país, ficam a mendigar ser assentados num pequeno lote? E a terra urbana, concentrada em mãos da especulação imobiliária que, como verdadeiros dragões, está a devorar as últimas manchas de verde e a afastar os pobres para as margens? Como conviver com a terrível divisão do povo entre “gente inferior” e os ricos a concentrar riquezas em mãos de pouquíssimas famílias, as quais têm o poder de controlar também a informação que nos chega? Como não se insurgir contra a destruição das florestas e dos biomas em geral, a degradação dos rios e extinção dos mananciais, o envenenamento da terra e de nossas mesas? Surpreende, então, que sejamos uma sociedade violenta, se já em sua própria matriz temos sido uma sociedade criminosa? Se não fosse assim, a corrupção não seria tão recorrente e tida como comportamento quase normal. Quanta gente não diz, ao falar de políticos corruptos: “Se eu estivesse lá também ia fazer o mesmo, cada qual aproveita a chance que tem…” E não conviveríamos tão à vontade com o diário incitamento à violência e com a excitação à prática precoce do sexo, que já nos chegam desde os “inocentes” “games” infantis até a tela da TV nos diferentes horários do dia, sem nenhum pudor.

Neste contexto tão perverso, admira que o Congresso Nacional, “representante (?) do povo” venha a público proclamar que o país desiste da tarefa de reeducar nossas crianças, preferindo decretá-las criminosos(as) bandidos(as)? É a triste e trágica confissão de que, como inteira sociedade, nos declaramos incapazes de cuidar devidamente de nossas crianças. E, reparem bem, não se trata apenas de crianças dos pobres. Quem sabe, é que as dos ricos terão sempre mais possibilidades de escapar…

Finalmente, resta-nos perguntar: Nossas crianças, carentes de afeto e de tantas oportunidades de viver, são culpadas da violência ou vítimas dela?

2. A diaconia (serviço) social e política da Igreja é exercício da fé, da evangelização e da adoração

Fé é aceitar humildemente que Deus nos salve por Sua graça e não por nossas obras. Isto quer dizer, como experiência concreta, que não nos salvamos apenas nem sobretudo por nossos próprios esforços de nos tornar melhores, mas mediante a relação com as outras pessoas que nos ajudam a ser mais. Como diz o poeta Ferreira Goulart: “É evidente que o sentido da vida são as outras pessoas”. É por causa das outras pessoas e por sua ajuda e influência, bem para além de nós, que nos construímos e nos tornamos melhores. Em Teologia, diz-se: É por graça, isto é, bem para além do que fazemos ou já somos Fé é atitude global de escuta do misterioso chamado da Vida e, consequentemente, de entrega obediente a Deus (nome “secreto” da Fonte da vida, cf Mt 6, 6-8), em todos os campos da existência humana.

Ora, o ser humano existe e se desenvolve na medida em que vive e constrói a própria vida pela ação sobre o mundo e a relação com outros seres humanos. Por isso, a fé não é primariamente sentimento do coração ou confissão de lábios, nem muito menos ainda aceitação de doutrina; só se dá verdadeiramente enquanto acontece como atitude profunda em nossos comportamentos, gestos e atos concretos – atitude de acolher a salvação e abrir-se a viver de acordo com o querer de Deus, que nos vai sendo revelado ao longo da caminhada, sobretudo através do apelo que as pessoas e as circunstâncias nos fazem. A “obediência da fé”, de que nos fala o Apóstolo São Paulo (cf. Rm 1, 5), não equivale a obra humana simplesmente, mas é fruto do Espírito Santo (cf. Gl 5, 22), pois trata-se de boas ações cujo princípio é a fé, pela qual nos identificamos com o dinamismo de Deus. Por isso, diz-nos o Apóstolo: “A fé opera pelo amor” (Gl 5, 6). Jesus já havia dito: “Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor ‘, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7, 21). E São João vai identificar a fé com o amor: “Quem ama, conhece a Deus” (1Jo 4, 7). Pois é só na prática de nossas relações e enfrentamento da vida que a fé se manifesta.

É bastante comum toda Igreja ter alguma forma de obra social. O amor a Deus nos leva a fazer alguma coisa em favor do próximo. Lutero dizia que a fé nem se pergunta se deve fazer boas obras, pois antes de formular a pergunta já está a fazê-las naturalmente. O que não se pode, dizia ele, é confiar nas próprias obras como meio de salvação, fechando-se orgulhosamente em si mesmo(a) e isolando-se do tecido coletivo da vida. Em nossa ação social, porém, há frequentemente um problema. É comum pensar que nossa missão como Igreja é essencialmente ou primariamente religiosa. Ora, embora a Igreja tenha também uma face religiosa, uma vez que o povo é espontaneamente religioso, sua tarefa central, porém, é anunciar o Evangelho e suscitar nas pessoas o compromisso da fé que equivale a assumir a mesma missão de Jesus. Isto vai muito além de praticar uma determinada religião. Só que, sobretudo a partir do século IV d.C., a Igreja foi se tornando a religião da sociedade e até do Estado. O resultado é que se chegou a excessiva concentração no religioso e, no concreto, em práticas cultuais que se promovem pensando “agradar a Deus”. Como religião e moral estão muito próximas, como instâncias de legitimação das relações e estruturas sociais, a Igreja também tem cumprido o secular papel de impor leis e normas de comportamento, descambando mesmo para o moralismo opressivo e alienante. Resultado, ó em segundo lugar vamos dedicar-nos a cuidar do próximo. Muitas vezes, esse segundo tempo nunca chega e as comunidades cristãs se fecham em seus templos e em sua tarefa de impor a ideologia dominante na sociedade. Ou, se chega, vem com muito menos intensidade que nosso ardor religioso, pois o próximo e suas necessidades estão em segundo lugar no elenco das prioridades, vem por acréscimo, ou, quando muito, como conseqüência. Outra coisa é que, sobretudo, não nos preocupamos muito com o método, o caminho adequado para a ação social e política, julgando que bastem boa vontade e meios para doações.

Ora, nas Santas Escrituras, os mandamentos que dizem respeito a Deus e os que dizem respeito ao próximo não são concebidos como ações sucessivas, ou alternativas e, muito menos, excludentes. Não se trata de dois amores concorrentes: primeiro, um, depois, o outro, ou ainda pior, ou um ou outro. Na verdade é um único mandamento, um único dinamismo, o do amor, no qual Deus é o fundamento, o alicerce, a fonte misteriosa e secreta de nossas relações quotidianas, interpessoais e públicas. Jesus interpreta claramente os dois mandamentos como sendo um só (cf. Mc 12, 28-34). Para São Paulo, toda a Lei, ou seja, a vontade de Deus, se resume no amor ao próximo: “Toda a Lei chega a sua completude numa só palavra: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5, 14). E o mesmo se vê na primeira epístola de São João no capítulo quarto. Certa feita, li num quadro, em uma das igrejas anglicanas de Portugal, uma síntese perfeita: “Há muitas maneiras de amar o próximo; mas só há uma maneira de amar a Deus, amando o próximo”.

A partir disso, compreendemos bem por que São Paulo toma o vocabulário litúrgico para aplicá-lo ao profano das relações quotidianas. Nossa liturgia, nosso ato de adoração, é o exercício concreto da fé nos vários terrenos da existência no mundo – pessoal, interpessoal e coletiva. O “culto espiritual” é nossa vida “profana”: “Oferecei vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. E não vos conformeis ao sistema deste mundo, mas transformai-vos desde vossos sentimentos e pensamentos mais profundos…” (Rm 12, 1-2; cf. 15, 16). Ora, “corpo” são nossas relações humanas concretas e quotidianas, tangíveis,”materiais”: econômicas, eróticas, sociais, políticas e culturais. O “sacrifício racional”, portanto, “como deve ser”, é nosso corpo em conflito com o jeito de ser deste mundo. Na segunda carta aos Coríntios vai-se designar a coleta em favor dos pobres como “liturgia em meio a ações de graças” (liturgia e “eucaristia”) (cf. 8, 4.19; 9, 12). A vida de fé dos filipenses, “o sacrifício da vossa fé” (o sacrifício que é vossa vida na fé), é o sacrifício sobre o qual o Apóstolo está disposto a deixar-se derramar como libação (cf. Fl 4, 18). A pregação do Evangelho é “ato de culto” (cf. 1, 9). Nós, nossa vida, somos o culto em espírito (cf. Fl 3, 3).

Ao assumir como ato de fé e de adoração o serviço de promover a vida no mundo (cf. Jo 10, 10), a Igreja, de fato, está a exercer seu “ministério de reconciliação” (cf. 2Cor 5, 18-20) e, assim, se comportando como co-operadora de Deus (cf. 1Cor 3, 9). Pois, na verdade, trata-se de mostrar a vitória redentora, revelar a obra divina de resgate. Assumir a tarefa de transformar pessoas e estruturas sociais (estas nada mais são que articulação concreta das relações entre as pessoas na coletividade) é “militar” como combatentes de Deus, não aceitar que Sua obra permaneça sob o poder das trevas. É declarar, de maneira vital e atuante, que Deus é verdadeiramente Senhor da Criação e da História.

É justamente isto o que pretende mostrar São João quando Jesus se defronta com o cego de nascença e o restaura. Restaura-o em sua saúde física e lhe abre os olhos da mente para enxergar sempre mais a realidade em torno de si e confrontá-la com coragem; restaura-o integralmente e declara que isso é “fazer a obra de Deus” de recriar o mundo (cf. Jo 9).

3. A diaconia social e política é sinal da eficácia do Evangelho

Ao exercer a diaconia social e política, a Igreja não está apenas a executar papel de suplência em relação a necessidades humanas não respondidas pelo Estado ou por entendidas da sociedade civil. Ou seja, não está apenas a substituir outros agentes sociais, como se, provisoriamente, por força de urgente necessidade, não estivesse no cumprimento da missão que lhe é própria. Como se estivesse a suprir tarefa de urgência que a desviasse, temporariamente, de suas finalidades específicas de agência religiosa, cuja ocupação fosse o culto, a instrução catequética e seus negócios internos. Não, absolutamente. Em qualquer época, a Igreja é chamada a revelar no mundo o carinho de Deus, o amor divino redentor presente e operante para resgatar pessoas e modificar as condições em que vivem. Se não fosse assim, as Escrituras não gastariam a maior parte das palavras falando justamente da intervenção de Deus na vida econômica, social, política e cultural do povo. Afinal, “a Bíblia é um livro religioso, é verdade, mas não é um livro de religião” (Pastor Carlos Cunha, presbiteriano). É paradigma para nós o texto de Lucas 7, 18-23: “(…) os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa Notícia. E bem-aventurado quem de mim não se escandalizar”.

Eis os sinais que faziam ver como o Reino de Deus estava sendo eficazmente anunciado. Ao longo da história os sinais podem mudar. Mas será sempre necessário oferecer à sociedade gestos significativos do amor operante de Deus. Num tempo, foram hospitais, escolas, asilos e ações de beneficência ou “caridade”. Hoje, quem sabe, afloram novos campos onde sinais têm de ser dados: crianças abandonadas, pessoas viciadas em drogas, vítimas de HIV, defesa dos direitos humanos e sociais, educação informal em periferia de cidades, serviço de educação política ou sindical, reivindicações ou iniciativas, em bairros populares, de saúde, educação, lazer, segurança… Para Jesus, são sinais de que o Evangelho está sendo anunciado, revelam a presença eficaz e transformadora do Reinado de Deus entre nós.

Não se trata, então, de evangelizar, duma parte, e fazer ação social, de outra. Às vezes até escutamos frases como esta: “Tal Igreja evangeliza” (no sentido de só falar de Jesus). Ora, na verdade, temos de reafirmar que a única missão da Igreja é evangelizar. Ela, de fato, foi enviada “só” para evangelizar. Tudo depende, porém, de como se compreende o que seja “evangelizar”. Em correta compreensão, ação social e política não pode ser outra coisa, senão evangelização mediante gestos de redenção, gestos que acompanham as palavras ou as precedem, palavras que esclarecem o sentido dos gestos. Assim, toda a diaconia social e política da Igreja tem de ser instrumento e sinal da proclamação do Evangelho do Reino, o qual é “força de Deus” para restaurar sua obra (cf. Rm 1, 16). E essa força, incrivelmente, está em nossas mãos pela energia de Seu Espírito que se revela em nossa coragem e coesão comunitária, como se vê na mensagem paulina da primeira carta aos Coríntios, do capítulo primeiro ao quarto. Por isso, não se trata de, primeiro, promover socialmente e depois “evangelizar”, como se para a Igreja “promoção humana” e “evangelização” fossem dois passos diferentes e sucessivos. Ou, dito de outro modo, primeiro elevar o nível de vida das pessoas e depois anunciar-lhes a palavra da fé, a não ser que “palavra da fé” se compreenda como “doutrinação” religiosa. Não, a “palavra da fé” não pode ser alienada do quotidiano das pessoas, tem de estar no coração da vida.. Com efeito, só se trata de proclamar a palavra da fé, e toda a ação social e política da Igreja adquire legitimidade enquanto sinal vivo da Boa Nova que irrompe na situação concreta, pregação por gestos, testemunho vivo do amor e do carinho de Deus, declarado nas palavras que pronunciamos e mostrado em nossas ações e comportamentos.

4. Os pequeninos estão no centro da mensagem bíblica

dom sebastião e o lava pés das crianças (21)Quando lemos os textos proféticos, vemos claramente que as pessoas fracas, pobres e necessitadas de toda ordem são o julgamento vivo de Deus sobre a organização da sociedade humana. Se elas existem, sua própria existência é denúncia viva do pecado do mundo, da desobediência, da opressão e da corrupção. Por sua própria condição, estão a mostrar, claramente, que a obra de Deus está ferida e precisada de resgate. Por isso, é freqüente encontrar o “justo” como simplesmente sinônimo de “oprimido”. Isto é, o pobre é exigência de que se manifeste a justiça de Deus. A viúva e o órfão estão aí como “oração” viva a implorar que Deus intervenha e julgue a sociedade (cf. Sl 146). Em Apocalipse, as pessoas perseguidas e rejeitadas, as que o mundo despreza, são os juízes da história. Em 1Cor 1-4 a meditação do Apóstolo é claríssima: o que parece desprezível, pequeno aos olhos do mundo, aí é que se situam a sabedoria e a força de Deus.

Jesus nos apresenta os pequeninos como o modelo da atitude de acolhida do Reino (cf. Mt 11, 25ss). No evangelho segundo Marcos, por exemplo, na subida de Jesus a Jerusalém, entrelaçam-se quatro imagens na instrução ao grupo de discípulos (e por que não também discípulas?): o servo, o pobre, a mulher e a criança. Seguir Jesus significa assumir a condição de servo e, consequentemente, entrar em solidariedade com todas as pessoas que são humilhadas e reduzidas a condição servil. E como exemplos típicos dessa condição apresentam-se o pobre, a mulher e a criança. Acolher o reino é receber os pequeninos (cf. Mc 9, 30-37). E a exigência de Jesus é ainda bem mais radical: só entra a participar do Reino quem se torna como criança (cf. Mc 10, 13-16), ou seja, quem assume pessoalmente a condição e a causa dos “pequeninos”. É significativo que, em contraste com os poderosos, inclusive os poderosos da religião, são as crianças que, no templo, reconhecem o Enviado de Deus. E Jesus afirma que assim se cumpre a profecia (cf. Mt 21, 15-16; Sl 8, 2).

Na alegoria do Grande Julgamento, Jesus chega a identificar-se com os pequeninos. Nossa obediência e serviço a Deus chegam a seu ponto decisivo no serviço aos pequeninos, conforme se mostra em Mt 25, 31-46. O Filho de Deus se identifica com eles: o apelo e as necessidades dos pequeninos são apelo do próprio Filho, ir ao encontro de pessoas famintas, sedentas, migrantes, nuas, enfermas, prisioneiras… é responder a Deus. Temos aqui algo que atinge as raízes de nossa fé: a relação com Deus se dá na relação com pequeninos e necessitados de nosso serviço de amor. São o critério para sermos julgados(as). Em Mc 9, 37, receber a criança é receber Jesus e n’Ele o próprio Deus. Ser obstáculo (escândalo, tropeço) aos pequeninos é o pior que nos pode acontecer (cf. Mc 9, 44-50).

5. A criança, pequenino de Deus

dom sebastião e o lava pés das crianças (77)Na Bíblia, o que chama atenção na criança não é sua inocência ou pureza, mas o fato de ser particularmente frágil e necessitada. Termos gregos para designar “criança” são expressivos neste sentido. Por exemplo, “páis” tanto significa criança como servo, escravo, inferior. A raiz da palavra indica “pouco”, “pouco valor”, “pobre”. “Népios” tanto significa “infante”, “menor”, como pode significar “inexperiente”, “simples”, “ignorante”, “tolo”, “estulto”, em suma, desprezível.

Um dos fatos significativos do ministério do profeta Elias é a restauração da vida do filho da viúva de Sarepta, um dos episódios mais emocionantes da Bíblia. Salvar a criança, restituí-la a sua mãe viúva, era o sinal da mão poderosa de Deus sobre a vida dos pobres. – o profeta naquele momento se achava amargando o exílio por força da hostilidade do rei e da rainha de Israel e, em seu abandono, encontrava abrigo justamente junto dos mais pobres (cf. 1Rs 17, 17ss).

Abraão crê firmemente e em sua devoção religiosa incondicional chega ao ponto de estar disposto a sacrificar o próprio filho único. Mas Deus intervém pela vida do menino. No contexto religioso das práticas de Canaã, onde não era problema ético sacrificar crianças aos deuses, antes era ato de elevada devoção, Deus se interpõe em defesa da vida da criança e estabelece o sacrifício substitutivo de animais (cf. Gn 22). O sacrifício de crianças fica sendo considerado abominação (cf. Lv 18, 21; 20, 2; Is 57, 5).

A criança é dádiva de Deus (cf. Gn 1, 28; Dt 28, 4-11; Is 54, 1; Sl 128, 3). Não ter filhos era vergonhoso (cf. Gn 30, 1-2; 1Sm 1, 11) e sentido como ausência de bênção divina (cf, Gn 33, 5). Daí, a esterilidade ser motivo de grande angústia para as mulheres (cf. Gn 16). É dramática a situação de Ana,futura mãe de Samuel (cf. 1Sm 1-2). Na verdade, a criança encarna o futuro do povo.

Exterminar crianças é negar ao povo toda perspectiva de porvir, ferir a árvore em sua semente, fechar-lhe o horizonte de vida. Por isso, conquistadores, com freqüência, massacravam crianças (cf. Ex 1; Is 13, 16.18; Jr 9, 20; 31, 15; 51, 22; Os 14, 1; Na 3, 10; Sl 137, 8-9; Lm 2, 19-21;M 2, 18).

Doutro lado, é intensa na Bíblia a preocupação com a guia, a educação e a orientação da criança, pois dela depende a continuidade do povo. Basta olhar as recomendações de Deuteronômio (cf. 4, 9; 8, 5; 11, 19; 29, 21; 32, 45) e do livro de Provérbios (cf. 13, 1; 17, 25; 22, 6; 23; 13; 31, 2). Desde a infância é preciso receber instrução a respeito dos benefícios de Deus a Seu povo (cf. Dt 6, 20ss), em outras palavras, conhecer a história e dela se apropriar para preservar suas conquistas.

Finalmente, a criança aparece na Bíblia para manifestar, de maneira particular, o poder de Deus. É pequena, frágil, mas nela está contida a promessa de vida que se renova e se projeta para o futuro. Pode parecer um ser desprezível, e assim era tratada na antiga sociedade patriarcal (cf. Mc 10, 13-16). Mas é nela que se acha presente o futuro da sociedade e do mundo. É da criança que depende o porvir. Por isso, a Bíblia toma a criança como particularmente expressiva do poder de Deus.

É José, mais jovem e perseguido, que se torna fonte de bênção para toda a família, inclusive para seus cruéis irmãos e para o país onde tinha sido prisioneiro (cf. Gn 37ss). É Moisés, criança e perseguido a morte, que está destinado a ser o libertador (cf. Ex 2). Samuel, ainda criança, é chamado a ser o grande profeta para provocar o povo a discernir em momento decisivo de sua história política (cf. 1Sm 1ss). É Davi, ainda criança, o mais pequeno dos filhos de Jessé, que vence o gigante Golias e livra o povo do poder de seus terríveis inimigos filisteus (cf. 1Sm 16ss). A restauração futura prometida está nas mãos de uma criança (cf. Is 9, 5; 11, 1-9), Jeremias é chamado quando ainda é bem jovem, sente-se apenas criança para enfrentar uma sociedade de adultos, mas se lhe promete que será, na verdade, “muralha de ferro e coluna de bronze” (cf. Jr 1). Jesus, criança ameaçada, vence o rei Herodes (cf. Mt 2). Em Apocalipse 12, a criança perseguida pelo dragão é salva e simboliza o povo messiânico e o próprio Messias. É encantador como a Igreja das origens se compraz em meditar sobre a infância do profeta João Batista e de Jesus, vendo nesses episódios a prefiguração do que se vai manifestar com a vida e obra de Jesus (cf, Mt 1-2 e Lc 1-2). Nessas duas crianças se revelava o poder de Deus a rasgar o horizonte da salvação messiânica universal.

6. Convite a todos e todas nós

Em nossa sociedade cresce o número de crianças sem assistência, em perigo, abandonadas, carentes de afeto, de família, muitas vezes de teto, alvo fácil de gente perversa que as desvia dos caminhos do bem, vítimas e, ao mesmo tempo, virtuais delinqüentes. Está em julgamento a qualidade de gente que, de fato, somos: quem somos se não somos capazes de cuidar de nossos próprios filhos e filhas, sim, porque não podemos restringir à paredes de nossas casas a paternidade e maternidade, se temos a convicção de que somos uma única humanidade e, mais ainda, se temos em nós os sentimentos universais e sem fronteiras do coração de Deus.

O famoso antropólogo pernambucano Souto Maior, certa vez, escrevia artigo em jornal acerca de “crianças de rua, crianças de casa – ambas igualmente abandonadas” em nossa sociedade, tanto burguesas quanto pobres, sem lugar, estorvo à vida dos adultos e ao ritmo frenético, quer do trabalho, quer do lazer. Aliás, a qualidade da civilização se ostra escancaradamente quando paramos pra pensar: já não há lugar para crianças e pessoas idosas, ambas a “sobrar”, pois já não se tem tempo para cuidar delas, justamente as duas pontas mais frágeis da corrente humana.

Salvar as crianças sempre foi e é, particularmente hoje, um sinal privilegiado do amor restaurador de Deus. Não foi por acaso que Jesus se ocupou preferencialmente de pobres, enfermos, mulheres e crianças. Justamente as categorias sociais que estavam entre as mais abandonadas e desprezadas de sua sociedade, consideradas inclusive como “impuras”, hoje se diria “marginalizadas”, bem perto de “marginais”.

Se queremos ser ou continuar fiéis à herança bíblica e, particularmente, ao legado de Jesus — se queremos simplesmente humanizar-nos como gente – temos de assumir as preocupações de Deus como nossa própria vocação, chamado que exige resposta urgente e impõe tarefas concretas a nossa responsabilidade. Pois, no caso de Deus, são as dores do povo que O convocam a tomar posição e agir. Ele mesmo se sente chamado a intervir na história mediante Seus enviados(as). E nós somos Seus seguidores(as), enviados(as) em Seu nome para que na história brilhe o carinho divino, gestos de amor, amor que é, para as Escrituras, como de pai e mãe (cf. Ex 3, 7-10; Is 49, 15; Os 11). A mesma pergunta de Deus ao profeta Isaías continua a ecoar aos ouvidos e da resposta depende nossa fidelidade: “Quem irá por nós?” (6, 8). Nossas crianças são bandidos(as) a excluir e “emparedar” em abomináveis cadeias, ou vítimas a redimir e salvar?

About Sebastião Armando (170 Articles)
Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema "Evangelização", convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social ("Casa Ecumênica - Crer & Ser") com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.