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A graça é o próprio Deus entre nós e em nós (Seguir Jesus: Graça e Discipulado – I)

A graça é o próprio Deus entre nós e em nós

(Seguir Jesus: Graça e Discipulado – I)

 

Introdução

Para muitas pessoas, a palavra “graça” sugere um conceito abstrato, senão imaginário. Como saber o que seja “graça”? Dizem que é “o dom” de Deus, mas o que é mesmo o dom de Deus? Em que se concretiza como experiência em nossa vida humana do dia a dia? Afinal, na relação entre Deus e nós, tudo se passa em clima de invisível e misterioso. O que é o dom de Deus, que nos faz semelhantes a Ele? Como vamos saber se estamos em graça? Como é que Deus mostra que nos aceita?

Para outras, “graça” lembra imediatamente a expressão “estado de graça”. Pensar-se sem pecado, em condição de completa amizade com Deus. Mas quem teria a coragem de se dizer sem pecado, em situação de total pureza e “justiça” diante de Deus?

Há muita gente que usa o termo “graça” para falar de “graças” particulares, bênçãos que julgamos, Deus derrama sobre nós, benefícios divinos, cura de enfermidade, particular proteção e livramento, saúde, bens materiais que alcançamos… Há muitos automóveis a circular pela cidade com o reconhecimento de  “Presente de Deus”, ou “Foi Deus quem me deu”, ou ainda “Propriedade de Jesus”… O que queremos dizer, realmente, quando falamos da “graça de Deus”?

O termo “graça”, por si mesmo já é significativo. “Cháris” – graça, em grego – é dom, daí é que vem a palavra “carisma”, dom oferecido por Deus às pessoas, capacidades, qualidades, etc. Grátis, de graça, gratuito, gratuidade, gratidão… são todas palavras da mesma família. Sugerem “dom imerecido”, algo que se dá ou se recebe, sem que se exija merecimento ou preço a pagar. Quando dizemos que Deus nos ama e nos acolhe por Sua graça, queremos indicar que não há condição prévia nem exigência de retribuição. Não é porque somos amáveis que Ele nos ama, ao contrário, é justamente porque nos ama que nos tornamos amáveis. Antes de qualquer movimento ou gesto nosso, “Ele nos ama primeiro” (1Jo 4, 19), “quando ainda éramos inimigos”.

Por isso, segundo os critérios mundanos de reciprocidade, a Igreja é um espaço “escandaloso”, pois aí se reúnem pessoas pecadoras, que se sabem sem méritos nem condições prévias de “pagar”, em nada melhores do que ninguém. Não se sentem merecedoras por própria bondade, mas chamadas a proclamar uma experiência inaudita, a saber, que Deus ama quem é pecador(a) e se aproxima para salvar da infelicidade e da morte (cf. 1Pd 2, 9-10). Seu título de glória não a própria “justiça”, mas a certeza de ter sido alcançado pela “graça” misericordiosa de Deus. Por isso, não têm motivos de orgulho ou vanglória (cf. 1Cor 1, 30-31). Não podem nutrir sentimentos de superioridade em relação a ninguém, seja quem for, pois a vida cristã ou a Igreja não é o ”lugar” privilegiado da posse de Deus ou de Sua ação exclusiva. Nosso testemunho não pode ser apontar o indicador para dentro, mas para fora: “Se Deus nos alcançou até a nós, quanto mais a vocês que, quem sabe, podem estar até mais próximos(as) d’Ele do que imaginam e do que nós estávamos”… É que por Sua graça, veículo misterioso pelo qual viaja Sua presença, está poderosamente agindo, misteriosamente, de muitas maneiras, através de Seu Espírito, no mundo inteiro (cf. Gn 1, 2: Sl 104, 30; Sb 1, 78; At 10, 34s; 17, 23-20). Será útil, para aprofundar a reflexão, consultar Rm 3, 10-31; 5, 6-11.15; 1Jo 4, 10-19.

 

  1. A Graça é o próprio Deus entre nós e em nós, fonte da vida: “Se é por graça, não é pelas obras” (Rm 11, 6) – nem merecimento nem preço

 

Deus é invisível e é mistério absoluto. Podemos chegar a experimentar Sua presença (cf. Gn 15, 1; 26, 24; Is 41, 10), mas não sabemos como é em Si mesmo. Quando Moisés pergunta por Seu Nome, isto é, desejando saber de Sua identidade, quem seja realmente, Ele apenas lhe sugere: “Eu sou o que Sou”, ou “Eu Sou” ou “O que é” (cf. Ex 3, 14). Em outras palavras: “Eu estou aí presente”, “Eu sou contigo”, “Você me reconhecerá em sua própria experiência” (em hebraico “ser” e “estar” é o mesmo verbo). A mais não se pode avançar. O próprio Jesus só sabe falar de Deus por imagens e comparações: “É semelhante…” ao pai que acolhe o filho (cf. Lc 15, 11-32), a um rei que oferece um banquete aos que se acham nas encruzilhadas dos caminhos (cf. Mt 22, 1-14), ao patrão que recompensa trabalhadores da última hora como se fossem da primeira (cf. cf. Mt 20, 1-16), a um pastor que busca a ovelha desgarrada (cf. Lc 15, 4-7), a uma mulher que procura moeda perdida (cf. cf. Lc 15, 5-10), à mãe que gratuitamente amamenta seu bebê (cf. Mt 23, 37-39; Os 11, 4; Sl 131).

Da impossibilidade de saber quem é realmente Deus, surge um perigo. Podemos facilmente construir uma imagem abstrata, como se tratasse de vaga força benfazeja que mantém o universo. Ou presença íntima consoladora para compensar as agruras da vida. Ou, quem sabe, uma imagem quase materialista da presença de Deus junto de nós: algo de bom, algum benefício especial, sentimento de proteção de perigos, uma “bênção” especial (casa, dinheiro, emprego, automóvel, viagens…), a cura de enfermidade, uma boa inspiração… Sem dúvida, por tudo o que de bom nos acontece, quer na dimensão espiritual, quer na vida material, por tudo devemos dar graças ao enxergar sinais do amor divino. Pois “todo dom e toda dádiva vêm do alto, descem do Pai das luzes” (Tg 1, 17). Não esqueçamos, porém, “que Deus coopera em tudo para o bem de quem ama” (Rm 8, 28), de modo que “nem a morte, nem a vida, (…) nem o presente, nem o futuro, (…) nem qualquer outra criatura nos poderá separar do amor de Deus” (Rm 8, 38-39). O Apóstolo não nos deixa esquecer: não só o que julgamos espontaneamente positivo, mas também a tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, os perigos, a espada, tudo isso deve levar-nos a unir-nos ainda mais a Cristo (cf. Rm 8, 35-37); 1Pd 3, 13-17).

É que a graça, antes de serem as “coisas boas” que Deus nos dá (cf. Mt 7, 9-11), as “bênçãos” particulares, o que Deus, mediante as circunstâncias da vida, opera em nosso favor e para nosso bem, a graça, antes de tudo, é Deus mesmo que se aproxima de nós (cf. Lc 11, 11-13), gratuitamente, por Sua pura iniciativa, como pai ou mãe, fonte da vida, que vem em busca de encontrar-nos, como a fonte busca o rio, incessantemente. É Jesus em quem o Filho de Deus se encarna e, assim, se revela Deus entre nós, Deus conosco (cf. Is 7, 14), nosso irmão. “A graça de Deus se manifestou para a salvação de todos os seres humanos (…) manifestação da glória de nosso grande Deus e Salvador, Cristo Jesus” (Ti 2, 11-13), “a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1, 17). É ainda “o amor de Deus derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5, 5), ou seja, é Deus mesmo que se revela como Deus em nós, íntimo de nós (cf. Rm 8, 26-27), “mais íntimo que nosso próprio íntimo”, como disse tão belamente Santo Agostinho. A graça, antes de tudo é a presença da Santíssima Trindade que em nós “inabita” e nos arrasta a participar, mediante a fé (firmeza, confiança, fidelidade), pela esperança (perseverança inabalável) e pelo amor, a própria comunhão que eternamente se dá entre as pessoas divinas. É isto de que nos fala o Evangelho segundo São João: “Compreendereis que estou em meu Pai e vós estais em Mim e Eu em vós” (Jo 14, 20).

Vale a pena aprofundar este aspecto de nossa participação na comunhão trinitária de Deus com a leitura do Evangelho de São João, capítulos 14 e 15, e mais 16, 5-15, e capítulo 17. Trata-se de aspecto fundamental da espiritualidade cristã e enfaticamente salientado na Comunhão Anglicana: a comunhão entre nós é fruto e expressão da comunhão que caracteriza a Trindade. Por isso, é tão central na vida anglicana a experiência de comunidade, que se deve refletir nas relações interpessoais de amor fraterno e nas próprias instituições da Igreja, nas quais, de diferentes maneiras, todos os membros devem participar; além de transbordar no serviço dedicado à sociedade para que o mundo seja transformado pela corrente do amor de Deus por meio de nós. Infelizmente, nossa fragilidade não é capaz de suportar ideal tão alto e transcendente, e não é raro rastejar em atitudes e comportamentos bem humanos, “alienados(as)” dos critérios de Deus: falsidade, autoritarismo, imposição, corrupção, espiritualismo…

 

  1. Perceber melhor o direito pelo avesso: “Todos(as) pecaram e todos(as) estão privados(as) da glória de Deus” (Rm 3, 23)

 

Quem sabe, é mais fácil perceber o lado direito dum tecido quando se o compara com o avesso. Graça é o contrário de desgraça. Desgraça nos lembra tudo o que é maldade e negativo. Assim, podemos sentir melhor o que é “estar em graça”, a felicidade que nos vem de experimentar, intimamente, a companhia de Deus, seja qual for a situação. O contrário é um mundo “sem graça”. É interessante que usemos essa expressão para falar de situações ou pessoas sem alegria ou desagradáveis. Imaginemos o que pode ser uma festa sem graça… Desgraça, ausência da companhia de Deus, o mundo “sem graça” é o que a Bíblia chama de “pecado”.

Nossa cultura ocidental tem duas fontes principais: a cultura greco-romana e a Bíblia que nos vem do Judaísmo. Para a cultura helenista que os gregos espalharam por seu império e os romanos herdaram, não existia a noção de “pecado”. Na verdade, a cultura grega é radicalmente racionalista, pensava-se que a vida fosse dirigida pela razão. Assim, o comportamento moral negativo não se atribuía a um ato de vontade que decide praticar o mal, mesmo conhecendo o bem. Falava-se, não de “pecado”, mas apenas de “erro”. Considerava-se que a pessoa agia de modo negativo porque ainda não conhecia a verdade. Era como sapateiro que ainda não sabe fazer sapatos. Praticar as virtudes era aprender uma “técnica”, assim falavam de “techné”, algo como habilidade “profissional” no campo da prática moral. Bastaria ensinar e aprender para, em decorrência, praticar o bem. A prática negativa viria de falta de conhecimento. A razão é a luz que ilumina a vida e leva à felicidade. Essa mentalidade racionalista está bem enraizada em nossa cultura ocidental e teve sua expressão mais forte a partir do movimento chamado de Iluminismo, no século XVIII, o “Século das Luzes“. Acreditava-se que a luz da razão, finalmente, iluminaria os caminhos da humanidade e conduziria necessariamente à felicidade e ao bem-estar. Era preciso abandonar o “obscurantismo” antiquado da religião e mesmo da fé, e deixar-se guiar apenas pela razão.

A tecnologia, aliás, tão supervalorizada hoje, também é expressão característica dessa mesma mentalidade e ideologia. Já nem nos perguntamos a respeito dos objetivos do que inventamos e produzimos, se é realmente necessário, se é pelo menos útil, se é, de fato saudável, para que serve em prol da felicidade e da qualidade de vida. A grande preocupação é aperfeiçoar as técnicas para produzir, sempre mais e melhor, instrumentos cada vez mais sofisticados, racionalmente apreciáveis, aliás, “racionalmente” cada vez mais equivale a “tecnicamente”. Já não nos interrogamos sobre os “fins”, somos a civilização dos “meios” ou dos instrumentos, sem nos perguntarmos para que servem, à vida ou à morte, à liberdade ou à alienação? De fato, a nossa cultura racionalista importam mais os “conceitos” das coisas do que as próprias “coisas”, muito mais o que pensamos (ciência) e elaboramos a partir do pensar (técnica), do que aquilo que existe na realidade. Chegamos ao ponto de não nos perguntar mais se nossos inventos servem à vida ou à morte. Pilotos de guerra festejam com entusiasmo a precisão milimétrica dos bombardeios sem se importar com a destruição e as vidas perdidas lá embaixo… suas perguntas, aliás, seriam absolutamente inúteis. Na verdade, porém, o mundo dirigido unicamente pela luz da razão parece não nos estar guiando à felicidade, quando muito só ao conforto e ao tédio de 1% da humanidade. O que temos tido são colonialismo, escravidão, extermínio de gentes e de culturas, as duas guerras mundiais, armamentos atômicos e cada vez mais sofisticados, inúmeras e permanentes guerras regionais (“violência de baixa intensidade”!), o chamado “desenvolvimento” de alguns poucos países às custas da miséria da maioria dos povos, a opressão de classe, as terríveis desgraças que se abatem sobre nossas cidades inchadas e expulsivas… Em suma, um mundo marcado pelo estigma da desgraça, da exploração e opressão, “sem graça” para a maior parte da humanidade.

Donde vem essa fé inabalável na luz da razão, que leva a fazer do conhecimento a via da salvação? É que a cultura grega julgava que o mundo, mesmo limitado e contingente, já é “harmonia”. É por isso que lhe chama de “cosmos”, palavra que quer dizer harmonia, beleza, bondade (“mundus”, em latim, tem o mesmo sentido: limpo, bonito, o contrário é “imundo”). É daí que deriva o termo “cosmético”, que faz ficar bonito(a). Pelo conhecimento do “macrocosmos”, a grande harmonia, o ser humano aprende a imitar, assimilar a ordem do universo e se torna um “microcosmos”, pequena harmonia, que se manifesta nas relações, sobretudo nas relações da vida moral – a filosofia estoica, por exemplo, vai nessa direção. Quanto mais instruídos pela “contemplação” da harmonia do mundo, melhores se tornam os seres humanos. Que ilusão!

A Bíblia pensa de outra maneira. O mundo, decerto, é basicamente bom, foi criado por Deus. “Deus olhou e exclamou: ‘Que bonito! (bom!)’ (cf. Gn 1: na língua hebraica, o termo para dizer bonito e bom é exatamente o mesmo; “tov”). Mas está ferido pelo pecado, pela “alienação” (Gn 3). Para além do conhecimento, da ciência, interfere a vontade que pode ser arrastada a praticar o mal, mesmo sabendo o que é o bem. É o que nos diz, de maneira dramática, o Apóstolo São Paulo na Carta aos Romanos, capítulo 7º. Toda a corrente profética insiste em denunciar o pecado como ato de decisão da vontade humana, o que resulta em organizar uma sociedade fundada na injustiça e na violência. Por isso, não basta conhecer a dimensão ‘cósmica’ do universo, pois a “harmonia”, a beleza é limitada e ferida. Há o jogo constante do bem e do mal, da luz e da treva (cf. Jo 3, 19-21), do trigo e do joio (cf. Mt 13, 24-30). Não basta conhecer, é preciso agir, “trabalhar”, como o Criador (cf. Gn 1-2; Dt 5, 12-15), o qual continua a “trabalhar” até agora (cf. Jo 5; 2Cor 5, 16-21) em vista de recriar o mundo. Segundo a corrente profética, isto se faz mediante a luta coletiva pela justiça e a paz, desde a Economia até os valores culturais. Jesus vai inserir-se nessa corrente e assume Ele mesmo “realizar as obras de Deus”, através de gestos de restauração da vida das pessoas (cf. Jo 9, 3-6).

O caminho da salvação não é o conhecimento, esse foi o grande erro do Gnosticismo, pensamento condenado pela Igreja no século II d.C. O conhecimento é só um aspecto e nem é o mais importante. O aspecto decisivo é a prática das “obras da luz” (cf. Jo 3, 19-21), pois são obras feitas em Deus e, por isso, capazes de redimir o mundo. Vale a pena aprofundar este aspecto com a leitura atenta da primeira Carta de São João: Não basta conhecer a verdade, é preciso “fazer” a verdade (cf. 1Jo 3, 18-19). A Verdade é um Caminho prático de vida (cf. Jo 14, 6).

Não devemos, porém, considerar “pecado” apenas atos cometidos por cada pessoa. A Bíblia elabora um conceito bem mais amplo e complexo. Para além de hábitos, atitudes e atos pessoais deliberados, o pecado é também algo como ambiente e atmosfera difusa, como onda avassaladora que está a invadir o mundo – “o mundo das trevas” – e no qual entramos ao nascer. Somos contagiados e condicionados pelo pecado, como dizia o grande filósofo francês que, na última etapa da vida, se dizia marxista-cristão-muçulmano, Roger Garaudy, “o ser humano nasce velho”, a carregar a herança negativa de inúmeras gerações. É por isso que a Igreja elaborou a ideia de “pecado original”. “Original” quer dizer que está em nossa “raiz”, já vem conosco em nossa própria origem, faz parte de nossa solidariedade com o “mundo decaído” (cf. Sl 51, 7). Ao nascer, já carregamos a herança de um mundo pecador e por ele já somos contagiados(as). Nossa “carne” nos inclina e até empurra para o lado das trevas, pois “carne” na Bíblia não é simplesmente o corpo, mas quer dizer condição de fragilidade, de incompletude, de submissão às injunções dos processos de construção histórica e social, pecaminosidade, enfermidade e morte. Por experimentar essa dimensão de “não poder”, tememos, nos sentimos em insegurança e, assim, na ilusão de superar nossa condição de inferioridade, em termos bíblicos “carnalidade”, projetamos nossos medos em mecanismos de egocentrismo, narcisismo, sentimento de superioridade, de “autodivinização” que é a idolatria. E a idolatria se manifesta na injustiça e em toda maldade (cf. Gl 5, 19-21; Livro da Sabedoria, capítulo 13 e seguintes, e muitas passagens dos livros proféticos). Podemos aprofundar este aspecto na Carta aos Romanos, do cap. 1, 18 ao capítulo 3º.

 

  1. O caminho sem saída: “Da Lei vem o conhecimento do pecado” (Rm 3, 20)

 

Ao perceber-se “carne”, isto é, frágil e pecador e destinado à morte, o ser humano busca salvar-se, achar um jeito de superar essa condição de limite, de infelicidade e de morte. Um dos caminhos possíveis é o da inaceitação de si mesmo, da negação do limite, da falsa consciência que mascara a própria identidade “alienada”, e o faz mediante a autoafirmação. É que, ao experimentar que também é poder, não suporta assumir a dimensão de “não poder” que lhe é também constitutiva. Daí, nasce o sentimento de que a vida é conquista merecida, algo que se adquire pelo esforça das próprias obras. Neste caso, a pessoa está centrada em si mesma e o mundo todo não passa de cenário e instrumento para favorecê-la, quer material, quer espiritualmente. Há gente que até se esforça por ser boa, faz muita “caridade” e bem a outrem, mas sempre com o objetivo, por exemplo, de “ter satisfação” ou se purificar de culpas ou de conquistar a benevolência dos céus (e das outras pessoas) e, finalmente, a própria salvação, na prática, um sentimento narcisista de si mesma. Não chega, porém, a compreender a vida como corrente de dons, todas as pessoas chamadas a se doarem umas às outras, de tal forma que se forme um imenso “corpo” (cf. 1Cor 12), cujo funcionamento orgânico depende de que todos os membros ofereçam de si e se disponham a receber de outrem, indo sempre mais além do eu para reencontrar-se no “nós” da experiência exaltante de comunidade.

O caminho de autossuficiência das obras gera necessariamente sentimentos de superioridade, de sentir-se melhor que outrem. Ora, sentimento de superioridade nada mais é que máscara do sentimento de inferioridade, e se traduz em práticas de competição e disputa, com a consequente exclusão das demais pessoas. É, no melhor dos casos, retidão sem alegria, busca de honestidade e justiça sem amor ou misericórdia. Ao ter medo de perder-se, a pessoa se fecha em si mesma, se agarra a si e aos próprios caprichos, se adora e tenta impor-se à adoração de seus semelhantes. É isto de que fala Jesus, ao dizer que quem se agarra a si, na verdade, se perde, pois rompe os laços autênticos com a realidade e, particularmente, com as pessoas, se empobrece e definha humanamente, em termos bíblicos, “morre” (cf. Mc 8, 34-37). É o círculo do narcisismo que a Bíblia caracteriza como sendo o da idolatria, erigir-se a si mesmo(a) e as próprias “obras de mãos humanas” em lugar do Deus vivo (cf. Sl 115). No livro deuterocanônico da Sabedoria, encontramos uma das análises mais profundas das origens, das formas e das consequências da idolatria (cf. a partir do capítulo 13), De acordo com Rm 1 a 3, o resultado do “caminho das obras” só pode ser o desespero de quem desiste da prática por perceber que “ninguém é bom, senão só Deus” (Mc 10 18), e isto se manifesta no desânimo em praticar o bem, ou no cinismo ou na hipocrisia: quando se sabe da própria impotência e maldade e, mesmo assim, busca-se apresentar ou parecer outra coisa, é a máscara; ou no orgulho, pelo qual, como se dizia, nos julgamos melhores e superiores às outras pessoas. 

 

  1. A via da salvação é aceitar-se com os próprios limites: “Peca abundantemente e crê ainda mais abundantemente” (Martilho Lutero)

 

A via da salvação é aceitar-se profundamente com os próprios limites, sinal de nossa face de “não poder”. Com essa consciência autêntica de si mesmo(a), é preciso confiar na vida e sem medo abrir-se a responder aos chamados (“vocação”) que a Realidade vai fazendo a cada qual de nós ao longo da existência. Só assim nos deixamos ajudar, ao acolher, com gratidão, o que nos é dado pelo mundo e sobretudo pelas outras pessoas. Jesus nos diz que “o fardo (da vida) é suave e seu peso leve” (Mt 11, 28-30).

Há íntima relação entre graça e alegria. “Achar graça”, tanto significa contar com o favor ou o beneplácito de alguém, como ter alegria a ponto de soltar uma boa risada. “Grato”, tanto quer dizer agradecido, quanto agradável, algo que nos compraz e alegra. A vida cristã, enquanto vida humana de qualidade (São João fala de “vida eterna”), tem três dimensões que se complementam reciprocamente: é “agapé”, a saber, amor que se traduz em prática concreta  de compromisso de doação e sacrifício e serviço para que outras pessoas “tenham vida e vida em plenitude” (Jo 10, 10); é também “filía”, isto é, amizade, laço interpessoal de reciprocidade em querer bem; finalmente, é ainda “éros”, prazer de viver, alegria e gozo que envolvem nosso corpo inteiro.

Quando Lutero recomenda: “Peca abundantemente” não está sugerindo que pequemos sempre mais. O que deseja insinuar é que devemos aceitar profundamente nossa condição humana de imperfeição e pecado. Não é solução querer fugir pelos atalhos da inautenticidade, que são justamente os do orgulho, da hipocrisia e do desespero ou do cinismo que, aliás, não passa de uma forma de desespero. Angustiar-se com o próprio sentimento de impotência só leva ao desespero e à morte. É preciso aceitar-se radicalmente, desde as próprias raízes, só assim se acha felicidade; ser um “pecador feliz” só é possível mediante a profunda aceitação da própria fragilidade e carência. “Crê ainda mais abundantemente” é confiar na vida, despregar-se de si e, com tranquilidade, aceitar que a vida – as pessoas e o mundo – nos salve. Nós nos tornamos melhores na medida em que somos humildes, isto é, reconhecemos nossa condição de “húmus”, de barro, de fragilidade. É assim que nos dispomos a acolher os dons que nos chegam da vida, ou seja, de Deus, sua fonte última. Crer é abrir-se confiantemente, sem medo, a aceitar receber. Generosidade não é só dispor-se a dar, é também abrir-se a receber, pois é mais uma maneira de desapegar-se de si, confessar-se incompleto(a), “simultaneamente justo e pecador”, dizia Lutero. Foi o que Jesus ensinou a Simão Pedro na Ceia derradeira (cf. Jo 13, 6-8).

 

  1. Aceitar receber para ser: “Que possuis que não tenhas recebido?” (1Cor 4, 7)

Abrir-se à graça é aceitar humildemente receber para assim ser mais e melhor. Diz-nos Philip Yansey que “a graça deve ser buscada no universo”. É que a estrutura profunda da realidade é o processo do Dom. A vida se dá a nós, somos criados(as), não nos damos a nós mesmos(as), não nos fizemos por nós próprios(as). É a vida que se dá a nós e nos aceita como somos, com todos os limites.

A realidade é coletiva, desde o nível mais elementar. Já o experimentamos desde o nascimento, e as pessoas se constituem como tais mediante a relação com outras pessoas. Sabemos que nossa identidade só se forma no seio de relações. Isto quer dizer que somos na medida em que nos relacionamos com o que “não somos”, com o que está fora de nós e nos vem de fora. É assim que nossa humanidade é salva e se desenvolve. Baste-nos olhar com atenção o que acontece com a criança: a consciência do “eu” vai surgindo a partir das relações com as pessoas e as coisas em redor, a começar da mãe, e com o ambiente que a cerca. De fato, o mundo, as coisas e as pessoas não se acham totalmente fora de nós, pois passam também por dentro de nós, nos habitam e nos constituem. Em altíssima medida, a pessoa que somos se constitui na medida em que o mundo e as outras pessoas “acontecem” em nós.

A comunidade, a comunhão, o amor são a expressão e o meio (no sentido de ambiente e de instrumento) da graça. As outras pessoas e a ampla realidade do universo nos fazem ser e nos tornam mais e melhores e, assim, conferem sentido a nossas vidas. Chegamos, inclusive, a atuar e influenciar para além e apesar de nós, por exemplo, fazemos o bem que nem intencionamos e de que, por nós mesmos(as) nem somos capazes. Estamos como que numa corrente que nos precede, passa por nós e vai além de nós e nos ultrapassa infinitamente. “É evidente que o sentido da vida são as outras pessoas”, dizia o poeta Ferreira Gullar. Por isso, se diz que a graça é “sobrenatural”. Na verdade, tornamo-nos o que nunca seríamos capazes de ser unicamente por nós mesmos(as). Há um dinamismo profundo na vida que nos arrasta e que é infinitamente além de cada qual de nós e de todos(as) em conjunto. Por isso, a dimensão sobrenatural não está fora de nós, mas se dá em nós, no “ambiente” de nossas relações. Não pode ser imaginada como se fosse um “chapéu” (“sobre”) que se sobrepõe e acrescenta. Santo Agostinho o formulou de maneira genial: “Mais alto que o mais alto de mim, mais íntimo que meu próprio íntimo”. Sim, o “sobrenatural” é “intranatural” ou “dentronatural”. Já fomos criados(as) para ser imagem de Deus e filhos e filhas. Nossa vocação divina, esse dom inefável e imerecido, já está impressa em nossa “natureza de fato”, por livre decisão divina, pois ultrapassa infinitamente nossa simples condição de criaturas. Por misterioso beneplácito da paternidade de Deus, fomos feitos(as) para participar da vida divina, que é plena e eterna comunhão de pessoas. Por isso, só nos completamos em Deus, é este o processo da graça.

About Sebastião Armando (176 Articles)
<p>Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber<br /> to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema “Evangelização”, convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social (“Casa Ecumênica – Crer & Ser”) com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.</p>

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