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A Dom Pedro, às vésperas da Páscoa.

(Quase-poema para Dom Pedro Casaldáliga, irmão e pai, de fé ecumênica, herói, confessor da fé, nas terras significativamente vermelhas das margens do Araguaia)

 casaldaliga

Pedro,
terra firme em margens
que
se movem,
serena placidez
de pedra
bem assentada, rochedo
inexpugnável
incrustado
nas areias
das beiras
do Araguaia
sacramento
mais que sinal,
símbolo vivo
da Presença real
da Rocha, fortaleza, baluarte, refúgio, alto retiro, cidadela, abrigo, esconderijo… (Sl 18; 31; 71)
rochedo
nabalável, para suportar
o peso de pés e passos
inumeráveis
de multidão em movimento: aborígenes, quilombolas, posseiros, pequenos lavradores,
gente
sem terra, desesperada,
descrentes
crentes sem lugar…
feitos movediças terras
de enchente,
migrantes de tantas buscas,
peregrino caminhante
pés quase descalços.
Pedro
pedra da Igreja,
epíscopo
de largo olhar,
sucessor na cátedra
de Pedro,
colega de tarefa
e de cabeça
de Cipriano de Cartago,
fundamento do edifício
da ecclesia, alternativa
comunidade, amplo redil, abrigo aberto, imenso território
d’outro reino, d’outro mundo.
Pedro
pedra
de arremesso,
carismático inquieto, incômodo
tal o amigo de Jesus
tirada da funda  – coragem invencível –
de pequeno Davi
para entontecer por terra
gigante Golias
de tantas ditaduras:
do latifúndio, devastador de terras e de gentes;
dos militares e covardes civis, ameaçador, de tanques e tribunais;
do cruel jogo de poder das cúrias eclesiásticas
despistadas
escondidas
encobertas em batinas
de escarlate coloridas.
Pedro
pedra nas mãos
de criança travessa
a estilhaçar
protetoras vidraças.
Pedro
pedra preciosa,
pérola oculta
em campo distante
comprado por Jesus,
de beleza transbordante, para além
das margens
de toda medida
do dogma e da razão
“herético e erótico”,
sentenciava uma vez
o já defunto cardeal,
irradiante, brilhante
cor de rubi, salpicada
de sangue
da
Paixão
de mártires, confessores e místicos.
Pedro
apaixonado
sereno, arrebatado
indefeso, indomável
violinista
dos concertos de Deus,
“rosto transfigurado”
a encantar, perturbar ateus
como Antônio Callado.
Pedro
pedra
livre, leve
alegria saltitante
chama – impossível deter —
a subir, espalhar-se
na direção do sopro
do Vento
por todos os continentes.
Pedro
qual fogo
que aquece as noites (Lc 22, 55),
chama que se gasta
mais pequeno, frágil, enfermo
agora pobre completamente,
luminoso clarão
alvorada em nós
de Ressurreição.

Dom Sebastião Armando Gameleira Soares, Diocese Anglicana do Recife, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil

São Félix do Araguaia, 2013

About Sebastião Armando (176 Articles)
<p>Nascido em São Miguel dos Campos, Alagoas, de família cristã, terceiro de cinco filhos, Dom Sebastião Armando Gameleira Soares fez seus estudos secundários no Seminário Metropolitano de Maceió e estudos de Filosofia no Seminário de Olinda, Pernambuco. Obteve o bacharelado e o mestrado em Teologia na Universidade Gregoriana, de Roma, com dissertação sobre Santo Anselmo, Arcebispo de Cantuária. Obteve também o mestrado em Ciências Bíblicas, no Instituto Bíblico, de Roma, com dissertações sobre o Livro dos Salmos e o Livro de Isaías, e o mestrado em Filosofia na Universidade Lateranense, de Roma, com dissertação sobre a obra do filósofo brasileiro Henrique de Lima Vaz. Ainda em Roma, fez Especialização em Sociologia, na Universidade dos Estudos Sociais, com trabalho sobre a obra de Gilber<br /> to Freyre. É também bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Olinda.No Nordeste, por vários anos, foi professor do Instituto de Teologia do Recife-ITER, do qual foi também Diretor de Estudos. Foi assessor membro da equipe do Departamento de Pesquisa e Assessoria-DEPA para formação teológica. Foi assessor da CNBB e da CRB do Nordeste II. É membro do Centro de Estudos Bíblicos-CEBI, do qual foi diretor nacional e coordenador do Programa de Formação. Foi ordenado presbítero na Comunhão Anglicana em 1997, já sendo professor e reitor do Seminário Anglicano no Recife. Em 1998 participou da Conferência de Lambeth, encontro mundial do episcopado anglicano, em Cantuária, na Inglaterra, como membro da equipe de assessoria no tema “Evangelização”, convidado pelo Arcebispo de Cantuária, por indicação dos Bispos do Brasil. Foi eleito bispo no ano 2000 para a Diocese Anglicana de Pelotas-RS, e em 2006 eleito para a Diocese Anglicana do Recife (Região Nordeste). Em 2008, voltou a participar da Conferência de Lambeth, dessa vez já como bispo. Tornou-se emérito em dezembro de 2013. É casado há 42 anos com Maria Madalena, também alagoana. assistente social, com quem tem três filhas e um filho. Hoje se dedica particularmente ao Ministério da Palavra (estudos bíblicos e teológicos, em especial Leitura Popular da Bíblia, Anglicanismo, Escolas de Fé e Política, e Espiritualidade) em fronteira ecumênica, e junto com Madalena coordena um projeto social (“Casa Ecumênica – Crer & Ser”) com crianças e suas famílias, no Alto do Moura, em Caruaru-Pernambuco, Brasil.</p>

1 Comment on A Dom Pedro, às vésperas da Páscoa.

  1. Que bela homenagem a esta figura tão querida e especial que é Casadaglia!
    Parabéns pela inspiração, Dom Sebastião!

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